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Mangá erótico infantil sobrevive no Japão e gera polêmica

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As revistas em quadrinhos do Japão, conhecidas como mangás e animes, formam uma enorme parte da indústria cultural do país e são famosas no mundo todo.

Personagens de mangás eróticas apresentam traços característicos como olhos grandes

Personagens de mangás eróticas apresentam traços característicos como olhos grandes

James Fletcher, na BBC

Mas, algumas delas apresentam materiais como crianças e adolescentes em cenários explicitamente sexuais. E a questão que surge é: por que o Japão decidiu não proibir esse tipo de material?

Em uma tarde de domingo em Tóquio, a Sunshine Creation está lotada. Milhares de fãs de mangás, a maioria homens, estão no centro de exibições, analisando as revistas à venda nas várias salas do local.

Cartazes mostram as heroínas: tipicamente desenhadas com olhos grandes, muitas delas com roupas curtas e justas, além de corpos com proporções impossíveis.

“Esta área lida, principalmente, com criações sexuais”, explicou Hide, um dos organizadores do evento.
Paramos em uma mesa, onde as as capas têm duas garotas exibindo os seios. Para meus olhos elas parecem estar no começo da adolescência, ou até um pouco antes. As histórias mostram as garotas em atos sexuais.

Vários outros estandes vendem material parecido. Certamente isso seria considerado polêmico e possivelmente ilegal em países como Grã-Bretanha, Austrália ou Canadá, mas no Japão não parece ser um problema.

“Todos sabem que abuso de crianças não é algo bom. Mas ter aquele tipo de emoção é algo liberado, imaginar algum tipo de situação sexual com uma criança não é proibido”, disse Hide.

A franqueza de Hide é surpreendente. Ele então me apresenta a palavra “Lolicon”, gíria para “complexo de Lolita”, o nome dado a mangás que mostram garotas em cenários sexualmente explícitos.

E isto pode envolver situações como incesto, estupro e outros tabus. Mas Hide afirma que o gosto dele está mais voltado para romances colegiais.

“Gosto de criações sexuais com garotas jovens, Lolicon é apenas um entre meus hobbies”, disse.

Pergunto o que a mulher dele acha deste “hobby”.

“Ela provavelmente não vê problema. Pois ela também adora meninos interagindo sexualmente”, responde Hide.

Este tipo de material é apenas uma minúscula parte da enorme indústria de mangás do Japão, que gera cerca de US$ 3,6 bilhões (mais de R$ 9,7 bilhões) em vendas por ano. Mas atrai muita atenção e polêmica.

Em junho de 2014, o Parlamento do Japão aprovou a proibição da posse de imagens reais de abuso sexual infantil. A produção e distribuição dessas imagens eram ilegais desde 1999, mas o Japão foi o último país membro da OCDE a banir a posse delas imagens.

Naquele momento também ocorreram pedidos para proibir as imagens sexuais “virtuais”, em mangás, animes e games, de personagens que parecem ter menos de 18 anos. Mas, depois de muito debate, o Parlamento do Japão decidiu não proibir essas imagens.

Fãs de mangás afirmam que, enquanto tudo permanecer no mundo da fantasia, não há problema (Foto: BBC)

Fãs de mangás afirmam que, enquanto tudo permanecer no mundo da fantasia, não há problema (Foto: BBC)

A decisão gerou críticas duras de ativistas do setor de proteção de crianças e ONGs, principalmente fora do Japão.

Comportamento

Uma pista para entender esse comportamento está no fato de que Hide estava discutindo alegremente seu “hobby” apenas minutos depois de me conhecer. Apesar dos mangás envolvendo crianças muito jovens atraírem algum tipo de preconceito social, material sexual envolvendo adolescentes parece ser um interesse comum.

Legisladores japoneses estavam aparentemente relutantes em colocar um grande número de fãs de mangás, possivelmente milhões, do lado errado da lei.

Os fãs como Hide afirmam que estão apenas se divertindo com uma fantasia inofensiva. Nenhum modelo ou ator se envolveu na produção, afirma Hide, portanto, para ele, “não há abuso infantil na criação de mangás com assuntos sexuais”.

Limites

Imagens de personagens vendidas em Tóquio

Imagens de personagens vendidas em Tóquio

Mas o limite entre fantasia e realidade é sempre claro?

O bairro de Akihabara, em Tóquio, é o lar espiritual do mundo dos mangás, um lugar onde os luminosos de neon e música pop tocada em alto volume sobrecarregam olhos e ouvidos. Livrarias de vários andares tomam as ruas, vendendo mangás com todos os assuntos possíveis.

Na sessão para adultos, restrita para pessoas com mais de 18 anos, não é difícil encontrar revistas com títulos como “Estupro Junior” ou “Suíte Japonesa Pré-adolescente”.

“As pessoas ficam excitadas sexualmente por algo, então acabam se acostumando. Então elas estão sempre procurando algo novo, e ficam excitadas com mulheres jovens e imaturas”, afirma Tomo, que trabalha no caixa de uma das lojas que vendem mangás para adultos.

E isto é o que preocupa os críticos: há o temor de que, mesmo que ninguém tenha sofrido abuso na criação de mangás explícitos, eles possam normalizar, facilitar ou levar ao aumento do risco de abuso sexual.

Ninguém sabe se isso pode acontecer mesmo, as pesquisas foram inconclusivas. Mas muitos no Japão, principalmente as mulheres, também têm essas preocupações. Elas vêem as imagens como um sintoma de uma sociedade que ignora a pornografia extrema, que frequentemente humilha as mulheres, e a sexualização de jovens.

Grupos pop

Não é preciso procurar muito no Japão para encontrar essa fascinação com a juventude. Grupos de música pop com garotas muito jovens se apresentam para multidões de homens adultos.

E, em cartazes e propagandas voltados para os mangás, as imagens de jovens estudantes de uniforme escolar estão em todos os lugares.

LiLy, uma escritora popular de livros para mulheres jovens, “‘Sex and the City’ ao estilo de Tóquio”, segundo ela, contou um pouco sobre seu tempo de estudante, quando homens se aproximavam dela e das amigas e ofereciam dinheiro para comprar suas meias ou calcinhas.

Para a autora LiLy, este tipo de mangá deveria ser proibido (Foto: Divulgação)

Para a autora LiLy, este tipo de mangá deveria ser proibido (Foto: Divulgação)

“Acho nojento, é muito pervertido”, afirmou. O fascínio com a sexualidade adolescente tem a ver com “o poder que homens querem ter, homens que estão cansados de mulheres fortes e independentes”, diz.

O modelo de família dos pais de LiLy ainda é forte no Japão: o pai que ganha o dinheiro e a mãe que fica em casa, uma dona-de-casa. Mas a fraqueza na economia do país torna esta situação difícil para os homens.

“Há pessoas no setor de negócios que não são bem-sucedidas, talvez eles estejam apelando para a fantasia com os mangás Lolicon. Eu odeio, odeio muito. Quero que o Japão expulse essa perversão, deixe as crianças fora dessa perversão, mesmo que seja apenas fantasia”, afirmou a escritora.

Mas outros são mais céticos em relação à intervenção do governo no assunto, principalmente para determinar o que é “bom” ou “apropriado” no setor das fantasias das pessoas.

“Existem todas as razões para criticar, tudo bem. Mas quando você dá às pessoas a autoridade de policiar as outras, baseado no que eles podem fazer ou pensar, isto é policiamento do pensamento”, afirmou o tradutor de mangás e defensor da liberdade de expressão Dan Kanemitsu.

Quando questionado se era a favor dos direitos dos autores de criarem mangás com crianças e tabus como estupro e incesto, ele permanece firme.

“Não me sinto à vontade com isso, mas não tenho direito de dizer às pessoas como elas devem pensar, o que elas querem dividir. Enquanto elas não desrespeitarem os direitos humanos de outras pessoas, o que há de errado em ter uma vida de fantasia?”

DVDs

Em meio às lojas de Akihabara, a ativista Kazuna Kanajiri, que trabalha com proteção de crianças, me leva para ver algo que, segundo ela, é um problema muito maior do que os desenhos e revistas. Subimos as escadas de uma loja e acabamos em uma sala cheia de DVDs.

Dan Kanemitsu afirma que não se pode dar autoridade para policiar os pensamentos e fantasias alheios

Dan Kanemitsu afirma que não se pode dar autoridade para policiar os pensamentos e fantasias alheios

Kazuna tira um da prateleira e ele mostra imagens reais de uma garota que, segundo ela, tem cinco anos. Ela usa um traje de banho minúsculo e posa em posições sexualmente sugestivas, que imitam a pornografia adulta. Todos os outros DVDs na loja também mostram crianças reais.

Este DVDs são chamados “Junior Idol” e se popularizaram depois que a produção de pornografia infantil foi proibida em 1999. Eles driblam a lei cobrindo os genitais das crianças, mas Kanajiri afirma que a lei ficou mais severa em junho.

“Pessoas que exploram crianças devem ser punidas. É completamente ilegal (…), mas a polícia não enfrentou (o problema).”

O conteúdo de mangás e animes, mostrando menores em situações sexuais, pode ser chocante e chamar a atenção. Kanajiri e outros ativistas afirmam que, por enquanto, eles se concentram em lutas mais importantes para proteger crianças reais.

No entanto, a ativista afirma que ainda não desistiu da questão dos mangás.

“Quero que desapareça. Até 2020, quando as Olimpíadas ocorrerem no Japão, temos que transformar o Japão em um país que as pessoas não chamem de cultura pervertida”, afirmou.

Esta é uma descrição que os fãs de mangá rejeitam. Mas, com a aproximação das Olimpíadas, os olhos do mundo se voltarão para o Japão, pressionando toda a cultura de mangá e anime a fazer parte do que as pessoas vêem como o “Japão legal” e não o “Japão esquisito”.

Poesia de Drummond ajuda a entender assuntos de português

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Professor Nestor Accioly interpretou a poesia “Caso Pluvioso”.
Boa interpretação começa com a leitura do título do texto.

Publicado por G1

1A poesia de Carlos Drummond de Andrade, além de encantar quem a lê, pode servir para a explicação de conceitos de análise sintática, morfológica e interpretação de texto da língua portuguesa. Nesta quarta-feira (11), o professor Nestor Accioly mostrou detalhes do poema “Caso Pluvioso”, na reportagem do Projeto Educação.

Uma boa interpretação de texto começa com a leitura do título. Em “Caso Pluvioso”, já podemos notar a relação com a água. “A leitura do título é fundamental porque, se você entende bem o título, você vai começar a entrar no texto com muito mais cuidado. [O título é formado por] um substantivo e um adjetivo. São chamados de nomes e há uma concordância nominal”, destacou o professor.

Há muito mais nos versos que se seguem. “A chuva me irritava”. Nestor Accioly explica: “Eu tenho um sujeito, ‘chuva’, com um adjunto adnominal, ‘a’. Tenho um verbo transitivo direto, ‘irritar’, e tenho o pronome ‘me’, usado em próclise, que funciona como objeto direto”.

Professor Nestor Accioly ajudou na interpretação (Foto: Reprodução / TV Globo)

Professor Nestor Accioly ajudou na interpretação
(Foto: Reprodução / TV Globo)

O poema continua até uma de suas mais famosas frases: “Até que um dia descobri que maria é que chovia.” “’Até que um dia’ dá um elemento temporal. Em ‘descobri’, veja que o eu lírico está usando a primeira pessoa, então há a função emotiva da linguagem. E descobri o que? Que maria é que chovia. Observe que esse ‘é que’ não tem valor nenhum, a não ser o de embelezar a frase. O verbo ‘chover’ é intransitivo, não precisa de complemento, se basta, é completo. E é impessoal, não possui sujeito. Mas veja o que Drummond diz, ele pessoaliza o verbo: ‘maria é que chovia’. Mas o verbo ‘chover’, como indica fenômeno da natureza, é um verbo impessoal”, disse o professor.

No verso “A chuva era maria”, encontra-se uma estrutura de equivalência. E também é preciso perceber que a palavra ‘maria’ aparece escrita com letra minúscula. “Quando estou estudando poesia, estou estudando uma arte fonética. A poesia é para ser ouvida, como a música também. Mas a poesia, neste caso, está sendo lida. Então, “Maria”, para quem está ouvindo, é um substantivo próprio. Mas, quando eu vou ler, ou seja, partir de uma arte fonética para uma arte visual, vejo que ‘maria’ está com letra minúscula. ‘Maria’ é substantivo próprio, mas é um nome comum. Então, quando ele disse que ‘maria é que chovia’, posso entender que ‘maria’ representa qualquer mulher que machuca a vida do sujeito”, destacou Nestor Accioly.

O professor ainda revelou que essa passagem de Drummond não é machista, que pode ser aplicada aos homens também. Afinal, no poema em que o escritor diz: “E agora, José?”, a palavra “José” se refere à situação dos seres humanos em geral.

Livro sugere pensarmos como Sherlock Holmes para uma vida com mais acertos

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A psiquiatra russa Maria Konnikova, autora de “Perspicácia”, diz que deveríamos tentar ser mais parecidos com o personagem

(Foto: Images.com/Corbis)

(Foto: Images.com/Corbis)

Graziele Oliveira, na Revista Época

“Como vai? Vejo que você esteve no Afeganistão”, diz Sherlock Holmes para o doutor John H. Watson, seu futuro parceiro, logo depois de ser apresentado a ele. O médico fica atônito e pergunta: “Como você sabe disso?”. Holmes sorri. “Não importa”, diz. O trecho de Um estudo em vermelho, uma das histórias mais famosas do detetive londrino criado pelo escritor Arthur Conan Doyle (1859-1930), revela a característica que tornou Holmes um dos personagens mais conhecidos e admirados da história da literatura: sua extraordinária habilidade para desvendar mistérios com base em sua observação aguçada.

Pouco depois, Holmes explica a Watson como “adivinhara” o país de onde ele viera. “Eis um cavalheiro com aparência de médico, mas com ares de militar. Está claro, pois, que se trata de um médico do exército. Acaba de chegar dos trópicos, visto que tem o rosto bronzeado, e esse não é o tom original de sua pele, como se nota pelos pulsos claros. Enfrentou privações e doenças, como demonstra claramente seu rosto macilento (pálido e magro). Teve o braço esquerdo ferido, e agora o mantém em uma posição rígida e pouco natural. Em que lugar dos trópicos um médico do exército poderia ter sofrido tantas agruras e ser ferido no braço? No Afeganistão, evidente.” Para Sherlock Holmes, a explicação era algo elementar. Mas, se qualquer um de nós se visse, na vida real, diante de alguém com as mesmas características de Watson, dificilmente chegaria às mesmas conclusões.

1Também não temos as mesmas habilidades de Holmes para desvendar mistérios e é improvável que sejamos contratados para enfrentar vilões ou desvendar algum crime. Mesmo assim, a psicóloga russa Maria Konnikova, da Universidade Colúmbia, nos Estados Unidos, diz que deveríamos tentar ser mais parecidos com o personagem. Em seu livro Perspicácia (Elsevier, 256 páginas, R$ 59), ela afirma que pensar – e observar – como Holmes é o melhor caminho para uma vida com mais acertos e menos problemas em casa e no trabalho. Fã do detetive, ela diz que a inspiração para o livro veio da infância, quando seu pai lia as histórias de Holmes para ela e o irmão antes de dormirem. “É preciso ter imaginação, criatividade, perspicácia e observação para fazer os mesmos grandes feitos de Holmes e imaginar opções e soluções para os problemas”, disse Maria, em entrevista a ÉPOCA. Inspirada na obra de Conan Doyle, ela descreve no livro dois sistemas distintos de funcionamento do cérebro. O sistema Watson, segundo Maria, é o modo de preguiça mental, espontâneo e intuitivo. O sistema Holmes é mais analítico, dedutivo e ambicioso. Sempre que cometemos deslizes como esquecer onde deixamos as chaves de casa, a culpa é do sistema Watson, que nos coloca num piloto automático em que não nos damos conta de nossos atos. O modelo Holmes, nessa situação, faria a reconstituição de nossos últimos passos e, com uma memória detalhada, evitaria esquecimentos desse tipo na vida cotidiana e no trabalho.

Na maior parte do tempo, é possível e até recomendável adotar o sistema Watson e permitir que o cérebro relaxe. O problema é que não conseguimos agir como Holmes nem mesmo em momentos em que isso seria muito útil. A culpa é de nossa intuição, que nos sugere respostas fáceis e agradáveis para as questões do dia a dia e não nos estimula a analisar todos os fatores envolvidos na solução dos problemas.

Estar estressado, distraído ou mentalmente esgotado é o primeiro passo para fracassar como candidato a detetive. Nesses estados, costumamos aceitar algo como verdadeiro sem nos dar ao trabalho de conferir – como Watson costumava fazer. Nossa capacidade mental é limitada para lidar com tudo de uma vez só – e por isso, diz Maria, o processo de confirmação é um dos primeiros a serem deixados de lado. Usando uma metáfora de Conan Doyle, Maria diz que nosso cérebro é um sótão, inicialmente vazio, que deve ser mobiliado aos poucos, conforme as escolhas de seu dono. “Um tolo o abarrota com todas as quinquilharias que encontra pela frente, a ponto de os conhecimentos que lhe poderiam ser úteis acabarem soterrados”, diz Holmes a Watson.

Não é possível construir ou organizar um sótão inteiro da noite para o dia, mas podemos fazer algumas mudanças. A primeira coisa a ser feita para liberar espaço para o que interessa é refletir sobre os acontecimentos que nos cercam. Em vários momentos das histórias de Holmes, o protagonista dedica algum tempo à reflexão, solitária e silenciosa, sobre a cena do crime e o que poderia ter acontecido ali.

Liberar espaço na memória e tempo para essa reflexão exige que mudemos nossa forma de lidar com as informações. A melhor maneira de fazer isso, se nos inspirarmos em Holmes, é descartar informações irrelevantes. Em Um estudo em vermelho, por exemplo, ele revela um grande desinteresse por astronomia e diz não se importar com o fato de que a Terra gira em torno do Sol. “Que importância tem para mim? Se girássemos em torno da Lua, não faria a mínima diferença para mim ou para o meu trabalho. Farei o possível para esquecê-lo.” Outra dica de Maria para quem quiser se tornar mais parecido com Holmes é duvidar de si mesmo. “Adote uma postura cética com relação a si mesmo e sua própria mente. Examine se algo foi resultado de um comportamento objetivo ou se não passa de uma impressão subjetiva”, diz.

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A imaginação é o passo seguinte do processo de pensamento de um grande detetive. Ela permite que, com base na observação detalhada, encontremos soluções inusitadas para os problemas que enfrentamos. O Nobel de Física Richard Feynman, um dos maiores cientistas da história, expressava com frequência sua indignação com a falta de valorização da imaginação na ciência. “É uma espécie muito interessante de imaginação, diferente daquela do artista”, disse Feynman. Para ele, o grande feito imaginativo da ciência é conceber algo que nunca foi visto, mas que seja tão consistente quanto aquilo que já se conhece e, ao mesmo tempo, diferente de tudo o que já foi pensado. A descrição se aplicaria às soluções propostas por Holmes para os mistérios que desvendava em suas histórias. Feynman é citado por Maria como um exemplo de detetive da vida real, devido a sua grande capacidade de obse rvação e criatividade. Na mesma galeria, Maria inclui a cientista polonesa Marie Curie, que recebeu o Nobel de Física em 1903 e o de Química em 1911, e o médico do século XIX Joseph Bell, que serviu de inspiração para que Conan Doyle criasse seu personagem.

O sucesso de séries de televisão como House, cujo personagem principal é um médico francamente inspirado em Holmes e famoso por seus diagnósticos improváveis, mostra que o poder de investigação dos grandes detetives continua atraindo a atenção do público hoje em dia. Diante do desafio de imitar os grandes cientistas do passado e alguns dos personagens de ficção mais perspicazes de todos os tempos, Maria sugere que não levemos a tarefa muito a sério. Agir como Holmes o tempo todo seria um exagero inútil e até perigoso. Quando não tinha um mistério para desvendar, o detetive costumava ficar nervoso e às vezes recorria até à cocaína. “Deem-me problemas, encham-me de trabalho”, dizia Holmes. “Poderei assim dispensar todo e qualquer estimulante artificial.” Não é, evidentemente, um exemplo saudável para o cotidiano. É até bom que façamos algumas coisas sem atenção, a fim de conservar recursos para algo mais importante, sem comprometer nossa agilidade de pensamento – passar horas a fio analisando todos os fatos ao redor pode ser muito ruim e improdutivo. “Não podemos esperar consultar tudo para cada escolha que fizermos”, afirma Maria. “Tampouco podemos esperar lembrar de tudo a que estivermos expostos.”

O segredo dos detetives, na vida real, está no constante abastecimento do cérebro com informações relevantes para o momento e na capacidade de ignorar todo o resto para concentrar-se em uma tarefa por vez. “Antes de começar algo, pense no que aquilo vai lhe exigir e no que deverá ser feito”, afirma a psicopedagoga Irene Maluf, especialista em neuroaprendizagem. “Se tentarmos fazer uma coisa de cada vez, nos sobrará tempo ao final do dia.” Para conseguirmos fazer isso no dia a dia, é necessário desligar o piloto automático na hora certa, encarar nossas imperfeições com consciência e colocar nosso sótão em ordem, removendo o que é desnecessário e dando mais espaço para os detalhes que nos ajudarão a resolver os problemas. Mais que o poder de observação e a criatividade, o maior talento dos grandes investigadores na ficção e na vida real está em sua capacidade de assumir o comando sobre seu pensamento nos momentos mais cruciais. Como disse Holmes, no conto Detetive moribundo, “é estranho como o cérebro controla o cérebro”.

Sempre leia o original

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Bibliotecas, físicas ou virtuais, são democráticas, aceitam todas as classes sociais e etnias. Aceitam curiosos de todas as idades, sete dias por semana.

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Stephen Kanitz, no Artigos Para Se Pensar

Uma greve geral dos professores alguns anos atrás teve uma consequência interessante.

Reintroduziu, para milhares de estudantes, o valor esquecido das bibliotecas.

Os melhores alunos readquiriram uma competência essencial para o mundo moderno – voltaram a aprender sozinhos, como antigamente.

Muitos descobriram que alguns professores nem fazem tanta falta assim.

Descobriram também que nas bibliotecas estão os livros originais, as obras que seus professores usavam para dar as aulas, os grandes clássicos, os autores que fizeram suas ciências famosas.

Muitos professores se limitam a elaborar resumos malfeitos dos grandes livros.

Quantas vezes você já assistiu a uma aula em que o professor parecia estar lendo o material?

Seria bem mais motivador e eficiente deixar que os próprios alunos lessem os livros. Os professores serviriam para tirar as dúvidas, que fatalmente surgiriam.

Hoje, muitas bibliotecas vivem vazias. Pergunte a seu filho quantos livros ele tomou emprestado da biblioteca neste ano.

Alguns nem saberão onde ela fica. Talvez devêssemos pensar em construir mais bibliotecas antes de contratar mais professores. Ou colocar os nossos livros na internet.

Um professor universitário, ganhando 4.000 reais por mês ao longo de trinta anos (mais os cerca de vinte da aposentadoria), permitiria ao Estado comprar em torno de 130.000 livros, o suficiente para criar 130 bibliotecas.

Seiscentos professores poderiam financiar 5.000 bibliotecas de 10.000 livros cada uma, uma por município do país.

Universidades são, por definição, elitistas, para a alegria dos cursinhos.

Bibliotecas são democráticas, aceitam todas as classes sociais e etnias. Aceitam curiosos de todas as idades, sete dias por semana, doze meses por ano.

Bibliotecas permitem ao aluno depender menos do professor e o ajudam a confiar mais em si.

Nunca esqueço minha primeira visita a uma grande biblioteca, e a sensação de pegar nas mãos um livro escrito pelo próprio Einstein, e logo em seguida o de cálculo de Newton.

Na época, eu queria ser físico nuclear.

Infelizmente, livros nunca entram em greve para alertar sobre o total abandono em que se encontram nem protestam contra a enorme falta de bibliotecas no Brasil.

Visitei no ano passado uma escola secundária de Phillips Exeter, quando meu filho Roberto Kanitz, fez um curso de verão. (Tirou 3 As numa das melhores escolas preparatórias para Harvard do EUA, para a alegria do pai.)

Phillips Exeter fica numa cidade americana de 30.000 habitantes, no desconhecido Estado de New Hampshire.

O Roberto me mostrou com orgulho a biblioteca da escola, de NOVE andares, com mais de 145.000 obras. A Biblioteca Mário de Andrade, da cidade de São Paulo, tem 350.000. A bibliotecária americana ganhava mais do que alguns dos professores, ao contrário do que ocorre no Brasil, o que demonstra o enorme valor que se dá às bibliotecas nos Estados Unidos.

Não quero parecer injusto com os milhares de professores que incentivam os alunos a ler livros e a frequentar bibliotecas.

Nem quero que sejam substituídos, pois são na realidade facilitadores do aprendizado, motivam e estimulam os alunos a estudar, como acontece com a maioria dos professores do primário e do colegial.

Mas estes estão ficando cada vez mais raros, a ponto de se tornarem assunto de filme, como ocorre em Sociedade dos Poetas Mortos, com Robin Williams.

Na próxima aula em que seu professor fizer o resumo de um livro só, ou lhe entregar uma apostila mal escrita, levante-se discretamente e vá direto para a biblioteca.

Pegue um livro original de qualquer área, sente-se numa cadeira confortável e leia, como se fazia 500 anos atrás. Você terá um relato apaixonado, aguçado, com os melhores argumentos possíveis, de um brilhante pensador. Você vai ler alguém que tinha de convencer toda a humanidade a mudar uma forma de pensar.

Um autor destemido e corajoso que estava colocando sua reputação, e muitas vezes seu pescoço, em risco. Alguém que estava escrevendo apaixonadamente para convencer uma pessoa bastante especial:

Você.

dica do Rodrigo Cavalcanti

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