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Brasileiro desafia best-sellers americanos com série sobre orixás

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O publicitário PJ Pereira, autor da trilogia 'Deuses de Dois Mundos'(Reprodução/Facebook)

O publicitário PJ Pereira, autor da trilogia ‘Deuses de Dois Mundos'(Reprodução/Facebook)

PJ Pereira, publicitário carioca que mora há dez anos nos EUA, figura há duas semanas na lista dos livros mais vendidos com uma fantasia baseada na mitologia africana trazida ao Brasil pelos escravos, ainda na colonização

Meire Kusumoto, na Veja

Entre Green, Doerr e Cass, apenas um sobrenome comum no Brasil se destaca na lista dos dez livros de ficção mais vendidos de VEJA desta semana: Pereira. Seu dono, o carioca Paulo Jorge, ou PJ, como é conhecido desde os 20 anos no mercado publicitário, conseguiu derrubar a hegemonia dos estrangeiros no ranking, que não via desde fevereiro um autor brasileiro voltado para adultos – no começo de maio, Paula Pimenta esteve na lista com o título teen Cinderela Pop (Galera Record). PJ Pereira, de 42 anos, segue Chico Buarque, que permaneceu dez semanas no ranking com O Irmão Alemão (Companhia das Letras), entre o final de 2014 e o começo deste ano. Mas, ao contrário do músico, que é uma celebridade por si só e revisitou o próprio passado para contar uma história, o ainda novato PJ foi mais longe. O livro que figura na lista, Deuses de Dois Mundos – O Livro da Morte (Da Boa Prosa, 338 páginas, 44,90 reais), encerra a trilogia que marca a sua estreia na literatura e que, desde 2013, vendeu cerca de 50.000 exemplares. E é um mergulho na mitologia africana, a origem de religiões como o candomblé e a umbanda, que, segundo o IBGE, reúnem apenas 0,3% da população.

 

Formado em administração com especialização em marketing, PJ se tornou um publicitário bastante conhecido (e reconhecido) antes de se aventurar na literatura. Com um Emmy e quatro Grand Prix do Festival de Cannes no currículo, PJ foi um dos fundadores da AgênciaClick, a primeira especializada em marketing na internet do Brasil, da qual vendeu sua participação antes de ir para os Estados Unidos, em 2005, para dirigir a área de criação de uma das principais agências digitais do mundo, a AKPA, e fugir do trauma de um sequestro-relâmpago sofrido em São Paulo. Três anos depois, o publicitário se juntou ao colega Andrew O’Dell para fundar o braço americano do Grupo ABC, de Nizan Guanaes, a Pereira & O’Dell. “Foi graças ao meu trabalho que descobri as culturas africanas”, conta PJ.

Nascido e criado no Rio de Janeiro, cujas praias recebem centenas de oferendas para os orixás na virada do ano, PJ tinha aversão ao universo das tradições africanas. “Eu via como algo do demônio, horrível. Meus amigos e eu sempre dizíamos que no dia 1º de janeiro não se devia ir à praia porque tinha macumba.” O preconceito só começou a ser questionado anos mais tarde, no começo dos anos 2000, quando o publicitário se mudou para São Paulo e descobriu que um de seus colegas de trabalho, Zeno Millet, era filho da Mãe Cleusa e neto da Mãe Menininha do Gantois, um dos terreiros do candomblé mais importantes da Bahia. “O Zeno é uma pessoa que eu respeito muito. Pensei: ‘Se essa pessoa boa está envolvida com esse negócio, ou mentiram para mim a minha vida toda ou ele está mentindo agora’.”

Decidido a descobrir quem dizia a verdade, PJ foi pesquisar as tradições africanas. “Entrei em contato com uma mitologia rica e senti como se tivessem me negado esse conhecimento. Sempre gostei e li muito sobre mitologia grega e romana e, da mitologia africana, que é tão importante na formação da cultura brasileira, eu não conhecia nada”, afirma. Daí veio a ideia de repassar esse conhecimento a outras pessoas que também eram leigas no assunto, com a ajuda de Zeno Millet, que o apresentou a cerca de 50 pessoas ligadas ao candomblé e à bibliografia do sociólogo Reginaldo Prandi, da Universidade de São Paulo (USP), um dos maiores especialistas em cultura africana no Brasil. Foi em uma conversa com o amigo, aliás, que surgiu a ideia de escrever um livro. “Depois de ler um título do Prandi sobre o jogo de búzios, fui atrás do Zeno. Perguntei: ‘Mas e se o jogo não der resposta?’. Ele me disse que sempre dava e eu insisti na pergunta. Ele respondeu: ‘Se não der, é porque alguma coisa muito séria está acontecendo. Vai ter gente apavorada com isso’.”

Em Deuses de Dois Mundos, PJ separa, em duas narrativas paralelas, a África ancestral e o Brasil dos dias atuais. Na África, retrata a preocupação de Orunmilá, o maior adivinho de todos os tempos, que se vê sem respostas ao jogar búzios. Já em São Paulo, um jornalista recebe uma missão dos orixás e se envolve com rituais que não compreende direito. Nos livros, há um pouco de ficção e um pouco de realidade embaladas em linguagem ágil e quase cinematográfica. “Eu conversava com muita gente do candomblé, lia muito a respeito e depois preenchia as lacunas que tinha com a minha imaginação. Eu dizia para eles que não queria saber segredos vetados a não-iniciados, não queria desrespeitar as regras. Se acertei alguma coisa que inventei, foi por acaso. Já me disseram que eu contei segredos que eu não deveria saber, só não sei que segredos são esses.”

Marketing digital – PJ Pereira terminou de escrever Deuses de Dois Mundos dez anos antes de lançar o primeiro livro. Em 2003, a história estava reunida em um único volume de 900 páginas, que o publicitário ofereceu a diversas editoras, sem sucesso. Como resposta, ele ouvia que não havia mercado para uma história como aquela que queria contar. “Em 2013, um dos meus trabalhos publicitários foi indicado ao Emmy e pensei que talvez os editores se interessassem por um escritor que tivesse chegado à final do prêmio”, conta. O Da Boa Prosa, selo da Livros de Safra, aceitou o original, mas o dividiu em dois volumes: Deuses de Dois Mundos – O Livro do Silêncio, lançado naquele mesmo ano, e Deuses de Dois Mundos – O Livro da Traição, que chegou às livrarias em 2014. Como ainda havia história para contar, PJ escreveu mais um volume, lançado em maio deste ano.

Antes de o primeiro livro ser publicado, a editora organizou uma reunião entre o escritor e alguns donos de redes de livrarias. O da Livraria Cultura contou ao escritor que os leitores decidiam o que queriam ler no Facebook, por indicação de amigos. “Fiquei tranquilo, porque conheço essa linguagem, sei operar no mundo das redes sociais. Era a minha primeira experiência como autor, mas não era a primeira vez que eu iria publicar um conteúdo on-line para as pessoas compartilharem”, afirma. Foi o boca-a-boca nas redes sociais que garantiu o espaço de Deuses de Dois Mundos na fila de leitura das pessoas. “Foi nas mídias sociais que o livro se fez. Algumas pessoas até reclamavam que queriam ler o livro, mas não o encontravam nas livrarias.”

Mas, de acordo com ele, a leitura da trilogia não é uma tarefa simples para muitos de seus leitores. Alguns contaram ao autor ter lido quase que em segredo, por causa da temática. “Um leitor chegou a me dizer que não podia entrar no trabalho com a minha obra porque senão seria demitido, outra que a cunhada não admitia esse livro na casa dela, por isso teve que encapar os volumes”, conta. E, entre críticas feitas aos seus livros, encontrou também algumas surpresas. “Grande parte da crítica vem dos evangélicos, mas também há muitos que seguem essa religião e que vêm elogiar a série na minha página no Facebook, dizendo que ela os ajudou a entender melhor as tradições.”

Antes de chegar às livrarias brasileiras, a trilogia já tinha os seus direitos vendidos para a produtora multimídia The Alchemists, o que também pode ter ajudado em sua projeção no mercado editorial. “O dono da produtora, Mauricio Mota, disse que a proposta seria retirada se o livro fosse lançado antes de fecharmos negócio. Aceitei na hora e vendi o pacote de filme, série e graphic novel. Passei os últimos dois anos pensando nessa adaptação, se faríamos um filme ou uma série. Estamos experimentando roteiros ainda, mas é provável que seja um filme. Ainda não pensamos sobre a adaptação para os quadrinhos.”

O único brasileiro – A trilogia também pode ter sido impulsionada pelo boom da literatura fantástica no Brasil e no mundo, que viu nascer fenômenos como Harry Potter, de JK Rowling, Percy Jackson & os Olimpianos, de Rick Riordan, e As Crônicas de Gelo e Fogo, de George R.R. Martin, base da série de sucesso da HBO Game of Thrones. “Metade dos meus leitores lê fantasia, a outra metade lê meus livros por influência religiosa. Essa metade que gosta de fantasia viu o renascimento do gênero nos últimos anos, principalmente depois de Harry Potter, uma série que abriu caminho para tudo o que veio depois. Acho que minha saga foi ajudada de pelo momento atual da literatura fantástica, sim”, confirma PJ.

Ao contrário de Harry Potter e Percy Jackson, que conquistaram principalmente o público infantil e adolescente, Deuses de Dois Mundos tem falado a leitores adultos. Pelas estatísticas fornecidas pelo Facebook, que mostram quem curte a página da série, os leitores são adultos, a maioria entre 25 e 65 anos. “Foi uma surpresa para mim, esperava que eles fossem mais novos. E cerca de 60% dos leitores são do sexo feminino, outra surpresa”, afirma o escritor.

Para PJ, ser o único brasileiro a figurar na lista de mais vendidos é alarmante para a literatura nacional. Antes dele, passaram poucos por ali, como o também carioca Eduardo Spohr, talvez o maior nome da fantasia nacional, ao lado de André Vianco – eles têm respectivamente, mais de 600.000 e 920.000 exemplares vendidos. “A tradução nunca é igual ao original, não tem o mesmo ritmo, é diferente. Eu acho alarmante e triste que tão poucos escritores brasileiros sejam lidos no Brasil. Não estou saindo em defesa dos meus pares aqui, mas a linguagem morre se o Brasil não lê livros escritos em português”, diz. “A indústria do entretenimento é uma das mais medrosas que existem. Quem trabalha com literatura tem uma missão, que é desenvolver a literatura nacional, trazer discussões interessantes. Muitos livreiros também dão mais destaque para os livros estrangeiros. O leitor escolhe aquilo a que é exposto.”

Resenha: Sangue de Tinta

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Marcos Tavares, no PsychoBooks

Olá, Leitores!

O primeiro livro da trilogia Mundo de Tinta foi uma excelente leitura. A maneira como a autora guiou os personagens e construiu os cenários foi impressionante. Será que em Sangue de Tinta o nível de qualidade continuou?

1- Coração de Tinta | Resenha

sangue-de-tinta

Sangue de Tinta

Cornelia Funke

Tradutor: Sonali Bertuol
Editora: Seguinte
Páginas: 559
ISBN: 9788535915761
Publicação: 2009

Sinopse:

Sangue de Tinta – “Sangue De Tinta” dá seguimento à aventura de Meggie e seu pai, Mo, um encadernador de livros que tem o estranho dom de dar vida às palavras dos livros que lê em voz alta, fazendo seres das histórias surgirem à sua frente como que por mágica. No primeiro volume da trilogia “Mundo De Tinta”, a língua encantada de Mo traz à vida alguns personagens de um livro chamado “Coração De Tinta”, e acaba mandando para dentro da trama a mãe da menina.
Agora, neste segundo episódio, Meggie dá um jeito de entrar ela mesma no mundo fictício de Coração de tinta, onde tem o prazer de encontrar fadas, príncipes e saltimbancos que dançam com o fogo; e o sofrimento de acompanhar as artimanhas de vilões cruéis e sem misericórdia. Uma jornada sombria, repleta de fantasia e aventura.

Comentários

Enredo
Em Coração de Tinta conhecemos Mo e Maggie, pai e filha que adoram livros mas escondem um dom relativo ao seu hábito de leitura. Enquanto no primeiro livro Mo usou o seu dom para trazer das páginas para o mundo real, personagens de uma aventura épica e fantástica, dessa vez teremos o oposto, com Meggie.

A jornada de Meggie começa quando ela resolve ir atrás de Dedo Empoeirado, que voltou ao universo mágico de onde se originou em busca de retornar à sua casa, à sua vila de origem. Porém, ao longo de sua jornada ela cruzará novamente com Cabeça de Víbora, o principal vilão do livro, que voltará a lhe atormentar em busca de poder. Junto com sua gangue, ele está disposto a fazer qualquer coisa para ter posse do livro mágico e finalmente deter todo o poder para si.

Enquanto isso, Dedo Empoeirado começa a rever parentes e amigos que deixou para trás. Quando cruza com um misterioso homem, ele descobre um segredo que pode colocar Meggie e Mo em risco e enfrenta o dilema de finalmente voltar para casa ou desistir disso e partir para ajudar seus amigos.

Narrativa
A narrativa é dividida em três pontos de vista: teremos inicialmente o de Meggie, que começa no mundo real e depois parte para coração de tinta; o de Dedo Empoeirado que está em busca de sua casa e a de Mo que se encontra em uma situação de perigo. Posteriormente, uma nova situação se forma e também é inserida na história.

Gostei da forma como a autora conduziu cada um dos personagens separadamente. Enquanto no primeiro livro tínhamos todos juntos em um núcleo compacto, neste podemos acompanhar a jornada e as motivações de cada um separadamente, ao mesmo tempo em que se evolui as relações entre eles.

Alguns personagens retornam para a história e novos surgem, sobretudo nos novos nichos abordados.

Manteve o mesmo nível que o primeiro livro?
Sem dúvidas, Sangue de Tinta mantém o mesmo padrão iniciado no primeiro livro da trilogia. As cenas de ação e fuga são quase constantes e se acentuam pelo fato de muitos dos personagens se encontrarem em situações de risco. A descrição dos cenários é um ponto a mais para a história. Em determinados momentos, sente-se realmente o clima do universo que a autora criou.

O final encaminha a narrativa para o seu desfecho no terceiro livro da trilogia, Morte de Tinta. Ainda há algumas perguntas pendentes na história, mas espero que a autora consiga responder todas elas no próximo volume.

Considerações
Se você gostou de Coração de Tinta, certamente irá adorar essa continuação. Mesmo tendo lido o primeiro livro há pouco, estava com saudades de revisitar os personagens e sobretudo o universo criado por Cornelia. Já estou ansioso para devorar o terceiro livro e saber quais os desfechos que a autora preparou.

Dedo Empoeirado ocultou por trás de um sorriso o medo que se espalhou em seu coração.
Página 272

4 Estrelas

Literatura: a força está com os nerds

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Adriano Fromer, diretor da editora Aleph, que desde 2003 se especializou na literatura de ficção científica e publica no Brasil o universo expandido de 'Star Wars'(Divulgação/VEJA)

Adriano Fromer, diretor da editora Aleph, que desde 2003 se especializou na literatura de ficção científica e publica no Brasil o universo expandido de ‘Star Wars'(Divulgação/VEJA)

Popularidade de títulos de ficção científica, fantasia e quadrinhos entre leitores adultos leva o mercado editorial e até o meio acadêmico a se render à cultura geek — e correr atrás do prejuízo

Raquel Carneiro, na Veja

Foi-se o tempo em que ser chamado de nerd era um insulto. E com a ascensão dos que são assim definidos – e que hoje comandam negócios bilionários como o Facebook – cresceu também um ambicioso mercado. Que o digam editores especializados em fantasia, quadrinhos e ficção científica, alguns dos gêneros que os discípulos de Sheldon, o carismático nerd da série The Big Bang Theory, mais consomem. Em poucos meses, editoras consolidadas como Rocco e Sextante lançaram selos específicos, e a Novo Século pôs no mercado uma série de livros da Marvel, que já representa 8% de sua receita total. E a Aleph, que há dez anos apostou tudo na ficção científica, vê agora o seu pioneirismo dar resultado. A empresa dobrou o faturamento de 2013 para 2014, cresceu 120% no primeiro trimestre deste ano e ainda projeta mais, com a volta da franquia Star Wars, que impulsiona uma série de lançamentos, a explosão de feiras de fãs como a Comic Con e a expansão sem fim dos super-heróis no mundo do entretenimento. A força, sem dúvida, está com a literatura nerd.

Mas por muito tempo se duvidou disso no país. “Ficção científica não vende no Brasil” foi a dura sentença dada pelo mercado editorial a Adriano Fromer, diretor da Aleph, em 2003, quando ele decidiu voltar a apostar no gênero que havia deixado de lado nos anos 1990. “Existia esse mantra de que ficção científica não era um bom negócio, que era um estilo limitado. O nosso trabalho foi o de mudar esse paradigma”, conta Fromer, à frente daquela que é hoje a principal editora do nicho no Brasil, responsável por tirar a poeira de autores consagrados como Isaac Asimov, Philip K. Dick e Arthur C. Clarke, e de ressuscitar clássicos esquecidos, caso de Laranja Mecânica, de Anthony Burgess; Neuromancer, de William Gibson; e, um dos seus lançamentos mais recentes, O Planeta dos Macacos, do francês Pierre Boulle.

O bom catálogo, aliado a um trabalho apurado de design gráfico, pode ser apontado como a principal razão do crescimento da Aleph. “A Aleph não acertou, a Aleph trabalhou. A gente insistiu no mercado, superamos estereótipos e mostramos que a ficção científica tem profundidade. É uma literatura séria, e ao mesmo tempo divertida”, diz Fromer.

O novo trunfo da editora é o contrato assinado com a Disney para o lançamento dos títulos do universo expandido de Star Wars. A parceria começou no final do ano passado com o clássico O Herdeiro do Império, livro que abre a trilogia Thrawn, de Timothy Zahn, o primeiro autor convidado pelo criador da saga, George Lucas, a escrever sobre ela. O romance estava esgotado no Brasil desde os anos 1980, década em que surgiu. Em março, foi a vez de Kenobi, de John Jackson Miller, lançado no ano passado nos Estados Unidos. Ao todo, a Aleph planeja vinte títulos de Star Wars até 2017, com os quais espera vender 1 milhão de cópias. A quantia é plausível, em especial pelo empurrão que a volta da franquia ao cinema no fim deste ano, com Star Wars – Episódio VII: O Despertar da Força, deve receber. Plausível também pelo bom desempenho de O Herdeiro do Império: o livro teve 50.000 cópias vendidas desde novembro.

Outro reforço da editora para o ano é disponibilizar todo o seu catálogo em e-books, boa parte em julho e o restante até o fim do ano. “A expectativa para 2015 é voltar a dobrar o faturamento. Eu não estou preocupado com a economia do Brasil. A crise é vantagem para a editora, porque as pessoas vão ficar mais em casa, lendo livros”, brinca Fromer, otimista.

Mais adeptos – Além da ficção científica, fantasia e quadrinhos são gêneros bastante apreciados pelos nerds. É o caso de títulos como a série Sandman, de Neil Gaiman, graphic-novel que já vendeu mais de 30 milhões de cópias na mundo – no Brasil, quem publica a trama é a Panini, que não divulga dados de venda -, e da série best-seller As Crônicas de Gelo e Fogo, de George R.R. Martin, publicada pela editora Leya. Os cinco calhamaços gigantescos, que deram origem à série de TV Game of Thrones, já venderam juntos mais de 3,5 milhões de exemplares no Brasil, e cerca de 25 milhões no mundo. A meta da empresa é chegar a 4 milhões de cópias comercializadas até o fim deste ano. Parece fácil.

Criada há quinze anos, a Novo Século é outra que acertou na aposta da fantasia. Os títulos do filão nerd representaram no ano passado 8% do faturamento da editora. E o percentual tende a crescer, já que em 2014 a empresa fechou um contrato com a Marvel para lançar quinze romances sobre super-heróis dos quadrinhos – o formato agrada a autores e leitores porque permite um maior desenvolvimento da trama e dos personagens. Alguns dos títulos são baseados em histórias de gibis, outros são tramas originais. O primeiro da coleção a chegar por aqui foi Guerra Civil, adaptado da HQ de mesmo nome, que também inspira o terceiro longa do Capitão América. Lançado em novembro, o livro se esgotou, causou filas gigantescas na feira de cultura pop Comic Con Experience, em dezembro, e chegou à terceira reimpressão.

O contrato com a Marvel rendeu também à Novo Século os títulos Homem-Aranha entre Trovões, X-Men: Espelho Negro e, o mais recente, Homem de Ferro: Vírus. Em três meses, os quatro livros venderam mais de 40.000 exemplares e ajudaram a fazer da série Marvel o carro-chefe da editora, que tem um catálogo imenso, composto de cinco selos distintos. “Nossas atenções estão totalmente voltadas para a série. O público nerd é muito específico, exigente e demanda um grande cuidado”, diz Lindsay Gois, coordenadora editorial da Novo Século.

No caso do acordo com a Marvel, a editora se beneficia do esforço do estúdio americano, que tem investido cada vez mais em filmes e séries de TV, bem como na sua divulgação. O próximo título previsto é Vingadores: Todos Querem Dominar o Mundo, inédito no Brasil, que será lançado no começo de maio com gancho em Vingadores: Era de Ultron, o segundo episódio da franquia, que estreia na próxima quinta-feira. O acordo entre Novo Século e Marvel prevê lançamentos até 2017, mas pode ser estendido (box ao lado).

O crescimento do estilo também levou editoras a criar selos especiais para abrigar a literatura nerd, caso da Rocco e da Sextante, que há cerca de um ano lançaram o Fantástica Rocco e a Saída de Emergência Brasil. Ambas já tinham boas experiências com o filão: a Rocco é quem publica o pop Harry Potter, além das distopias Jogos Vorazes e Divergente. E a Sextante é a responsável pela “bíblia” dos nerds, a série O Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams, com mais de 1,5 milhão de exemplares vendidos no Brasil desde 2004.

“Com a chegada ao mercado de trabalho de uma geração que cresceu consumindo quadrinhos, super-heróis e outros produtos culturais associados ao conceito do ‘nerd’, houve uma demanda maior por todo tipo de item ligado a esse universo”, diz Larissa Helena, editora do selo Fantástica Rocco. Com o aumento da demanda, os geeks passaram a ser mais valorizados pelo mercado – e também se tornaram mais populares. “O segmento geek tem crescido expressivamente mundo afora, e passou a ser parte da cultura pop atual”, diz Marcio Borges, diretor de marketing da Panini, especializada em quadrinhos.

Academia se rende – A professora nova-iorquina Mary Elizabeth Ginway veio ao país nos anos 1980 para completar seu doutorado em espanhol e português e se interessou por livros de ficção científica brasileira. O estudo foi o cerne do livro que ela lançaria em 2005, Ficção Científica Brasileira: Mitos Culturais e Nacionalidade no País do Futuro (Devir), no qual analisa o gênero antes, durante e depois do regime militar. Quando ela trouxe a pesquisa completa ao Brasil, em 2004, percebeu uma resistência da academia nacional. “Nos EUA, existem estudos sérios de ficção científica desde os anos 1970. A evolução foi lenta, mas hoje existem centenas de disciplinas universitárias sobre ficção científica como gênero, além de diversas teses”, conta Mary Elizabeth, que dá aula na Universidade da Flórida.

Agora, a passos lentos, as universidades brasileiras começam a abrir espaço para estudos que envolvem viagens do tempo, distopias, ogros e até bruxos adolescentes. “A fantasia e a ficção científica começaram a crescer nas universidades há cerca de oito anos, e de uns três anos para cá o assunto tomou força”, conta Karin Volobuef, professora especializada em literatura fantástica na Unesp em Araraquara, no interior de São Paulo. Segundo Karin, personagens clássicos como Drácula e Frankenstein e o autor J. R. R. Tolkien são os temas favoritos em dissertações de mestrado e doutorado. Porém, o bruxinho Harry Potter tem aos poucos ocupado o seu lugar na academia, como tópico de trabalhos de conclusão de curso.

“A literatura fantástica discute valores como amizade, lealdade e fé, com simbologias mais profundas, além de abarcar dimensões psicológicas, éticas e morais. Já a ficção científica explora âmbitos sociais com mais detalhes”, diz Karin. “Essa literatura foi por muito tempo, e ainda é para alguns, vista como escapista e superficial, presa a padrões, repetitiva. Mas, na verdade, ela tem um forte substrato mítico e filosófico, que passa por diferentes linhas de pensamento, geralmente com viés critico. Não existem limites geográficos e temporais para a fantasia e ficção científica. É uma manifestação cultural que se reinventa a toda hora.” Fãs e editoras concordam – e aplaudem. A força, como se vê, está mesmo com os nerds.

Garoto de 11 anos se fantasia de Sr. Grey e escola manda voltar pra casa

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Além da roupa, o garoto carregava os acessórios usados pelo personagem sado-masoquista

Além da roupa, o garoto carregava os acessórios usados pelo personagem sado-masoquista

A escola comemorava o Dia Mundial do livro, e por isso, pediu que os alunos fossem fantasiados do seu personagem preferido dos livros

Publicado no O Povo

Um colégio da cidade de Sale, na Inglaterra, mandou um garoto de 11 anos voltar pra casa depois do aluno ir fantasiado de Sr. Grey, o personagem do livro ’50 tons de cinza’, de E.L.James.

A escola comemorava o Dia Mundial do livro, e por isso, pediu que os alunos fossem fantasiados do seu personagem preferido dos livros.

O colégio Sale High Scool considerou o traje inadequado para o evento e pediu que o garoto voltasse para casa. A decisão deixou a mãe do menino indignada.

Além da roupa, Liam Scholes carregava os acessórios usados pelo personagem sado-masoquista como a cordinha para amarrar as mãos e uma venda para os olhos.

Segundo o G1, a direção da escola informou que a decisão “reflete os altos padrões da escola em termos de comportamento dos alunos, bem-estar e proteção. E esclareceu que Liam pode voltar para a aula depois de ter “modificado” seu traje.

No entanto, a mãe de Liam defendeu dizendo que as crianças sabiam quem era por causa da cobertura da mídia. Segunda ela, quando o filho entrou na escola “todas as crianças sabiam que ele era”.

A mãe, Nicola Sholes, resolveu publicar a foto de Liam com o traje, ao lado das irmãs que foram fantasiadas de Damas de Copas e Chapeleiro Maluco, do filme ‘Alice no País das Maravilhas’.

Liam estava acompanhado das irmãs que foram fantasiadas de Damas de Copas e Chapeleiro Maluco, do filme 'Alice no País das Maravilhas'

Liam estava acompanhado das irmãs que foram fantasiadas de Damas de Copas e Chapeleiro Maluco, do filme ‘Alice no País das Maravilhas’. Reprodução/Facebook

“Traje ofensivo do Liam no Dia do Livro. Disseram que era inadequado e que deveria mudar sua fantasia e não incluí-lo em todas as fotos. Era também necessário um telefonema para casa para falar sobre o assunto”, escreveu Nicola Scholes.

“No entanto, era apropriado para um professor de vestir-se como um assassino em série e outros estudantes para entrar com ‘armas’. Eu pensei que Christian Grey fosse o mais falado personagem de livro dos últimos anos. #nosenseofhumour (#nenhum senso de humor)”.

dica da Jeane de Almeida

Por que devemos ler histórias de fantasia?

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fairy tales

J. B. Alves, no Portal Overtube

Desde que a humanidade levantou os olhos para ver além do mato alto, ela se deparou com desafios maravilhosos e assustadores. No início, a falta de comida, a escuridão e os predadores eram o motivo. O medo da fome, da dor, da morte e até o medo do desconhecido, daquilo que existiria além da própria morte, foram os motivadores das primeiras histórias.

Para preparar nossas crianças, os adultos tentavam explicar oralmente, através de histórias e atividades, todas as experiências que o grupo havia presenciado. Por exemplo, um membro do grupo que caísse em um buraco poderia se tornar o exemplo de como a terra engole os traidores. E o tigre que matou dois guerreiros durante uma caçada seria alçado ao nível de entidade sobrenatural, ou mesmo o símbolo protetor, o totem de uma nova “Tribo do Tigre”.

E assim, surgiriam mitos e lendas que seriam contados e recontados por gerações. Muitas dessas histórias se tornariam parte de uma cultura mística e religiosa até se transformar naquilo que chamamos de contos de fadas.

A tendência de passar o conhecimento persiste até hoje, mas ganhou uma roupagem diferente que visa alimentar a imaginação das crianças e estimular as suas fantasias enquanto o enredo responde e resume questões importantes da sociedade.

“Não grite lobo sem motivo. Um dia pode ser verdade mas ninguém acreditará em você!”

“Cuidado com o velho do saco, ele leva crianças que não se comportam”.

“E a princesa adormecida foi salva pelo príncipe. E eles viveram felizes para sempre”.

“Para capturar um Saci você precisa de uma peneira com o formato certo, bem naquele dia madorrento em que os rodamoinhos aparecerem. Tire o capuz e ele lhe concederá desejos”.

“Aquela é A Montanha? Perguntou Bilbo numa voz solene, olhando para ela com os olhos esbugalhados. Nunca vira algo que parecera tão grande. – Claro que não! – disse Balin. – Ali é apenas o começo das Montanhas Sombrias, e nós temos que achar um meio de atravessá-las, ou passar por cima ou por baixo delas”.

E assim poderíamos continuar por toda a vida, comentando sobre histórias tradicionais ou modernas, observando os mitos e as lendas, bem como suas histórias morais, que estão intimamente relacionados com a Fantasia que apresenta conceitos e modelos para a origem de cada criança e adulto, cada situação e, até do próprio mundo.

E é assim, de uma maneira sublime e indireta que os contos de fantasia se relacionam e conversam com nossos problemas e conflitos interiores nos fornecendo percepções profundas que sustentam a humanidade nas longas vicissitudes de sua existência. E essa é a nobre tarefa, uma herança que normalmente não é revelada para as crianças porque mesmo os adultos não conseguem acessar esse conceito de forma simples e direta.

Por exemplo, uma história de fadas poderia abordar um conflito interno de forma simbólica e sugerir possibilidades de como resolvê-lo. Enquanto isso, seu tema embalaria a atenção de todos de forma majestosa, transmitindo o seu sentido através de heróis imortais, deuses ou criaturas místicas que fazem solicitações e oferecem presentes aos simples mortais.

No entanto, por mais que queiramos ser como esses heróis, sempre seremos inferiores a eles pois nos contos de fantasia os personagens e situações narradas também personificam e ilustram conflitos íntimos, mas sugerem como esses conflitos podem ser solucionados e quais os passos a serem dados rumo à uma humanidade mais elevada.

A vida real pode não funcionar dessa maneira, mas é através dos contos de fantasia que o herói, ou heroína, sempre alcançam o final feliz, criando assim um momento e um motivo para que a criança se identifique.

Tudo a sua imaginação então é protegida e alimentada por esse final feliz. Dando espaço então para que os obstáculos, sejam apenas mais um motivo para as crianças encontrarem um valor para a superação e o amadurecimento.

E é por isso que devemos ler histórias de fantasia. Por esse tipo de literatura é o que mais ajuda no desenvolvimento infantil no que se refere aos aspectos, cognitivos, psíquicos e motores, criando assim aquela fagulha necessária para a formação dos valores bem como o movimento inicial do motor que proporciona o desenvolvimento infantil.

Além disso, nada melhor do que uma velha história de fantasia, independente de que roupagem assuma, para rejuvenescer a mente e aquecer a alma de todas as idades. Não é?

Sendo assim. Pense profundamente e responda.
Qual história de fantasia você vai ler hoje?

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