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“Leitores têm dificuldade de interpretação”, diz Dimenstein ao ser chamado de xenófobo

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Gilberto Dimenstein: “o colunista não pode ter medo de críticas”
(Imagem: Divulgação/Folha)

Nathália Carvalho, no Comunique-se

A escolha de Juca Ferreira para ser secretário municipal da Cultura de São Paulo causou debate nesta semana e, ao publicar o texto “Haddad precisa importar um baiano?”, o jornalista da Folha, Gilberto Dimenstein, recebeu críticas e foi chamado de xenófobo.

Dimenstein explica que a postura de alguns internautas trata-se de dificuldade de interpretação e, ou, leitura apressada. “As pessoas não leem tudo. Isso já acontece no impresso, imagina no online. Olham apenas o título e leem o que querem, e não o que está escrito”. O colunista diz que criticou “o incômodo que brotou em parte do meio cultural paulistano pelo fato de Fernando Haddad convidar alguém de fora”.

O jornalista da Folha argumenta que o texto teve conotação positiva em relação à indicação de Ferreira. “Comentei que ser de fora pode ser até bom para a cidade. E, no caso de Juca, ainda coloquei que, por ser baiano, ele traz uma visão cultural que, talvez, possa ajudar São Paulo. E por vir de outra cidade talvez não fique refém das panelinhas culturais locais”.

As críticas à coluna foram impulsionadas, também, por um texto publicado pelo deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ). Em relação à postura do parlamentar, Dimenstein afirma que “se fosse uma prova de interpretação, certamente o deputado não passaria”. “Ele é uma pessoa de com caráter e creio que não fez de má fé. Mas acredito que ele não leu a coluna até o final”, diz o colunista.

Em resposta, Wyllys disse que “é uma saída fácil de Dimenstein para não assumir que seu texto contraditório flertava, sim, com o sentimento de xenofobia mal disfarçado”. “Ainda que eu e outros tivéssemos lido apenas o título – o que não aconteceu – este, por si, já justificava todos os questionamentos. A palavra “baiano” não foi parar no título por acaso. A língua não é neutra (o jornalismo menos)”, explicou.

Dimenstein conta ser importante para os jornalistas saberem lidar com a repercussão negativa de alguma opinião. “É importante que o colunista não tenha medo de críticas e estimule o debate”. Além disso, ele afirma ser interessante passar por isso pois quando trata-se de um erro é preciso pedir desculpas, mas quando a situação é o contrário, a conversa cresce no sentido de mostrar qual é a posição do profissional. “Aprofunda o tema e ajuda as pessoas a pensarem de maneiras diferentes”, contou.

Veja abaixo os textos, em ordem cronológica, publicados por Dimenstein e pelo Deputado Jean Wyllys

Coluna de Dimenstein para Folha de S. Paulo – 10/12/2012
Haddad precisa importar um baiano?

Crítica de Jean Wyllys – 11/12/12
O “baiano” de Dimenstein

Coluna de Dimenstein para Folha de S. Paulo – 11/12/2012
Sou mesmo xenófobo?

A literatura na era do Twitter

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Alberto Dines, no Observatório da Imprensa

Concomitantes: impossível não relacionar a biografia de Paula Broadwell sobre o general David Petraeus, com os anúncios de Phillip Roth e Imre Kertész que deixarão de escrever livros, falar de livros, ler livros.

A biógrafa sedutora que derrubou um dos homens mais poderosos do mundo encarna a degradação de um antiquíssimo gênero literário, a arte de contar vidas. Madame Broadwell, formada em Harvard, ex-major do exército americano, não fez biografia, praticou biofagia – alimentação a base de seres vivos. Em outras palavras: comeu o seu general.

A abdicação dos dois extraordinários ficcionistas tem a ver com outro aspecto da degradação dos tempos modernos: já não faz sentido escrever. Histórias já não mudam o mundo, muito menos a humanidade. Interessam, arrebatam, vendem muito, não inspiram. E não porque tudo já tenha sido escrito, contado e recontado, mas porque a literatura torna-se inócua à medida que se agiganta a quantidade de livros impressos ou digitados.

Como Saramago

Um, americano de segunda geração, 79 anos, o outro húngaro, de 83, descendem da mesma cepa humanista europeia. O fato de serem judeus não é suficiente para igualá-los. Há escrevinhadores judeus absolutamente abjetos. Borra-papéis. Estes trazem consigo a mensagem da insatisfação e contestação.

Renunciantes, abriram mão de confortáveis situações e, sobretudo, do reconhecimento universal – preferem enfurnar-se. Mudaram de rumo não porque chegaram ao último terço de suas vidas e vislumbraram logo adiante a curva na estrada. Não são casos de bloqueio criativo, ou depressão. Ao anunciar que vão parar mostraram-se atentos ao que está acontecendo, são refuseniks, objetores de consciência – o pessimismo prova uma intensa criatividade. Agora, sim, alcançaram o apogeu.

Não são suicidas, mas batalhadores, enérgicos, têm fé em valores que poucos percebem inclusive muitos de seus leitores. Questionam não porque querem mais – ao contrário, querem menos. Suas são revoltas contra os excessos e demasias. Protestam em silêncio, esta é a forma mais altiva de criar.

Roth & Kertész não se resignam, vão em frente, certamente têm projetos: o mais perceptível é enfrentar o delirante e degradante culto ao sucesso que converte os mais sublimes desafios em aviltantes assaltos.

Este mesmo culto ao triunfo empurrou Paula Broadwell para a ribalta da fama. Queria uma biografia autorizada do mais condecorado general americano e invalidou-a em seguida. Muitos biógrafos conviveram com seus biografados – o caso mais conhecido é o de James Boswell, cuja biografia de Samuel Johnson, de 1791, é considerada a mais perfeita da literatura inglesa.

Roth ou Kertész não conheciam Paula Broadwell, o que se evidencia é a recusa em tê-la como personagem e contar este tipo de história. Tal como José Saramago, rejeitam os grunhidos da era do Twitter. Macbeth, o demoníaco, vivia em outra dimensão.

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