Especialistas comprovam os efeitos terapêuticos dos livros para pintar, maior fenômeno editorial recente que tem conquistado cada vez mais adultos

Paula Rocha, na IstoÉ

Em uma movimentada livraria na cidade de São Paulo, duas clientes na faixa dos quarenta anos discutem por causa de um livro. “Esse é o último exemplar e eu preciso dele”, diz uma delas. No que a outra responde “mas eu também preciso”, enquanto um vendedor tenta acalma-las. O motivo do debate não é o recém-lançado “Philia”, de Padre Marcelo Rossi, ou o novo “Ansiedade”, de Augusto Cury, ambos na lista dos mais vendidos no País, mas sim uma singela obra praticamente sem frases e com 96 páginas ilustradas em preto e branco. Trata-se do título “Jardim Secreto” (Editora Sextante), um livro com desenhos para serem coloridos por adultos. Desde que foi lançada no Brasil, em dezembro de 2014, a obra vendeu mais de 600 mil cópias e motivou o surgimento de dezenas de títulos similares, em um fenômeno literário que surpreende editoras e leitores e que já ganhou ares de febre.

REFÚGIO Helena Sordili usa o livro "Jardim Secreto" para relaxar e esquecer os problemas

REFÚGIO
Helena Sordili usa o livro “Jardim Secreto” para relaxar e esquecer os problemas

 

mi_9792144994695945

Pode reparar. Há cerca de um mês, redes sociais como Instagram e Facebook foram invadidas por fotos de desenhos coloridos, feitos especialmente por mulheres entre 34 e 54 anos de idade. “Nós sabíamos do sucesso do livro na Europa e nos Estados Unidos, mas nunca imaginamos que a repercussão no Brasil tomasse proporções tão gigantescas”, diz Nana Vaz de Castro, gerente de aquisições da Sextante. Em abril, a editora lançou no País o título “Floresta Encantada”, de Johanna Basford, mesma autora do “Jardim Secreto”, e a venda desses itens explodiu. “Aqui no País, o ‘Jardim’ já está indo para a 14ª reimpressão, enquanto o ‘Floresta’, desde a Páscoa, já vendeu 400 mil exemplares”, diz Nana. E assim como acontece com seu predecessor, o segundo livro de colorir mais vendido do Brasil tem sumido das prateleiras das livrarias com velocidade impressionante. “A enorme procura por esses produtos pegou o mercado editorial de surpresa”, diz Thiago Oliveira, coordenador comercial de livros nacionais da Livraria Cultura. “Quando chegam, acabam muito rápido e as editoras estão tendo de produzir mais para suprir a demanda.”

mi_9792134823500951

Um dos motivos que explicariam a popularidade dos livros de colorir para adultos é o fato de eles proporcionarem uma espécie de desintoxicação do mundo virtual. “É uma forma de me desconectar. Para colorir, saio da frente do computador e do celular”, conta a designer e blogueira Helena Sordili, de 38 anos, que foi pega pela febre multicolorida há cerca de dois meses. Outra qualidade muito atribuída aos livros é seu caráter anti-estresse, apesar das brigas geradas pelos exemplares. “Quando estou pintando, entro numa espécie de transe. Esqueço os problemas e nem escuto as pessoas a minha volta”, diz Helena. Sensação que pode ser alcançada com outras atividades ocupacionais, acredita Selma Ciornai, psicóloga e fundadora do curso de arte-terapia do Instituto Sedes Sapientiae. “Assim como uma terapia ocupacional, o ato mecânico de colorir exige concentração e esvazia a mente, proporcionando um estado mais relaxado e meditativo”, diz.

MANIA Ivonete já gastou R$ 1 mil em materiais e aguarda a chegada de mais lápis de cor

MANIA
Ivonete já gastou R$ 1 mil em materiais e aguarda a chegada de mais lápis de cor

Mas, assim como a discussão entre as mulheres do início da reportagem, nem tudo são flores para os leitores dos livros de colorir. Para a corretora de móveis Ivonete Nogueira da Silva, de 50 anos, apesar do apelo anti-estresse, os títulos podem estressar muita gente que não consegue pintar como gostaria. “As empresas não estavam preparadas para essa loucura. Há um mês comprei pela internet uma caixa de lápis de cor com 72 cores que não chegou até agora”, diz Ivonete, que calcula já ter gasto cerca de R$ 1 mil em materiais para colorir. Segundo informações da Faber-Castell, a busca por lápis de cor no País quintuplicou em abril, em relação ao mesmo período do ano passado. “Nossa prioridade hoje é atender a essa forte demanda e normalizar os estoques nos pontos de vendas”, diz Claudia Neufeld, diretora de marketing da Faber-Castell. Segundo Ibraíma Dafonte Tavares, editora executiva da Editora Alaúde, que está prestes a publicar mais dois títulos do nicho, a mania dos livros de colorir dá sinais de que deve continuar. “Eu acho que a tendência continua este ano. O fato é que as pessoas ficam verdadeiramente felizes colorindo esses livros”, diz. Depois de conseguirem comprá-los, é claro.

Fotos: João Castellano/ Ag. Istoé; Thiago Bernardes/Frame