Publicado na Folha de S.Paulo

Não há uma receita universal para domar o vestibular e entrar na universidade. O estudante que vai enfrentá-lo, no entanto, precisa saber que o teste é apenas um caminho -não o único-de construção de uma carreira profissional, segundo especialistas.

“A exigência da sociedade por um domínio técnico afasta o nosso jovem de outros conhecimentos que estão fora da academia”, diz a psicóloga Gabriela Gramkow e professora da PUC-SP. Aqui, seis profissionais do mundo das artes, dos negócios, da moda e da ciência contam como foi atravessar esse momento.

O colunista da Folha Gregório Duvivier diz que prestava muita atenção nas aulas, mas não se matava de estudar em casa. A modelo Ana Cláudia Michels deu ênfase às matérias que mais dominava e, hoje, cursa medicina.

O apresentador Marcelo Tas lia muito, o que, segundo ele, o ajudou a interpretar as questões do vestibular com facilidade. Para o pedagogo Silvio Bock, especialista em orientação profissional, não existe um jeito certo ou errado de estudar. “Tudo é uma questão de juízo de valor. Tem estudante que não se diverte porque acha que vai perder tempo. Outro já precisa relaxar para ir bem nas provas.”

Enfrentar o vestibular e perder a batalha na primeira tentativa serviu de aprendizado para Felipe Dib, empresário, dono de uma escolas de idiomas on-line. “Meu erro foi o excesso de confiança. Fiquei em 90º lugar”, afirma.

‘Me aprofundei nos assuntos que dominava’

“Queria ser médica desde criança. Comecei a trabalhar como modelo e tive que adiar o plano. Com quase 30 anos, decidi tentar. Fiz supletivo do ensino médio e entrei num cursinho.

Era muito difícil, muita matéria. Naquela época, passei a trabalhar só aos fins de semana para não perder as aulas. Durante a tarde, ficava na biblioteca.

Fiz um ano e meio de cursinho. Quando prestei vestibular pela primeira vez, não passei. Na segunda tentativa, fui aprovada em 37º lugar no curso de medicina do Centro Universitário São Camilo. Foi um dos dias mais felizes da minha vida.

Acho que fiz certo ao me aprofundar bastante nos assuntos que eu sabia bem. Ter disciplina também foi imprescindível. Estou no quarto ano da faculdade. Pensava em ser endocrinologista quando entrei, hoje tenho dúvidas.”

Ana Cláudia Michels, 35, começou a carreira de modelo aos 14; trancou a faculdade em setembro, quando sua filha nasceu

Ana Cláudia Michels em jantar do Instituto de Defesa do Direito de Defesa, na Lions NigthtClub - Zanone Fraissat/Folhapress

Ana Cláudia Michels em jantar do Instituto de Defesa do Direito de Defesa, na Lions NigthtClub – Zanone Fraissat/Folhapress

 

‘Confiante, não passei na primeira opção’

“Após ter sido reprovado no curso de inglês que fazia no Brasil, fui fazer o terceiro ano do ensino médio na Nova Zelândia, para melhorar minhas habilidades na língua. Quando voltei, queria fazer direito na UFMS (Universidade Federal do Mato Grosso do Sul). Passavam 30 candidatos.

Prestei o vestibular sem me preparar e fiquei em 60º. Pensei ‘poxa, estou perto’ e resolvi focar nos estudos.

Durante seis meses, fazia cursinho de manhã e estudava à tarde, embora não abandonasse outras atividades, como academia. No fim, estava bem preparado.

Meu erro foi o excesso de confiança. Acabei ficando em 90°, Só que dessa vez também havia prestado Relações Internacionais na Unaes (hoje Anhanguera). Não passei na minha primeira opção, mas depois fiz uma pós em ensino e aprendizagem da língua inglesa e comecei a lecionar.”

Felipe Dib é dono do Você Aprende Agora, escola de inglês on-line

Felipe Dib, dono do Você Aprende Agora, escola de inglês on-line

Felipe Dib, dono do Você Aprende Agora, escola de inglês on-line

 

‘Discutir é mais importante que decorar fórmula’

“Meu último ano do ensino médio foi tranquilo. Estudei num colégio que não tinha o vestibular como foco principal. Achei ótimo. A função da escola é fazer o aluno refletir, criar conteúdo, me incomoda quando a única preocupação é fazê-lo passar no exame.

Eu fazia teatro na época. É muito importante ter uma vida pessoal estável no terceiro ano. Ficar enclausurado, só estudando, é terrível.

Escolhi fazer letras porque adorava ler. Passei para a PUC-Rio, em 2004. Também fui aprovado na UFF, em cinema, mas desisti.

Eu diria para os vestibulandos se informarem sobre o mundo. Saber as questões políticas que os cercam, participar de discussões da sociedade. É mais importante que decorar fórmulas.

As pessoas acham que é o pré-vestibular é ‘o’ ano que vai definir o resto da vida, quando, na verdade, a redefinimos o tempo todo.”

O ator Gregorio Duvivier, 30, é integrante do grupo Porta dos Fundos e colunista da Folha

Gregorio Duvivier na pré-estreia do filme "Desculpe o Transtorno"

Gregorio Duvivier na pré-estreia do filme “Desculpe o Transtorno” – Bruno Poletti/Folhapress

 

‘A leitura mexe com o pensamento’

“Fiz o ensino médio na EPCAR (Escola Preparatória de Cadetes do Ar), nos anos 1970. Lá, tive acesso a uma biblioteca que nunca tinha visto na vida. Mergulhei na literatura brasileira. A leitura mexe com o pensamento, faz você se expressar melhor, me ajudou muito no vestibular. Vale até para ir bem em matemática, para entender os problemas.

Cheguei a fazer um curso intensivo em São Paulo quando me formei na escola. Foram os piores meses da minha vida, mas consegui passar para o curso de engenharia civil na USP.

Nunca abri mão de sair, de ir ao teatro. Isso ajuda a ter saúde mental.

Escolhi a engenharia no piloto automático, foi uma coisa pouco ambiciosa. Poderia ter refletido mais. Apesar de ter descoberto na comunicação a minha vocação, não me arrependo. Na reta final, o mais importante a se fazer é respirar.”

Marcelo Tas, 56, é apresentador do programa “Papo de Segunda” (GNT)

Marcelo Tas, durante pré-estreia do espetáculo "Palavra de Rainha", em 2014 - Bruno Poletti/Folhapress

Marcelo Tas, durante pré-estreia do espetáculo “Palavra de Rainha”, em 2014 – Bruno Poletti/Folhapress

 

‘Fazer novela foi uma válvula de escape’

“Decidi fazer engenharia porque queria explorar uma área diferente da que eu já trabalhava. Sempre fui boa aluna, mas nunca precisei estudar fora da escola. No pré-vestibular, tive que me dedicar muito.

Estava fazendo uma novela [“Fina Estampa”] nessa época. Foi a melhor coisa que aconteceu, serviu como uma válvula de escape.

Precisei me organizar muito bem. Nos intervalos, até no recreio, eu estudava. Andava com uma lista de tarefas para fazer ao longo do dia. Chegava a almoçar no carro, a caminho das gravações, para ganhar tempo.

Prestei para engenharia química. Fiquei em primeiro lugar na UERJ e na UFF, e passei para outras faculdades do Rio, em 2012. Acho que não precisava ter me estressado tanto. Nos momentos finais, é importante se manter motivado e pensar que o pior já passou.”

Bianca Salgueiro, 22, começou a atuar ainda criança; hoje, mora em Lyon, na França, onde faz intercâmbio pela faculdade

Atriz Bianca Salgueiro na pré-estreia do filme "Noé", no Rio de Janeiro, em 2014 - Adriano Ishibashi/Frame

Atriz Bianca Salgueiro na pré-estreia do filme “Noé”, no Rio de Janeiro, em 2014 – Adriano Ishibashi/Frame

 

‘Escolhi meu curso após visitara universidade’

“Entrei no curso de química da Universidade Estadual de Maringá em 2005. Enquanto eu frequentava o último ano do colégio, ingressei em um cursinho comunitário, tocado pelos alunos da UEM. Eu estava em dúvida entre farmácia e química, até que um professor do pré-vestibular me convidou para conhecer os laboratórios da instituição. Foi quando fiz a minha escolha.

Isso é importante. Se o aluno tiver a oportunidade de conhecer o curso, visitar a universidade e conversar com pessoas que já estão lá pode ajudar muito.

Sobre a minha rotina, frequentava as aulas do colégio pela manhã. À tarde, me dedicava por duas horas ao conteúdo da escola e,no restante do tempo, fazia os exercícios do cursinho. Em dezembro, sem aulas, estudava cerca de seis horas.”

Cecília de Carvalho Castro e Silva, 29, é doutora em química e pesquisadora do Mackgraphe, onde desenvolve um sensor capaz de identificar precocemente o câncer de mama

Retrato de Cecília de Carvalho Castro e Silva, doutora em química e pesquisadora do Mackgraphe - Divulgação

Retrato de Cecília de Carvalho Castro e Silva, doutora em química e pesquisadora do Mackgraphe – Divulgação

 

Com colaboração de Dhiego Maia, Bruno Lee, Júlia Zaremba e Dante Ferrasoli