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Posts tagged feminista

Depois de 34 anos, Margaret Atwood lança a sequência de ‘O Conto da Aia’

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Foto: AFP

‘The Testaments’ se passa 15 anos após a história original

Publicado no Destak Jornal

A escritora canadense Margaret Atwood apresenta nesta terça-feira (10) em Londres “The Testaments”, a sequência do aclamado “O Conto da Aia” (1985), uma distopia misógina aterradora que se tornou um verdadeiro manifesto feminista na era do movimento #MeToo.

“A obra é uma advertência sobre a violência exercida contra as mulheres”, disse Melisa Kumas, uma holandesa de 27 anos que compareceu na segunda-feira à noite à cerimônia de lançamento, vestida de vermelho, para recordar o uniforme das “aias”.

Atwood “me tornou mais consciente da política que me cerca. Agora estou mais concentrada na atualidade para assegurar que não aconteça o pior”, completou, na conversa com a AFP, antes de ouvir, logo após a meia-noite, a leitura feita pela escritora, de 79 anos, de trechos do novo livro.

A sequência, que chega às livrarias nesta terça-feira (10), promete ser um grande sucesso: o livro foi selecionado entre os finalistas do Booker Prize 2019, prestigiosa premiação literária britânica, e sua adaptação para a TV já está em curso.

O livro segue os passos do predecessor, que registrou uma retomada das vendas por sua adaptação como uma série de televisão. “O Conto da Aia” vendeu oito milhões de cópias no mundo apenas em sua versão em inglês.

Tia Lydia

Em 1985, Atwood imaginou os Estados Unidos transformados em “República de Gilead”, um país totalitário teocrático onde os dirigentes estupram, em cerimônias religiosas com a ajuda de suas esposas, as mulheres capazes de procriar, as “aias”, para ficar com seus bebês.

As regras são justificadas por um suposto Deus onipresente nos costumes diários, inclusive nos cumprimentos: em Gilead, todas as conversas começam com a expressão “Bendito seja o fruto”.

Neste mundo obscuro, uma mulher, June, tenta sobreviver. No primeiro livro, ela é a responsável por conduzir o leitor, por meio de um monólogo angustiante, por esta ditadura misógina, na qual o papel de aia reprodutora é imposto, e o de mãe, retirado.

June têm duas filhas, mas não tem direitos sobre nenhuma delas.

“The Testaments” se passa 15 anos depois da história original: Agnes vive em Gilead, enquanto sua irmã Daisy mora no vizinho Canadá e fica horrorizada com os abusos cometidos do outro lado da fronteira.

É, sobretudo, a voz de uma terceira narradora que mantém o leitor em suspense: tia Lydia, a maquiavélica líder das “tias”, grupo de mulheres responsáveis por escravizar as compatriotas férteis.

Ao longo dos capítulos, o leitor descobre seu passado de mulher livre e as etapas de sua transformação em um monstro, construída pelo instinto de sobrevivência diante dos homens tirânicos, mas também por seu desejo de poder… Até que se torne bastante poderosa para abalar aqueles que a dominam.

35 anos buscando respostas

Atwood demorou quase 35 anos para conceber a sequência, inspirada pelas perguntas feitas por seus leitores.

Trinta e cinco anos representaram muito tempo para refletir sobre as respostas possíveis, que evoluíram à medida que a sociedade evoluiu e as hipóteses se tornavam realidade, afirma a escritora no final do livro.

“Os cidadãos de muitos países, incluindo os Estados Unidos, sofrem hoje tensões mais fortes que há três décadas”, completa.

Grande sucesso após sua publicação em 1985, “O Conto da Aia” se tornou um verdadeiro manifesto feminista dos tempos modernos após sua adaptação como série de TV em 2017, que apresentou a obra a um novo público.

Em diversos países, a figura da “aia”, com a capa vermelha e chapéu branco, virou um símbolo imediatamente reconhecido em manifestações da pauta feminista, como a defesa do direito ao aborto.

Nos Estados Unidos, tornou-se um símbolo contra Donald Trump, mas também um alto-falante do movimento #MeToo, como uma parábola da tendência conservadora americana desde sua chegada ao poder.

Professora cria projeto para debater questões de gênero em escola de SP

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Ana Carla Bermúdez, no UOL

Alunos da Emef Frei Francisco de Mont'Alverne, na zona leste de SP

Alunos da Emef Frei Francisco de Mont’Alverne, na zona leste de SP – Arquivo pessoal

Por que, nas escolas, as filas são separadas entre meninos e meninas? E por que é ‘natural’ que, nas aulas de educação física, as meninas joguem vôlei, enquanto os meninos jogam futebol?

Refletindo sobre questões como essas, Mayla Rosa Rodrigues, professora da Emef (Escola Municipal de Ensino Fundamental) Frei Francisco Mont’Alverne, na Vila Domitila, zona leste de São Paulo, percebeu como a escola costuma reforçar práticas desiguais que acontecem na sociedade.

“Os meninos são muito mais incentivados a desenvolver atividades físicas e muito mais elogiados pelo seu desenvolvimento em matérias como matemática, enquanto as meninas brincam de como “ser mamãe” e são mais incentivadas a se desenvolver em matérias linguísticas”, conta a professora.

A partir disso, Mayla passou a analisar com um olhar mais crítico os livros didáticos e livros de literatura infantil –e encontrou neles também uma repetição de estereótipos, “seja quando apresentam meninas apenas como ajudantes dos meninos cientistas ou quando deixam de mostrar meninas negras”.

Mulheres na História

Mayla resolveu, então, criar o projeto “Mulheres na História”, onde são debatidos estereótipos de comportamento, sejam eles de gênero, raciais, sexuais ou de classe. Para isso, os principais mecanismos que são utilizados com uma turma de alunos do 4º ano são a pesquisa e as leituras biográficas de mulheres.

Aluno lê livro sobre Aqualtune, símbolo de resistência negra - Arquivo Pessoal

Aluno lê livro sobre Aqualtune, símbolo de resistência negra – Arquivo Pessoal

“As crianças estão pesquisando mulheres que fizeram parte da nossa história e que são frequentemente apagadas e silenciadas. Por exemplo, muitos sabem quem foi Martin Luther King, mas poucos conhecem [a ativista negra norte-americana] Rosa Parks”, explica Mayla.

Para a professora, é papel da escola desconstruir a ideia de que apenas os homens constroem e transformam a história. “Quando mulheres são apresentadas apenas como coadjuvantes, elas passam a acreditar que essa é sua única possibilidade”, afirma.

Entre as mulheres que os alunos já estudaram, estão Aqualtune, grande símbolo de resistência negra e avó de Zumbi dos Palmares; Jackie Joyner-Kersee, atleta americana de destaque no heptatlo e no salto a distância; e Maria da Penha, líder brasileira de movimentos em defesa dos direitos da mulher e que inspirou a criação da lei homônima que completa uma década este ano.

Mudanças no comportamento

Mayla, que se considera feminista, conta que para ela as desigualdades de gênero sempre foram motivo de inquietação. “Fui criada pela minha mãe com mais duas irmãs e, toda vez que alguém via minha casa minimamente bagunçada, o comentário era imediato: ‘como uma casa com tanta mulher pode ser bagunçada?’. Aquilo me incomodava muito”, lembra.

É justamente essa visão de mundo que a professora busca ampliar, além de não limitar o potencial das crianças em “caixinhas” de coisas destinadas apenas para meninas ou para meninos. Com a realização do projeto, ela diz que a mudança no comportamento das crianças é nítida.

“Os conflitos que enfrentávamos no início do ano estão quase extintos, pois as crianças passaram a se respeitar mais, a entender o limite do outro e a ouvir o ‘não’ do colega. Além disso, como todas as crianças se sentem ouvidas, o interesse delas em sala de aula aumentou consideravelmente.”
Autonomia e pensamento crítico

Outro reflexo do projeto é um maior desenvolvimento da autonomia das crianças, que não esperam mais que apenas a professora traga leituras ou diga a elas o que escrever. “Elas me trazem notícias que querem discutir em sala ou livros que gostariam que eu lesse para todos e criticam filmes e livros que não tenham personagens negros”, explica Mayla.

Apesar de o projeto ter sido desenvolvido por iniciativa própria, a professora ressalta a importância do suporte da escola. “Desde que comecei a desenvolver o projeto em sala, recebi apoio da equipe gestora, além de muitos elogios”, afirma.
Escola sem Partido

Para Mayla, “todo profissional da educação deveria ter autonomia em sala de aula” – uma ideia que bate de frente com o programa “Escola sem Partido”, que condena uma suposta doutrinação ideológica no ensino.

“Quando defensores do programa dizem que os professores não são isentos de ideologia e, por isso, vão ensinar às crianças o que se deve pensar, ignoram que elas não são sujeitos sem capacidade de crítica”, explica.

A professora ainda diz que a escola é um espaço onde o direito de aprendizagem da criança e a pluralidade de ideias e de concepções devem ser mantidos. “Há a necessidade urgente de se pensar em práticas inclusivas, que considerem as diferenças e a diversidade de opiniões sem demonizá-las, nunca o contrário”.

Colégios australianos terão feminismo como matéria obrigatória para alunos

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Foi criado um estilo de currículo feminista a ser abordado nas escolas do estado de Vitoria

Foi criado um estilo de currículo feminista a ser abordado nas escolas do estado de Vitoria

 

Publicado no Catraca Livre

Há dois anos, estudantes da Fitzroy High School, de Melbourne, na Austrália, fundaram um coletivo feminista com ajuda da professora Briont O’Keffe. O chamado ‘Fightback’ começou com um pequeno grupo de alunos interessados, mas depois de divulgada as suas propostas reuniu mais de 1.200 seguidores nas redes sociais.

Com o sucesso do grupo, foi criado um estilo de currículo feminista a ser abordado nas escolas do estado de Vitoria. De acordo com o documento, os estudantes do colégio australianos deverão aprender sobre igualdade e representações de gênero, entenderão com estatísticas de violência doméstica e refletirão sobre a visibilidade feminina nas mais diversas áreas.

A proposta reúne mais de 30 lições e estará disponível no fim do mês para os estudantes de sexo feminino e masculino

‘Feminismo é uma outra palavra para igualdade’, diz Malala a Emma Watson

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Paquistanesa luta pelo direito de meninas frequentarem a escola.
Discurso de Watson na ONU encorajou a menina a se dizer feminista.

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Publicado em G1

A atriz Emma Watson se encontrou, em Londres, com a paquistanesa Malala Yousafza, no lançamento do documentário “He named me Malala” (“Malala, no Brasil). Ao conversarem, Malala afirmou que se sentiu encorajada a dizer que é feminista depois de ouvir um discurso proferido pela inglesa no ano passado.

A atriz britânica ficou conhecida pelo papel de Hermione na franquia “Harry Potter”. Ela foi nomeada, em junho de 2014, como embaixadora da boa vontade da agência ONU Mulheres. Três meses depois, fez um discurso sobre feminismo em uma conferência na ONU – seu objetivo era engajar os homens na luta pela desigualdade que atinge as mulheres.

Malala, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz 2014, se identificou com os argumentos da atriz na ocasião – a paquistanesa é conhecida por batalhar pelo direito das meninas à educação em seu país, dominado pelos talibãs. Ela levou um tiro na cabeça, aos 15 anos, quando saía da escola. Era uma reação do movimento islâmico que não aceita a educação feminina.

“Após ouvir um discurso seu, eu decidi que não há nada de errado em se considerar feminista. Então, eu sou uma feminista e todos nós deveríamos ser feministas, porque feminismo é uma outra palavra para igualdade”, disse Malala, durante a conversa com Watson.

A paquistanesa também afirmou que seu pai, Ziauddin, dono da escola onde ela estudava, é um exemplo a todos os homens e se intitula feminista. “Quando eu ouvi essa palavra pela primeira vez, escutei algumas reações positivas e outras negativas. Eu hesitei em dizer: sou feminista ou não?”, conta.

No Facebook, Emma Watson compartilhou o vídeo que registra a conversa das duas e escreveu um texto em agradecimento a Malala. “Ela tem a força de suas convicções junto com um tipo de determinação que eu raramente encontro”, diz, em referência à menina.

Emma pede apoio, junto com Malala, pela igualdade de gêneros. “Não vamos tornar assustador vocês dizerem que são feministas. Eu quero fazer isso da forma mais cordial e inclusiva possível. Vamos dar as nossas mãos e caminhar para produzir alguma mudança real”, escreveu.

Atualmente, Malala vive na cidade inglesa de Birmingham com sua família – eles se mudaram após a tentativa de assassinato. Ela estuda história, matemática, religião e planeja entrar na Universidade de Oxford, na Inglaterra, ou de Stanford, na Califórnia, Estados Unidos.

Conheça a vida da filósofa Simone de Beauvoir

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 Simone de Beauvoir manteve um relacionamento com o filósofo Jean-Paul Sartre Foto: Getty Images

Simone de Beauvoir manteve um relacionamento com o filósofo Jean-Paul Sartre
Foto: Getty Images

 

Conheça a história de Simone de Beauvoir, expoente do feminismo, que teve um trecho de sua obra inclusa em uma questão do Enem

Voltaire Schilling, no Terra

Tanto pelo lado do pai, Georges Bertrand de Beauvoir, nascido no coração do faubourg Saint-Germain, o bairro do alto patriciado parisiense, como pelo lado da sua mãe, Françoise Brasseur filha de um banqueiro de Verdum, a jovem Simone de Beauvoir não teria nada a reclamar da vida. Pertencia por assim dizer ao que os franceses chamam crème de la crème.

Desde que nascera em 9 de janeiro de 1908, fora cercada pelos carinhos da família bem como por uma atenta ama que lhe satisfazia os caprichos. Com exceção de alguns acessos de fúria comuns a uma menina mimada que divertiam sempre o seu pai – considerava-a jocosamente como ‘ insociável’-, nada indicava que no íntimo da encantadora filhinha, mais do que bem-nascida, se gestava a mais profunda defensora da emancipação feminina do século 20, quiçá de todos os tempos.

Ainda entrando na adolescência percebeu que sua inteligência pairava sobre a das suas colegas de escola e outros parentes próximos, o que a levou a uma crescente solidão da qual poucos a tiravam, como sua amiga predileta Elizabeth Le Coin (Zaza) e, mais tarde, aquele que lhe serviu inicialmente como tutor intelectual, o seu primo Jacques Champigneulle (que a apresentou aos poemas de Mallarmè e outros modernistas menos enigmáticos assim como os pintores da moda). O pai, ainda que advogado e funcionário graduado sem maiores ambições era um leitor compulsivo e amante do teatro e das representações domésticas quando revela seu discreto lado histriônico, certamente a influenciou na sua inclinação pelo abstrato e no gosto pelos livros.

Bem ao contrário da maioria das meninas e moças da sua classe social e do seu tempo que seguiam obedientes os ditames e os interditos de uma educação católica e aos mitos de um ‘cristianismo místico’ que tinha por fim formar boas e ‘respeitáveis esposas’, ‘mulheres direitas’, dóceis e crentes. E se isto não fosse alcançado, lhes restava a vida de solteira ou a clausura no convento.

O futuro que a aguardava não as fazia escapar de um matrimônio arranjado (sim, mesmo na Paris do século 20, as famílias católicas tramavam casamentos de conveniência), administração do lar, filhos, festas e férias com a família, etc., causou-lhe crescente aversão. Indignou-se que os interditos feitos às mulheres em geral não era estendidos aos homens, como se eles pertencessem a outro planeta.

Os primórdios desta sua trajetória rumo à emancipação completa (negou-se a casar, ser dona de casa e a ter filhos) acha-se magistralmente relatado no livro Mèmoires d’une jeune fille rangèe , ‘Memórias de uma moça bem comportada’ , de 1958, escrito na plena maturidade da autora.

Este magnífico livro, que contou com afiada lembrança da autora, é literatura de alta elaboração. Serviu não apenas como testemunho da façanha pessoal dela em enfrentar os condicionamentos socio-religiosos de uma época ‘e o destino abjeto que a aguardava’. Funcionou, por igual, como uma espécie de roteiro no qual milhares de outras tantas mulheres, suas leitoras, dispersadas pelo mundo Ocidental, se inspiraram. Insatisfeitas com o dia-a-dia que as decepcionava, recorreram à trajetória oferecida por Simone. O ‘eterno feminino’, tão alardeado pelos românticos e outros místicos, tinha um propósito conformista. Uma capsula ideológica que obrigava as mulheres seguirem comportadas conforme o que o mundo masculino determinara. Era preciso romper com aquilo.

Por certo, inconscientemente, ela seguia os propósitos dos famosos versos de Lou-Andreas Salomé (1850-1937), umas raras mulheres admitidas como igual num meio majoritariamente masculino como aquele liderado por Sigmund Freud em Viena. Os versos de Lou praticamente são uma convocação à ação das mulheres:

Ouse, ouse… ouse tudo!!

Não tenha necessidade de nada!
Não tente adequar sua vida a modelos,
nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém.
Acredite: a vida lhe dará poucos presentes.
Se você quer uma vida, aprenda… a roubá-la!
Ouse, ouse tudo! Seja na vida o que você é, aconteça o que acontecer.
Não defenda nenhum princípio, mas algo de bem mais maravilhoso:
algo que está em nós e que queima como o fogo da vida!!

(Lou Salomé – Reflexões sobre o problema do amor.)

A partir de Simone, milhares passaram a ambicionar uma vida diferente do que lhes programava a família e a sociedade. Queriam independência, ser autônomas, ter sua profissão, seu sustento próprio, buscavam a felicidade e não a comodidade do lar sem sal em que a maioria delas vivia. Insistiam, como Simone o fez, no prazer de querer viver, ‘de estar no mundo’, de escolher e traçar elas próprias os caminhos a seguir em sua existência, ainda que assumindo os riscos decorrentes disto.

Os primeiros passos

“Inaugurei minha nova existência subindo as escadas da Biblioteca Sainte-Geneviève…”

O convento de Saint-Geneviève, na Place du Panthéon, desativado pela Revolução de 1789, ficou sem destino por um bom tempo até que a prefeitura de Paris encarregou o arquiteto Henri Labrouste de transformar o belo prédio numa biblioteca. Obra realizada entre 1838-1858. Nenhuma solução poderia ser melhor. Foi neste local magnifico (mais…)

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