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Ler poesia é mais útil para o cérebro que livros de autoajuda, dizem cientistas

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William Shakespeare

William Shakespeare

 

Você já podia imaginar, mas agora está evidenciado cientificamente: ler poesia pode ser mais eficaz em tratamentos psicológicos do que livros de autoajuda. E mais: textos de escritores clássicos como Shakespeare, Fernando Pessoa, William Wordsworth e T.S. Eliot, mesmo quando de difícil compreensão, estimulam a atividade cerebral de modo muito mais profundo e duradouro do que textos mais simples e coloquiais.

Marcelo Vinicius, no Obvious

Um texto já publicado pela agência EFE, mas que poderia ser revisto, afinal estamos comentando sobre a velha história da análise crítica sobre Literatura tida como de qualidade e a Literatura tida como de entretenimento, e mais, auto-ajuda: a leitura de obras clássicas estimula a atividade cerebral e ainda pode ajudar pessoas com problemas emocionais, diz estudo.

Ler autores clássicos, como Shakespeare, Fernando Pessoa, William Wordsworth e T.S. Eliot, estimula a mente e a poesia pode ser mais eficaz em tratamentos do que os livros de autoajuda, segundo um estudo da Universidade de Liverpool.

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Especialistas em ciência, psicologia e literatura inglesa da universidade monitoraram a atividade cerebral de 30 voluntários que leram primeiro trechos de textos clássicos e depois essas mesmas passagens traduzidas para a “linguagem coloquial”.

Os resultados da pesquisa, antecipados pelo jornal britânico “Daily Telegraph”, mostram que a atividade do cérebro “dispara” quando o leitor encontra palavras incomuns ou frases com uma estrutura semântica complexa, mas não reage quando esse mesmo conteúdo se expressa com fórmulas de uso cotidiano.

Esses estímulos se mantêm durante um tempo, potencializando a atenção do indivíduo, segundo o estudo, que utilizou textos de autores ingleses como Henry Vaughan, John Donne, Elizabeth Barrett Browning e Philip Larkin.

Os especialistas descobriram que a poesia “é mais útil que os livros de autoajuda”, já que afeta o lado direito do cérebro, onde são armazenadas as lembranças autobiográficas, e ajuda a refletir sobre eles e entendê-los desde outra perspectiva.

“A poesia não é só uma questão de estilo. A descrição profunda de experiências acrescenta elementos emocionais e biográficos ao conhecimento cognitivo que já possuímos de nossas lembranças”, explica o professor David, encarregado de apresentar o estudo.

Após o descobrimento, os especialistas buscam agora compreender como afetaram a atividade cerebral as contínuas revisões de alguns clássicos da literatura para adaptá-los à linguagem atual, caso das obras de Charles Dickens.

8 fatos estranhos da vida dos escritores

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Como todos os seres humanos, os escritores possuem diversificados hábitos e manias, fato esse que se acentua em determinadas situações.

Estátua de Franz Kafka em Praga.

Estátua de Franz Kafka em Praga.

Dayane Manfere, no Homo Literatus

Muitos podem considerar certas manias como loucura, outros não se importam, mas o que impera é a dúvida: o hábito ajudou os escritores ou a escrita influenciou seus hábitos?

Para ilustrar a questão vamos iniciar com Fernando Pessoa, poeta português que viveu alguns anos de sua vida na África do Sul. Era um grande apreciador de horóscopos, e quando Cecilia Meireles marcou um encontro com o poeta enquanto esteve em Portugal, levou um chá de cadeira: passou horas aguardando-o e, decepcionada pela ausência, foi embora. Chegando a seu hotel, recebeu um livro com uma explicação: seu horóscopo informou que aquela manhã não era um bom dia para encontros.

Victor Hugo por sua vez, só escrevia em pé. Por vezes passava quatorze horas seguidas trabalhando e foi justamente assim que produziu sua obra Os Miseráveis.

Já o inglês Lord Byron, um dos maiores poetas europeus e personalidade que mais influenciou no romantismo, tinha gansos como animais de estimação. Eles o acompanham, inclusive, a ida em eventos sociais. Byron tinha também outros fatos e rituais que marcaram sua vida, além de dúvidas até hoje impostas, como o fato de que tinha uma perna torta, mas ninguém sabia qual era e quem dizia saber nunca entrava em um consenso.

Honoré de Balzac amava café. Ingeria cerca de 50 xícaras por dia, e quando não conseguia tomar, ele mesmo moía os grãos e o comia puro.

Já Edgar Allan Poe, enquanto esteve em um internato na Inglaterra, que ficava ao lado de um cemitério, teve aulas de matemática ao lado dos túmulos onde ele e os demais alunos calculavam a idade dos mortos pela data marcada nas lápides. Para os exercícios físicos os alunos abriam as covas onde os mortos da cidade seriam enterrados.

Entre as irmãs Brontë, Emily era a mais excêntrica. A romancista passava horas parada, olhando para a janela, ficava silenciosa contemplando o mundo. Certa vez sua irmã Charlotte a apanhou olhando para a janela e descobriu, horas depois, que as venezianas estavam fechadas, Emily ficou seis horas parada observando as venezianas da janela.

Já Franz Kafka tinha um complexo enorme sobre seu corpo. Foi adepto de diversas dietas e inclusive por questões de saúde era vegetariano. Na época em que viveu, o nudismo estava em voga e assim como seus demais contemporâneos Kafka frequentava SPA, mas diferente dos demais se recusou a retirar as calças e ficou conhecido como “o homem com calção de banho”.

Pablo Neruda só escrevia com tinta verde. Inclusive certa vez escrevia um poema quanto à tinta se tornou escassa. Quando o estoque voltou ao normal já era tarde, perdeu a inspiração e seu poema ficou inacabado.

Até quanto os hábitos desses e tantos escritores os influenciaram a se tornarem o que são hoje? E você, tem algum hábito que o influencia ou alguma influência que derivou novos hábitos?

Fontes

1 – A vida secreta dos grandes autores. Robert Schnakenberg. Ediouro

2 – Manias e métodos de trabalho de 10 grandes escritores. Revista Bula, por Euler de França Belém (clique aqui)

3 – Costumes e manias dos escritores famosos. Folha de S. Paulo (clique aqui)

4 – As manias mais curiosas dos escritores. Saraiva Conteúdo, por André Bernardo. (clique aqui)

5 – A mania dos escritores. Falando de Literatura, por Fernanda Jimenez. (clique aqui)

Jerónimo Pizarro se firma como uma das maiores autoridades na obra de Fernando Pessoa

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Colombiano lidera jovens pesquisadores do espólio do poeta português

Equipe de jovens investigadores se beneficia do fato de obra do poeta (na foto múltipla acima) estar há dez anos em domínio público - Divulgação

Equipe de jovens investigadores se beneficia do fato de obra do poeta (na foto múltipla acima) estar há dez anos em domínio público – Divulgação

Maurício Meireles em O Globo

RIO — O labirinto que Jerónimo Pizarro percorre não é feito de paredes, mas de papéis. Trinta mil documentos, para ser mais exato. Há mais de dez anos, o pesquisador colombiano começou uma tarefa interminável: investigar os documentos deixados por Fernando Pessoa em seu espólio, guardado pela Biblioteca Nacional de Portugal. Hoje, Pizarro lidera uma equipe de jovens pesquisadores que é a principal responsável pelas novas descobertas nos arquivos do poeta. E o colombiano, que se consolida como uma das maiores autoridades da atualidade na obra do autor, é o mestre desse labirinto.

Pelos menos as últimas 30 edições com inéditos do poeta lusitano têm a participação do pesquisador, seja na descoberta ou na organização. Os poemas desconhecidos de Pessoa que a “Granta Portugal” publicou, ano passado, por exemplo, foram descobertos pelo colombiano e pelo brasileiro Carlos Pittella-Leite, seu orientando. A prosa de Álvaro de Campos, cuja edição antiga não estava completa, foi reorganizada por ele com os inéditos. A publicação de novos poemas em francês e em inglês, além da descoberta de novos heterônimos, teve seu comando. Sete das edições críticas que a Imprensa Nacional portuguesa patrocina desde os anos 1980, quando a primeira parte do espólio foi vendida à Biblioteca Nacional do país, foram organizadas por Pizarro. A lista de livros é profícua.

— Chamo o Jerónimo de mestre do labirinto, porque poucos sabem percorrer os documentos sem se perder. Há teorias de que ele possui irmãos gêmeos trabalhando para ele 24h por dia, pois ele sempre responde a qualquer e-mail em menos de dez minutos, a qualquer hora do dia. E ainda assim sempre aparenta saúde e bem-estar… — brinca o pesquisador Carlos Pitella Leite, da equipe do colombiano. — Além da professora Cleonice Berardinelli, com quem tive a honra de estudar por muitos anos, ninguém me surpreende tanto quanto o Jerónimo ao mergulhar na obra pessoana: o que a mestra Cleonice tem de profundidade, Jerónimo tem de amplitude.

São inúmeras novidades, mas nenhuma delas chegou ao Brasil. A única exceção é a edição crítica que Jerónimo Pizarro fez do “Livro do desassossego” — lançada no país ano passado, em versão comercial, pela Tinta-da-China.

Poeta proibido em casa

A obra é motivo de controvérsia, porque Pessoa apenas deixou fragmentos, alguns sem data, e ninguém sabe ao certo como pretendia organizá-los. Por isso, nas palavras de Jerónimo Pizarro, remexer os velhos papéis do poeta é como cair em uma armadilha.

— Havia muitas versões do “Livro…” Em 1982, surgiu uma importantíssima, que demorou 20 anos para ficar pronta. Outra editora lançou uma em 1991, mas a alterou em 1997. Em 1998, sai a do Richard Zenith (publicada no Brasil pela Companhia das Letras), mas a versão dele já foi alterada pelo menos três vezes — afirma Pizarro. — Em 2010, quando aparece a edição crítica, o cenário era muito caótico. A primeira edição tinha 500 fragmentos, a última já tinha quase 800. Era importante consultar de novo os originais.

Não à toa, depois das 20h Fernando Pessoa é assunto proibido na casa de Jerónimo Pizarro em Bogotá. E lá não entram fotos, camisas, souvenirs do poeta. É preciso desintoxicar, porque também é difícil viver tão imerso na obra de alguém.

— Sinto que durante toda a minha vida Fernando Pessoa vai me preparar surpresas. Afinal, mais da metade do espólio ainda está por conhecer. Estou a descobrir Pessoa todos os dias. É uma tentação permanente, estou sempre entre tentar fugir e ser atraído — diz o pesquisador, com seu português de sotaque castelhano e lusitano. — É um trabalho para várias gerações. Se formos brincar um bocadinho e formos analisar as previsões astrológicas do poeta, só daqui a 150 anos ele será plenamente conhecido.

Como um colombiano se tornou uma das principais autoridades na obra de Fernando Pessoa? Foi por amor, diz ele. Quando fazia seu doutorado em literatura hispânica em Harvard, Pizarro apaixonou-se por uma portuguesa. E, por isso, começou um doutorado simultâneo em Portugal relativo ao espólio — para ter motivos para passar o verão em Lisboa. Concluiu os dois. Hoje, ele ensina na Universidad de Los Andes, em Bogotá.

Claro que o amor não foi tudo. Jovem, Pizarro começou a ler literatura brasileira e apaixonou-se por Guimarães Rosa. Leu Manuel Bandeira, Machado de Assis e outros. Por pouco não veio para o Brasil estudar a obra do autor de “Grande sertão: veredas” (“Quase que Guimarães Rosa foi meu Fernando Pessoa”, brinca).

A equipe que trabalha com Jerónimo Pizarro se beneficia do fato de Fernando Pessoa ter entrado em domínio público em 2006, gerando um segundo boom dos estudos pessoanos. Num caso talvez inédito, a obra do poeta foi liberada para uso duas vezes. A primeira foi em 1985, nos 50 anos de sua morte. Na ocasião, os herdeiros do escritor descobriram uma brecha na lei que esticou o prazo do domínio público para 70 anos, e, em 1997, a obra de Pessoa voltou para a posse deles. Por isso, até 2006 só se conhecia do espólio os escritos permitidos pelos herdeiros — publicados pela Assírio & Alvim, em Portugal, e pela Companhia das Letras, no Brasil. Por aqui, as edições ainda têm o texto estabelecido naquele período.

— As editoras brasileiras e de outros países não reagiram ao fato de Pessoa estar em domínio público — avalia Pizarro.

No ano passado, o trabalho do colombiano foi laureado com o Prêmio Eduardo Lourenço, troféu que leva o nome do filósofo e crítico literário que é uma espécie de Antônio Cândido lusitano. Pizarro foi o primeiro autor latino-americano a receber a honraria. Lourenço definiu o colombiano como “o mais jovem dos heterônimos pessoanos” na ocasião. Afinal, editar Pessoa também é ajudar a construir a obra do poeta, já que ele só publicou um livro em vida, “Mensagem”. O que restou no espólio são livros inacabados, projetos com uma caligrafia difícil — que Pizarro hoje sabe decifrar como poucos.

No Brasil e em Portugal, a pesquisa em arquivos está um pouco fora de moda, depois de ter cedido espaço à teoria literária. MasPizarro defende que é impossível fazer a crítica literária da obra de Fernando Pessoa sem a pesquisa no espólio. Em primeiro lugar, porque as edições antigas podem conter erros. Em segundo, porque o que foi publicado não representa nem metade do que o autor escreveu.

— Hoje a universidade portuguesa estimula pouco os alunos a pesquisarem no espólio. Portugal e Brasil são países com muita influência francesa, e a França tem uma relação difícil com a filologia, em favor da teoria literária. É difícil explicar que a crítica textual faz parte da crítica literária, e elas podem conviver — defende Pizarro.

Fernando Pessoa ficou conhecido como o poeta múltiplo, por conta de seus heterônimos. Mas ele era muitos mais do que se pensava. Ao lado de Patrício Ferrari, Pizarro publicou “Eu sou uma antologia”, em que lista 136 autores fictícios criados pelo escritor — número que pode crescer com novas pesquisas documentais. A primeira lista do tipo, feita em 1990 por Teresa Rita Lopes, tinha 72 nomes.

A pesquisa pessoana sempre foi dividida em grupos de acadêmicos, nem sempre com relações amistosas. Ao formar um time de pesquisadores jovens, Jerónimo Pizarro espera se posicionar do lado de fora de conflitos acadêmicos históricos.

— Tentei criar um novo caminho, com mais liberdade. Quero trabalhar fora do feudalismo das universidades — diz ele.

Dois livros trazem sugestões de roteiro de espaços literários de SP

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Volumes guiam os leitores por ruas, prédios, casas e eventos

Maria Fernanda Rodrigues, no Estadão

Quem gosta de literatura sempre dá um jeitinho de visitar lugares importantes para seus autores e personagens preferidos quando viaja – a casa de Victor Hugo em Paris, de Charles Dickens em Londres, de Fernando Pessoa em Lisboa, de Pablo Neruda em Santiago, de Anne Frank em Amsterdã; as ruas de Dublin por onde Harold Bloom passa em Ulysses, de James Joyce; os bares em que Ernest Hemingway bebia em Paris e Madri.

Há alguns exemplos aqui também, como as casas de Guimarães Rosa, em Cordisburgo, e a de Cora Coralina, na cidade de Goiás. E há a Casa Guilherme de Almeida, nas colinas de Perdizes, que não deixa nada a desejar aos tantos museus casa espalhados pelo mundo. Muito pelo contrário. Passando de cômodo em cômodo, é possível imaginar como o poeta modernista e sua mulher Baby viviam – eles se mudaram para lá em 1946, quando o bairro ainda era longe de tudo. Estão ali, para quem quiser ver (a visita, gratuita, é guiada), objetos, louças, livros, a arma que usou na Revolução Constitucionalista, os brinquedinhos dos cães, a luneta – e muitos retratos do casal e quadros feitos pelos amigos Di Cavalcanti. Lasar Segall, Tarsila do Amara, Anita Malfatti.

O museu funciona desde 1979, mas nunca foi tão visitado quanto é hoje – pudera, é o único espaço do gênero na cidade e sua existência se deve, na opinião de Marcelo Tápia, diretor da instituição, ao próprio poeta e Baby. Alunos visitam com frequência, mas sua função não se limita à preservação da memória da família. Lá, são realizados cursos e debates, sobretudo na área de tradução.

Se a Casa Guilherme de Almeida é única no quesito museu em São Paulo, como centro cultural e espaço para curtir literatura ela encontra pares de peso. Dois livros lançados recentemente se dedicam a mostrar essa faceta da Cidade. Rotas Literárias de São Paulo, de Goimar Dantas, é uma espécie de grande reportagem sobre o tema. Já São Paulo, Literalmente – Uma Viagem Pela Capital Paulista na Companhia de Grandes Escritores, de João Correia Filho, funciona como um guia, com informações práticas sobre os lugares.

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Os volumes guiam os leitores por ruas, prédios, casas, histórias, livros e eventos, como a Balada Literária, um happening que neste ano será de 19 a 23 de novembro. Estão ali, também, os saraus do Binho e da Cooperifa, que têm chamado a atenção de muitos jovens da periferia e do centro; o Museu da Língua Portuguesa, com suas exposições sobre escritores; o Teatro Municipal, para lembrar da Semana de Arte Moderna; a Mercearia São Pedro, misto de venda, bar e livraria na Vila Madalena; o Cemitério da Consolação e o passeio guiado; as livrarias; as bibliotecas; a Casa das Rosas, na Paulista, que abriga o acervo de Haroldo de Campos e tem uma programação literária intensa; os sebos, etc.

Mas este é um assunto vivo, e há sempre alguma novidade, como a primeira estante fixa do projeto Esqueça um Livro, instalada no Rock’n Roll Burguer, na Augusta. Funciona assim: basta ir lá, deixar aquele livro que você não quer mais e pegar outro – se quiser. Essa história de “esquecer um livro” está virando mania na cidade e há pouco foi criado o Leitura no Vagão. Por isso, se encontrar um livro perdido e quiser pegar para ler, é só deixá-lo em algum lugar depois para que outra pessoa também possa usá-lo. E isso vale também para alguns táxis que integram o projeto Bibliotaxi.

Museu. O poeta modernista Guilherme de Almeida deixou sua casa em Perdizes para a posteridade

Museu. O poeta modernista Guilherme de Almeida deixou sua casa em Perdizes para a posteridade

Outra novidade: será inaugurada, entre outubro e novembro, pelo Instituto Brasil Leitor e SPTrans, a primeira biblioteca do programa Leitura no Ponto. Ela ficará no Terminal Pinheiros. Até 2015 serão criadas outras seis e até 2017, mais cinco. Além disso, a Cozinha da Doidivana – Ivana Arruda Leite cozinha enquanto conversa com um escritor -, que fez sucesso no Casarão do Sesc Ipiranga, cuja programação termina em novembro, deve ser levada, no ano que vem, para dentro da unidade da instituição no bairro.

Como os dois livros mostram, há muitas atrações literárias em São Paulo. Basta definir a região e fazer o próprio roteiro, ou escolher um escritor ou uma obra e seguir seus passos. Mas não deixe de visitar as bibliotecas, onde é possível, além de emprestar e consultar livros, participar das intensas programações culturais.

A Biblioteca de São Paulo, onde ficava o Carandiru, não está nos livros, mas é um dos melhores exemplos de transformação do espaço público e a que tem o conceito mais moderno. Uma das mais antigas que foi recentemente restaurada é a Mário de Andrade, na Consolação. A mais nova de todas, a Brasiliana Guia e José Mindlin, na USP, também merece a visita.

Criada em 1936 por Mário de Andrade, a Biblioteca Monteiro Lobato é dedicada à literatura infantojuvenil. Uma exposição em homenagem ao criador de Emília mostra até um pedaço da costela dele. Por falar em Mário, na casa em que ele viveu, na Barra Funda, são realizados cursos na área de literatura. Um piano encostado na recepção foi o que sobrou dos tempos do escritor, mas vale o exercício de imaginação ao andar pela casa, que é aberta ao público – tudo o que pertenceu a ele está no Instituto de Estudos Brasileiros.

E há uma série de encontros nos mais diferentes espaços. Nas unidades do Sesc, por exemplo, as dicas são o Sempre um Papo – a cada 15 dias um escritor participa de bate-papo na Vila Mariana -, o Clube de Leitura no Sesc Carmo – hoje, às 19 h, o tema é Toda Poesia, de Leminski, e o Estante Viva, no Belenzinho – Eliardo França (30/10) e Paloma Vidal (27/11) falam de seus livros fundamentais.

ROTAS LITERÁRIAS DE SÃO PAULO
Autora: Goimar Dantas
Editora: Senac (368 págs.,R$ 59,90)

SÃO PAULO, LITERALMENTE
Autor: João Correia Filho
Editora: Leya(400 págs.,R$ 89,90)

ENDEREÇOS

Casa G. de Almeida
Rua Macapá, 187 – Tel. 3673-1883

Oficina da Palavra (Casa Mário de Andrade)
Rua Lopes Chaves, 546 – Tel. 3666-5803

Biblioteca de São Paulo
Av. Cruzeiro do Sul, 2.630 – Tel. 2089-0800

Biblioteca M. Lobato
Rua General Jardim, 485 – Tel. 3256-4122

Biblioteca M. de Andrade
Rua da Consolação, 94 – Tel. 3256-5270

Esqueça um Livro
Rua Augusta, 538

Sesc (programação e unidades)
www.sescsp.org.br

Literatura e internet: uma jornada metamórfica

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Se tem muito discutido a relação entre internet e literatura, tal como a importância de divulgação da leitura e escrita.

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Luísa G. Ferreira, no Homo Literatus

A literatura possui suas raízes intrinsecamente ligadas à cultura. A escrita não surgiu de forma prorrompida, todos os passos da humanidade influenciaram e influenciam o que escrevemos hoje. De acordo com o momento vivido, as suas relações dentro do contexto histórico e político o escritor cria sua própria técnica e suas características tão importantes em sua obra. Um exemplo são os personagens criados por Dostoiévski, sempre bem construídos psicologicamente, explorando o lado obscuro existente em todo homem. Suas referências são as escolas de teologia, psicologia e o modernismo literário, contribuindo na construção do existencialismo e expressionismo.

Jamais consegui nada, nem mesmo me tornar malvado; não consegui ser belo, nem mau, nem canalha, nem herói, nem mesmo um inseto. E agora, termino a existência no meu cantinho, onde tento piedosamente me consolar, aliás sem sucesso, dizendo me que um homem inteligente não consegue nunca se tornar alguma coisa, e que só o imbecil triunfa. Sim, meus senhores. O homem do século XIX tem o dever de ser essencialmente destituído de caráter; está moralmente obrigado a isso. O homem que possui caráter, o homem. De ação, é um ser essencialmente medíocre. Tal é a convicção de meus quarenta anos de existência. (Conto: O Subsolo, de Fiódor Dostoiévski)

Bem como Dostoiévski, o escritor português Fernando Pessoa possui características bem marcantes. O Modernismo Português (que inclui Pessoa) teve como base os movimentos de vanguarda européia com a publicação do primeiro volume da revista Orpheu. Instalou-se com a eclosão da Primeira Guerra Mundial e possuía uma crítica à estética e a idealização estabelecidas pela Revolução Industrial. A utilização de heterônimos foi um marco de Pessoa. Diferente dos pseudônimos que constituíam apenas a utilização de um outro nome, os heterônimos eram a constituição de uma nova pessoa com características próprias, uma multiplicação de identidades.

Alguns exemplos de seus heterônimos e suas peculiaridades:

Alberto Caeiro

Considerado o Mestre, tem uma linguagem simples, ligada a natureza, provavelmente herdada pelas suas origens de poucos anos de estudo. Adepto do verso livre, anti-metáfisico, predominando as sensações visuais (vê o pensamento como um mundo vazio e obscuro), pouco uso de metáforas.

Creio no mundo como num malmequer,

Porque o vejo. Mas não penso nele

Porque pensar é não compreender…

O Mundo não se fez para pensarmos nele

(Pensar é estar doente dos olhos)

Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…

(Trecho de O Meu olhar, Alberto Caeiro)

Ricardo Reis

Adepto do que promove calma, clareza, serenidade e paz. Baseado principalmente nas doutrinas gregas: epicurismo (busca da tranquilidade) e estoicismo (não envolver muito emocionalmente para ter liberdade). Possui uma linguagem culta com temas mitológicos.

Vê de longe a vida.

Nunca a interrogues.

Ela nada pode

Dizer-te. A resposta

Está além dos deuses.

Mas serenamente

Imita o Olimpo

No teu coração.

Os deuses são deuses

Porque não se pensam.

(Trecho de Segue o Teu Destino, Ricardo Reis)

Álvaro de Campos

Possuiu três fases de escrita: a Decadentista, Futurista/Sensacionista e a Intimista/Pessimista). Possui poemas mais intensos e apelativos, existencialmente. O heterônimo futurístico de Fernando Pessoa, de angústia incessante.

Ah, onde estou ou onde passo, ou onde não estou nem passo,

A banalidade devorante das caras de toda gente!

Ah, a angústia insuportável de gente!

(Múrmuro outrora de regatos próprios, de arvoredo meu)

Queria vomitar o que vi, só a náusea de ter o visto,

Estômago da alma alvorotado de eu ser …

(Oh, onde estou, de Álvaro de Campos)

Estes exemplos (Dostoiévski e Pessoa) demonstram claramente a relação entre as mudanças ocorridas em um contexto social e a literatura. Para o entendimento da relação com a internet é preciso esgueirar-se pela história; as primeiras formas de escrita eram baseadas em símbolos, evoluindo em diferentes sistemas de acordo com os diferentes povos existentes naquela época. O início da escrita é um marco importante no desenvolvimento humano, delimitando o início da história e o fim da pré-história. Como sendo uma das primeiras formas de comunicação, se torna a base indispensável para as outras que se desenvolveram e as que se desenvolverão ao longo do tempo.

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Durante a década de 1960, uma das mais importantes invenções humanas começou a ganhar forma. Com objetivos militares; a internet, entrementes a Guerra Fria, possuía inicialmente o intuito de armazenamento e compartilhamento de dados sigilosos dos EUA. Muitas das tecnologias usadas hoje foram em seus princípios, utilidades bélicas e de guerrilhas. Apesar disso, com o desenvolvimento científico, estas invenções se tornaram muito úteis para fins acadêmicos, e nos dias atuais tornou-se um alicerce para divulgações literárias.

Se tem muito discutido a relação entre internet e literatura, tal como a importância de divulgação da leitura e escrita. Assim, é viável pontuar os principais tópicos abrangentes das duas áreas para um entendimento mais amplo e racional.

A internet como ferramenta de escrita

Muitos são os textos publicados na internet, sejam em blogs ou em sites. É importante distinguir as várias nuances que cercam um texto feito para a internet e um texto publicado na internet. Os textos escritos em blogs possuem um escrita mais subjetiva, focando na vida do escritor, uma espécie de diário; além disso, é comum o uso de termos típicos da web como: ‘rs’, ‘haha’. Geralmente são texto criados para a web. Já a maioria dos sites focam em um material mais formal, discutindo assuntos atuais ou clássicos. Um exemplo é o Homo Literatus, com o jornalismo literário, publica sobre a literatura (material crítico), e a literatura (com crônicas e contos dos colaboradores). Como diferenças básicas, estão o público alvo e o tipo de escrita: formal ou informal.

Credibilidade

Hoje em dia os internautas possuem uma maior distinção do que se tem credibilidade ou não na internet. Como “todos” têm liberdade de publicar qualquer material, a web pode se tornar vilã para alguns leitores; ludibriando e distorcendo conteúdos de relevância.

Discursões

Conteúdos são despejados todos os dias, a maioria são superficiais. Assim como a credibilidade, o leitor precisa encontrar discussões mais profundas, que não se contentem em mostrar apenas um lado da moeda, principalmente em assuntos atuais, que estejam em pauta.

Algo novo ou apenas uma reprodução modificada do real?

Pode-se pensar que a internet introduziu diversos conteúdos, tipos de escrita; mas a maioria já existia e foi apenas modificada. Como as cartas, os moleskines para anotações, e até mesmo, os próprios livros.

A globalização

A internet se tornou um meio de globalização, uma extensão do que o capitalismo introduziu com empresas multinacionais, se tornando uma forma de adquirir mais acesso do que antigamente. Também é mais comum os textos coletivos, unindo ideias e pessoas de diferentes lugares. Incluindo a possibilidade de armazenamento de fotos e textos virtualmente.

As dificuldades de publicação

Um dos motivos do aumento nas publicações independentes vem da resistência das editoras. Muitas ainda preferem publicar um best-seller americano que já possui viabilidade e com certeza será sucesso de vendas no Brasil, do que investir em um novo escritor. Isso faz com que as publicações independentes permanecem no texto integral, sem ser corrompido por mudanças feitas por editores. O público passa e ter um contato mais direto com o autor, com a sua escrita em essência. Há também, situações que envolvem ‘da internet para a editora’, como aconteceu com o ‘Eu me chamo Antônio’, um projeto envolvendo poemas; fizeram um grande sucesso na internet e só após foi publicado editorialmente.

As redes sociais

O auge de divulgação fica com as redes sociais. Através do Twitter e do Facebook quem está conectado vê como uma forma de se expressar publicar frases/citações e trocar informações sobre suas obras preferidas. Os jovens são quem dominam esta área, criando fan pages sobre obras as obras mais populares do momento. Os livros se tornam mais do que conteúdo, um objeto; e os leitores se tornam fãs; alimentando o mercado editorial e formando um vínculo de afeto entre eles e os escritores.

Não há dúvida quanto a importância da internet na divulgação literária. A resistência encontrada inicialmente com argumentos que apoiavam que a web extinguiria os livros, foi aos poucos sendo substituída pela simples razão: como sendo um veículo de informação e compartilhamento, fez com que o que foi produzido no mundo possa circular com mais facilidade; escoando pelas valas das fronteiras e despejando, em cada ponto do mundo, um pouco de identidade.

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