Contando e Cantando (Volume 2)

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Dicionário reúne frases machistas que dão uma ideia de como o sexo feminino é percebido

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Publicado no Nem Lolita Nem Balzaca

Reprodução

Doutora em Literatura Portuguesa e autora de mais de 20 livros, a escritora Salma Ferraz acaba de lançar uma obra diferente das usuais, o Dicionário Machista – Três mil anos de frases cretinas contra as mulheres (Jardim dos Livros, 175 págs., R$ 19,90). A compilação reúne citações de pensadores, músicos, celebridades e anônimos, que dão uma ideia mais seletiva do que os homens pensavam sobre as mulheres e o que as mulheres pensavam sobre elas mesmas.

– Mas o principal motivo é mostrar a estupidez e irracionalidade do machismo, deixar registrado isto, para que sigamos em direção a um mundo melhor. Demorou 2 mil anos para que as mulheres conquistassem seu espaço no Ocidente. Sempre digo que a iluminação não tem volta. Temos que caminhar para a frente. Homens não são superiores às mulheres e vice-versa – explica a autora.

Ao escrever sobre o tema, Salma percebeu que a sociedade avançou, mas precisa levar a conquista adiante.

– Estou lendo livros da escritora de Moçambique Paulina Chiziane e fiquei impressionada com o machismo reinante em muitos países da África – conta.

No livro aparecem ideias de Jesus Cristo a Nietzsche, de Machado de Assis a Vinicius de Moraes, de Marilyn Monroe a Carla Perez e, segundo a autora, a maioria das frases foi pesquisada no contexto em que foram escritas.

– Quanto à frase atribuída a Jesus (“Toda mulher que se fizer homem entrará no Reino dos Céus”), pensei bem e vejo que teria sido melhor ter sido deixada de lado, porque esta frase pertence aos Apócrifos, que são textos não canônicos. Mas é importante notar que puseram uma frase machista na boca de Jesus, que em absoluto, nunca foi machista. Pelo contrário, ele foi talvez o primeiro feminista da história do Ocidente: defendeu as mulheres, andava rodeado de mulheres e apareceu primeiro a uma mulher – diz.

Garante, ainda, que as mulheres são muito mais machistas do que os homens:

– Sim, afinal quem cria e educa os homens?

Avanços e retrocessos — Os avanços, segundo Salma, são consideráveis. Dizem respeito aos movimentos feministas (principalmente na década 1960), a criação no Brasil das Delegacias da Mulher, da Secretaria de Políticas para as Mulheres, em 2003, no Governo Federal, da Lei Maria da Penha, em 2006.

Apesar disso, diz que é preciso tomar cuidado com o chamado “machismo cordial”.

– Lógico que as mulheres no Ocidente já têm um lugar ao sol, ou pelo menos direito a um raio de sol, muito diferente do Oriente, em especial, países muçulmanos. Mas existe ainda um ranço de machismo suave, aquele que transforma a mulher num mero objeto sexual descartável. No Brasil, há outro tipo de escravidão, a da Bunda, na qual a mulher dança com o rosto voltado para a parede. Não importa seu nome, só sua bunda que fica voltada para o público masculino, é o que eu denomino de a hiperbunda midiática – critica.

Mesmo com todas as críticas, Salma cuida, no entanto, para não distorcer as impressões.

– Também não podemos radicalizar e tirar o que é espontâneo no brasileiro. A mulher geralmente sabe identificar e separar uma brincadeira de uma frase com cunho machista – completa.

Algumas frases citadas no livro:

“Mulher só é fiel à moda”. Justino Martins

“A mulher sem filhos é uma mulher morta”. Talmude

“Fraqueza, teu nome é mulher”. Shakespeare, em Hamlet

“Há sempre um macaco na mais bela e angelical das mulheres”. Balzac

“A mulher ideal é sempre a dos outros”. Stanislaw Ponte Preta

“Mulher é igual a música: depois que fica velha ninguém canta”. Para-choque de caminhão

“A mulher, quando pensa, pensa mal”. Publílio Siro

“Só respeitamos as mulheres que não desejamos”. Roland Dorgelès

“A mulher é um homem que não trabalha”. Esther Vilar

“Vais ver mulheres? Não esqueças o açoite”. Nietzsche

Bando invade museu e leva livros e obras raras

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Documentos foram roubados do Centro de Ciências, Letras e Artes, em Campinas; as peças devem entrar no catálogo da polícia internacional

Publicado no MSN

A Polícia Civil e a Polícia Federal investigam um grupo de assaltantes que levou livros e obras raras, incluindo cartas enviadas ao ex-presidente Campos Sales (1898- 1902). Os documentos foram roubados do Centro de Ciências, Letras e Artes (CCLA), em Campinas, interior paulista, na quinta-feira.

Por volta das 16 horas, cinco assaltantes em uma Fiorino invadiram o CCLA, dominaram 12 pessoas que estavam no local – seis funcionários e seis visitantes – e levaram parte do acervo. Todos foram amarrados e trancados em uma sala enquanto o restante do grupo agia.

Entre as obras está uma coleção de 11 livros franceses de botânica do século 17, que já tinham sido roubados e recuperados pela Polícia Federal, no Rio de Janeiro, quatro anos atrás. O presidente do CCLA, Marino Ziggiatti, disse que os ladrões foram direto para uma sala onde ficam as obras mais raras. “Eles sabiam o que queriam, mas o valor dessas obras é histórico, não tem como dar um preço para elas.”

Mais de cem peças foram levadas do local. Entre o material roubado estão cartas e documentos do Museu Campos Sales, que fica no prédio, em homenagem ao quarto presidente da República, Manuel Ferraz de Campos Sales, que nasceu em Campinas e, antes de morrer, doou seu acervo pessoal para o CCLA.

Entre os documentos retirados também estão uma carta do imperador chinês Guangxu (1875-1908), enviada ao ex-presidente, e um volume sobre a história da Dinastia Romanov, que foi um presente do czar Nicolau II (1894-1917), último imperador da Rússia, a Campos Sales.

Na fuga, os assaltantes fugiram na Fiorino, com adesivos colados com a escrita “Museu das Artes”. Para a Delegacia de Investigações Gerais, de Campinas, foi um disfarce para a ação. A PF ainda não recebeu o catálogo com a descrição de quais obras foram roubadas, mas informou que assim que receber vai acionar a Interpol para tentar impedir que o material saia do País.

Alerta internacional. O delegado da PF, Hermógenes de Freitas Leitão Neto, destacou que um alerta logo será divulgado. “A Interpol (polícia internacional) tem um cadastro de obras raras roubadas e de suspeitos procurados especializados nesse tipo de crime. Isso vai auxiliar nas investigações da Polícia Civil”, disse.

O presidente do CCLA afirmou que até quinta-feira vai concluir o levantamento das obras furtadas e fornecer a lista dos títulos para a polícia iniciar as buscas. “Quem roubou acha que esse material tem valor, mas são documentos históricos, não acredito que alguém colecione esse tipo de coisa.”

Dia da Poesia

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Hoje é comemorado o “Dia da Poesia”. Pra comemorar essa data, escolhemos o vídeo “Amarello Amor”, escrito, narrado e estrelado pela atriz Carolina Ferraz.

Vi no Vimeo

“Todos os Poemas” expõe faceta pouco conhecida do escritor Paul Auster

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Lucas Ferraz, na Folha de S.Paulo

O ano de 1979 marcou uma virada na vida do escritor americano Paul Auster, 66. Com o primeiro casamento em crise e quebrado financeiramente, ele encerrava a década em que se dedicou à poesia em crise existencial e literária.

Sem conseguir escrever desde o ano anterior, ele se arriscava novamente na prosa com o texto experimental “Espaços em Branco”, que coincidentemente concluiu na mesma noite em que seu pai morreu.

Para Auster, foi seu renascimento como escritor e ponto de partida para tornar-se um dos mais importantes nomes da literatura contemporânea dos EUA.

O escritor americano Paul Auster, que tem suas poesias reunidas em livro, em Paris (Thomas Samson/AFP)

O escritor americano Paul Auster, que tem suas poesias reunidas em livro, em Paris (Thomas Samson/AFP)

Toda sua produção literária até esse período, que marca os anos de formação do autor, acaba de chegar às livrarias.

Todos os Poemas” (Companhia das Letras) expõe uma faceta pouco conhecida de Auster até mesmo por seu público nos EUA: a reunião de sua obra poética, escrita na década de 1970 – as exceções são “Espaços em Branco” e as reflexões “Anotações de um caderno de rascunhos”, de 1967, compostas quando ele tinha 20 anos.

“Foi a fundação de tudo o que fiz nos 30 anos seguintes”, disse o escritor em entrevista à Folha.

Fragmentos dos romances que tentou escrever nessa época foram usados anos depois na novela “Cidade de Vidro”, que compõe um de seus mais famosos livros, “A Trilogia de Nova York”.

“Nunca estava satisfeito com o que escrevia. Quando tinha 22 ou 23 anos, decidi que não poderia mais escrever ficção. Então me dediquei apenas à poesia”.

Parte dos poemas foram escritos no período em que viveu na França, entre 71 e 74. Na segunda metade daquela década, algumas de suas coletâneas foram publicadas em revistas de poesia, mas sem transformá-lo em um nome conhecido.

Há em seus poemas elementos que, mais tarde, ele desenvolveria em sua obra ficcional, como o existencialismo.

O último poema ele escreveu em 1979. “Descobri que estava me repetindo, a poesia me abandonou”, conta. “Talvez algum dia eu ressuscite e escreva [poesia] novamente”.

Sobre os diferentes gêneros em que transitou, ele faz uma comparação: “Poesia é como tirar fotografia, enquanto escrever ficção é como dirigir um filme, com imagens e muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo”.

Auster não tem dúvida de que “Espaços em Branco” foi um trabalho seminal para sua transição entre poesia e prosa.

Inspirado em um espetáculo de dança, ele tentou traduzir a experiência da performance coreográfica. O autor trabalhou no texto por duas semanas. O ponto final foi dado na madrugada do dia 15 de janeiro de 1979, mesma noite em que perdeu o pai.

“Foi algo cruel e estranho, que ainda me machuca. Justo no momento em que voltei à vida, meu pai morre. Foi terrível”, recordou Auster.

Após a morte do pai, o escritor começou a trabalhar no que seria seu primeiro romance, “A Invenção da Solidão”, em que mescla recordações pessoais, tendo como base a figura paterna, com imagens literárias e artísticas.

A seguir, trechos da entrevista que ele concedeu à Folha, em Nova York, na última quinta. (mais…)

A arca da memória

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Ana Ferraz, na Carta Capital

Na imensa caixa de vidro tenuamente iluminada por lâmpadas de LED reina uma suave penumbra. O -sistema de ar condicionado e um filtro purificador mantêm afastados dois inimigos: poeira e umidade. O convidativo silêncio cria o clima propício à contemplação. Nas prateleiras acomodadas em três andares superprotegidos encontra-se um tesouro da cultura brasileira, a coleção de 60 mil volumes e perto de 32 mil títulos garimpados ao longo de 82 anos pelo empresário José Mindlin, doada por ele e sua mulher, Guita, à Universidade de São Paulo em 2006.

Caixa dos sonhos. Do térreo do edifício, o diretor Pedro Puntoni contempla os três andares recheados de obras raras. Fotos: Veronica Manevy e Brasiliana USP

Caixa dos sonhos. Do térreo do edifício, o diretor Pedro Puntoni contempla os três andares recheados de obras raras. Fotos: Veronica Manevy e Brasiliana USP

O homem que nutria um ciúme amoroso por seus livros morreu sem ver finalizado o templo erguido no campus para acomodar seu fabuloso acervo, cujas portas serão abertas ao público dia 23 de março. O complexo que abriga a Brasiliana USP, livraria, café, auditório e o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) consumiu 130 milhões de reais (obtidos por meio de parcerias da USP com a Fapesp e o BNDES) e seis anos de construção.

“Foi um grande investimento para abrigar a coleção com dignidade. O prédio seguiu os moldes da mais alta qualidade de construção, automação e mobiliário e ajuda a mostrar um caminho de excelência para o País”, diz o diretor da Brasiliana USP, Pedro Puntoni. Ao longo da trajetória, não foram poucas as críticas acerca do alto custo do projeto. “Bilhões são gastos em obras na cidade, por que não podemos ter uma biblioteca que faça jus à coleção que abriga?”

O belo edifício de linhas elegantes foi pensado como um abrigo para os livros, um centro de pesquisa e de atividades culturais e também uma plataforma tecnológica, com um laboratório de digitalização e acesso livre das imagens dessas obras raras por meio da internet, explica o historiador, envolvido com o projeto desde o início. Quando José Mindlin e Guita optaram por doar a coleção, que no íntimo ele sempre soube não poder ser propriedade de poucos, dada a sua dimensão e importância, o professor István Jancsó, diretor do Instituto de Estudos Brasileiros, ficou à frente do projeto e convocou Puntoni para ajudar na tarefa de digitalização. Com a morte de Mindlin, aos 95 anos, em fevereiro de 2010, e de Jancsó, aos 71 anos, um mês depois, Puntoni assumiu a direção. “Foi o ponto mais difícil da jornada. Não esperávamos que eles não vissem a obra concluída. Foi duro viver o luto e continuar.

Entre os modelos a inspirar a Brasiliana USP estão a belíssima Beinecke Rare Books and Manuscript Library, da Universidade de Yale, em Connecticut, e também a biblioteca da Brown University, em Rhode Island, ambas nos Estados Unidos. “São bibliotecas especiais, cujo foco é, sobretudo, preservar o acervo, formado por livros únicos, maravilhosos, e garantir o acesso a esses conteúdos raros”, diz Puntoni. Do ponto de vista arquitetônico, a Brasiliana que saiu das pranchetas de Eduardo de Almeida e Rodrigo Mindlin Loeb, neto do empresário, remete bastante a Beinecke. “A arquitetura foi pensada para que se tivesse uma visão de tudo. Lá os livros ficam numa caixa de vidro fechada, a nossa é uma caixa aberta.”

Oportunidade única. Entre os títulos que estarão expostos ao público até o dia 28 de junho, no térreo do edifício, está a Nova Lusitania, História de Guerra Brasilica (1675, Lisboa), de Francisco de Brito Freire

Oportunidade única. Entre os títulos que estarão expostos ao público até o dia 28 de junho, no térreo do edifício, está a Nova Lusitania, História de Guerra Brasilica (1675, Lisboa), de Francisco de Brito Freire

Para os que, como o argentino Jorge Luis Borges, acreditam que o paraíso seja uma biblioteca, esta é uma filial do Éden. Também aqui o impulso de tocar é irresistível, embora impraticável. A raridade das obras e sua fragilidade fazem com que a Brasiliana USP necessite impor regras especiais. Nenhum exemplar da coleção poderá ser emprestado. “As pessoas vão poder manusear alguns livros aqui, mas de acordo com normas que os curadores determinarão, como o uso de luvas.” Uma das primeiras tarefas do conselho da biblioteca será formular os procedimentos. “Tentamos conciliar essa dimensão mais restritiva, natural e comum no mundo todo, com a ideia de universalização do acesso. Isso nos é permitido com a tecnologia da digitalização e da informação.” Nesse quesito, o laboratório foi o primeiro na América Latina a contar com o robô Kirtas, capaz de ler 2,4 mil páginas por hora. O escâner, que no início do projeto custava 220 mil dólares, hoje custa 80 mil.

Os livros de domínio público encontram-se disponíveis na internet (www.brasiliana.usp.br), entre eles obras completas de Joaquim Manoel de Macedo, Joaquim Nabuco, Machado de Assis, José de Alencar, Castro Alves, Casimiro de Abreu e outros. Puntoni avalia que um terço dos 32 mil títulos que compõem a coleção estará na web. No caso dos livros em que o direito de propriedade intelectual esteja em vigência, a biblioteca oferecerá uma imagem digital. Um exemplo citado como icônico é o datiloscrito da primeira versão de Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa. “É um documento extraordinário da cultura brasileira e universal. É único, todo anotado e rabiscado pelo autor. Temos de oferecer esse exemplar para leitura, mas o curador decidirá quantos leitores poderão manusear este livro por ano.”

Os livros de Guimarães Rosa e de outros autores que morreram há menos de 70 anos não são passíveis de digitalização. “A Lei de Direito Autoral proíbe a reprodução de qualquer obra nessas condições, mesmo que seja apenas para preservação. Nenhum dispositivo limita o direito do autor em benefício da preservação e isso é trágico”, avalia Puntoni. Como contraponto, menciona a legislação estabelecida na Inglaterra em 1956. “Se a British Library quiser microfilmar ou digitalizar as partituras originais dos Beatles para acesso aos pesquisadores, pode fazer isso. Não poderá publicar na internet, o que também não é nosso objetivo. Nossa ideia seria oferecer acesso digital a um documento raro e evitar o manuseio.”

O precioso acervo que José Mindlin começou a construir aos 13 anos tem valor inestimável, sob todos os aspectos. Houve um momento, nos anos 1980, em que se noticiou a oferta de 25 milhões de dólares por parte de uma universidade americana. “Ele sempre recusou. Foi uma existência de garimpagem, de esperar o momento certo.” A generosidade do colecionador tornou-se conhecida. “Gerações de editores devem ser agradecidas, pois ele permitiu reproduzir imagens e emprestou títulos para exposições sem jamais cobrar. Queria que os livros fossem de todos e foi identificado por seus pares como o homem que tinha uma arca, que preservaria os objetos para o futuro”, conta o diretor. O gosto alucinado pelos raros exemplares manifestava-se revestido de cautela somente em alguns casos. Um dos xodós era a primeira edição de Viagem ao Brasil, de Hans Staden (1557), disponível online, os livros da imprensa régia e dos primeiros poetas brasileiros, como Cláudio Manoel da Costa. Esse título e outros como Marilia de Dirceo (1792), de Tomás Antônio Gonzaga, estarão em exposição até 28 de junho. “Esses, Mindlin exibia nas mãos dele.”

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