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Curta produzido por alunos da UFRJ é selecionado para mostra no Festival de Cannes

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“Sublime cor do teu silêncio” mostra o contato entre uma adolescente com deficiência auditiva e um mímico

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Publicado em O Globo

Tirar dez nas duas disciplinas para as quais produziram o curta “Sublime cor do teu silêncio” foi apenas a primeira conquista do grupo de alunos do quinto período de Comunicação da UFRJ por trás do trabalho. A produção acaba de ser aprovada para uma mostra oficial não-competitiva do Festival de Cinema de Cannes deste ano, garantindo uma injeção de ânimo na equipe.

– Começamos a pensar no projeto em junho do ano passado e produzimos tudo no segundo semestre. Finalizamos uma versão para que fosse avaliada pelas disciplinas Cinegrafia e Tecnologia da Produção – conta o roteirista Rubens Takamine, de 22 anos. – Depois disso, recebemos o feedback de uma professora com alguns pontos que poderiam ser melhorados. Fizemos ajustes e fechamos a versão final em março deste ano.

Com 15 minutos de duração, o filme conta a história da adolescente com deficiência auditiva Camila, interpretada pela atriz e aluna do curso Nádia Oliveira. A personagem tem nos seus desenhos um dos principais canais de conexão com o mundo e, ao conhecer um mímico, estabelece novas maneiras de contato.

Takamine conta que teve a ideia do roteiro a partir de experiências pessoais, como ter trabalhado numa mostra voltada para deficientes visuais. Temas relacionados à acessibilidade vinham despertando seu interesse e a ideia foi abraçada por toda a equipe. Para construir a personagem de Camila livre de qualquer abordagem que pudesse soar preconceituosa, o grupo buscou ajuda no Instituto Nacional de Educação de Surdos.

– Fizemos pesquisas para entender bem como eles se comunicam e pedimos à direção que avaliasse nosso roteiro – diz Takamine, que pretende adicionar recursos técnicas que torne o filme mais acessível, como audiodescrição.

PROCESSO COLABORATIVO

Cerca de 15 alunos participaram da produção, que teve um orçamento de apenas R$ 500, sendo a maior parte empregada em transporte e alimentação da equipe.

– Tudo foi feito de maneira bem colaborativa, usei uma câmera própria para filmar e cada um comprou uma coisa para ajudar. Para gravarmos as cenas no Parque Lage, onde se passa mais da metade das filmagens, contamos com apoio da própria instituição – conta.

 

 

Os resultados dessa experiência fez com que a equipe começasse a se movimentar para alçar novos voos. Eles formaram o coletivo de artes e midiativismo Cinestesia Coletiva e querem produzir novos trabalhos.

– A gente esperava que teria um bom retorno, porque o filme ficou visualmente bem bonito e com uma boa história. Mas não imaginávamos que iriamos tão longe em tão pouco tempo. Agora, queremos fazer mais pesquisas e levar esse tipo de produção adiante – conta Takamine.

Ele espera, ainda, que a própria trajetória do filme leve outros estudantes a caminhos semelhantes.

– Muita gente faz os trabalhos pensando apenas nas disciplinas e nem os inscreve em festivais. A gente espera que histórias como as nossa criem uma nova cultura, em que os alunos não tenham medo de expor suas ideias.

Por que ler — e não ver — ‘O Grande Gatsby’

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Maria Carolina Maia, na Veja

Há cerca de um mês, desde que O Grande Gatsby do diretor australiano Baz Luhrmann (Moulin Rouge) estreou no circuito comercial americano e em seguida fez o seu debute internacional no 66º Festival de Cannes, não se fala de outra coisa: como o longa se tornou mais uma tentativa fracassada de adaptar para as telas do cinema a obra-prima do americano F. Scott Fitzgerald. Antes dele, três tentaram, sem sucesso. Em 1926, apenas um ano depois da publicação do livro, Herbert Brenon apresentou sua versão, muda, para o clássico da era do jazz. Em 1949, Jay Gatsby, o anti-herói romântico que sobe na vida de maneira ilícita para reconquistar um (rico) amor de juventude. Vinte e cinco anos mais tarde, era a vez de Mia Farrow e Robert Redford assumirem os papéis que agora estão com Leonardo DiCaprio e Carey Mulligan, em uma produção que tinha de nostalgia o que a nova tem de glitter. Cada uma, como se vê, atirou para um lado. E nenhuma acertou a alma de O Grande Gatsby.

Razões não faltam, desde o fato tantas vezes confirmado de que um filme não pode substituir um livro. Por questão de espaço, mesmo: não cabe em um longa-metragem de duas ou três horas todo o conteúdo que se deita nas páginas de um livro. Mesmo que esse livro, como é o caso do título de Fitzgerald, seja curto, de pouco mais de cem páginas.

Na lista abaixo, você encontra outros pontos que explicam por que a leitura é imprescindível. E por que, afinal, é melhor investir no livro e não no longa. Se nenhuma delas for suficiente, resta ainda aquela que é capaz de convencer até mesmo um papa: na praça há anos, e por diversas editoras, O Grande Gatsby tem exemplares mais baratos que um ingresso de cinema.

Por que ler ‘O Grande Gatsby’

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Pelo valor histórico
O Grande Gatsby é um clássico. Há quem diga até que é o maior clássico da literatura americana. É, portanto, leitura obrigatória para quem gosta de livro ou deseja ter cultura geral. Além do mais, é um livraço, bem escrito e saboroso. A sua leitura vale a pena. Se nenhum diretor ou estúdio de cinema conseguiu até agora um resultado satisfatório na conversão do romance em filme, isso só comprova a complexidade que é transportar uma obra desse porte para a sala escura. E que o melhor acesso a essa história continua sendo pelas letras.

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Pela beleza do texto
Quem quiser apenas ver o filme, e não ler o livro, vai perder trechos incríveis como esses:

“– Se não fosse pela neblina, daria para enxergar a sua casa do outro lado da baía – disse Gatsby. – Há sempre uma luz verde brilhando a noite toda na extremidade do seu cais.

Daisy tomou o braço de Gatsby, mas ele parecia absorto no que acabara de dizer. Talvez lhe ocorresse que o significado daquela luz se esvaíra para sempre. Comparada à enorme distância que o separava de Daisy, a luz lhe parecera antes muito próxima, quase a ponto de tocá-la. Tão próxima quanto uma estrela da lua. Agora era de novo uma luz verde no cais. Sua coleção de objetos mágicos havia diminuído.”

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Pela genialidade do autor
Na edição de O Grande Gatsby lançada no ano passado pela Penguin Companhia, um ensaio do crítico britânico Tony Tanner que antecede o romance dá exemplos do trabalho de mestre empreendido por Fitzgerald. Fez toda a diferença, por exemplo, ele ter dado pouca voz ao protagonista, que é menos conhecido pelo que diz do que pelo que escreve sobre ele o narrador, Nick Carraway, tornando-se ainda mais nebuloso para o leitor. “De acordo com as convenções da narrativa ficcional, quando um narrador põe o discurso de outro personagem entre aspas ou travessão, é que aquelas são as palavras exatas: ele tem a obrigação de lembrar tudo à perfeição, o que é ligeiramente implausível”, escreve Tanner. “Pois bem, pelas minhas contas rudimentares, cerca de 4% do livro está nas palavras do próprio Gatsby, e é revelador saber que Fitzgerald reduziu consideravelmente o montante de discurso direto dado a Gatsby no rascunho do romance. Por exemplo: ‘Jay Gatsby!’, ele gritou de súbito numa voz retumbante. ‘Lá vai o grande Jay Gatsby. É isso que as pessoas vão dizer — espere só para ver.'”. Com tais rompantes, Gatsby entregaria a si mesmo, revelando-se de forma demasiado crua e inequívoca. Por meio da subtração sistemática, Fitzgerald torna seu herói muito mais misterioso, menos óbvio, uma figura essencialmente mais elusiva. Em lugar disso, temos mais espaço para Nick teorizar, especular e imaginar –e talvez suprimir, remodelar, fantasiar.”

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Pela profundidade do texto
É fato: um filme não consegue reproduzir a densidade de um livro. É uma questão de espaço, de formato. E quem assistir ao longa não vai perceber – ao menos da mesma maneira de quem ler o livro – a profundidade dos sentimentos que envolvem o narrador, Nick, e sua visão do protagonista, Gatsby, de quem se torna cúmplice e amigo. De novo as palavras do professor Tanner, um comentário sobre uma das passagens mais impactantes do romance: “‘Palpável sem ser real’ é uma clara distinção neoplatônica (o verdadeiro Real deve ser encontrado, ou buscado, no reino das Ideias ou Formas imutáveis). Mas Nick descreve algo mais do que um momento de pânico existencial, tal como relatado por Sartre em A Náusea, quando Roquentin, encarando uma árvore, experimenta a terrível sensação da absurda e horrenda gratuidade das coisas – uma epifania negativa na qual a matéria sem significado se torna monstruosa, ‘ameaçadora’ e ‘grotesca’. Para Gatsby, pensa Nick, é assim que o mundo vazio e destituído de seu sonho deve ter se revelado; para Nick, talvez, é assim que o mundo sem Gatsby, sem as suas fantasias obstinadas, porém condenadas, está parecendo.”

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Cena do longa purpurinado de

Pelo avesso do sonho americano
Não há modo melhor para descrever — do que em palavras — o pesadelo em que o sonho americano se converteu para muitos no século XX. É o que Fitzgerald faz ao descrever, por exemplo, a desolação de uma área chamada de “vale das cinzas”. “Um sítio surreal onde as cinzas crescem como trigo em sulcos, colinas e jardins grotescos; onde as cinzas tomam a forma de casas, chaminés e fumaça e, por fim, num esforço transcendental, assumem a forma de homens cinzentos que se movem debilmente e se desmancham no ar poeirento. Vez por outra, uma fileira de carros sujos vinha rastejando pela pista invisível, soltava um rangido horripilante e freava”. O especialista britânico em literatura americana Tony Tanner destaca na passagem o uso da palavra “transcendental”, segundo ele um termo caro aos americanos e empregado com ironia pelo autor de O Grande Gatsby. “Trata-se de uma transcendência negativa, uma dissimulação, o completo oposto do que Emerson e seus amigos esperavam para o continente, com a terra produzindo e cultivando verdadeiras cinzas”, diz Tanner. “Fitzgerald não foi o primeiro nem será o último americano a ter uma visão entrópica da América – o grande continente agrário se tornando uma espécie de depósito de lixo ou terra desolada, na qual, com suprema perversidade, a única coisa que brota é a morte.”

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