Contando e Cantando (Volume 2)

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Livro reúne cartas de celebridades e anônimos sobre temas variados

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Entre as correspondências, palavras de Fidel Castro ao presidente Franklin Roosevelt

Elias Thomé Saliba, no Estadão

“Se for de seu agrado, mande-me uma nota verde americana de dez dólares, na carta, porque eu nunca vi uma nota verde americana de dez dólares e gostaria muito de ter uma.” Quem escreveu isso, num inglês meio torto, foi um menino de 12 anos chamado Fidel Castro, em novembro de 1940, numa atrevida carta ao presidente Franklin Roosevelt. Esta é uma entre as 125 reunidas por Shaun Usher em Cartas Extraordinárias. Concebido a partir do blog Letters of Note, o livro reproduz, em bela apresentação gráfica, a maior parte dos fac-símiles das missivas.

Como quase tudo que vem da internet, Usher não se pautou por nenhum critério de seleção, o que só vira um problema porque desorienta o leitor incauto. De qualquer forma, libera quem lê para começar por onde quiser, numa surpreendente viagem por esses espaços privilegiados, cheios de sinceridade, farta irrestrição verbal e que conectam, quase sempre em alta voltagem emocional, o privado e o público.

CARTAS EXTRAORDINÁRIAS

Reprodução > "Amigos insistiram para que eu lhe escrevesse pelo bem da humanidade. Mas relutei em fazê-lo por achar que seria uma insolência de minha parte. (...) É evidente que o senhor é a única pessoa do mundo capaz de impedir uma guerra que pode reduzir a humanidade ao estado de barbárie. (...)" (1939)

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“Amigos insistiram para que eu lhe escrevesse pelo bem da humanidade. Mas relutei em fazê-lo por achar que seria uma insolência de minha parte. (…) É evidente que o senhor é a única pessoa do mundo capaz de impedir uma guerra que pode reduzir a humanidade ao estado de barbárie. (…)” (1939)

Reprodução > Início da carta enviada por Fidel Castro a Franklin Roosvelt: "Tenho 12 anos. Sou um menino mas penso muito mas não penso que estou escrevendo para o presidente dos Estados Unidos. Se for de seu agrado, mande-me uma nota verde americana de dez dólares, na carta, porque eu nunca vi uma (sic)" (1940)

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Início da carta enviada por Fidel Castro a Franklin Roosvelt: “Tenho 12 anos. Sou um menino mas penso muito mas não penso que estou escrevendo para o presidente dos Estados Unidos. Se for de seu agrado, mande-me uma nota verde americana de dez dólares, na carta, porque eu nunca vi uma (sic)” (1940)

Reprodução > "Aceitei sua sugestão referente a Charlotte Braun e vou descartá-la. (...) Lembre-se, porém, de que você e seus amigos carregarão na consciência a morte de uma criança inocente. Está disposta a assumir tal responsabilidade?" (1955)

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“Aceitei sua sugestão referente a Charlotte Braun e vou descartá-la. (…) Lembre-se, porém, de que você e seus amigos carregarão na consciência a morte de uma criança inocente. Está disposta a assumir tal responsabilidade?” (1955)

Reprodução > De Grace Bedell, 11 anos, para Abraham Lincoln: "Eu tenho quatro irmãos e alguns deles vão votar no senhor e se o senhor deixar crescer a barba eu vou tentar convencer os outros a votar no senhor o senhor ficaria muito melhor porque tem o rosto muito magro” (sic) (1860)

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De Grace Bedell, 11 anos, para Abraham Lincoln: “Eu tenho quatro irmãos e alguns deles vão votar no senhor e se o senhor deixar crescer a barba eu vou tentar convencer os outros a votar no senhor o senhor ficaria muito melhor porque tem o rosto muito magro” (sic) (1860)

Reprodução > De Abraham Lincoln a Grace Bedell: "Querida mocinha. Recebi sua amabilíssima carta. (...) Quanto à barba, como nunca usei, você não acha que as pessoas iriam dizer que é afetação de minha parte, se agora eu passasse a usar?" (1860)

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De Abraham Lincoln a Grace Bedell: “Querida mocinha. Recebi sua amabilíssima carta. (…) Quanto à barba, como nunca usei, você não acha que as pessoas iriam dizer que é afetação de minha parte, se agora eu passasse a usar?” (1860)

Reprodução > De Jack, o Estripador, "do inferno", para Georges Lusk: "Envio para o sinhor metade do rim que tirei de uma mulier gardei para o sinhor pois a outra parte eu fritei e comi estava muito gostozo” (sic) (1888)

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De Jack, o Estripador, “do inferno”, para Georges Lusk: “Envio para o sinhor metade do rim que tirei de uma mulier gardei para o sinhor pois a outra parte eu fritei e comi estava muito gostozo” (sic) (1888)

Nosso olhar pode borboletear por cartas pouco conhecidas, como a do sobrinho de Adolf Hitler, Patrick Hitler – o qual um ano depois de fugir da Alemanha e já residente nos Estados Unidos foi recusado pelo exército americano. Ele escreve ao presidente Roosevelt que, afinal, autoriza o alistamento – obviamente, após intensas e detalhadas investigações do FBI. Ou pode deter-se em missivas cheias de uma humildade desiludida, como a de Gandhi para Hitler, em julho de 1939, simplesmente pedindo “pelo bem da humanidade, para impedir uma guerra que nos poderia reduzir a um estado de barbárie”.

É sempre recomendável passar ao largo de alguns bilhetes de profundo mau gosto, colhidos no setor de criminalística, como aquele de outubro de 1888, acompanhado de uma caixinha de horrível conteúdo orgânico, remetido para George Lusk, o delegado de Whitechapel, e atribuído a Jack, o Estripador: “Envio para o sinhor metade do rim que tirei de uma mulier gardei para o sinhor pois a outra parte eu fritei e comi estava muito gostozo” (sic). Melhor vaguear pelos desvãos obscuros da vitrine, relendo escritos permeados de desbocados conselhos eróticos, como a de Anaïs Nin, de 1932, numa das muitas cartas nas quais, juntamente com seu amante Henry M[/TEXTO]iller, enviaram a um fictício “Colecionador”, obcecado com sexo: “Atividade intelectual, criatividade, romantismo, emoção. É isso que dá ao sexo suas texturas surpreendentes, suas sutis transformações e seus elementos afrodisíacos. (…) Por que você está perdendo tanto tempo por causa desse periscópio na ponta do pênis quando poderia desfrutar de todo um harém de maravilhas diferentes e sempre novas?”

O leitor pode ainda encher-se de nostalgia com a intensidade de cartas cheias de declarações afetivas, dor pela falta da pessoa amada ou registros comoventes da perda e do luto – nem sempre escritas por celebridades. Em 1615, Kimura Shigenari, jovem samurai de 22 anos, se preparou para comandar seus homens no cerco de Osaka. Sua esposa, sabendo que ele jamais voltaria e, sentindo-se incapaz de conviver com sua ausência, escreveu, pouco antes de se suicidar: “Nos últimos anos, partilhamos o mesmo travesseiro como marido e mulher que pretendiam viver e envelhecer juntos, e me incorporei a ti como se fosse tua própria sombra. (…) Agora perdi toda a esperança em relação ao nosso futuro juntos neste mundo e, atenta ao exemplo daqueles homens, decidi dar o passo extremo enquanto ainda estás vivo. Estarei esperando por ti no fim do que chamam o caminho para a morte.”

Muitas cartas descrevem o sempre inconformado desabafo da impotência humana em relação às tragédias da vida. Em novembro de 1905, Marc Twain, depois de perder o filho de nove meses com difteria, em seguida a sua filha Suzy, com meningite, e alguns anos depois, sua esposa, Olivia, assim respondeu a uma carta de 1904, acompanhada de um panfleto de J. H. Todd, criador e vendedor do “elixir da vida”, um remédio mágico capaz de curar todas as doenças: “Quem escreveu a propaganda é, sem dúvida, a criatura mais ignorante do planeta; sem dúvida, é um idiota (…) descendente de uma longa linhagem de idiotas que remonta ao Elo Perdido. (…) Daqui a alguns instantes, minha raiva vai passar e eu, provavelmente, vou rezar pelo senhor, mas enquanto não passa, apresso-me a desejar que o senhor, por engano, tome uma dose do seu próprio veneno.”

Hemingway. Estima-se que seu acervo seja composto de 6 mil correspondências

Hemingway. Estima-se que seu acervo seja composto de 6 mil correspondências

Mas o destaque da vitrine epistolográfica acaba, como sempre, arrebatado pelas cartas de crianças, as quais quando não escrevem – mas rabiscam seus inumeráveis desenhos entre tortuosas linhas num estilo pueril, de honestidade pura e chocante – acabam provocando as mais notáveis respostas aos seus bilhetes escritas por adultos compulsoriamente levados a desprezar papas na língua ou metáforas hipócritas. Em 1860, depois de ver um retrato ainda imberbe do então candidato a presidente Abraham Lincoln, Grace Bedell, uma menina de 8 anos, escreveu-lhe uma carta dizendo, sem mais delongas: “Eu tenho quatro irmãos e alguns deles vão votar no senhor e se o senhor deixar crescer a barba eu vou tentar convencer os outros a votar no senhor o senhor ficaria muito melhor porque tem o rosto muito magro” (sic). Lincoln respondeu à carta e até hoje se diz (sem insistir muito na verdade do fato) que ele passou a usar a barba por sugestão da menina. Já em 1897, Virgina O’Hanlon, de nove anos, seguindo o impaciente conselho do pai, que lhe dissera “se está no Sun é verdade”, escreve para o editor do jornal: “Por favor, diga a verdade para mim, Papai Noel existe?” A resposta vem em alto estilo: “Você poderia pedir para o seu papai contratar alguns homens para vigiar chaminés e pegar o Papai Noel, mas ainda que eles vissem Papai Noel entrando, o que isso provaria? (…) As coisas mais concretas do mundo são as que nem as crianças nem os adultos conseguem ver. (…) O mundo invisível é coberto por um véu que nem o homem mais forte, que nem todos os homens mais fortes juntos são capazes de rasgar. Só a fé, a fantasia, a poesia, o amor e o sonho conseguem abrir aquela cortina e contemplar e retratar a suprema beleza. Tudo isso é real? Ah, Virginia, essa é a única coisa real e imutável que existe neste mundo.”

“Lembre-se, porém, de que você e seus amigos carregarão na consciência a morte de uma criança inocente. Está disposta a assumir tal responsabilidade?” Essa foi a resposta certeira de Charles Schulz, o criador da série Peanuts a uma adolescente quando, em janeiro de 1955 ele teve que atender aos pedidos de defenestrar a personagem Charlotte Braun de seus quadrinhos, que despertara profunda antipatia nos leitores.

Diversão garantida mesmo só com as engraçadíssimas cartas nas quais Rudyard Kipling recomenda uma etiqueta escolar para o editor de uma revista de meninos, em 1898; ou na hilária resposta do humorista do stand-up, Bill Hicks, em 1993, a um padre que havia considerado blasfemo seu programa de TV: “Otimistas ou pessimistas divergem apenas sobre a data do fim do mundo”, escreve, parodiando o polonês Stanislaw Lec. Mas o arremate final vai para a carta de Groucho Marx, ainda um piadista incorrigível nos seus quase 86 anos, enviada a Woody Allen, em 1976: “O Goodie Ace falou para um amigo meu que você estava desapontado ou chateado ou feliz da vida ou bêbado porque não respondi a carta que você me mandou anos atrás. Você naturalmente sabe que responder cartas não dá dinheiro – a menos que sejam cartas de crédito da Suíça ou da máfia. Escrevo com relutância, pois sei que você está fazendo seis coisas ao mesmo tempo – cinco, incluindo sexo. Não sei onde você arruma tempo para se corresponder.” Humor marxista legítimo. Quer dizer, groucho-marxista.

10 livros famosos que foram escritos atrás das grades

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Você sabia? Algumas das obras mais importantes da literatura mundial foram produzidas enquanto seus autores cumpriam sentença. Quer saber quais são elas? Confira a seguir

Publicado no Universia Brasil

10 livros famosos que foram escritos atrás das grades

(Crédito: Shutterstock.com)
Poucas pessoas sabem, mas obras consideradas grandiosas foram produzidas enquanto seus autores cumpriam sentenças pelos mais variados crimes

Embora poucas pessoas saibam, obras consideradas grandiosas foram produzidas enquanto seus autores cumpriam sentenças pelos mais variados crimes. Se você é um amante da literatura, confira a seguir uma lista com 10 obras que foram produzidas enquanto seus escritores estavam atrás das grades.

1. Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes

Dom Quixote foi produzido na prisão em Sevilha, em 1597, quando Cervantes, como coletor de impostos, foi preso por se apropriar de dinheiro público após diversas contas do autor terem sido investigadas.

2. Mein Kampf, de Adolf Hitler

O livro foi escrito por Hitler na prisão de Landsberg, no verão de 1924. O nazista estava lá depois de ter sido condenado a cinco anos de prisão por planejar e executar o golpe fracassado em Munique. O livro descreve as principais ideias que o regime alemão completou durante seu governo.

3. Cancionero y Romancero de Ausencias, de Miguel Hernández

Com a eclosão da Guerra Civil Espanhola, Hernández entrou para o grupo republicano Bando. Ao fim da guerra, tendo pertencido ao lado perdedor, foi condenado à morte, mas depois comutou a sentença para 30 anos. Enquanto esteve na prisão, escreveu a coleção de poemas que apresenta uma nova linguagem e marca o início de uma mudança de estilo.

4. A História me Absolverá, de Fidel Castro

Trata-se da alegação de autodefesa de Fidel Castro antes de seu julgamento pelos ataques aos quartéis Moncada e Carlos Manuel de Céspedes. No ensaio, Fidel mostra a licenciatura Civil que decide levar em sua própria defesa.

5. Lazarillo de Tormes, de autor desconhecido

Ainda que a história tenha declarado o conto clássico como sendo de autor desconhecido, o nome de Diego Hurtado de Mendoza, poeta e diplomata espanhol, foi o mais apontado como um provável autor. A história conta que Hurtado foi governador de Siena e acusado de irregularidades financeiras, o que o levou a prisão de La Mota. Diz-se que durante o tempo em que esteve preso ele redigiu esta obra.

6. De Profundis, de Oscar Wilde

O livro é uma longa e emocional epístola que Oscar Wilde escreveu para seu amante, Alfred Douglas, diretamente da prisão onde cumpria pena por comportamento indecente e sodomia. Na carta, datada de 1897, Wilde apresenta os sentimentos, preocupações e ressentimentos para com seu amante.

7. Justine, de Marquês de Sade

Justine ou “Os Infortúnios da Virtude” é um romance escrito pelo Marquês de Sade em 1787, durante uma de suas estadias na prisão da Bastilha. A obra é considerada um “trabalho maldito”, uma vez que expõe os pensamentos mais sombrios do autor.

8. De los Nombres de Cristo, de Frade Luis de León

Frade Luis de León foi um poeta e humanista espanhol que passou um tempo preso por traduzir a Bíblia para o vernáculo sem licença. Na prisão, escreveu “Em nome de Cristo”, trabalho composto por três livros que mostra a definitiva elaboração dos temas e ideias delineados em seus poemas que discutiam as várias interpretações dos nomes dados a Cristo na Bíblia.

9. Décimas, de Miguel Hidalgo

Miguel Hidalgo foi um padre e soldado que se destacou na primeira fase da Guerra da Independência do México. Hidalgo liderou a primeira parte do movimento, mas após uma série de derrotas foi capturado, em 1811, e levado como prisioneiro para a cidade de Chihuahua, onde foi julgado e executado quatro meses depois. A obra é uma coleção de poemas escritos na parede de sua cela antes da execução. Eles agradecem o carcereiro, o chefe da prisão e bom tratamento que tinha recebido.

10. La Muerte de Arturo, de Sir. Thomas Malory

Sir. Thomas Malory saqueou e se comportou de maneira cruel e irresponsável durante a Guerra das Rosas. Após ser derrotado, Malory se encontrava em uma situação desesperadora, com diversas dívidas e sendo acusado até mesmo de estupro, o que o levou para a cadeia. Enquanto estava preso escreveu o romance.


 

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