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Ex-gari escreve histórias para contar aos filhos e tem livro publicado no RS

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Wagner Fagundes ganhou apoio da comunidade para publicar contos.
Familiares do ex-gari, hoje eletricista, se emocionam ao falar do pai.

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Publicado no G1

Morador de uma pequena casa na Ilha dos Marinheiros, em Porto Alegre, o eletricista Wagner Fagundes virou exemplo de superação na comunidade. Mesmo sem ter o ensino fundamental completo, ele escreveu histórias em um caderno, para contá-las aos filhos pequenos, e teve um livro publicado, como mostra a reportagem do Jornal do Almoço (veja o vídeo).

O filho mais velho, Dhiordan, de 14 anos, se emociona ao falar do pai. O esforço para proporcionar uma boa infância às crianças, ainda que sem condições financeiras, valeu a pena.

“Meu pai é uma pessoa legal, orgulhosa, feliz com seus filhos. Ele é muitas coisas”, resume o jovem, sem esconder o choro.

Quando Dhiordan nasceu, Wagner trabalhava como gari. Alguns livros que encontrava no lixo, ele levava para casa. Porém, a maioria das histórias que contava ele escrevia à mão em um caderno. Wagner colocava no papel a vida que imaginava para sua família. Em noites de choro, segundo ele, as histórias acalmavam os pequenos. As crianças foram crescendo e ouvindo uma coleção de contos.

“O motivo [do orgulho] é pela educação que dei pra eles. Sempre li e escrevi. Sou um pai presente e brincalhão. Sempre brinco com eles”, conta Wagner. “Condições a gente pode não ter, mas meios para correr atrás existem. É só querer. Educação é coisa que não se compra, vem de princípios, de berço. Meu pai e minha mãe também me passaram”.

As histórias do Wagner correram a vizinhança e ganharam notoriedade. O livro com suas histórias acabou publicado.

“Pessoas que eu nem conhecia ajudaram a tornar realidade o sonho de uma pessoa da comunidade carente. Isso faz a gente acreditar num país tão sofrido como o nosso, que existe gente boa pensando na educação. Isso inspira para quem sabe surgir uma editora para lançar mais livros”, afirma ele.

Além dos filhos, Wagner ganhou novos leitores. Ele é convidado, como autor, para ir a escolas falar da sua primeira obra infantil. “Ele para mim é uma pessoa incrível”, elogia a mãe, Sandra Fagundes.

Educar para desobediência

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Educar e dar educação são tarefas opostas: educar é ensinar como encontrar a verdade; dar educação, como escondê-la. Mas como lidamos com essa contraditória tarefa diariamente imposta de educar e dar educação?

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Daniel Martins, em Estadão

Dar educação é algo muito diferente de educar. Na verdade, é o oposto. Educar é ensinar como encontrar a verdade; dar educação é ensinar como escondê-la. Educar é promover o desenvolvimento do raciocínio, estimular a capacidade crítica, encorajar o aprofundamento nas questões. Dar educação é ensinar a não falar o que se está pensando, não apontar o que se está vendo, não se alongar em assuntos impertinentes. Educar cria gente incômoda. Dar educação cria gente acomodada. Mas ambos são necessários.

Não seria possível – ou de meu ponto de vista, desejável – criarmos uma sociedade de gente “sem educação”. Não gosto que soltem pum na minha frente, mas se acontecer de eu soltar, não quero que comentem. Nem todas as verdades podem ser ditas para o bem da harmonia entre as pessoas. Não é prudente andarmos desafiando as leis de trânsito. Mas paradoxalmente, um bando de gente absolutamente educada teria dificuldade de promover avanços na sociedade. A lei, a ordem, as regras, são essencialmente conservadoras: por definição, elas existem para manter as coisas como estão. A obediência total seria paralisante. E perigosa: é famoso o exemplo dos carrascos nazistas levados a julgamento que se defendiam dizendo que estavam apenas cumprindo ordens, sendo obedientes. Mesmo os juízes alemães que condenaram judeus baseados em leis que hoje nos parecem absurdas alegavam, posteriormente, que só estavam cumprindo a lei – não para isso que serve um juiz? – perguntavam. Veja como também é preciso saber desobedecer.

Os pais e professores sabemos muito bem disso tudo. Mas como lidamos com a contraditória tarefa diariamente imposta de educar e dar educação ao mesmo tempo? Tentamos desesperadamente desviar o olhar dos nossos filhos e alunos do ponto essencial – a possibilidade de questionamento – para a questão colateral de qual é a fonte das regras. Mais ou menos assim: se sou “eu” ou alguma “autoridade” que está falando, obedeça; se são as “suas companhias”, questione. Claro que isso se sustenta por pouco tempo. Uma vez que a objeção se torna uma ferramenta, seu alcance deixa de ser controlável.

Existe uma solução, mas ela é trabalhosa. Em primeiro lugar poderíamos aceitar a realidade desse paradoxo, ensinando aos jovens desde logo que tudo pode ser questionado. O medo que nos assola nesse momento é o da perda de poder: e se eles resolverem questionar tudo? Seremos capazes de justificar todas as regras? Será a anarquia? Não necessariamente, se também transmitirmos os fundamentos da vida em sociedade: a dignidade absoluta da vida humana, o exercício da empatia, o consequente respeito ao próximo. Esses aspectos, contudo, não são simplesmente “ensináveis”; antes, são assimilados pela observação. Então, só mesmo construindo esse “ethos educado” é que podemos “dar educação”. O escritor americano Alfie Kohn chama essa postura de “rebeldia reflexiva” – quer se rebelar? Tudo bem, mas justifique racionalmente o porquê.

Difícil, não é? Tão mais fácil dizer “Porque eu estou mandando”, ou “Porque senão a polícia prende”. Tão mais complicado buscar o discernimento do certo e do errado, para além das normas, mantendo o foco no outro. Mas não vejo outra saída. Pois como disse Jean Jaurès: “Ninguém ensina o que sabe. Ninguém ensina o que quer. Só se ensina o que se é”.

Não basta ser pai e mãe, tem que ler junto

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A leitura compartilhada com o filho fortalece o vínculo afetivo, propicia conversas encantadoras e ainda serve de antídoto para o excesso de tecnologia

Isabel Clemente, na Época

Tenho uma pequena leitora voraz em casa. Letícia, minha filha mais velha, está com 9 anos e se interessa por gibis, livros seriados infanto-juvenis e crônicas. Ela é capaz de reler o livro o mesmo livro três vezes, rindo e absorvendo tiradas para seu acervo pessoal de piadas. Sim, isso me enche de orgulho. Sim, isso também é mais do que eu mesma fazia na minha infância rodeada por livros. Confesso que vê-la tão absorvida pela leitura reduz bastante minha preocupação com o excesso de tecnologia, desafio para o qual ainda estamos nos municiando como pais de uma geração hiperestimulada por smartphones. Ninguém sabe ao certo onde isso vai dar. A única constatação imediata que se tira olhando ao redor é que já não se conversa à mesa do restaurante como antigamente. Por isso, toda minha ojeriza aos celulares durante refeições e reuniões de família e amigos.

A leitura – junto com conversas de verdade e atividades físicas – me parece, até que me apresentem argumento mais convincente, o melhor antídoto para os males da tecnologia. Não à toa esse foi o tema de um dos debates da Feira do Livro Infantil de Bologna, na Itália, na semana passada, o maior evento do tipo no mundo. Recém-chegada de lá, a promotora de Justiça e escritora Ariadne Cantu, autora de 16 livros infantis e mãe de três, me contou que escritores e educadores estavam debatendo até que ponto o imediatismo digital irá afetar a construção dos pensamentos. Não por outro motivo, Gianna Vitalli, uma simpática senhora de cabelos grisalhos que integrava o júri do Hans Christian Andersen, o maior prêmio de literatura infantil, propôs, em sua fala de abertura na feira, que a educação infantil nesses tempos de alta tecnologia atente para o valor da leitura e “reformate a cabeça dos professores”. “As crianças precisam de tempo livre para aprender. Elas precisam reaprender a ler”, disse.

Como vocês, estou também muito interessada nessa investigação. Converso com amigos, procuro ouvir e ler o que os especialistas têm a dizer, enquanto observo, na minha casa, o impacto disso tudo nas duas crianças, sobretudo na caçula, que, aos 5 anos, não está alfabetizada, descobriu os joguinhos muito antes da irmã, e outro dia verbalizou de forma singela uma reivindicação que volta e meia reaparece. “Estou cansada de não ter um ipad!”

E nem adianta eu dizer que também não tenho porque além de celular, uso um leitor digital de livros, o que, para ela, dá no mesmo. É tudo tecnologia. Se eu uso para ler ou jogar, não faz a menor diferença. Vá explicar.

Com a baixinha, a gente tem que sentar e ler. Pegar pela mão e convidá-la para uma viagem pelas letras ou apenas pelas imagens dos livros silenciosos, sempre uma ótima aposta para instigar a curiosidade dos iletrados. Isso dá trabalho. Precisa fazer questão, às vezes até brigar com a televisão, lançar argumentos infalíveis e contar com um autor inspirado, lógico. As prateleiras de livros infantis para ela estão quase rentes ao chão. É o tipo de produto que precisa estar ao alcance das crianças. No meio do caminho, entre nós e os livros, entram não só os atrativos da tecnologia, mas o cansaço, a falta de tempo, a necessidade de dar atenção para todo mundo aqui e agora.

Não basta olhar feliz para a criança que resolve folhear sozinha um livro. Tem que desligar as notificações desnecessárias da tela do celular, sentar e dizer “está na hora da nossa leitura” e não deixar ninguém se intrometer. A exclusividade é o toque especial para coroar esse hábito que, como pais, temos a obrigação de ajudar a construir.

E depois que eles aprenderem a ler, passada a fase inicial de dificuldades, qual será o nosso papel?

Ler junto, de vez em quando, pode apostar. A missão não termina na alfabetização nem quando eles adquirem fluência na leitura. “É legal ler junto, todos saem lucrando. Você se aproxima afetivamente da criança e ela de você. Milhares de coisas não escritas no livro podem ser ditas”, afirma Ariadne.

Ler junto significa levar para dentro de casa o que muita gente acredita ser responsabilidade apenas da escola. Influência é a arte de contagiar esses pequenos aprendizes com nossos hábitos. Apesar de reclamar a falta de um ipad, a verdade é que Carolina, minha filha menor, está cada dia mais ansiosa para ler como todo mundo da casa, pedindo para digitar no computador a frase que eu pretendo escrever quando sento para trabalhar (foi ela que escreveu “enquanto Carolina”). A obra segue em construção.

Letícia propõe que eu leia o livro que ela terminou de ler. Quer saber a minha opinião, conversar comigo sobre a história. Eu também tenho essa curiosidade. Afinal, que tanto ela lê e gosta? Estará entendendo tudo? O significado das novas palavras? O dicionário está lá, ao alcance das mãos, mas querer que a criança o consulte toda hora é exigir demais. Que lições tira das histórias? Se for um livro da minha infância, fica fácil interagir, mas há muitos títulos novos. A demanda é constante e crescente. Mal tenho tempo para dar conta dos títulos e dos autores que me interessam. Que horas vou ler o livro infanto-juvenil que já não se consome numa única tarde de tão grande, eu me pergunto. E o que faço com a outra filha que me cerca em busca de atenção nessa tarde propícia à leitura? Vida em família é assim: pontuada por negociações nem sempre frutíferas. Mas as soluções são sempre individuais, variam de casa para casa, e eis que temos uma chance. É tarde, a pequena ouve histórias do pai no quarto enquanto eu e Letícia sentamos para ler um gibi.

Estamos lado a lado, ela apoiada no meu ombro. Alternamos os personagens. Seguimos nessa leitura dramatizada e em voz alta. Tenho chance de perguntar se ela entendeu o significado de uma palavra ou outra. Ela fica feliz de me ver rindo das cenas que ela também achou engraçadas. E eis que na última página da revistinha, não encontramos o “fim” mas um “continua”. Ela me olha com os olhos apertados e séria conclui: “Detesto quando isso acontece. Agora vou ter que esperar a revistinha do mês que vem e ainda estamos no início de abril!”

“Putz, é mesmo”, digo, solidária.

Fechamos o gibi. A hora voou, a irmã chegou toda animada e acesa no meu quarto, o pai veio atrás com cara de quem desistiu da empreitada, mas Letícia ainda está com a cumplicidade esculpida no olhar. Sorri, já despreocupada com o fim da história que não veio.

“Adoro ler com você”, digo. “Precisamos fazer mais.”

“Eu também”, ela retruca, sorridente. “Mãe, eu acabei de ler um ótimo livro e posso te emprestar também”, completa, sustentando o assunto, antes que a noite acabe.

Eu sei. E vou dar um jeito de ler. Ah se vou…

Pais de alunos usam correntes contra agressões perto de escolas no RJ

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Silvia Baisch, no UOL

Mãe leva corrente ao buscar filhos em escola do Rio. "Para me defender, não para machucar alguém" (Foto: Arquivo pessoal)

Mãe leva corrente ao buscar filhos em escola do Rio. “Para me defender, não para machucar alguém” (Foto: Arquivo pessoal)

O começo do ano letivo está marcado por assaltos e agressões a alunos de escolas particulares do bairro da Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro. Amedrontados, alguns pais tentam se proteger por conta própria e circulam nas redondezas portando pedaços de paus e correntes.

As instituições estão próximas à avenida Conde de Bonfim, na altura da rua Uruguai, importante corredor de comércio e edifícios residenciais. Chama a atenção o fato de os agressores, segundo relatos, utilizarem camisetas da rede municipal de ensino.

“É um terror, um circo de horrores, especialmente para quem tem filhos adolescentes que querem ter liberdade de ir e vir. Fazem corredor polonês e batem gratuitamente”, relatou Alice, 52 anos, que preferiu não ter o sobrenome revelado por dizer que já está “marcada” pelos agressores.

Ela é mãe de dois meninos, de 14 e 17 anos, e afirma que, na última semana, próximo ao horário de saída das aulas do turno da manhã, levou uma corrente consigo e acompanhou, à distância, a volta dos filhos para casa. “Para me defender, não para machucar alguém”, afirma. Um dos filhos de Alice, que sempre voltou sozinho da escola, chegou a ser assaltado três vezes no intervalo de uma semana, no ano passado. “Mas no último mês a situação piorou muito”.

Há pouco mais de dez dias, um adolescente de 17 anos voltava da escola para casa quando apanhou de um grupo de cinco jovens, por volta do meio-dia. “Ele recebeu um tapa na cabeça e, quando olhou pra tás, começou a receber socos. Foi uma agressão gratuita, não tentaram roubar nada”, relata o pai do garoto, Luiz Cláudio, 50, que também prefere manter o sobrenome em reserva. Todos os agressores utilizavam camiseta da rede municipal, mas não é possível afirmar se eram realmente alunos.

Após levar o filho ao médico e à delegacia para registrar queixa, Cláudio conversou com o adolescente e fez questão de que ele não mudasse a rotina. “Mas pedi que passasse a andar em grupo com os amigos”, afirma. “Agressões como essas são praticadas com a certeza de que a vítima não vai revidar. Meu filho tem o perfil da vítima: baixinho, magrinho e usa óculos. Nunca se envolveu em confusão e nunca havia relatado nenhum tipo de provocação na rua”.

Providências

O coordenador do Colégio Palas, Nelson Duarte Jr. –onde estudam os filhos de Alice e Cláudio–, disse que vem conversando com diretores de escolas municipais para definir ações de orientação com os alunos em sala de aula, em ambas as redes. “O bairro precisa de uma política de união. Já nos reunimos com o 6º BPM para traçar estratégias e criarmos um grupo de superação desses problemas”.

Duarte faz questão de ressaltar, no entanto, que o problema não acontece apenas com os alunos da instituição, mas também com estudantes de outras escolas e transeuntes em geral. “O que estão fazendo está muito longe do colégio. Ameaçam pessoas, puxam cabelo, cospem. As instituições responsáveis precisam pensar em políticas sociais, em uma forma de integrar esses adolescentes”, acredita.

De acordo com o titular da 19ª Delegacia de Polícia, na Tijuca, Deoclécio de Assis, não havia nada relevante em relação a agressões sofridas especificamente por estudantes das escolas particulares da área até a última terça-feira (10/3). “De concreto, temos apenas o registro de um aluno que apanhou de um grupo de estudantes que usava camiseta de escola municipal”. Assis disse ser preciso que os pais registrem as ocorrências na delegacia.

O comando do 6° Batalhão de Polícia Militar (BPM – Tijuca) informou, por meio de nota, que “os diretores das escolas da localidade estão sendo contatados para que a unidade escute suas demandas”. O texto diz ainda que o policiamento da região foi reforçado desde a última segunda-feira (9/3), “através de motopatrulhamento em locais e horários determinados, já de acordo com os primeiros contatos realizados pelo batalhão com os diretores”. A nota não informa, no entanto, o quantitativo desses policiais, já que a assessoria de imprensa da PM alega não divulgar o efetivo por uma questão estratégica.

Procurada, a assessoria de imprensa da Secretaria Municipal de Educação não se pronunciou até o fechamento desta matéria.

Mais educação, menos filhos

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Mesmo entre as brasileiras mais pobres do Nordeste, a média hoje é de apenas duas crianças por mulher

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Antônio Gois, em O Globo

Desde a década de 80, demógrafos já identificavam que o Brasil registrava queda acentuada no número de filhos por mulher. O fenômeno, como esperado, havia começado entre as mais ricas e escolarizadas, mas a previsão era de que chegaria também às mais pobres. Ignorando as evidências trazidas por especialistas em fecundidade, boa parte da sociedade até pouco tempo ainda temia uma explosão populacional. Os pobres, argumentavam alguns, continuavam a se reproduzir a taxas africanas e, sem políticas mais drásticas de controle da natalidade, estratégias de combate à pobreza estariam fadadas ao fracasso.

A fobia de que os pobres continuariam tendo filhos a taxas preocupantes foi sendo nos últimos anos sepultada a cada nova rodada de levantamentos populacionais do IBGE. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) já mostra que mesmo as brasileiras do Nordeste que se encontram entre as 20% mais pobres do país estão tendo um número reduzido de filhos. Em 2013, último ano com dados disponíveis, a média era de apenas duas crianças de até 14 anos de idade por mulher nesse grupo, segundo estudo do Ministério do Desenvolvimento Social. Dez anos antes, a relação era de 2,7. Em todo o país, a média é também baixa: apenas 1,6 filho por mulher em 2013.

O Bolsa Família não alterou esse quadro. A fecundidade continuou em queda entre os mais pobres nos últimos dez anos, e os estudos feitos em famílias beneficiadas mostram que o impacto do programa na decisão de ter mais filhos foi nulo. Pagar R$ 35 ou até R$ 77 mensais por criança não incentivou a natalidade.

Encontrar famílias numerosas no Brasil é tarefa cada vez mais difícil. Uma tabulação feita pela coluna também na Pnad mostra que em apenas 1% dos domicílios havia cinco ou mais filhos vivendo no mesmo lar em 2013. A redução da fecundidade não ocorre só entre os pobres do Nordeste. O Censo do IBGE registrou na década passada diminuição da população até 14 anos de idade vivendo nos complexos do Alemão, da Maré e na Rocinha.

Uma das variáveis — talvez a mais importante — a explicar a queda na fecundidade foi o avanço da escolaridade feminina, pois há uma significativa correlação entre mais anos de estudo e menor número de filhos. De 1981 a 2013, a proporção de mulheres jovens adultas, de 25 a 34 anos, com ensino médio completo passou de 19% para 65%, enquanto a taxa de analfabetismo funcional caiu de 38% para 6% nesse grupo.

De repente, muitos dos que se assustavam com o risco de explosão demográfica passaram a se preocupar com o problema inverso: seremos uma população cada vez mais envelhecida, com uma proporção menor de jovens e adultos para sustentar um contingente crescente de idosos. Para enfrentar essa questão, a educação será, novamente, variável fundamental.

A queda no número de filhos abre uma oportunidade única de facilitar a ampliação do investimento por criança. Isso pode resultar, por exemplo, no aumento de vagas em creches e escolas de tempo integral, liberando tempo dos pais — principalmente das mulheres, ainda hoje sobrecarregadas com a tarefa de cuidar dos filhos — para investir mais em suas carreiras. E, mais importante, se o ensino for de qualidade, os futuros adultos estarão muito mais preparados para lidar com o imenso desafio que terão pela frente.

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