Canal Pavablog no Youtube

Posts tagged filósofo

O verdadeiro papel da educação – Edgar Morin

0

edgar-morin-696x654

Publicado na Revista Prosa e Verso

“A educação deve ser um despertar para a filosofia, para a literatura, para a música, para as artes. É isso que preenche a vida. Esse é o seu verdadeiro papel.”

O filósofo francês Edgar Morin fala sobre um dos temas que o tornou uma influência mundial, a educação. Morin fala sobre a necessidade de estimular o questionamento das crianças, sobre reforma no ensino e sobre a importância da reflexão filosófica não tanto para que respostas sejam encontradas, mas para fomentar a investigação e a pluralidade de possíveis caminhos. Leia abaixo:

O senhor costuma comparar o nosso planeta a uma nave espacial, em que a economia, a ciência, a tecnologia e a política seriam os motores, que atualmente estão danificados. Qual o papel da educação nessa espaçonave?
Ela teria a função de trazer a compreensão e fazer as ligações necessárias para esse sistema funcionar bem. Uso o verbo no condicional porque acho que ela ainda não desempenha esse papel. O problema é que nessa nave os relacionamentos são muito ruins. Desde o convívio entre pais e filhos, cheio de brigas, até as relações internacionais — basta ver o número de guerras que temos. Por isso é preciso lutar para a melhoria dessas relações.

O que é preciso mudar no ensino para que o nosso planeta, ou a nave, entre em órbita?
Um dos principais objetivos da educação é ensinar valores. E esses são incorporados pela criança desde muito cedo. É preciso mostrar a ela como compreender a si mesma para que possa compreender os outros e a humanidade em geral. Os jovens têm de conhecer as particularidades do ser humano e o papel dele na era planetária que vivemos. Por isso a educação ainda não está fazendo sua parte. O sistema educacional não incorpora essas discussões e, pior, fragmenta a realidade, simplifica o complexo, separa o que é inseparável, ignora a multiplicidade e a diversidade.

O senhor então é contra a divisão do saber em várias disciplinas?
As disciplinas como estão estruturadas só servem para isolar os objetos do seu meio e isolar partes de um todo. Eliminam a desordem e as contradições existentes, para dar uma falsa sensação de arrumação. A educação deveria romper com isso mostrando as correlações entre os saberes, a complexidade da vida e dos problemas que hoje existem. Caso contrário, será sempre ineficiente e insuficiente para os cidadãos do futuro.

Na prática, de que forma a compreensão e a condição humana podem estar presentes em um currículo?
Ora, as dúvidas que uma criança tem são praticamente as mesmas dos adultos e dos filósofos. Quem somos, de onde viemos e para que estamos aqui? Tentar responder a essas questões, com certeza, vai instigar a curiosidade dos pequenos e permitir que eles comecem a se localizar no seu espaço, na comunidade, no mundo e a perceber a correlação dos saberes.

Mas uma pergunta como “quem somos?” não é fácil de responder.
E não precisa ser respondida. É a investigação e a pluralidade de possíveis caminhos que tornam o assunto interessante. Podemos ir pelo social, somos indivíduos, pertencentes a determinadas famílias, que estão em certa sociedade, dentro de um mundo que tem passado, história. Todos temos um jeito de ser, um perfil psicológico que também dá outras informações sobre essa questão. Mas também somos seres feitos de células vivas, entramos na biologia—, que são formadas por moléculas,— temos então a química. Todas essas moléculas são constituídas por átomos que vieram de explosões estelares ocorridas há milhões de anos… E assim por diante. Sempre instigando a curiosidade e não a matando, como frequentemente faz a escola.

Como temas tão profundos podem ser tratados sem que a aula fique chata?
É só não deixar enjoativo o que é por natureza passional. Um jornal francês de literatura fez uma pesquisa entre os alunos e descobriu que até os 14 anos os jovens gostam de ler e lêem muito. Quando vão para o liceu, lêem menos. É verdade que eles começam a sair mais de casa e ter outros interesses, mas um dos principais motivos é que os professores tornam a literatura chata, decupando-a em partes pequenas e analisando minuciosamente o seu vocabulário, em vez de dar mais valor ao sentido do texto, à sua ação. Nada mais passional do que um romance, nada tão maravilhoso quanto a poesia! Nada retrata melhor a problemática humana do que as grandes obras literárias. Os saberes não devem assassinar a curiosidade. A educação deve ser um despertar para a filosofia, para a literatura, para a música, para as artes. É isso que preenche a vida. Esse é o seu verdadeiro papel.

A literatura e as artes deveriam ter mais destaque no ensino?
Sem dúvida. Elas poderiam se constituir em eixos transdisciplinares. Pegue-se Guerra e Paz, de Tolstói, por exemplo. O professor de Literatura pode pedir a seu colega de História para ajudá-lo a situar a obra na história da Rússia. Pode solicitar a um psicólogo, da escola ou não, que converse com a classe sobre as características psicológicas dos personagens e as relações entre eles; a um sociólogo que ajude na compreensão da organização social da época. Toda grande obra de literatura tem a sua dimensão histórica, psicológica, social, filosófica e cada um desses aspectos traz esclarecimentos e informações importantes para o estudante. Todo país tem suas grandes obras e certamente também os clássicos universais servem para esse fim.

O professor deve buscar sempre o trabalho interdisciplinar?
Ele deve ter consciência da importância de sua disciplina, mas precisa perceber também que, com a iluminação de outros olhares, vai ficar muito mais interessante. O professor pode procurar ter essa cultura menos especializada, enquanto não existir uma mudança na formação e na organização dos saberes. O professor de Literatura precisa conhecer um pouco de história e de psicologia, assim como o de Matemática e o de Física necessitam de uma formação literária. Hoje existe um abismo entre as humanidades e as ciências, o que é grave para as duas. Somente uma comunicação entre elas vai propiciar o nascimento de uma nova cultura, e essa, sim, deverá perpassar a formação de todos os profissionais.

Como o professor vai aprender a trabalhar de forma conjunta?
Ele vai se autoformar quando começar a escutar os alunos, que são os porta-vozes de nossa época. Se há desinteresse da classe, ele precisa saber o porquê. É dessa postura de diálogo que as novas necessidades de ensino vão surgir. Ao professor cabe atendê-las.

Como acontece uma grande reforma educacional?
Nenhuma mudança é feita de uma só vez. Não adianta um ministro querer revolucionar a escola se os espíritos não estiverem preparados. A reforma vai começar por uma minoria que sente necessidade de mudar. É preciso começar por experiências pilotos, em uma sala de aula, uma escola ou uma universidade em que novas técnicas e metodologias sejam utilizadas e onde os saberes necessários para uma educação do futuro componham o currículo. Teríamos, desde o começo da escolarização, temas como a compreensão humana; a época planetária, em que se buscaria entender o nosso tempo, nossos dilemas e nossos desafios; o estudo da condição humana em seus aspectos biológicos, físicos, culturais, sociais e psíquicos. Dessa forma começaríamos a progredir e finalmente a mudar.

Como tratar temas tão profundos como o estudo da condição humana nos diversos níveis de ensino?
Os professores polivalentes da escola primária são os ideais para tratar desses assuntos. Por não serem especialistas, têm uma visão mais ampla dos saberes. Eles podem partir da problemática do estudante e fazer um programa de ensino cheio de questões que partissem do ser humano. O polivalente pode mostrar aos pequenos como se produz a cultura da televisão e do videogame na qual eles estão imersos desde muito cedo. Já a escola que trabalha com os jovens deve dedicar-se à aprendizagem do diálogo entre as culturas humanísticas e científicas. É o momento ideal para o aluno conhecer a história de sua nação, situar-se no futuro de seu continente e da humanidade. Às universidades caberia a reforma do pensamento, para permitir o uso integral da inteligência.

Fonte: revista Nova Escola | Fronteiras do Pensamento

Morre aos 91 anos, o filósofo e escritor polonês Zygmunt Bauman

0
Filósofo teve grande parte das obras traduzida para o português

Filósofo teve grande parte das obras traduzida para o português

 

Mídia polonesa informou a morte do pai da ‘modernidade líquida’

Publicado no Jornal do Brasil

Morreu aos 91 anos, em Leeds, na Inglaterra, o filósofo e sociólogo contemporâneo polonês Zygmunt Bauman, informou a mídia polonesa nesta segunda-feira (9). A causa da morte não foi informada.

Nascido em 19 de novembro de 1925, em Poznan, Bauman serviu na Segunda Guerra Mundial e tem uma extensa biografia com reflexões sobre a sociedade e as mudanças do mundo atual.

Sua principal teoria, a “liquidez” das relações sociais na modernidade e pós-modernidade, abriu um vasto campo de estudos para as mais diferentes áreas, como a filosofia, a cultura, o relacionamento humano – com muito foco no individualismo e a efemeridade das relações – e até mesmo a revolução que as mídias digitais trouxeram para a sociedade moderna.

Ativo, mesmo aos 91 anos, Bauman não parava de trabalhar em livros e teorias, sendo um dos maiores filósofos e sociólogos do fim do século 20 e início do século 21. Grande parte das obras de Bauman foram traduzidas para o português e, o último livro lançado traduzido no Brasil, foi “A riqueza de poucos beneficia todos nós?”.

Casado com Janine Lewinson-Bauman desde a época do pós-guerra, Bauman deixa três filhas.

Agência ANSA

Cortella: “Não é só a educação dos filhos que é necessária, mas a dos pais também

0

Para o filósofo Mário Sérgio Cortella, uma das principais referências do país em educação, somos a primeira geração que testemunha mudanças de paradigmas tão velozes. E é natural que os pais se sintam perdidos. Então, afinal, qual o segredo para não ficar ultrapassado na educação dos filhos?

Naíma Saleh, na revista Crescer

“A novidade não é a mudança no mundo, é a velocidade da mudança.” Foi assim que o filósofo Mário Sérgio Cortella, professor há 42 anos, pai e avô, abriu a palestra Novos Tempos, Novos Paradigmas, que aconteceu em São Paulo, no fim de setembro. Diante de uma plateia hipnotizada pelo vozeirão com sotaque sulista e pela naturalidade em tratar temas complexos sem firulas, ele deixou claro que o grande desafio da atualidade é acompanhar as transformações para não ficar para trás. Sim, estamos vivendo um tempo de reviravoltas sem precedentes: na tecnologia, no trabalho, nas relações. Nesse contexto, mudar não é apenas imprescindível, mas inevitável. Principalmente quando se fala em educação. Em entrevista exclusiva à CRESCER, Cortella separa o que é velho do que é antigo, defende que pais podem ser, sim, amigos dos filhos sem perder a autoridade e critica o peso colocado na escola para assumir um papel que é da família. Confira!

Mário Sérgio Cortella (Foto: Marcos Camargo/Editora Globo)

Mário Sérgio Cortella (Foto: Marcos Camargo/Editora Globo)

 

Como essa mudança tão veloz de paradigmas tem afetado a forma como os pais criam os filhos?

Uma parte das famílias acabou perdendo um pouco a referência dada à velocidade das mudanças e à rarefação do tempo de convivência com as crianças. Isso fez com que muitas acabassem terceirizando o contato com os filhos e delegando à escola aquilo que é originalmente de sua responsabilidade. Só que isso perturba a formação das novas gerações. É claro que criar pessoas dá trabalho e exige esforço. Acontece que, no meio de todas essas mudanças, alguns pais e mães ficam desorientados. Por isso, é necessário que eles encontrem apoio, em livros, revistas, grupos de discussão. Não é só a educação dos filhos que é necessária, mas a dos pais também.

Ao mesmo tempo que muitas famílias terceirizam os cuidados, há um movimento de mães e pais largando a carreira para se dedicar exclusivamente aos filhos, não?

Claro. Uma das coisas mais importantes na vida é entender que a palavra prioridade não tem “s”. Não tem plural. Se você disser: “tenho duas prioridades” é porque não tem nenhuma. Então, deve estabelecer qual é a sua prioridade. Sua prioridade é o convívio familiar? Então dê força a isso. É a sustentação econômica? Vá fundo. Só que, ao escolher, não sofra. É evidente que ninguém precisa abandonar a carreira em função da família, mas é necessário buscar o equilíbrio – da mesma forma como se faz para andar de bicicleta: só há equilíbrio em movimento. Se você parar, desaba. Tenha em mente que haverá momentos em que a família é o foco. Em outros, a carreira. Mas lembre-se de que a vida é mais como maratona do que como uma corrida de 100 metros rasos: você não sai disparado feito um louco. Tem horas que vai mais rápido, outras em que desacelera. O segredo é ir dosando.

Você diz que, em um mundo de mudanças, nem tudo o que é antigo é velho. Como saber o que está ultrapassado na criação dos filhos?

No convívio familiar, uma coisa que é antiga, mas não é velha, é o respeito recíproco. Outra é a capacidade de o adulto saber que a criança é “subordinada” a ele, ou seja, que está sob as suas ordens. O pai não pode se tornar refém de alguém que ele orienta e cria. Agora, uma coisa que é velha e que deve ser descartada é o autoritarismo, a agressão física, o modo de ação que acaba produzindo algum tipo de crueldade. Isso é velho e é necessário, sim, mudar. Na relação de convivência em família é preciso modificar aquilo que é arcaico. O que não dá para perder é a honestidade, a afetividade e a gratidão. Tudo isso vem do passado e tem que continuar.

E como os pais podem construir essa autoridade sem autoritarismo?

O pai e a mãe têm que saber que ele ou ela é a autoridade. Ao abrir mão disso, há um custo. Quem se subordina a crianças e jovens, e têm sobre eles alguma responsabilidade, está sendo leviano.

Mas você acha que dá para ser amigo dos filhos?

Claro. O que não pode é ser íntimo no sentido de perder a sua autoridade. Eu tenho amizade com os meus alunos, mas isso não retira a autoridade nem a responsabilidade que eu tenho sobre eles como professor. Há uma frase que precisa ser deixada de lado que diz que “o amor aceita tudo”. Isso é uma tolice. O amor inteligente, o amor responsável é capaz de negar o que deve ser negado. A frase certa é: “Porque eu te amo é que eu não aceito isso de você”. O amor que tudo aceita é leviano, irresponsável.

Atualmente, se joga muita responsabilidade na escola. Qual é o limite entre os deveres dos pais e dos professores na educação das crianças?

É uma coisa estranha: a escola fica quatro ou cinco horas com as crianças, em um dia que tem 24 horas, com 30 alunos juntos. É um estabelecimento que deve ensinar a educação para o trabalho, educação para o trânsito, educação sexual, educação física, artística, religiosa, ecológica e ainda português, matemática, história, geografia e língua estrangeira moderna.

Supor que uma instituição com essa carga de atividade seja capaz de dar conta daquilo que uma mãe ou um pai é que tem que ensinar a um filho ou dois é não entender direito o que está acontecendo. A função da escola é a escolarização: é o ensino, a formação social, a construção de cidadania, a experiência científica e a responsabilidade social. Mas quem faz a educação é a família. A escolarização é apenas uma parte do educar, não é tudo. Já tem personal trainer, personal stylist, agora querem personal father, personal mother. Não dá, é inaceitável.

Por outro lado, os pais interferem demais na escola?

Há uma diferença entre interferir e participar. A escola tem que ser aberta à participação. Quando há uma interferência é sinal de que está mal organizado. O que acontece nas escolas particulares, que são minoria e representam apenas 13% do total, é que muita gente não lida mais com a relação família versus escola como parceria. É mais como se fosse um relacionamento regido pelo Código do Consumidor, como um cliente, como se o ensino fosse o mesmo que a aquisição de um carro. Essa relação é estranha e precisa ser rompida.

A educação de gênero tem gerado repercussão no meio escolar. Como você acha que as escolas devem abordar esse tema?

Uma sociedade que não é capaz de atender à diversidade que a vida coloca é uma sociedade tola. É preciso lembrar que a natureza daquilo que é macho e fêmea está na base biológica, mas o gênero se constrói na convivência social. O macho e a fêmea vêm da biologia. Mas o que define masculino e feminino é aquilo que vai se construindo no dia a dia. Por isso a escola tem que trazer o tema. É claro que não vai incentivar uma discussão que seja precoce para crianças de 8, 9, 10 anos. Mas também não vai fazer com que aquele que é diferente seja entendido como estranho. Aquele que é diferente é apenas diferente, não é estranho. Nessa hora, é tarefa da escola acolher. Se a família não concorda e a escola é privada, mude a criança de escola. Agora, se for uma instituição pública, é um dever constitucional e republicano admitir a diversidade.

Mário Sergio Cortella: Escola deve abandonar conceitos arcaicos

0
DESCRIÇÃO: Inteligência Coletiva - especial 130 anos do Colégio Farroupilha. Na foto filósofo, escritor e professor Mário Sérgio Cortella.

Na foto filósofo, escritor e professor Mário Sérgio Cortella.

 

Publicado no Correio do Povo

Considerado um dos expoentes intelectuais do país, o professor Mário Sérgio Cortella esteve em Porto Alegre, neste mês, para falar sobre gestão do conhecimento. Nascido em Londrina, no Paraná, o filósofo e escritor tem mestrado e doutorado em Educação e atuou por 35 anos na PUC-SP, com docência e pesquisa na Pós-Graduação em Educação. Em entrevista ao Correio do Povo, o professor diagnosticou, opinou e teorizou sobre alguns dos principais assuntos relacionados ao tema. O filósofo defende que a escola precisa enfrentar e se desfazer de conceito arcaicos, como os que entendem que o professor é o detentor do saber ou que o conhecimento é absoluto e indubitável. Para ele, a escola precisa ter uma natureza muito mais de seleção do que de acumulação de conhecimento

O que é a gestão do conhecimento?
Mário Sérgio Cortella: É a ideia de que nós temos que lembrar que vivemos em uma sociedade que tem o conhecimento como uma referência, e que o conhecimento se constrói a partir das informações. E que nós temos um novo mundo, relativo às informações, novas tecnologias, novos modos de acesso, mas temos também uma dificuldade grande de ter critérios de seleção, tamanha a oferta de informações a que as pessoas acabam sendo inundadas, como se fosse uma avalanche informacional que os captura. [A gestão do conhecimento] tem como necessidade maior a formação da capacidade de ajudar a ter critérios que separem, selecionem e guardem aquilo que de fato importa, diferenciando do meramente passageiro e acessório.

Como a escola pode melhorar sua Gestão do Conhecimento?
Mário Sérgio Cortella: A escola precisa dar uma distinção entre aquilo que, vindo do passado, já não serve mais, o que a gente chama de arcaico, daquilo vindo do passado que precisa ser preservado, guardado, que é a tradição. Não é casual que gaúchos entendam isso muito bem e a cada momento façam o seu centro de tradição gaúcha. Porque a tradição tem que ser guardada. Tem que ser colocado pra trás aquilo que não tem mais lugar. E, nesse sentido, a escola tem coisas que são tradicionais e outras que são arcaicas. Uma das bandeiras arcaicas é lidar com o conhecimento como se ele fosse inamovível, absoluto e indubitável. Outra coisa arcaica é supor que só o professor detém o conhecimento. A outra coisa arcaica é supor que esse conhecimento só é obtido dentro da escola. Portanto, tudo isso tem que ser ultrapassado para que a gente consiga construir uma capacitação das pessoas e que nos capacite também para a gente fazer melhor aquilo que a gente quer fazer bem.

Qual é a influência do excesso de informações na educação?
Mário Sérgio Cortella: Depende da escola que se terá. Nós temos uma diversidade muito grande, no Brasil, de escolas do campo público e privado, seja no seu modo de ação, seja sua localização, seja em relação ao tipo de presença de alunos que ela carrega. Portanto, não há um modo único no qual essa escola se coloque. Mas, independentemente de como ela é, onde se localiza ou quem a frequenta, há desse turbilhão de informações o impacto que é tontear um pouco as pessoas em relação àquilo que elas, de fato, precisam conhecer. De maneira geral, quase gera nas pessoas angústia, imaginando que ela tem que ler tudo, saber tudo, conhecer tudo e não é verdade. Sempre dependerá daquilo que você tem como objetivo. Por isso, a escola, especialmente, tem que ter uma natureza muito mais seletiva do que cumulativa. Não basta inundar o aluno de informações. É preciso que ele construa critérios que elevem a capacidade de boas escolhas, no campo da informação e da conduta, da vida e do conhecimento.

As ocupações das escolas são resultado das reações da sociedade devido ao atual momento político e econômico?
Mário Sérgio Cortella: Parte sim. A questão é que, hoje, uma parcela dos jovens começa a entender que há causas que têm que ser construídas. Causas que, por exemplo, pra minha geração se situavam no campo da política nacional, no enfrentamento de uma situação ditatorial, de ausência de liberdade de expressão e de pensamento. Novas causas têm que vir à tona. Por exemplo, o jovem ter o seu lugar sem necessariamente passar por mera constatação, mas ser aquele que reivindica melhoria da qualidade do trabalho, estruturas escolares mais adensadas, participação na decisão dos rumos do trabalho pedagógico. Então, acho que há uma contaminação positiva em relação a isso, seja no Rio de Janeiro, São Paulo ou Porto Alegre. Houve esses movimentos que tiveram, de um lado, um nível bonito, uma beleza na participação dos jovens, e, de outro alguns, destemperos, que são inerentes a quem não está habituado a fazê-lo e constrói sua forma de fazer no próprio processo. Mas é um aprendizado que traz uma beleza muito forte de uma juventude que não se contenta mais apenas numa consumolatria desesperadora, mas que quer ter voz, afinal de contas é no futuro que viveremos, então é melhor fazê-lo bem desde agora.

Como está sendo tratada a ética dentro das escolas?
Mário Sérgio Cortella: A escola não é imune a tudo o que está à volta dela. A escola sozinha não movimenta as coisas. Paulo Freire, nosso grande educador, dizia: “Não é a escola sozinha que vai mudar o mundo, mas sem a escola o mundo não muda”. Portanto, o tema da ética não tem a escola como sua referência mais exclusiva. Afinal de contas, o número de horas que uma criança ou jovem fica exposta ao processo escolar é muito menor do que o inverso. Uma criança fica, em média, quatro ou cinco horas na escola e as outras 19 fora, em contato com mídia, família e amigos. Aliás, vale muito pouco se uma escola tiver uma matéria chamada ética. O mundo dos valores tem que ser trabalhado no conjunto do projeto pedagógico em todas as disciplinas. E ética, para lidar com crianças e jovens, tem que ser de natureza exemplar e não teórica. Aquilo que se mostra, por exemplo, na educação física, jogos cooperativos em vez de fazer só competição, ter um momento para as crianças da educação infantil do brinquedo partilhado, do lanche coletivo, tudo aquilo que vai moldando valores de convivência que não precisa ser colocado teoricamente.

Como é o momento da educação no Brasil? Quais são as lacunas?
Mário Sérgio Cortella: Na educação básica brasileira temos apenas 13% das pessoas que estão na escola privada, 87% estão nas escolas públicas. Portanto, quase a totalidade da população que frequenta a escola está no nível público. Dado que o nível privado é um direito constitucional mas é minoritário, no nível público nós temos quatro grandes questões: a primeira delas é a democratização do acesso e da permanência. Isto é: colocar todas as crianças e jovens dentro da educação infantil, do ensino fundamental e do ensino médio a frequentar escolas, não apenas a matrícula, mas nelas permanecerem. Segundo, a ideia da democratização da gestão. A nossa Constituição Federal de 88, depois a lei de Diretrizes e Bases de 96, prevê que a comunidade tenha participação na gestão da estrutura escolar e isso ainda é muito diminuto. Se eu perguntar se você conhece o Conselho Municipal de Educação de Porto Alegre, ele existe e precisa existir por lei. Quem escolhe as pessoas? Como elas lá estão? Quem gere a educação na cidade onde você mora? Ocupa aquele posto por qual mandato? Essa questão é séria, a democratização da gestão. Terceiro, uma nova qualidade de ensino em que a gente, sem perder aquilo que é referência na história da educação, não fique atrasado com plataformas digitais, trabalhar com conteúdo que sejam mais significativos, ter uma atualização do processo pedagógico. Quarto e último, algo que é vergonhoso no nosso país. Um país que faz uma Olimpíada deveria ser capaz também de impedir que, ainda hoje, em 2016, 13 milhões de homens e mulheres não sejam capazes de lerem o lema da própria bandeira. Essa é, absolutamente, uma vergonha inacreditável, que a sétima nação mais poderosa do planeta em termos econômicos tenha ainda 13 milhões de pessoas, com mais de 15 anos de idade, que não leem “Ordem e Progresso”.

Levando em consideração o surgimento de leis sobre educação que nascem já defasadas, não faltam discussões sobre a realidade?
Mário Sérgio Cortella: Tudo é sempre bonito no papel. Isso é inerente a atividade da educação. A gente lida com gerações e gerações mudam todos os dias. O fato de você lidar com educação escolar faz com que haja desatualização cotidiana. Afinal de contas, aqueles que entraram na escola esse ano não estavam no passado e aqueles que estavam no passado já estão em outra postura. Portanto, essa desatualização é inerente a quem lida com o processo. É diferente da área de saúde que se tem uma patologia que você cura e ela cessa. Não há cura em educação. Educação é uma formação incurável. Portanto, todos esses planos têm um nível de precariedade que é muito contínua. A grande questão no Brasil é que eles entram em precariedade antes de serem implementados. Tudo aquilo que foi furtado da nação, seja pela atividade pública ou privada, nas últimas décadas, e que agora veio à tona com a Lava Jato e outras operações, seriam o suficiente para não termos essa questão. A gente tem, por exemplo, várias associações comerciais que, com toda a razão, fazem algo chamado impostômetro – que é avaliar o quanto estamos pagando de tributos no cotidiano. É uma coisa ótima. Mas tem que fazer o sonegômetro também. A Receita Federal calcula que, em 2015, tenham sido deixados de serem pagos em impostos, por sonegação, R$ 400 bilhões. Isso é mais do que o orçamento do MEC [Ministério da Educação]para um ano. Se eu não tivesse a sonegação, não teríamos essas questões. A implementação de vagas e projetos de estrutura seriam mais do que suficientes dentro disso. Não é questão de boa vontade, é questão de evitar a ladroagem.

Que escola é acessível para todos?
Mário Sérgio Cortella: A gente avançou imensamente nisso. Hoje, 97% das crianças em idade escolar do ensino fundamental estão matriculadas, mas não necessariamente têm permanência. Segundo, há uma defasagem imensa ainda na educação infantil e no ensino médio. Apenas metade dos jovens que deveriam estar no ensino médio o frequentam. Por outro lado, a questão não é confundir qualidade versus quantidade. Numa democracia, quantidade total é sinal de qualidade social. Qualidade sem quantidade é privilégio. Não se confunda qualidade com privilégio. Por exemplo, São Paulo, onde eu moro, se come muito bem. Quem come? Quem como o que? Por isso, se as pessoas não comem, eu não posso falar em qualidade, tenho que falar em privilégio. O que nós temos no Brasil ainda é uma estrutura de escolarização em que há uma apologia do privilegiamento, não da qualidade.

por Marco Aurélio Ruas

George Steiner: “Estamos matando os sonhos de nossos filhos”

1
George Steiner, em sua casa em Cambridge. Antonio Olmos

George Steiner, em sua casa em Cambridge. Antonio Olmos

 

Aos 88 anos, o filósofo e ensaísta denuncia que a má educação ameaça o futuro dos jovens

Borja Hermoso, no El País

Primeiro foi um fax. Ninguém respondeu à arqueológica tentativa. Depois, uma carta postal (sim, aquelas relíquias que consistem em um papel escrito colocado em um envelope). “Não responderá, está doente”, avisou alguém que lhe conhece bem. Poucos dias depois, chegou a resposta. Carta por avião com o selo do Royal Mail e o perfil da Rainha da Inglaterra. No cabeçalho, estava escrito: Churchill College. Cambridge.

O breve texto dizia assim:

“Prezado senhor,

O ano 88 e uma saúde incerta. Mas sua visita seria uma honra.

Com meus melhores votos.

George Steiner.”

Dois meses depois, o velho professor havia dito “sim”, colocando um término provisório à sua proverbial aversão às entrevistas.

O professor de literatura comparada, o leitor de latim e grego, a eminência de Princeton, Stanford, Genebra e Cambridge; o filho de judeus vienenses que fugiram dos nazistas, primeiro a Paris e, em seguida, a Nova York; o filósofo das coisas do ontem, do hoje e do amanhã; o Prêmio Príncipe de Astúrias de Comunicação e Humanidades em 2001; o polemista e mitólogo poliglota e autor de livros vitais do pensamento moderno, da história e da semiótica, como Errata — Revisões de Uma Vida, Nostalgia do Absoluto, A Ideia de Europa, Tolstoi ou Dostoievski ou A Poesia do Pensamento, abriu as portas de sua linda casinha de Barrow Road.

O pretexto: os dois livros que a editora Siruela publicou recentemente em espanhol. De um lado, Fragmentos, um minúsculo, ainda que denso compêndio de algumas das questões que obcecam o autor, como a morte e a eutanásia, a amizade e o amor, a religião e seus perigos, o poder do dinheiro ou as difusas fronteiras entre o bem e o mal. De outro, Un Largo Sábado, um inebriante livro de conversas entre Steiner e a jornalista e filóloga francesa Laure Adler.

O motivo real: falar sobre o que fosse surgindo.

É uma manhã chuvosa no interior de Cambridge. Zara, a encantadora esposa de George Steiner (Paris, 1929), traz café e bolos. O professor e seus 12.000 livros olham o visitante de frente.

Pergunta. Professor Steiner, a primeira pergunta é como está sua saúde.

Resposta. Ah, muito ruim, infelizmente. Já tenho 88 anos, e a coisa não vai bem, mas não tem problema. Tive e tenho muita sorte na vida, e agora a coisa vai mal, embora ainda tenha alguns dias bons.

P. Quando alguém se sente mal… é inevitável sentir nostalgia dos dias felizes? O senhor foge da nostalgia ou pode ser um refúgio?

R. Não, a impressão que se tem é de ter deixado de fazer muitas coisas importantes na vida. E de não ter compreendido totalmente até que ponto a velhice é um problema, esse enfraquecimento progressivo. O que mais me perturba é o medo da demência. Ao nosso redor, o Alzheimer faz estragos. Então, para lutar contra isso, faço todos os dias exercícios de memória e atenção.

P. E como são?

R. Você vai se divertir com o que vou contar. Eu me levanto, vou para o meu pequeno estúdio de trabalho e escolho um livro, não importa qual, aleatoriamente, e traduzo uma passagem para os meus quatro idiomas. Faço isso principalmente para manter a segurança de que conservo meu caráter poliglota, que é para mim o mais importante, o que define a minha trajetória e meu trabalho. Tento fazer isso todos os dias… e certamente parece ajudar.

P. Inglês, francês, alemão e italiano…

R. Isso mesmo.

P. Continua lendo Parmênides todas as manhãs?

R. Parmênides, claro… bem, ou outro filósofo. Ou um poeta. A poesia me ajuda a concentrar, porque ajuda a memorizar, e eu, sempre, como professor, defendi a memorização. Eu adoro. Carrego dentro de mim muita poesia; é, como dizer, as outras vidas da minha vida.

P. A poesia vive… ou melhor, no mundo de hoje sobrevive. Alguns a consideram quase suspeita.

R. Estou enojado com a educação escolar de hoje, que é uma fábrica de incultos e que não respeita a memória. E que não faz nada para que as crianças aprendam as coisas com a memorização. O poema que vive em nós, vive conosco, muda conosco e tem a ver com uma função muito mais profunda do que a do cérebro. Representa a sensibilidade, a personalidade.

P. É otimista em relação ao futuro da poesia?

R. Extremamente otimista. Vivemos uma grande época de poesia, especialmente entre os jovens. E escute uma coisa: muito lentamente, os meios eletrônicos estão começando a retroceder. O livro tradicional retorna, as pessoas o preferem ao kindle… Preferem pegar um bom livro de poesia em papel, tocá-lo, cheirá-lo, lê-lo. Mas há algo que me preocupa: os jovens já não têm tempo… De ter tempo. Nunca a aceleração quase mecânica das rotinas vitais tem sido tão forte como hoje. E é preciso ter tempo para buscar tempo. E outra coisa: não há que ter medo do silêncio. O medo das crianças ao silêncio me dá medo. Apenas o silêncio nos ensina a encontrar o essencial em nós.

P. O barulho e a pressa… Não acha que vivemos com muita pressa? Como se a vida fosse uma corrida de velocidade e não uma corrida de fundo… Não estamos educando nossos filhos com muita pressa?

R. Deixe-me ampliar esta questão e dizer-lhe algo: estamos matando os sonhos de nossos filhos. Quando eu era criança, existia a possibilidade de cometer grandes erros. O ser humano os cometeu: o fascismo, o nazismo, o comunismo… Mas, se você não pode cometer erros quando jovem, nunca se tornará um ser humano completo e puro. Os erros e esperanças desfeitas nos ajudam a completar o estágio adulto. Nós erramos em tudo, no fascismo e no comunismo e, na minha opinião, também no sionismo. Mas é muito mais importante cometer erros do que tentar entender tudo desde o início e de uma vez só. É dramático ter claro aos 18 anos o que você tem que fazer e o que não.

P. O senhor fala da utopia e de seu oposto, da ditadura da certeza…

R. Muitos dizem que as utopias são idiotices. Mas, em qualquer caso, serão idiotices vitais. Um professor que não deixa seus alunos pensar em utopias e errar é um péssimo professor.

P. Não está claro por que o erro tem uma fama tão ruim, mas o fato é que essas sociedades extremamente utilitaristas e competitivas possuem essa imagem negativa.

R. O erro é o ponto de partida da criação. Se temos medo de cometer erros, nunca podemos assumir os grandes desafios, os riscos. É que o erro retornará? É possível, é possível, existem alguns sinais. Mas ser jovem hoje em dia não é fácil.

O que estamos deixando a eles? Nada. Incluindo a Europa, que já não tem mais nada para lhes oferecer. O dinheiro nunca falou tão alto quanto agora. O cheiro do dinheiro nos sufoca, e isso não tem nada a ver com o capitalismo ou o marxismo. Quando eu estudava, as pessoas (mais…)

Go to Top