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Feiras literárias existem para estimular mercado e não para promover leitura, diz gestor

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Segue o debate sobre a função dos eventos literários no Brasil

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Afonso Borges, em O Globo

Alhos e bugalhos. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Suzana Vargas, na edição passada do Prosa, comparou (no artigo “O que se festeja nas festas literárias?”) eventos com eventualidade. O jogo de palavras é saudável, mas às vezes ilude. Não tem sentido comparar a realização de eventos literários, sejam quais for, com a necessidade de se educar uma população e aumentar o índice de leitura — mesmo que isso ocorra, em muitos casos.

Em primeiro lugar, eventos não são necessariamente, eventuais. A Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) é um evento e não é eventual. Realiza-se todos os anos. O projeto “Sempre um Papo”, que realizo há 29 anos, bate a marca das 5 mil atividades realizadas. E os exemplos de programas consistentes pelo Brasil, como o Fliaraxá, a Fliporto, a Feira de Porto Alegre e tantos outros, nos ultrapassam. Em recente debate no Salão do Livro de Paris, dividi a mesa com Jean Zarzana, falando exatamente deste tema — “A relevância dos eventos literários no Brasil e a questão da leitura” —, ao lado de Antônio Campos e Guiomar de Grammont. Zarzana, curador de 13 das 15 edições do Salão do Livro, é reticente com relação ao assunto: “não tenho a mínima ideia se os Salões do Livro que realizei aumentaram o índice de leitura”, disse, “mas sei do impacto que eles produziram no mercado”.

Esta é a função dos salões, feiras, festivais e bienais: dessacralizar o livro. Somente popularizando este produto ornado de mitologia é que a população vai ler mais. Mas este não é o centro da questão, ainda. O que deve ser dito, de uma vez por todas, é que o principal objetivo dos eventos literários não é o aumento dos índices da leitura no Brasil. E Suzana tem toda razão em seu texto. Isso é tarefa da educação formal. Um dos países que detém os mais altos índices de leitura no mundo é a França. E lá o livro é tratado como tal: um negócio. E dos mais rentáveis da economia. No Salão do Livro de Paris, assim com o de outros países, o que vale é o bom funcionamento do motor: o autor está ali para o livro ser vendido. Por que no Brasil existe tanto pudor em assumir isso? Por que tanta firula e discussões inócuas? O escritor quer, claro, ser reconhecido. Mas o reconhecimento se dá de uma só forma: em vendas. Ou existe escritor que vendeu 10 exemplares e é um sucesso?

No Brasil, há um moto-contínuo terrível, decorrente do mito que demoniza quem vende muito. Paulo Coelho é o ícone deste ritual estúpido. Antes, porém, Tom Jobim já preconizava isso em frases célebres sobre a fama. Os índices de leitura na França são altíssimos porque não se discute isso. Livro é para ser vendido e lido, de preferência. Mas antes de ser lido, vendido. E basta. Vejam a reação divertida do Milton Hatoum, ao ser eleito a estrela do Salão do Livro: “Não quero vender muito, porque se eu for chamado de best-seller, no Brasil, fica ruim…” A participação dos autores brasileiros no Salão foi sensacional. A despeito da forma como os escritores foram tratados pela organização, com honorários vergonhosos, os debates foram ótimos. Mas vejam: dê-se o devido crédito às editoras francesas, às entidades do livro e à Academia, que compuseram uma excelente programação paralela, entupindo a agenda dos autores de atividades. Uma palavra a mais: Luiz Ruffato foi a grande estrela do Salão. E isso ninguém disse. E ele não foi convidado pela organização brasileira e sim pelas suas editoras naquele país. Desde o discurso em Frankfurt, o mineiro Ruffato segue carreira solo, e brilhante, pelo mundo.

A eterna e complexa discussão do preço do livro, por exemplo, encontrou um oásis no Fliaraxá. Um acordo entre a rede Leitura e os organizadores colocou um contraponto nesta questão. A mais recente edição vendeu 40 mil livros em 4 dias. Como? A livraria colocou mais de 15 mil livros para vender com preços entre R$ 1 e R$ 10. Tornou-se, assim, o coração do Festival. De crianças a operários, ninguém saiu dali sem um livro debaixo do braço.

De resto, é importante dizer também que hoje vivemos o momento do autor. Não vale mais o livro, como objeto. Antigamente, o escritor passava anos escrevendo um livro e, por ele, era celebrado, e convidado. E vinha, cheio de graça, desfrutar de seu esforço solitário e criativo, metamorfoseado em páginas de um livro. Hoje, não. Hoje é o tempo do autor, da sua fala, da sua presença. O livro é sua extensão, seu… produto (palavra áspera, para os puritanos).

Esta é a verdadeira tarefa dos eventos literários: colocar autor e livro, postos frente a uma mesa de autógrafos, pronto para vender sua obra. Colocar o autor à frente de uma mesa de debates e seus leitores, na próspera tarefa de divulgar seu livro. Colocar o livro e a literatura em seu devido papel: fundamento e alicerce das outras artes. Aí entra a festa, o festival, com o cinema e as artes cênicas como atração, mas em segundo plano. Cada macaco no seu lugar. Ou, no caso, cada coruja em seu galho.

* Afonso Borges é gestor cultural, criador do projeto “Sempre Um Papo” e curador do Festival Literário de Araxá (Fliaraxá)

Último dia da Fliporto traz debates sobre legado de Ariano Suassuna

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Ariano Suassuna

Ariano Suassuna terá sua obra analisada a partir de outras linguagens além da literatura

Publicado no Diário de Pernambuco
O encerramento da Fliporto 2014, que homenageia o escritor Ariano Suassuna, traz quatro debates neste domingo. Três deles estão relacionados ao legado do escritor pernambucano em outras linguagens além da literatura: teatro, cinema, e música. A aproximação entre o cinema e a literatura também é assunto da festa literária, com a participação do escritor angolano Ondjaki.

Às 10h, a Companhia Editora de Pernambuco (Cepe) lança cinco e-books infantis, na Feira do Livro, no Pátio do Carmo, em Olinda. Às 16h, os jovens são contemplados no Fliporto Galera, com um bate-papo de Clarice Freire, do blog Pó de Lua, ao lado de Rayanna Pereira (Porre de livros) e Fernando Vasconcelos (Kinemail). No mesmo espaço, tem sessão de cinema às 18h, com a exibição de 16 luas (inspirado no livro de Margareth Stolh). Para crianças, também às 18h, na Fliporto Galerinha, será encenada a peça Pedrinho e a chuteira da sorte. O investimento na feira foi em torno de R$ 1,1 milhão e o público esperado para esta edição está entre 70 mil a 110 mil pessoas. Confira a programação dos debates do Congresso Literário:

14h – Roteiro, narrativas e imagens: as técnicas do cinema e da literatura: aproximações e distanciamentos, debate com Lourenço Mutarelli e Ondjaki e mediação de Sidney Rocha

Num mundo saturado de imagens e de narrativas, o que distingue o trabalho do escritor do que realiza um cineasta? E o roteirista, que papel tem para o resultado de um filme? As imagens no cinema, na literatura e na História em Quadrinhos, por exemplo, são essenciais – mas o que há de específico em cada uma delas? Dois dos mais premiados autores da atualidade contam de suas experiências nesses gêneros.

16h30 – Ariano Suassuna: do teatro ao romance e do romance ao cinema, debate com Carlos Newton Jr., Adriana Falcão e Bráulio Tavares, e mediação de Lourival Holanda

Se há algo que caracteriza toda a obra de Ariano Suassuna – na poesia, no teatro, no romance e até no que produziu sob forma pictórica – é a força narrativa e dramática. Com uma capacidade inigualável de comover, seja fazendo o seu público gargalhar, seja levando o seu leitor pensar e sentir algo tão grave como nas tragédias. Um professor especialista em seus textos, e dois escritores-roteiristas que fizeram os seus personagens vivos na tela da TV comentam suas leituras e releituras desses e outros livros.

18h30 – “Prefiro Tolstoi”: Ariano Suassuna e seus leitores, os segredos das aulas-espetáculo e as entrevistas, debate com Samarone Lima, Geneton Moraes Neto e Vladimir Carvalho

Era um entrevistado do tipo que os bons repórteres “pedem a Deus”. As frases de impacto surgiam aos borbotões e espontaneamente. Certa vez, um jornalista perguntou a ele: “O que o senhor acha da Aids?” Ariano ficou em silêncio, e em seguida, respondeu: “Prefiro Tolstoi”. As aulas-espetáculo, as entrevistas e revelações de bastidores são o tema deste bate-papo.

20h30 – Encerramento: Palestra de Raimundo Carrero em homenagem a Ariano Suassuna e concerto de Antônio José Madureira

“A morte – o sol de Deus”, “A vida – a estrada” e muitas outras obras compôs Antônio José Madureira com Ariano Suassuna, com quem fundou o Movimento Armorial, nos anos 1970. Também do movimento participou o romancista Raimundo Carrero, sua A história de Bernarda Soledade – A Tigre do Sertão tem os elementos da estética armorial.

Tragédias pontuam história de amor dos pais de Adriana Falcão, agora narrada em livro

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Homenageada da Fliporto deste ano, a roteirista e escritora resgata desde o primeiro encontro entre Caio e Maria Augusta, em 1947, até o enterro da mãe, no começo da década de 1990

Foto: Editora Intrínseca/divulgação

Foto: Editora Intrínseca/divulgação

Fellipe Torres, no Diário de Pernambuco

Foto: Editora Intrínseca/divulgação

Foto: Editora Intrínseca/divulgação

Ao caminhar na orla da praia de Boa Viagem, de tempos em tempos, a carioca Adriana Falcão, 54, sente-se mais perto dos pais, cujos restos mortais estão enterrados no Cemitério de Santo Amaro. Na memória, os anos vividos no Recife desde 1971, quando o patriarca da família veio instalar uma fábrica de papelão na cidade, até 1991, quando a mãe morreu depois de abusar de remédios, vodca e uísque. Treze anos antes, o pai havia se suicidado ao tomar 400 comprimidos para dormir, mesmo período em que a mulher ameaçava atear fogo no próprio corpo com um isqueiro e uma garrafa de álcool, que explodiu em sua mão. Era a culminância de uma vida atribulada. Ela, Maria Augusta, uma provável bipolar. Ele, Caio, depressivo.

Acompanhada de perto por tragédias, a história de amor entre os dois estaria esquecida se não fosse resgatada pela filha no livro Queria ver você feliz (Intrínseca, 160 páginas, R$ 29,90). Resgatar a vida em comum dos pais foi como uma terapia (“além da que já faço semanalmente e os antidepressivos que tomo”). Há cinco anos, a roteirista de A grande família acreditava levar uma vida perfeita junto ao marido, o cineasta João Falcão, e as filhas. Mas uma separação repentina gerou uma crise pessoal. “Era como se eu, aos 49 anos, visse acabar a vida que eu tinha e amava ter com essa família. Tive que me reinventar, repensar tudo”.

Foto: Editora Intrínseca/divulgação

Foto: Editora Intrínseca/divulgação

Parte dessa reinvenção terapêutica está em uma noite em claro, no Rio de Janeiro, acompanhada pelas duas irmãs e regada a “risadas, choros e Rivotril”. Juntas, elas abriram o baú onde ficam guardadas as correspondências dos pais, muitas delas reproduzidas no livro. Foi o ponto de partida para tornar pública a intimidade do casal. “Apesar de tanta tristeza, tanto conflito, eles foram tão fortes, tão lindos, tão difíceis… Claro, muita coisa ali é como um soco no estômago, mas é tão a realidade… Uma realidade que às vezes é cruel, mas às vezes é tão linda, engraçada, e cruel de novo”.

Para se distanciar e evitar sentimentalismos, Adriana deu voz ao amor e o colocou como narrador da história do casal. Um amor arrogante, ácido, irônico. Essa entidade é responsável por esmiuçar a combinação entre personalidade exuberante de Maria Augusta e a melancolia de Caio. A obra dá conta desde o primeiro encontro entre os dois, em 1947, até o enterro da mãe, no começo da década de 1990. Ao ler o livro em primeira mão, o genro Gregório Duvivier disse nunca ter entendido tão bem a mulher, Clarice Falcão. Juntos, eles gravaram e postaram vídeo no YouTube cantando Learnin’ the blues, música favorita de Caio e Maria Augusta. “A gente termina tendo orgulho dessa ancestralidade maluca, que suplanta todo o resto”.

ENTREVISTA >>> ADRIANA FALCÃO

Foto: Editora Intrínseca/divulgação

Foto: Editora Intrínseca/divulgação

Foto: Editora Intrínseca/divulgação

Foto: Editora Intrínseca/divulgação

Você escolheu o amor para ser narrador desse livro, que promete uma história bonita e oferece uma sequência de socos no estômago. O amor é mesmo tão cruel?
O narrador é um amor arrogante, não é? Acho que estou fazendo um desserviço à humanidade (risos). O mais incrível é que toda essa historia é verdadeira, com exceção de algumas coisas de quando eu não era nascida. São detalhes, como a data do noivado deles, que eu não sabia. Mas todas as cartas trocadas entre eles estavam dentro de um baú. A história de um tempo para cá todo mundo sabia, até porque a gente viveu isso tudo. Eu e minhas irmãs, que ainda moram no Recife.

Foi doloroso trazer à tona essa vida marcada por tragédias?
Obviamente foi muito duro. A gente sempre teve sensação de tanta gratidão por ter esses pais. Apesar de tanta tristeza, tanto conflito, eles foram tão fortes, tão lindos, tão difíceis também. A gente herdou da minha mãe o senso de humor. Lembro que no dia do velório dela, uma das minhas irmãs disse que Deus não iria aguentar minha mãe no céu e iria mandar ela de volta. E aí a outra respondeu que ela é que não iria aguentar viver lá no céu sem controlar a vida da gente e iria voltar. Mais tarde eu transformei isso em ficção, no livro A comédia dos anjos, em que uma mãe manipuladora morre e volta à vida.

Como foi a abertura desse baú e o contato com as cartas?
Quando mamãe morreu, fiquei muito mal. Fomos dividir as coisas, e eu não queria nada, estava muito agoniada. Quando achamos o baú, eu disse que queria, e tenho ele até hoje. Vez ou outra eu abria e mostrava a minha filha algumas coisas engraçadas (óbvio que não mostrei a carta de suicídio do meu pai). Mas sempre foi algo que me deu um pouco de medo. Há três anos, minhas irmãs estavam comigo aqui, no Rio de Janeiro. Com elas, me sentia mais segura. E aí passamos a noite em claro lendo, rindo, chorando, tomando Rivotril. Foi quando elas me disseram que eu precisava fazer um livro, pois tinha uma história muito rica.

Foto: Editora Intrínseca/divulgação

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Houve medo de se expor demais?
Passei por todas as crises. Pensei se não seria expor demais, se deveria ou não tornar essa história pública, até chegar à conclusão que, se eu e minhas irmãs, que somos herdeiras dessa história, concordávamos em dividir com os outros… Por que não? Também tinha a sensação de que meu pai e minha mãe opinariam a favor. Claro, muita coisa ali é como um soco no estômago, mas é tão a realidade… Uma realidade que às vezes é cruel, mas às vezes é tão linda, engraçada, e cruel de novo… mas é a realidade.
Teve um momento que fiquei na dúvida se incluía a carta de suicídio de meu pai, que é bem carinhosa, bem pratica, mas eu tinha um pouco de medo de expor isso. Mas conversei com minhas irmãs e elas me deram força. Por toda a minha vida cansei de dizer que meu pai se matou e ouvir alguém responder: “ah, coitado! Está queimando no inferno.” Essas coisas de quem não compreende o tamanho da dor de alguém que se mata. Nunca discuti, porque sou uma pessoa conciliadora, muito pacificadora, mas me incomodava muito quem não via o lado dele. Quando ele cometeu suicídio, tinha duas filhas grávidas, eu e minha irmã mais velha. Pra muita agente era uma coisa louca. Como um pai se mata e deixa a família assim? Mas só quem viveu a dor dele pode entender. Tenho certeza que pela posição política, social e emocional dos meus pais, eles gostariam que eu contasse essa história.

Como tocou a vida após a morte de sua mãe e deixar o Recife?
Depois de toda essa tragédia, logo depois vim morar no Rio de Janeiro com João e as meninas. Durante muito tempo escrevi A grande família, livros infantis, vivi uma fase muito bem, com a família feliz, com tudo indo bem no trabalho, tudo direitinho. Mas em 2009 a gente se separou. Eu não queria. Tinha uma paixão imensa, parecida com a que minha mãe tinha pelo meu pai. Foi difícil. Hoje em dia a gente é super amigo, e eu entendo perfeitamente o direito de escolha dele, aos 50 anos, de querer viver, experimentar outras coisas.
Absolutamente compreendi. Mas dentro de mim causou uma coisa muito forte, porque era como se eu, aos 49 anos, visse acabar a vida que eu tinha e amava ter com essa família. Foi uma crise pessoal. Me colocou em uma posição que tive que me reinventar, repensar tudo. E fui muito feliz em manter a união da família, nas conquistas profissionais. Fez parte desse esforço esse mergulho no meu passado, como uma espécie de terapia. Não basta a terapia que faço semanalmente e os antidepressivos que tomo. Tive que dar um mergulho lá dentro, reinventar Adriana.

As vidas da sua avó, de seu pai e de sua mãe foram marcadas por tragédias. Em algum momento houve receio de uma “herança maldita”?
Todas nós temos, eu, minhas irmãs, todos os nossos filhos adultos. Nós somos muito sensíveis, já tivemos crise de pânico, fizemos terapia, tanto nos três quanto nossas filhas. Mas com o tempo esse medo foi se transformando numa coisa maluca, em um orgulho de a gente ser assim. É engraçado… Quando o Gregório (Duvivier, marido de Clarice Falcão, filha de Adriana) leu, disse assim: “Meu Deus, entendi a Clarice como nunca”. (risos) Também teve o namorado da Isabel, o músico pernambucano Mateus Torreão, que falou algo sobre uma “ancestralidade maluca”. Achei bonitinho. A partir dessa ancestralidade maluca, a gente pega o que tem de melhor, o senso de humor, o talentos para as coisas. Herdamos muito da felicidade da minha mãe, que deveria ter sido escritora, para botar a agonia para fora de alguma maneira. Ela teve uma vida muito careta para a personalidade dela. Foi funcionária pública e se aposentou cedo para se mudar para o Recife. Viveu como dona de casa e não se aguentava desse jeito. Mas sinto que há uma herança bendita que engole a herança maldita. Minhas três filhas escrevem. A Clarice escreve, compõe, canta… É óbvio que todas as noites eu rezo pelo bem-estar emocional de todo mundo. Não é fácil. Às vezes uma das minhas meninas tem crise de pânico.

Foto: Editora Intrínseca/divulgação

Foto: Editora Intrínseca/divulgação

Como a família tem reagido ao livro?
Clarice e Gregório gravaram um vídeo cantando a música que meus pais gostavam. É como eu disse, a gente termina tendo orgulho dessa coisa… dessa ancestralidade maluca. Acho que isso suplanta o resto. Quando o livro foi lançado no Rio de Janeiro, estava lá a irmã do meu pai, com 83 anos, a família da minha mãe, todo mundo muito feliz de reencontrar com essas duas pessoas que eles amavam tanto. Com o livro, puderam entender melhor, ter acesso à vida deles. Hoje eu acordei com o telefonema de um primo meu, aos prantos. Ele era muito ligado à minha mãe. Ele disse: “o livro é lindo, estou aqui pensando nela”. É quanto eu me toco que realmente o livro tem esse lado punk.

E suas filhas?
Cada uma reage de um jeito. As meninas foram as primeiras a ler. Tatiana, a mais velha, disse: “Mãe, você conseguiu uma coisa inacreditável. Mas o final é assim mesmo? A gente vai ficar desacreditando de tudo mesmo?” Eu disse que não, que tudo tem suas dificuldades. Ela conviveu muito com a avó, então o que ela acha inacreditável é como a alma de mamãe ficou ali. Clarice tem uma relação mais próxima do humor. Fica lendo trechos das cartas de amor, em que minha mãe dizia: “Querido Caio, o ‘querido’ vou tirar porque na carta anterior você me tratou como quem vai me vender uma empresa ou um terreno em Jacarepaguá” (risos). Clarice fica morrendo de rir com essas passagens.
Já Isabel, que estuda letras, vai mais pela literatura. Comenta que foi um grande acerto tirar de mim a narrativa e colocar nesse amor que tem personalidade tão forte. Porque, caso contrário, poderia resvalar em um sentimentalismo no meu coração. Ao tentar colocar daquela forma, com um narrador tão ácido, tão crítico, coloco as coisas de uma maneira mais realista.

“A literatura é um jogo” é o tema da Fliporto 2013

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Publicado originalmente no Jornal do Commercio

Em coletiva de imprensa neste domingo, na Casa do Livro e da Literatura Infantil, em Olinda, Antônio Campos, curador da Festa Literária Internacional de Pernambuco (Fliporto), avaliou a edição de 2012 como positiva, destacando a importância da proximidade do público com o evento. Como de praxe, o curador também anunciou o tema da Fliporto 2013: “A literatura é um jogo”.

Em 2013, a festa vai fazer um diálogo entre a literatura, os games e os esportes, tendo em vista os eventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas. O objetivo da organização do evento é expandir a relação com a tecnologia também.

BALANÇO

Em 2012, a Fliporto teve um publico médio de 90 mil pessoas, segundo os dados da Polícia Militar. Um total de R$ 20 milhões foi movimentado nestes quatro dias de eventos, no Estado, de acordo com a Secretaria de Turismo de Pernambuco.

A equipe da Fliporto destacou o sucesso da terceira Feira do Livro, onde aconteceram mesas de autógrafos, como a com o moçambicano Mia Couto, que assinou cerca de 400 livro, em três horas, na sexta-feira. “Outro destaque também foi a abertura com Maria Bethânia, que lotou o auditório”, completou Antônio Campos.

Alguma mudanças também vão ser repensadas no próximo ano, a exemplo do espaço Solar da Marquesa. “Lá não vão mais poder acontecer lançamentos”, disse o curador. Para Antônio, houve desencontro na programação.

Curiosidades e esquisitices da palavra são tema de painel na Fliporto

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Humberto Werneck e J. Rentes de Carvalho, com mediação de Silio Boccanera (Foto: Reprodução/TV Globo)


Gabriela Alcântara, no G1

Saudade, amor, palavra, conhecimento, vida, pernambucana, amizade, essência, miscigenação e tolerância. Essas foram as dez palavras mais bonitas segundo os visitantes da Festa Literária de Pernambuco (Fliporto) 2012, que se encerra neste domingo. O anúncio foi feito durante o painel “Palavras: as implicâncias, as preferências e as esquisitices”, que contou com a participação de Humberto Werneck, J. Rentes de Carvalho e Silio Boccanera como mediador.

Amantes da palavra, os debatedores logo assumiram o hábito de leitura do dicionário. “Eu tenho uma relação com ligeiros toques de tara com a palavra. Amo as palavras, gosto do tamanho físico da palavra, da sonoridade. Até hoje sei palavras que nunca usei, só conheço porque vi no dicionário. Como ‘alpondra’, que são aquelas pedras que tem no rio e permitem atravessá-lo a pé”, afirmou Werneck.

O escritor e jornalista afirmou ainda que a constante leitura do dicionário não é para o uso descontrolado, mas pelo puro prazer do conhecimento. “Não tenho medo das palavras. É paupérrima a lista de palavras que se pode usar na imprensa brasileira hoje, eu sou contra isso, as palavras estão aí para serem usadas”, explicou.

Português que mora na Holanda há anos, J. Rentes de Carvalho também confessou a paixão pela leitura dos dicionários. Ao falar sobre a diferença entre a o português de Portugal e o brasileiro, ele afirmou que a língua-mãe começa a ficar ultrapassada: “Em Portugal temos a ideia de que a língua brasileira é um pouco infantil. O português tem essa ideia tola, de que a língua brasileira não é afinada. É uma tolice, porque não há línguas infantis, todas elas tem o mesmo valor. O que nós temos é uma arrogância de velhos, que não aceitamos neologismos, variações. Tenho a impressão de que o futuro da língua portuguesa está no Brasil. E nós vamos ser o museu, talvez o cofre ou a biblioteca onde as pessoas guardam as coisas preciosas”.

Em uma conversa divertida e apaixonada sobre as palavras das mais diversas línguas, os escritores debateram ainda sobre a ausência de algumas palavras com significados específicos.

“Segundo o Houaiss, a língua portuguesa tem 400 mil palavras. Em todas elas, não encontrei algo que designasse minha posição como avô. Existe para pai e mãe, mas não há para avô e avó”, comentou Werneck. O trio falou ainda sobre palavras que acham curiosas. Para os visitantes da Fliporto 2012, as três mais curiosas seriam procrastinação, idiossincrasia e oligofrênico.

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