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Livros para colorir, a falta de tempo e nossas mentiras sinceras

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Rodrigo Casarim, no UOL

Os livros para colorir estão em alta. Títulos como “Jardim Secreto”, “Floresta Encantada” e “Fantasia Celta”, somados, já venderam milhões de exemplares, aparecem com destaque impressionante em livrarias e atingem um número cada vez maior de pessoas. O sucesso é tanto que começou até a faltar lápis de cor em diversas papelarias – já mostramos isso aqui no UOL.

Como não poderia deixar de ser, a febre também veio acompanhada de polêmicas. Alguns alegam que ficar pintando desenhos seja coisa para criança, outros debatem se a atividade realmente possui poder terapêutico – muitos pintores garantem que colorir é um momento quase sempre solitário, introspectivo e desconectado da tecnologia, o que funciona como uma terapia. Importantes figuras do mercado editorial discutem se essas obras devem ou não figurar na lista dos mais vendidos, espaço que já dominam há algum tempo. Posso até ter uma opinião ou outra sobre esses assuntos, mas nada muito definitivo.

O que tenho certeza é de como muitas pessoas que até outro dia diziam não ter tempo para nada – e usavam essa desculpa para justificar a falta de leitura – encontraram espaço em suas agendas nem tão concorridas assim para passar duas, três, seis, dez horas semanais pintando. Até outro dia não tinham tempo sequer para ler um micro conto, mas agora acham quase todos os dias algum período ocioso para usar seus lápis de cor.

Quantos não passam boa parte de suas horas assistindo televisão ou navegando a esmo pela internet e, depois, alegam não ter tempo? Hoje pega até mal dizer que tem algum tempo sobrando. Estar sempre correndo e estressado virou um sinal bem estúpido de status. Daí que essa suposta falta de tempo serve como uma desculpa perfeita para não fazermos aquilo que não gostamos. Contudo, muitas vezes fica feio dizer “não leio porque não gosto”, então diversas pessoas garantem não ler apenas pela falta de tempo.

Só que aí aparece uma atividade que lhes atrai e que, ironicamente, chega exatamente por meio de um livro, o que deixa a situação apenas mais caricata. Antes essas pessoas não liam um livro por falta de tempo, mas agora arrumaram algumas horas semanais para pintar… um livro! Continuam não tendo tempo para mais nada, mas se algum outro modismo aparecer, realocam suas agendas para que consigam fazer o que realmente querem.

Não vou dizer que deveriam deixar de pintar – ou de assistir tevê, navegar na internet, empinar pipa, ficar olhando passarinhos… – para ler. Cada um faz o que quer da vida. Quero apenas mostrar que a falta de tempo não pode servir de desculpas. Sempre arrumamos tempo para aquilo que nos interessa, sempre, desde que nos interesse de verdade. No Canto dos Livros, meu antigo blog, já havia escrito sobre como o preço dos livros servia como desculpa para aqueles que não queriam ler; a falta de tempo é outra dessas desculpas, talvez a mais utilizada atualmente, mas também não se sustenta.

Não quer ler? Não leia! Mas não fique inventando lorotas. Falta tempo? Além de que o tempo não para, Cazuza também cantava que mentiras sinceras lhe interessavam. Todos nós temos nossas mentiras sinceras, o problema é quando elas nos servem de muletas.

Livros de colorir para adultos realmente alteram a atividade cerebral?

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Marilia Marasciulo, na Galileu

Esqueça os livros de autoajuda, “Cinquenta tons de cinza” e toda a coletânea de John Green.

A grande sensação do mercado editorial no momento é O jardim secreto: livro de colorir e caça ao tesouro antiestresse, da britânica Johanna Basford, lançado no Brasil pela Sextante no final do ano passado. O livro foi o terceiro mais vendido no país em março – mais de 22 mil exemplares no total, 14 mil só na última semana do mês.

O sucesso por aqui acompanha os números registrados em outros países: na Amazon, O jardim secreto é o mais vendido na categoria livros; na Amazon do Canadá, só perdeu o primeiro lugar para Floresta encantada, da mesma autora. E até a versão sul-coreana do livro ficou no topo da lista dos mais vendidos durante todo o mês de janeiro, segundo a Sociedade de Editores da Coreia. Várias editoras, em especial na Europa, têm apostado no gênero.

A inglesa Michael O’Mara Books começou a publicar livros para colorir em 2012, mas foi no ano passado que viu a moda pegar, com mais de 300 mil exemplares vendidos. “Já publicávamos livros de colorir para crianças, mas começamos a receber relatos de pais que também gostavam deles”, diz Ana McLaugh­lin, gerente de publicidade e marketing da editora.

Diferentemente dos livros infantis, os para adultos têm padrões mais complexos. Já os temas variam de jardins e mandalas a celebridades, como os da ilustradora Mel Elliot, também inglesa, que aposta em livros com desenhos de famosos (o do galã americano Ryan Gosling é um best-seller).

“Acredito que a tendência tenha começado com os livros interativos, como Destrua este diário, que fez muito sucesso. Desde então, as pessoas têm procurado uma forma de interagir com os livros e torná-los mais personalizados”, afirma Nana Vaz de Castro, gerente de aquisições da Sextante.

Há uma tese, porém, que por enquanto parece ser a mais aceita: a de que eles funcionam como uma espécie de “detox”, uma válvula de escape para rotinas estressantes. “É realmente relaxante porque, ao se concentrar em colorir direito ou na escolha das cores, a pessoa de fato parece esquecer os problemas do dia”, afirma McLaughlin. “Além disso, ainda tem a vantagem de que não dá para colorir e mexer no celular ao mesmo tempo.”

BELEZA É FUNDAMENTAL O sentimento de orgulho ou satisfação por completar a pintura e observar como ficou bonita também é outra explicação possível, já que os livros ativam o circuito de recompensa do cérebro, o sistema responsável pela sensação de prazer. Quando estimulado, ele libera dopamina, um neurotransmissor que provoca o sentimento de bem-estar (veja abaixo). “Mas não são todas as tarefas que ativam esse sistema, que se desenvolveu ao longo de milhões de anos para nos impelir a realizar ações úteis para a autopreservação e a preservação da espécie, como se alimentar e se reproduzir”, explica o neurologista Marino M. Bianchin, do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.

Tudo o que envolve trabalho manual ou arte também estimula a criatividade e a concentração. Quando se trabalha com cores, o resultado é ainda melhor, já que elas podem provocar diversas sensações, como calor, frio e tranquilidade. Bianchin explica que isso é herança dos nossos ancestrais, que de tanto ver fogo, por exemplo, passaram a associar o vermelho ao calor.

Mas, embora causem uma sensação de prazer e bem-estar, os livros não podem ser encarados como terapia, conforme explicam os arteterapeutas Ana Carmen Nogueira e Alexandre Almeida. “Na arteterapia, há um assunto específico a ser trabalhado, e usamos diferentes linguagens, como pintura ou desenho, para que a pessoa possa se expressar”, diz Almeida. “Os livros de colorir não são terapia, mas são relaxantes porque ajudam a proporcionar um momento de pura concentração”, completa Ana Carmen. Ou seja, os livros podem até funcionar como um analgésico para situações de stress, mas não têm nenhum poder milagroso para curar problemas como depressão ou ansiedade – a não ser que você seja dono de uma editora e esteja faturando muito mais que o previsto graças à nova moda.

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1. Ao observar que o desenho pronto ficou bonito, o sistema límbico do cérebro é ativado. Ele é responsável pelo controle de nossas emoções e tem papel importante na regulação do stress.

2. Dentro desse sistema, uma parte específica é responsável por proporcionar sensações de prazer: o circuito de recompensa. Ele começa na área tegmentar ventral (a), que transmite impulsos elétricos para o núcleo accumbens (b), parte central do circuito de recompensa. De lá, os impulsos seguem para o córtex pré-frontal (c), a parte responsável pelo planejamento de atividades.

3. Como não há contato físico entre os neurônios, os impulsos precisam de uma “ajudinha” para ser transmitidos de uma célula para outra. Essa ajuda é a dopamina, um neurotransmissor que transforma o impulso elétrico em sinal químico, possibilitando a transmissão. É a liberação da dopamina que causa a sensação de prazer.

Colorir livros vira alternativa entre leigos para tratarem emoções

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"É como terapia, desliga minha mente e as cores despertam prazer", Fernanda Perez Marinho, supervisora de loja

“É como terapia, desliga minha mente e as cores despertam prazer”, Fernanda Perez Marinho, supervisora de loja

Livros de Johanna Basford são sucesso, mas profissionais alertam que exercício sozinho não resolve o problema

Tetê Monteiro, no Saúde Plena

“Colorir revela meu lado criativo, desliga a minha mente e as cores despertam prazer. É como uma terapia.” A afirmação de Fernanda Perez Marinho, de 28 anos, supervisora de loja, faz coro a milhares de outras vozes, de pessoas que descobriram no vaivém dos lápis de cor cura para os males do corpo, da alma e da mente. Febre nas prateleiras das livrarias, os livros Jardim secreto e Floresta encantada, ambos de Johanna Basford, com a sugestiva frase nas capas “Caça ao tesouro antiestresse”, viraram referência para aliviar problemas e transtornos emocionais. E, de certa forma, vão ao encontro da linha defendida pelo terapeuta ocupacional Rui Chamone Jorge (1941- 2013). O tratamento chamoniano – ainda usado por seus seguidores nas sessões de psicoterapia – propõe prevenir, tratar, curar e reabilitar pacientes por meio de atividades livres e criativas.

Nos consultórios, porém, o colorir ganha um realismo mais técnico e científico. “Colorir é um passatempo, uma atividade relaxante, antiestresse e benéfica. Pode ser terapêutico desde que esteja associado a um contexto de tratamento”, explica a terapeuta ocupacional Ana Luiza Cesar Viana. Ela alerta ainda que, quando o paciente apresenta um adoecimento, como depressão, é preciso aliar o conteúdo artístico com outras intervenções clínicas. “Por isso o colorir não pode ser usado como panaceia, ou seja, um remédio para todos os males. Ele, sozinho, não resolve o problema”, defende.

Fernanda, que já fez terapia, inclusive em grupo, concorda que os livros de colorir são passatempo, mas considera que esse momento relaxante pode ajudar pessoas como ela – “ansiosas” – a evitarem impulsos, como a compulsão alimentar. “Fico praticamente o dia todo em frente a um computador. Quando chego em casa à noite, quero descontar na comida. Então, depois que comprei o livro, faço um lanche e passo mais de uma hora colorindo. Esvazio a mente. É um processo criativo, que me faz desligar do cansaço do dia a dia e ainda me afasta desta overdose digital que estamos vivendo.”

Para Ana Luiza, em casos como o relatado por Fernanda, colorir pode sim ajudar, pois é considerado atividade relaxante. Além disso, segundo a terapeuta ocupacional, contribui para a construção da identidade. “O ser humano necessita criar, se expressar. A atividade artística traz a pessoa para dentro de si. Com a cor e ferramentas que usa, ela constrói o que quer fazer e coloca para fora um olhar novo sobre si mesma. Esta consciência é que ajuda a pessoa a transformar a si mesma”.

AFASTAMENTO DIGITAL A terapeuta corrobora com o afastamento digital que Fernanda cita. “É uma ótima ideia para tirar as pessoas do computador, dessa frieza e da alienação que a virtualidade excessiva está construindo.” Para ela, o trabalho manual com lápis de cor ainda aproxima as pessoas da estética. “Não existe o bem sem o belo”, diz Ana Luiza.

Fernanda não segue uma rotina para colorir seus livros. Depende do dia. Mas é nas cores que ela também se encontra, inclusive estreitando mais os laços com a mãe, Leda, de 69, que é companheira da filha na atividade artística. “Voltei ao tempo quando fui comprar os lápis de cor, me senti criança. Foi muito bom. Gosto de usar todas as cores. Minha vida está colorida”, brinca.

Ana Luiza explica que entrar em contato com as cores é automaticamente entrar em contato com as emoções. “Identificamos sentimentos com cores. Por isso dizemos: ‘Fiquei vermelho de raiva’, ‘Meu coração está cinza’”. Deixando a filosofia do simbolismo de lado, a terapeuta ocupacional volta a lembrar a ‘função’ do colorir: distrair, relaxar, construir o belo, voltar-se para si, meditar, criar. “Pode ser um bom remédio para o cansaço e a vida moderna.”

Palavra de especialista: Gilda Paoliello, psiquiatra e psicanalista

Poder apaziguador

“Perguntada, assim de chofre, se colorir faz bem à saúde mental, me veio logo à mente a imagem de Aninha, minha netinha de 4 anos, que passa horas a fio colorindo princesas e seus castelos, feliz da vida. E o que faz bem às crianças, é claro, faz bem a todos. Atividades lúdicas neste mundo robotizado são muito bem-vindas, e a psiquiatria sabe disso. O recurso da criatividade do desenho e do colorir é, há muito, utilizado pela terapia ocupacional e arte-terapia. São atividades que têm poder organizador e apaziguador para nosso mundo interior. O uso das cores como recurso terapêutico é também instrumento diagnóstico, muito usado em testes psicológicos, sendo um espelho de nossa vida interna, por meio de processos identificatórios. Colorir ativa diferentes áreas cerebrais, ligadas à criatividade, além de relaxar áreas que controlam as emoções. Como qualquer outro recurso terapêutico, o uso do colorir não é aplicável a qualquer quadro. Nos quadros de agitação, ansiedade muito forte ou depressão paralisante, a pessoa não terá capacidade de introspecção ou de abstrair-se de suas angústias para usufruir do prazer de desligar-se do mundo por meio das cores. Mas nada é remédio para tudo…”

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