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Posts tagged Fofocas

A biografia é um gênero literário menor que virou indústria

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Biografia

Título original: Melancolérico hidropirantropos

Mario Sergio Conti, na Folha de S.Paulo

A biografia é um gênero literário menor que virou indústria.

Numa prosa de autoajuda, a linha de montagem biográfica junta fofocas lúbricas e detalhes pernósticos. O autor dá ao livro um lustro acadêmico e o marketing decide se é uma denúncia escandalosa ou a celebração de um tipo excepcional. Pronto, mais uma mercadoria na prateleira.

Até o pobre Brecht foi moído pela máquina de trivialidades. Numa das suas biografias mais reputadas, se diz que ele gostava de transar de pé. Pior: espiando pela fechadura, o pudibundo biógrafo adotou o ar escandalizado de uma tia coroca e recriminou o dramaturgo pelos maus modos.

A situação pode estar mudando. Saiu há pouco na Inglaterra “Bertolt Brecht – A Literary Life”, a sua primeira grande biografia em duas décadas. Stephen Parker, o autor, é professor universitário e crítico de literatura alemã. Ele teve acesso a muito material inédito —sobretudo prontuários médicos— e o organizou de maneira clara.

Com isso, Parker poderia ter escrito uma boa biografia, mas fez um pouco mais em dois aspectos cruciais. Com argúcia para a história, ele dá textura às primeiras décadas do século 20, que definiram a arte e a vida de Brecht. Ele foi forjado existencialmente pela vitória bolchevique de 1917 e, logo em seguida, pela derrota da revolução alemã.

As revoluções o marcaram mais do que o exílio de 16 anos, apesar de os nazistas, nas suas palavras, lhe terem roubado a casa, o carro, o palco e o público. O fracasso ou o sucesso de suas peças (“A Ópera dos Três Vinténs” esteve em cartaz em 22 cidades de quatro países simultaneamente), não o afastaram do que considerava a sua missão: batalhar pela mudança radical da vida.

Talvez por isso Brecht tenha criado um neologismo para se autodefinir: “melancolérico”. Ou que um amigo o tenha chamado de “hidropirantropos”, o homem de água e fogo. Ele tinha sensibilidade extremada e combinava em si contradições insolúveis.

O destino da revolução na Europa explica também as suas relações conflitantes e ambíguas com o stalinismo. Ele nunca se filiou ao Partido Comunista, apesar de ter editado uma revista cultural do governo em Moscou. Sempre defendeu Stálin, mas disse a Walter Benjamin, em 1931, que “Trótski era o maior escritor europeu vivo”.

A segunda virtude de Parker é fazer crítica estética a fundo. Não se trata apenas da discussão da arte anti-ilusionista de Brecht, da junção que ele fez de vanguarda estética e política revolucionária. Ou de suas querelas com o naturalismo, com Lukács e o realismo socialista, com a Escola de Frankfurt, Thomas Mann ou Hollywood.

Parker desce a detalhes. Lembra o impacto que Bob Dylan teve ao descobrir, na primeira juventude, as canções brechtianas. Conta que, na Londres dos anos 1930, Brecht elogiou uma encenação de “Sweeney Agonistes”, do arquirreacionário T.S. Eliot. Para Parker, ele compartilhava com Eliot e W.B. Yeats (que estava na plateia) o gosto pela estilização do teatro Nô japonês.

O biógrafo nota que “A Santa Joana dos Matadouros”, a peça na qual a influência de “O Capital” é mais evidente, só foi levada aos palcos depois da morte de Brecht.

Para Parker, o melhor da arte brechtiana, o que vai ficar, está nos poemas líricos e na primeira versão de “Galileu”, segundo ele uma peça mais autobiográfica do que sobre o cientista italiano.

Difícil dizer. No fecho de um de seus últimos poemas, Brecht escreveu que, se pudesse escolher, queria:

Das vidas, a lúcida,

Das mortes, a rápida.

Para além da vida e da morte, só neste ano, e só na Inglaterra, foram publicados os seus poemas de amor, os seus escritos teóricos e uma história do Berliner Ensemble, o teatro de Brecht no pós-guerra.

Biografia “Coração Assombrado” retrata medos do escritor Stephen King

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O escritor Stephen King fala durante palestra para alunos de escrita criativa na Universidade de Massachusetts (Foto: Elise Amendola - 7.dez.2012/Associated Press)

O escritor Stephen King fala durante palestra para alunos de escrita criativa na Universidade de Massachusetts (Foto: Elise Amendola – 7.dez.2012/Associated Press)

Rodolfo Lucena, na Folha de S.Paulo

Depois de mais uma noite em que dormira sozinha, Tabitha desceu a escadaria de mogno de sua mansão vitoriana de 24 aposentos para encontrar uma cena que já não lhe era novidade: o marido desmaiado em uma poça de vômito, caído no chão de seu escritório.

O gigante de 1,90 m tinha sido novamente derrubado por uma bebedeira monumental. Era Stephen King, um dos autores de maior sucesso na história.

Apesar de sua fortuna miliardária, dos mais de 300 milhões de livros vendidos e dos mais de 50 prêmios, King vivia assombrado por monstros e demônios muito mais poderosos que os habitantes de sua fileira de livros de horror, suspense e fantasia.

Seus medos podem parecer triviais –de escuro, cobras, ratos, aranhas e coisas gosmentas– ou mais poderosos: de terapeutas, deformidades, lugares fechados, da morte, de voar ou de ser incapaz de escrever. Certa vez afirmou que vivia na República Popular da Paranoia; em rara visita a uma analista, confidenciou: “O medo é a minha vida”.

Com riqueza de detalhes, os casos são contados em “Stephen King, a Biografia – Coração Assombrado”, que chega agora ao Brasil, três anos após seu lançamento nos EUA.

Apesar de ser uma biografia não autorizada, não se trata de um amontado de fofocas, mas sim do resultado de pesquisas que procuram mostrar quem é King e de onde saem as ideias para seus best-sellers.

O fato de não ter entrevistado King nem sua mulher não foi um grande problema para a autora, segundo ela disse à Folha, por e-mail.

“Stephen King sempre foi um livro aberto, escrevendo sobre seus vícios e pontos fracos de forma muito franca e sincera”, contou Lisa Rogak, especialista em biografias e autora de mais de 40 livros sobre temas diversos, da vida de Dan Brown (autor de “O Código Da Vinci”) às aventuras dos cães que trabalham no Exército dos EUA.

Seu texto claro e sem firulas não foge de eventuais adjetivos nem de frases de efeito, como a que abre o primeiro capítulo: “Diz-se que Stephen King nunca deveria ter nascido”.

Segundo os médicos, a mãe não seria capaz de engravidar; no entanto, dois anos depois de a família ter adotado um bebê, King nasceu no dia 21 de setembro de 1947. Passados outros dois anos, o pai saiu para comprar cigarros e nunca mais voltou.

Da miséria à opulência, o livro acompanha a trajetória de King em ordem cronológica. Lembra suas primeiras histórias, ainda na infância, o primeiro texto publicado, o encontro com Tabitha, a gênese de “Carrie, a Estranha” e sua sequência de sucessos.

Sem analisar a obra, deixa evidente o que os leitores fiéis de King há muito já descobriram: ele tira suas ideias da vida real, dos medos cotidianos e de dramas até pueris.

Além de prolixo, é profícuo e multidisciplinar: sua obra se estende para o cinema, a música e a política, em que tem se revelado militante de causas como o controle de armas e o aumento de impostos sobre grandes fortunas.

Em suma, resume a biógrafa, “é um cara muito simples, que apenas quer continuar a contar suas histórias”.

“Coração Assombrado” traz ainda uma útil linha de tempo, índice remissivo, lista de obras de King em português e dicas de sites de referência sobre a vida e obra do mestre do suspense.

Roberto Carlos tenta barrar livro que trata de cultura durante a jovem guarda

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Publicado na Folha de S. Paulo

Os advogados do cantor Roberto Carlos enviaram, no início deste mês, uma notificação extrajudicial pedindo a interrupção da venda e o recolhimento dos exemplares à disposição, em livrarias, de “Jovem Guarda: Moda, Música e Juventude”, de Maíra Zimmermann, lançado no último dia 4 de abril pela Estação Letras e Cores.

Resultado de uma dissertação de mestrado em moda, cultura e arte no Centro Universitário Senac e publicado com apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), o livro aborda a relação do movimento com a consolidação da cultura juvenil no Brasil dos anos 1960.

Segundo a notificação, “o livro traz uma série de situações que envolvem o notificante [Roberto Carlos] e traz detalhes sobre a trajetória de sua vida e intimidade”. Além disso, diz o texto, “a própria capa do livro contém caricatura do notificante e dos principais integrantes da jovem guarda sem que eles nem sequer fossem notificados”.

Zimmermann, que contratou um advogado e enviou uma contranotificação ao escritório de Roberto Carlos, diz que a obra não trata da intimidade do cantor. “A impressão que dá é que eles não tiveram contato com o livro.” Ela destaca que a pesquisa se baseou em arquivos e revistas dos anos 1960. “Não fui bisbilhotar fofocas. É uma pesquisa superséria, resultado do meu mestrado.”

Divulgação
Capa do livro "Jovem Guarda: Moda, Música e Juventude", de Maíra Zimmermann
Capa do livro “Jovem Guarda: Moda, Música e Juventude”, de Maíra Zimmermann

A notificação alega que “a publicação das fotografias também violou o direito autoral de determinados fotógrafos, que não concederam autorização para publicação de suas fotos”. A autora diz que o volume tem apenas uma foto de Roberto Carlos, posada, junto com com Erasmo Carlos, Wanderléa e outros personagens do movimento. A imagem foi comprada de uma empresa licenciada pela editora Abril, detentora dos direitos.

MUDANÇA NO CÓDIGO CIVIL

A notificação se vale de trecho do artigo 5º da Constituição Federal que veda a violação da intimidade e da vida privada, bem como sua exploração indevida. Cita também o artigo 20 do Código Civil Brasileiro sobre o tema.

Esse é justamente o artigo cuja alteração, proposta pelo deputado Newton Lima (PT-SP), foi aprovada pela Câmara dos Deputados neste mês, visando a liberação de filmes ou a publicação de livros biográficos sem autorização da pessoa retratada ou de sua família. O projeto foi encaminhado para votação no Senado.

Foi com base nessa legislação que a Justiça proibiu, em 2007, a comercialização da biografia “Roberto Carlos em Detalhes”, de Paulo Cesar de Araújo, que acabou se tornando símbolo para aqueles que trabalham pela alteração da lei.

Procurado pela Folha, o advogado Marco Antônio Campos, da Campos Escritórios Associados, que representa o cantor, diz que a notificação decorreu da utilização comercial não autorizada da imagem de Roberto Carlos.

“Fazer aquela caricatura de forma desautorizada viola os direitos de imagem do Roberto”, diz, referindo-se à capa do livro. “Não estamos tentando proibir a circulação do livro, não temos nenhuma objeção, nenhuma intenção censória quanto ao conteúdo do livro.”

A notificação, no entanto, refere-se também ao que se entende por “imagem-atributo”, “imagem relacionada à vida do indivíduo em sociedade. É a imagem que se tem de alguém em razão de seus pensamentos e de seu comportamento social”.

“É clara a conclusão de que a imagem e a vida privada do notificante estão sendo indevidamente exploradas pela notificada”, diz o texto.

Sobre a imagem de capa, de autoria de Douglas K. do Amaral, Maíra Zimmermann diz que não se trata de uma caricatura, que se caracteriza por distorções de proporção para acentuar aspectos de uma pessoa e satirizá-la. “É uma ilustração baseada em croquis de moda e não é de nenhuma maneira ofensiva. Pelo contrário, é uma homenagem.”

Dody Sirena, empresário do cantor, disse à Folha que “todo mês, há três, quatro situações de livros ou shows explorando indevidamente a imagem do Roberto”.

“Fazemos a notificação porque a lei nos protege. São tantos casos que eu já passo direto para o escritório jurídico. Fazemos isso em situações que não configuram uma homenagem ao Roberto, mas em casos que usam a imagem dele para ganhar dinheiro”, diz o empresário.

O livro saiu com tiragem de mil exemplares.

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