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Cotista carente recebe doações e poderá se matricular em Sergipe

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Jonathan Silva, 20, foi aprovado na federal de Sergipe pelo sistema de cotas (foto: Danilo Verpa/Folhapress)

Jonathan Silva, 20, foi aprovado na federal de Sergipe pelo sistema de cotas (foto: Danilo Verpa/Folhapress)

Fábio Takahashi, na Folha de S.Paulo

Com a ajuda de pessoas de diversos Estados, o cotista paulista Jonathan Derek Souza e Silva, 20, conseguiu dinheiro suficiente para viajar para se inscrever na Universidade Federal de Sergipe -e agora vislumbra auxiliar outros estudantes pobres.

A Folha mostrou nesta sexta-feira que Jonathan, morador de uma favela na zona sul de São Paulo, conseguiu ser aprovado no curso de artes visuais da universidade federal, beneficiando-se da lei de cotas.

Mas ele não tinha recursos para viajar a Aracaju para fazer a matrícula, que deve ser presencial e cujo prazo termina na terça-feira.

Menos de 24 horas após a publicação da reportagem, Jonathan conseguiu recursos para bancar sua passagem área -um doador anônimo, sozinho, depositou R$ 2.000.

Um vaquinha on-line levantou outros R$ 600.

O aluno afirma que ao menos outras 30 pessoas entraram em contato com ele e estavam até a noite de hoje em processo para depositar mais dinheiro. Gente, segundo ele, de São Paulo, Brasília, Belo Horizonte e outras.

A Folha foi procurada inclusive por uma brasileira que mora em Berna, na Suíça, que procurava os contatos do cotista para ajudá-lo.

“Como o menino chega onde chegou e pode perder a vaga por R$ 500?”, disse ela (que não quis ser identificada), referindo-se ao valor necessário para a passagem de ida São Paulo-Aracaju.

“O pessoal está passando ordem de pagamento, mas, até o momento, não consegui parar para ver quanto veio”, afirmou Jonathan.

De Sergipe, Jonathan recebeu a garantia de uma família de que poderá morar com eles caso não consiga a bolsa moradia oferecida pela universidade -que costuma ter mais candidatos que vagas.

Como os recursos recebidos excederam o que ele precisava para este momento, o cotista e a Educafro (cursinho comunitário em que Jonathan estudou) dizem estar levantando informações sobre outros cotistas em situação semelhante, para que também sejam ajudados.

“Como te disse para a reportagem, o problema não atingia apenas a mim, mas a milhares”, afirmou.

O Ministério da Educação diz que tem aumentado, anualmente, os recursos para assistência estudantil.

Em 2014, a previsão é que sejam destinados R$ 775 milhões, 25% a mais que no ano anterior. Disse também que tem orientado as universidades a mostrarem aos alunos que moram longe da instituição que a matrícula pode ser feita por meio de procuração.

Para isso, porém, o aluno precisa conhecer alguém na sede da instituição.

Livraria no Líbano é incendiada após boato de que seu dono era contra Maomé

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Diogo Bercito, na Folha de S. Paulo

Quando as antigas portas de madeira da Livraria Al-Saeh se abrem, escapa rápido pela passagem um ar pesado, carregado de cinzas. Foram queimados ali dentro, na sexta-feira, livros centenários dessa que é conhecida como uma das livrarias mais antigas do Líbano.

Dois dias depois, a Folha encontrou um mutirão de moradores locais empunhando enxadas e caixas de papelão, em uma tentativa de salvar parte de seu acervo.

A Livraria Al-Saeh foi vítima de extremistas muçulmanos que, diante do falso rumor de que seu dono havia escrito um artigo contra Maomé, o profeta do islamismo, forçaram sua entrada e empaparam os livros com gasolina, antes de atear fogo.

Editoria de Arte/Folhapress

Editoria de Arte/Folhapress

O chefe das forças de segurança chegou a afirmar em público que o boato não era verdadeiro, mas a história já havia incendiado os ânimos na cidade, levando ao ataque de extremistas.

Mas a cena testemunhada pela reportagem no local dava conta da distância que há entre a narrativa de um conflito religioso disseminado na cidade de Trípoli e a realidade, em que muçulmanos sunitas e xiitas se reuniram para, ao lado dos proprietários cristãos, varrer juntos o chão chamuscado.

“Os culpados por esses incidentes são sempre os que odeiam”, afirma Muataz Salloum, 26, organizador do mutirão. “São pessoas baratas compradas por quem quer criar conflito no país.”

Não são poucos os interessados. O Líbano tornou-se palco das disputas regionais entre correntes islâmicas, opondo xiitas de Irã e Síria a sunitas da Arábia Saudita.

A cidade costeira de Trípoli, em especial, tem sido abalada pelo conflito sírio, já que a sua população alauita (ramo do xiismo) defende o ditador Bashar al-Assad. Os sunitas apoiam os insurgentes, que querem ver o presidente deposto.

Livraria Al-Saeh, na cidade antiga de Trípoli, no Líbano, após incêndio proposital que destruiu livros centenários Diogo Bercito/Folhapress

Livraria Al-Saeh, na cidade antiga de Trípoli, no Líbano, após incêndio proposital que destruiu livros centenários
Diogo Bercito/Folhapress

MEMÓRIA

Crianças se juntavam, ontem de manhã, ao batalhão de limpeza. De luvas e máscaras cirúrgicas, carregavam livretos para cá e para lá. Não havia eletricidade, e era difícil enxergar. Uma fina fumaça indicava que ainda havia fogo, e corriam nos corredores os baldes de água trazidos pelo Exército.

A queima da Livraria Al-Saeh foi recebida com surpresa ao redor do país. Seu dono, um padre grego ortodoxo, é uma figura local carismática, que vende, inclusive, títulos sobre a vida do profeta Maomé e o islamismo.

“Não sabemos como começou”, diz uma libanesa, parente do padre Ibrahim Srouj. Ela prefere não se identificar. “Homens armados vieram e puseram fogo, antes de fugir. Vizinhos ouviram o barulho e vieram ver.” Ninguém reivindicou o atentado.

A livraria, fundada nos anos 70, fica em uma antiga delegacia otomana, hoje aos pedaços. “Quando você quer destruir um país, começa por apagar a memória dele”, diz a parente.

Cliente da Livraria Al-Saeh há nove anos, um advogado -que também não revela o nome- assistia à limpeza da loja. Ele diz que o proprietário do imóvel já tentara expulsar o dono e sugere uma ligação entre o mercado imobiliário e o incidente, incluindo o sumiço da polícia no momento desse crime.

“O padre Srouj está assustado”, afirma. “Ele quer garantias da liderança política e das milícias para voltar e reabrir a Livraria Al-Saeh.”

MANUSCRITOS

De acordo com familiares, havia 80 mil títulos na livraria. Um terço deles foi queimado. Os exemplares mais antigos ali datam do século 17, e ainda não se sabe qual foi o dano causado a eles.

O ativista Taha Baba, 25, não se importa exatamente com os livros. Ele confessa, entre estantes escurecidas, que mal gosta de ler. “Sou técnico de computação, só leio livros de informática.”

“Mas vim ver o que foi feito e, quando encontrei manuscritos queimados, decidi ajudar. Eles destruíram a memória de Trípoli”, afirma.

Baba tira seu celular de dentro do bolso e mostra algumas mensagens para a reportagem. Uma delas diz “você é o próximo”, em ameaça devido ao fato de ele ter participado de uma passeata, anteontem, contra a queima.

“É uma guerra”, diz. “Os extremistas querem criar um Estado islâmico em Trípoli.”

Países com melhor educação tendem a ser menos corruptos

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Sabine Righetti na Folha de S.Paulo

Os países com melhores índices de educação tendem a ter menores taxas de corrupção. É isso que mostra um cruzamento feito pela Folha entre os dados do Índice de Percepção de Corrupção Mundial e do Pisa, exame internacional que avalia estudantes de 15 e 16 anos em matemática, leitura e ciências (ensino médio).

Os dados mostram que os países menos corruptos estão no topo do Pisa. Um exemplo é Cingapura, que está entre os cinco países menos corruptos na análise da ONG Transparência Internacional e figura em 2º lugar na avaliação do Pisa em matemática, por exemplo.

O Brasil está em 58º lugar na mesma avaliação do Pisa (de matemática) e em 72º lugar na lista dos países corruptos.

“A relação é clara. Uma sociedade com melhores índices de educação cobra mais do governo”, explica o promotor de Justiça em São Paulo Roberto Livianu. Ele é doutor em direito pela USP com uma tese sobre combate à corrupção e criador da campanha “Não Aceito Corrupção”.

Para Rafael Alcadipani, especialista em organizações da FGV-SP, trata-se de “um círculo virtuoso positivo”. “Com menos corrupção, sobram mais recursos para educação. E isso faz com que o país também se torne menos corrupto.”

Uma exceção na análise é a China, que lidera as análises de matemática, leitura e ciências do Pisa, mas está em 80º lugar na classificação de países corruptos – posição pior do que a do Brasil.

“A China não é um país democrático. A sociedade nem tem instrumentos para cobrar o governo”, diz Livianu.

O Pisa é um exame feito pela OCDE (organização dos países que ricos, que organiza a prova) a cada três anos em 65 países. Já a lista dos países corruptos é organizado anualmente pela ONG Transparência Internacional com base em dados de percepção de abusos de poder, acordos clandestinos e subornos nos setores públicos em 177 países.

O Brasil é o país em que os alunos mais avançaram no Pisa especificamente em matemática nos últimos nove anos (edições de 2003 a 2012).

Ainda assim, segue entre os piores do mundo atrás do Cazaquistão (140º no ranking de corrupção), do México e do Uruguai (ambos em 106º lugar no ranking de corrupção).

Somália, Coreia do Norte e Afeganistão estão entre os países mais corruptos da lista. Nenhum deles participa do Pisa.

 

Editoria de Arte/Folhapress

Editoria de Arte/Folhapress

Adolescente que criou teste para detectar câncer rejeita rótulo de nerd

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Raul Juste Lores na Folha de S.Paulo

Jack Andraka, 16, nasceu em Crownville, Maryland, nos EUA. No ano passado, ele recebeu o grande prêmio da Feira Internacional de Ciência e Engenharia, nos EUA, por sua pesquisa sobre um novo método para diagnosticar câncer de pâncreas.

Em novembro, deu uma palestra sobre inovação no BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) e, na semana passada, escreveu um artigo para o “New York Times” sobre o ensino de ciência. Jack, que é gay, quer se tornar referência para jovens cientistas que pertençam a minorias.

Leia o depoimento dele à Folha.

*

Já estive quatro vezes na Casa Branca com o presidente Obama e fui convidado a dar palestras em conferências médicas na França, na Itália, na Austrália e no Reino Unido, quase sempre falando sobre inovação e a importância de se estimular o interesse científico nas escolas.

Jack Andraka dá palestra em conferência TED nos EUA no início deste ano

Jack Andraka dá palestra em conferência TED nos EUA no início deste ano

Aos 15 anos, desenvolvi um teste que consegue diagnosticar precocemente o câncer de pâncreas. Meu tio morreu por causa disso e fiquei pensando no que eu podia fazer. Diferentemente das mulheres com tumor de mama, as vítimas desse câncer só têm o diagnóstico muito tarde, com uma alta taxa de mortalidade. Só 5% sobrevivem.

Desenvolvi um sensor usando papel-filtro e nanotubos para detectar proteínas ligadas ao câncer rapidamente, cem vezes mais que outros testes [ver ao lado].

Ganhei o primeiro prêmio da Feira Internacional de Ciência e Engenharia (ISEF) no ano passado, no maior evento para cientistas pré-universitários, e não parei.

ESTÍMULO

Depois de procurar mais de 200 cientistas e centros de estudos e ser rejeitado por todos, fui abrigado pelo Anirban Maitra, pesquisador de câncer de pâncreas da Universidade Johns Hopkins, um dos maiores centros de pesquisa no mundo.

Minha escola é normal, ninguém estava preparado para me estimular ou ajudar nas pesquisas. O ensino científico ainda é fraco e raro. Ler artigos em publicações especializadas é caríssimo.

Meu laboratório mesmo é a garagem de casa, onde meu pai tinha uma marcenaria e, desde crianças, meu irmão e eu podemos fazer mil testes e usar ferramentas que nosso pai sempre nos deu ou emprestou. Lembro de uma maquete com um rio de brinquedo onde a gente aprendeu física e como os objetos flutuam. Meu irmão mais velho ganhou prêmios científicos antes de mim.

Pouca gente da minha idade se interessa por ciência. Sou gay, contei aos meus pais e amigos quando tinha 13 anos, e quero servir de exemplo para jovens gays. Há pouca mulher, pouco gay, poucas minorias em geral fazendo ciência. É um clube de garotos heterossexuais (ri).

Nunca sofri preconceito, mas as minorias trarão outras questões, outros problemas, enriquecerão a ciência.

“NERDICE”

A mídia tem um papel enorme. Aquele seriado “The Big Bang Theory” mostra nerds e cientistas como gente antissocial, os estranhos que não sabem se relacionar. A série “Bones” é melhor, mostra que ciência é legal.

Não sou um nerd clichê. Pratico esportes, tenho amigos, não me sento escondido no canto.

Ainda não sei nem que faculdade vou cursar. Só sei que quero continuar com pesquisas. Fui procurado por quatro grandes laboratórios que querem comercializar a minha invenção. Estou vendo qual é o melhor. Depois vem uma longa fase de testes e a aprovação pela FDA [agência reguladora de remédios dos EUA]. Leva de 5 a 10 anos até poder ser comercializado.

As escolas estão atrasadas em estimular a ciência. Encontrei vários estudantes brasileiros nas feiras de que participei. O “Team Brazil” era bem animado. Eles têm bastante apoio por lá?

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Famílias francesas são adotadas como modelo em livros sobre como educar filhos

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Mariana Versolato na Folha de S.Paulo

Crianças que saboreiam pratos repletos de legumes, dormem no mesmo horário todos os dias sem reclamar e não matam os pais de vergonha com ataques de birra em público podem parecer um sonho para muitos pais.

Não na França, onde essa é a regra, e não a exceção –ao menos segundo dois livros lançados neste ano no Brasil e que retratam as crianças francesas como exemplo de boas maneiras e alimentação.

Para os pais que sentem que os filhos tomaram as rédeas da casa, as obras podem parecer uma tábua de salvação, a julgar pelos títulos.

“Crianças Francesas Não Fazem Manha” (R$ 29,90, 269 págs., ed. Fontanar), da jornalista americana Pamela Druckerman, e “Crianças Francesas Comem de Tudo” (R$ 44,90, 320 págs., Editora Alaúde), da canadense Karen Le Billon, tratam do choque cultural que essas duas mulheres sentiram ao se mudarem para a França e criarem seus filhos no país.

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A professora de francês Corinne Alexandre e seus dois filhos, Lorenzo, 5, e Leonardo, 1 ano e 10 meses, em sua casa em São Paulo

Druckerman, que é mãe de três crianças e vive na França há dez anos, explica que há uma crise global nas famílias de classe média, todas com medo de dizer “não”.

“Os pais do mundo todo estão em busca de alternativas à ‘criação intensiva’, que dá tanta atenção e poder aos filhos. Os franceses não são perfeitos, mas são um contraponto a esse modelo porque são mais conservadores e pragmáticos”, disse à Folha.

Em 2014, será lançado no Brasil o novo livro de Druckerman, “French Parents Don’t Give in” (algo como “Pais franceses não cedem”, ainda sem título definido em português).

A base das orientações é impor limites, e um dos conceitos-chave é o que a autora apelidou de “pausa”: não socorrer a criança imediatamente sempre que ela chamar e ensiná-la a esperar a vez –não interromper os pais quando estão conversando, por exemplo. A “pausa” ajuda os pequenos a desenvolver o autocontrole e lidar com a frustração.

Ela ressalta que muitos desses conceitos não são novos nem tão “franceses”, mas diz que as famílias da França são boas em manter o que funciona. “Muitas das ideias `francesas’ parecem simplesmente baseadas em bom senso.”

ORIGEM DA TIRANIA

Para a psicanalista Marcia Neder, autora de “Déspotas Mirins”, o segredo da criação francesa está na importância que os adultos dão para a relação amorosa.

“O casal não se torna ‘papai’ e ‘mamãe’. A criança é importante, claro, mas ela deve se adaptar à vida dos pais, e não o contrário. Em muitos países, incluindo o Brasil e os EUA, nada é mais importante que o filho, e por isso ele ganha tanto poder”, afirma.

No Brasil, diz ela, a renúncia à vida amorosa está ligada ao sacrifício que as mulheres precisam fazer para provar que são boas mães.

“A raiz da tirania dos filhos está numa idealização da maternidade de que é preciso amar o filho acima de nós mesmos. Se ele chora, você precisa sair correndo ou será considerada relaxada e egoísta. Não é permitido ter raiva ou exigir muito da criança.”

Segundo a filósofa Tania Zagury, professora da UFRJ e autora do livro “Limites sem Trauma”, a ideia de que os limites poderiam causar problemas emocionais aos filhos deixou os pais inseguros. “Há cerca de 30 anos os pais diziam “não” sem problemas. Hoje, sentem-se monstros quando fazem isso.”

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À MESA

As regras e os limites também aparecem à mesa. Parece mentira, mas no livro “Crianças Francesas Comem de Tudo”, a canadense Karen Le Billon conta que as comidas preferidas de sua filha Sophie, 7, são beterraba, alho-poró e mexilhões.

Antes de ela e a família irem para a França o jantar era um “purgatório”, mas depois aprenderam o que ela chama de “regras de ouro”. Uma delas é não separar “comida de adulto” e “comida de criança”. A outra é fazer refeições em família e desfrutar desse momento. (mais…)

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