Canal Pavablog no Youtube

Posts tagged Foram

Ex-aluno invade alojamento da USP, agride estudante e faz vários disparos

0

Vítima levou coronhada; moradores não foram atingidos em São Carlos, SP.
Suspeito, que denunciou ter sido vítima de abuso sexual em trote, fugiu.

1

Aluno invadiu alojamento e fez disparos no campus da USP de São Carlos (Foto: Maurício Duch)

Publicado por G1

Um ex-aluno da Universidade de São Paulo (USP) de São Carlos (SP) invadiu o alojamento do campus com uma arma, agrediu um estudante com coronhadas e fez vários disparos na noite desta quarta-feira (28). Ninguém foi atingido pelos tiros. O suspeito é o rapaz de 23 anos que denunciou ter sido vítima de abuso sexual durante um trote com veteranos, em março. Ele fugiu do local. A USP ainda não se pronunciou sobre o assunto.

Disparo atingiu janelas de alojamento no campus da USP em São Carlos (Foto: Maurício Duch)

Disparo atingiu janelas de alojamento no campus
da USP em São Carlos (Foto: Maurício Duch)

De acordo com a Polícia Militar, o rapaz invadiu o alojamento armado e deu uma coronhada na cabeça de um estudante que mora no local. A vítima, que teria tentado conter o suspeito, foi socorrida e levada para a Santa Casa. O estado de saúde dele não foi divulgado.

Segundo testemunhas, o ex-aluno ainda fez vários disparos que acertaram as paredes e as janelas do alojamento, mas não atingiram ninguém. Alguns alunos disseram que ele dizia que queria vingança.

Em seguida, o rapaz fugiu e está sendo procurado pela Polícia Militar. Com medo, os moradores do alojamento saíram do local para dormir na casa de amigos. A Perícia Técnica foi ao local. A USP ainda não se pronunciou sobre o ocorrido.

Disparo atingiu janelas de alojamento no campus da USP em São Carlos (Foto: Maurício Duch)

Disparo atingiu janelas de alojamento no campus da USP em São Carlos (Foto: Maurício Duch)

O caso
Em entrevista ao G1 no dia 25 de abril, o rapaz, que cursava o 1º ano de ciências exatas, tinha decidido que desistiria do curso por estar sofrendo ameaças e discriminação. “Vou fazer o meu desligamento. Após esse constrangimento todo, não existe mais ambiente para estudar na USP. Vou ficar marcado e desmoralizado”, afirmou na ocasião.

O suposto abuso aconteceu no início da madrugada do dia 4 de março. Depois de uma reunião sobre as normas de funcionamento do alojamento onde conseguiu uma vaga, o rapaz entrou em uma área que dá acesso aos apartamentos, onde acontecia uma festa.

Segundo o estudante, um grupo foi até ele e começou a gritar. “Eles falavam repetidamente ‘chupa bixo’ e me cercaram, fizeram uma espécie de uma roda e não tive como sair dali. Eles aparentavam estar muito embriagados e se faziam de homossexuais, gritavam ‘bixo homofóbico’. Eu falava para não encostarem, mas três deles começaram a se esfregar em mim e chegaram a abaixar as calças. Um deles também abaixou a cueca. Eles pareciam ter prazer”, disse.

Os envolvidos dizem que tudo não passou de uma brincadeira durante um trote. O caso, que chegou a ser registrado pela Polícia Civil como estupro e foi alterado para injúria, teve a primeira audiência no dia 24 de abril no Fórum Criminal da cidade, mas não houve acordo ente os estudantes envolvidos.

Uma sindicância foi aberta pela USP, mas o resultado ainda não foi divulgado. Em maio, a Justiça pediu que a Polícia Civil levantasse mais testemunhas sobre caso, que ainda continua indefinido.

Bienal do Livro do Rio homenageia Ziraldo e cria espaço sobre futebol

0

Publicado por UOL

Entre os dia 29 de agosto e 8 de setembro o Rio recebe a 16ª edição da Bienal Internacional do Livro. Para 2013, a programação cultural do evento traz novos espaços temáticos, diversos lançamentos de livros, mais de 100 sessões de debates e bate-papos, cerca de 950 expositores e homenagem à Alemanha.

Principais lançamentos na 16ª Bienal do Livro do Rio de Janeiro

"CASAGRANDE E SEUS DEMÔNIOS", de CASAGRANDE e GILVAN RIBEIRO: A dez meses da Copa do Mundo no Brasil, nunca tantos livros sobre futebol foram editados no país e um deles é esse em que o ex-jogador do Corinthians e comentarista da TV Globo revela ao jornalista Gilvan Ribeiro todo o seu declínio por causa do vício em cocaína e heroína e seu restabelecimento Reprodução

“CASAGRANDE E SEUS DEMÔNIOS”, de CASAGRANDE e GILVAN RIBEIRO: A dez meses da Copa do Mundo no Brasil, nunca tantos livros sobre futebol foram editados no país e um deles é esse em que o ex-jogador do Corinthians e comentarista da TV Globo revela ao jornalista Gilvan Ribeiro todo o seu declínio por causa do vício em cocaína e heroína e seu restabelecimento Reprodução

"1889", de LAURENTINO GOMES: O jornalista e escritor fecha a trilogia sobre o século XIX no Brasil. Na nova obra, ele narra os eventos que antecederam e vieram logo em seguida à proclamação da república. "Como um imperador cansado, um marechal vaidoso e um professor injustiçado contribuíram para o fim da Monarquia e a Proclamação da República" é o subtítulo do livro e que já diz um pouco o que o leitor encontrará Divulgação

“1889”, de LAURENTINO GOMES: O jornalista e escritor fecha a trilogia sobre o século XIX no Brasil. Na nova obra, ele narra os eventos que antecederam e vieram logo em seguida à proclamação da república. “Como um imperador cansado, um marechal vaidoso e um professor injustiçado contribuíram para o fim da Monarquia e a Proclamação da República” é o subtítulo do livro e que já diz um pouco o que o leitor encontrará Divulgação

"O PODER DA PERSONALIDADE DE JESUS", de MARK W. BAKER: O terapeuta e autor do best-seller "Jesus, o maior psicólogo que já existiu", lança no Brasil nova obra em que pretende mostrar que o poder de Jesus não residia em sua capacidade de dominar as pessoas, mas em sua habilidade de transformá-las por meio da generosidade. Na Bienal do Rio, o escritor tem um encontro com o público no dia 8 de setembro, às 15h Divulgação

“O PODER DA PERSONALIDADE DE JESUS”, de MARK W. BAKER: O terapeuta e autor do best-seller “Jesus, o maior psicólogo que já existiu”, lança no Brasil nova obra em que pretende mostrar que o poder de Jesus não residia em sua capacidade de dominar as pessoas, mas em sua habilidade de transformá-las por meio da generosidade. Na Bienal do Rio, o escritor tem um encontro com o público no dia 8 de setembro, às 15h Divulgação

O Riocentro, na Barra da Tijuca, será o ponto de encontro entre público e escritores de diversas regiões do mundo, com 29 autores estrangeiros. Os espaços Café Literário, Mulher e Ponto, Encontro com Autores e Conexão Jovem, já conhecidos de outras edições, trazem para os visitantes a presença de nomes como Zuenir Ventura, Lya Luft, Thalita Rebouças, Marcelo Rubens Paiva, Nicholas Sparks, Mia Couto, entre tantos outros.

No clima de Copa do Mundo, a Bienal do Livro inaugura o espaço Placar Literário, com curadoria do jornalista João Máximo. Literatura e futebol serão os temas abordados nos debates e conversas com o público. Autores que tem o futebol como tema de sua ficção estarão presentes, além de jornalistas e personalidades do meio.

Para o público jovem, a novidade é o espaço Acampamento na Bienal, onde o visitante terá a oportunidade de conhecer grandes autores e personalidades em bate-papos sobre tecnologia e cultura de convergência (o livro que vira filme, que vira game, etc.).

O público infantil também é contemplado com um novo espaço dedicado aos pequenos leitores. O Planeta Ziraldo, em homenagem ao cartunista, apresenta diariamente espetáculos adaptados de textos do autor e apresentados pelo personagem Menino Maluquinho.

Veja os destaques da programação da Bienal do Livro do Rio.

Serviço
16º Bienal Internacional do Livro do Rio
Quando: De 29 de agosto a 8 de setembro de 2013. Dia 29 de agosto de 13h às 22h; dias de semana de 9h às 22h e fins de semana de 10h às 22h.
Onde: Riocentro – Av. Salvador Allende, 6555 – Barra da Tijuca.
Quanto: R$14 (inteira) e R$7 (meia).
Pontos de venda: www.ingressomais.com.br e no local do evento.
Mais informações: www.bienaldolivro.com.br

Autor de “O Apanhador no Campo de Centeio” tem textos inéditos no prelo

0

Publicado na Folha de S. Paulo

As obras completas de J.D. Salinger ainda não foram publicadas, segundo um filme e um livro que serão lançados na próxima semana.

Salinger, que morreu em 2010, aos 91 anos, ficou conhecido por uma obra literária aclamada, porém escassa, ofuscada pelo livro que lançou em 1951, “O Apanhador no Campo de Centeio”.

Um documentário prestes a ser lançado, acompanhado de um livro que reproduz e complementa o roteiro, ambos com o título “Salinger”, afirma com detalhes que o escritor deixou instruções para os responsáveis por sua obra para que publicassem pelo menos cinco livros adicionais –alguns inteiramente inéditos, alguns que ampliam textos já publicados–, numa sequência que deve começar no início de 2015.

Os novos livros e contos foram escritos muito antes de Salinger assinar essa declaração de intenções em 2008, e vão expandir bastante o legado do autor.

Uma coletânea, que será chamada “The Family Glass”, vai somar cinco novas histórias a um lista de já publicadas sobre a fictícia família Glass, que surgiu no livro “Franny e Zooey”.

Outra deverá incluir uma retrabalhada versão de uma história de Salinger já conhecida mas nunca publicada, “The Last and the Best of Peter Pans”, que será reunida a histórias novas ou já editadas da família Caulfield, entre elas “O Apanhador no Campo de Centeio”.

Amy Sancetta/Associated Press
Livros e foto do escritor norte-americano J. D. Salinger, autor de "O Apanhador no Campo de Centeio"
Livros e foto do escritor norte-americano J. D. Salinger, autor de “O Apanhador no Campo de Centeio”

FILOSOFIA E GUERRA

Os trabalhos inéditos devem incluir um manual romanceado da filosofia hinduísta Vedanta, com a qual Salinger se envolveu, uma novela baseada em seu primeiro casamento e passada durante a Segunda Guerra Mundial, e uma outra novela, inspirada em suas próprias experiências na guerra.

Por décadas, pessoas próximas a Salinger disseram que ele continuou escrevendo assiduamente, embora tenha parado de publicar desde a novela “Hapworth 16, 1924”, que saiu na revista “The New Yorker” em 1965. Mas só agora são revelados tantos detalhado dos planos de publicações póstumas.

Matthew Salinger, filho e controlador do legado do escritor ao lado de sua viúva, não quis discutir os planos do pai como o documentarista. Foi a mesma posição da editora de “Apanhador no Campo de Centeio”, Little, Brown and Company.

O documentário, que será lançado no dia 6 de setembro, é dirigido por Shane Salermo, um cineasta que passou nove anos pesquisando e filmando material. O livro sobre o filme, escrito por Salermo e David Shields, será lançado pela Simon & Schuster no dia 3.

Dando entrevista em seu escritório em Los Angeles, Salermo apontou para mesas e gavetas lotadas de fotos nunca publicadas, centenas de cartas e até um diário manuscrito da Segunda Guerra que pertenceu a um dos mais antigos amigos de Salinger, um soldado chamado Paul Fitzgerald, já morto.

A descoberta dos planos de publicação, segundo Salermo, tomou forma na parte final de suas pesquisas. Ele credita os detalhes do acordo a duas fontes anônimas, descritas no livro como “independentes e sem ligação uma com a outra”. Salermo diz que são pessoas que nunca se falaram, mas ambas sabiam dos planos.

O livro e o filme estão sendo promovidos com a promessa de revelações sobre Salinger, que fez da busca por privacidade sua marca registrada. A campanha promocional inclui um pôster com a imagem de Salinger com o dedo na frente dos lábios, com a inscrição: “Descubra o mistério, mas não revele os segredos”.

DUAS MULHERES

O livro, com 698 páginas, viaja pela vida do escritor que participou do desembarque aliado na Normandia na Segunda Guerra Mundial e voltou aos EUA casado com uma alemã, Sylvia Welter. O livro traz detalhes sob a suspeita de que ela era, na verdade, uma informante da Gestapo. Depois de poucas semanas, Salinger deixou no prato dela, servido para o café da manhã, uma passagem aérea para a Alemanha.

Outro relacionamento descrito no livro vai intrigar os seguidores de Salinger. Logo após a guerra, ele teria conhecido uma garota de 14 anos, Jean Miller, em um resort na Flórida. Por anos, eles trocaram cartas, passaram períodos juntos em Nova York e teriam tido uma única relação sexual. Segundo depoimento de Miller no filme/livro, ele a abandonou no dia seguinte a essa relação. Segundo ela, um de seus contos foi inspirado por ela: “For Esmé – With Love and Squalor”.

Para Salermo, livro e filme concluem uma busca que acompanhou seu trabalho de roteirista em Hollywood, de filmes como “Os Selvagens” e a ainda inédita continuação de “Avatar”.

“Salinger está prestes a ter um segundo ato em sua vida, como nenhum outro escritor na história”, diz Salermo. “Não há precedentes.”

Tradução de THALES DE MENEZES

Don DeLillo: “A função do escritor é enfrentar o poder”

0

O autor americano diz que viver numa democracia é um privilégio, mas mesmo em países livres é preciso identificar as máscaras que escondem o autoritarismo

Luis Antonio Giron, na Época

ATMOSFERA DE INSEGURANÇA O escritor americano Don DeLillo. “Escrevo sobre tempos conturbados” (Foto: Richard Drew/AP)

ATMOSFERA DE INSEGURANÇA
O escritor americano Don DeLillo. “Escrevo sobre tempos conturbados” (Foto: Richard Drew/AP)

O americano Don DeLillo, de 76 anos, é conhecido por sua fixação em imagens. A fotografia de um homem caindo do World Trade Center no dia do atentado às Torres Gêmeas, feita por Richard Drew, inspirou seu romance mais famoso: Homem em queda (Companhia das Letras, 220 págs., R$ 44). Seu livro mais recente, a coletânea O anjo esmeralda, traz fotos do cadáver de Ulrike Meinhof, integrante do grupo terrorista alemão Baader Meinhof, imagem que é obsessão de um dos personagens. DeLillo acha que o romance é um “instrumento de compreensão do tempo e do espaço em que vivemos”. Com uma ficção calcada em temas da atualidade, ele não se considera um “crítico” de nossa época, mas um “observador”.

ÉPOCA – Por que o senhor escreve romances?
Don DeLillo –
Só me decidi a ser escritor quando comecei a me dedicar à forma longa do romance. Foi assim que levei quatro anos para concluir meu primeiro, Americana (1971). O romance é uma forma de penetrar na realidade e compreendê-la intuitivamente, como nenhum outro gênero de conhecimento oferece. O romance é um instrumento de compreensão do tempo e do espaço em que vivemos.

ÉPOCA – Há um tema comum a todos os seus livros?
DeLillo –
Meus romances abordam os tempos difíceis, os tempos conturbados. Os Estados Unidos dos anos 1960 e 1970 foram marcados por assassinatos políticos, Guerra do Vietnã, caso Watergate… Um de meus primeiros contos é ambientado em Dallas. Um jovem de moto escapa de uma cena de crime. Três anos depois, o presidente John Fitzgerald Kennedy seria assassinado em Dallas, e por um jovem que tentou escapar, Lee Harvey Oswald. Usei a mesma cena no romance Libra (1988). O assassinato de Kennedy inaugurou uma era de turbulência que também dá início a minha trajetória literária. Daí a atmosfera de insegurança, desconfiança e niilismo que contaminam minhas histórias dos anos 1960 e 1970.

ÉPOCA – Como o 11 de setembro marcou seu trabalho?
DeLillo –
Os atentados às Torres Gêmeas impuseram novos tempos instáveis e perigosos aos Estados Unidos. De alguma forma, os americanos se viram cercados de inimigos, sem saber direito por quê. Foi assim que pensei em escrever Homem em queda (2007), um romance ambientado dentro dos prédios do World Trade Center e dentro dos dois aviões arremessados contra eles. Essa visão de dentro chocou muitos leitores. Foi o único romance daquele tempo a fazer isso. Era um tabu enfrentar a situação do jeito como enfrentei, descrevendo a catástrofe em detalhe.

ÉPOCA – Os tempos atuais são menos perigosos?
DeLillo –
São. A situação mudou com o governo Obama. Mesmo assim, embaixadas são fechadas e boa parte dos americanos corre perigo em países do Oriente e do Oriente Médio.

ÉPOCA – Que critério o senhor seguiu ao organizar a coletânea O anjo esmeralda? Eles sintetizam os principais temas de sua ficção, como o perigo da tecnologia, a insegurança, a fotografia, o irracionalismo da religião.
DeLillo –
Sim, ler meus contos pode ser uma boa maneira de entrar em meu universo. Porque um pouco de tudo isso que você citou está lá. A pedido de meu editor, reuni os contos mais recentes, de 1979 a 2011, na ordem cronológica de publicação em várias revistas. Revisei-os sem alterar uma linha. Quis manter o ar do tempo em que foram feitos. Lendo-os agora, percebo que todos os contos estão centrados em pessoas obcecadas por alguma coisa. Em “Criação” (1979), o personagem principal está obcecado em escapar de uma ilha cujo aeroporto está fechado. O narrador de “Baader Meinhof” (2002) se deixa hipnotizar pelas fotos da terrorista morta. A aparição de uma menina morta em “O anjo esmeralda” (1994) é motivo para a renovação da fé de um grupo de desvalidos do Bronx de antigamente.

Leia trecho do livro O Anjo Esmeralda

A FOTO Homem em queda, de Richard Drew (Foto: Richard Drew/AP)

A FOTO
Homem em queda, de Richard Drew
(Foto: Richard Drew/AP)

ÉPOCA – Esse conto parece refletir sua infância no Bronx católico. A história parece real.
DeLillo –
Não é real, apesar de ter um fundo de verdade. Em comunidades católicas como as do Bronx, em Nova York, era comum nos anos 1950 as pessoas terem visões como uma menina morta que ressuscita para fazer milagres. Hoje não mais. As protagonistas são freiras que investigam a aparição numa área perigosa de South Bronx. Quis mostrar as freiras correndo perigo. Estudei em colégio de freiras, e elas me marcaram. Daí essa carga real.

ÉPOCA – A história tem a ver com sua formação católica e ítalo-americana. Quanto o senhor foi influenciado por ela?
DeLillo –
Sou filho de italianos que saíram de seu país para descobrir a América. E conseguiram sobreviver, criar uma família e se estabelecer como americanos no bairro do Queens, em Nova York, depois no Bronx. Claro que isso me influenciou profundamente. Porque, mesmo tendo nascido americano, tenho uma visão de outsider. Os italianos em Nova York são reconhecíveis, mantêm seu mundo à parte do resto da população. É uma comunidade até certo ponto isolada. Ter sido criado numa família italiana operária foi algo positivo: aprendemos a conviver em famílias grandes, logo nos damos conta de nossas diferenças e desenvolvemos uma forma de afeto e tolerância. Tive uma vantagem adicional: como era o filho mais velho, tive apoio de meus pais para fazer o que bem entendesse, desde que ganhasse algum dinheiro com isso. Eles me incentivaram desde o início a lutar para ser escritor. Ao me tornar escritor, quis prestar tributo a meus pais. Como eles, meu projeto tem sido descobrir a América – e me tornar americano.

ÉPOCA – Muitos críticos dizem que seus textos são excessivamente experimentais. O senhor concorda?
DeLillo –
Não. Não penso nisso. Faço poesia com a prosa, por assim dizer. Não sei me definir, só sei que sigo contando histórias a minha maneira. Dizem que sou um crítico da política americana. Mas não me considero um crítico, e sim um observador, um escritor que vive num mundo em que as conturbações acontecem.

“Depois do 11 de setembro,
os americanos se viram
cercados de inimigos, sem
saber exatamente por quê”

ÉPOCA – Apesar de não se considerar um crítico, mas um observador, o senhor ainda acha que a missão do escritor hoje é enfrentar o poder?
DeLillo –
Sim, mais do que nunca a função do escritor é enfrentar os poderes constituídos. Isso em todo o mundo. Os grandes autores são aqueles que desafiam os regimes totalitários e desumanos. Todo dia escritores são presos por se expressar criticamente contra os governos em países da África, do Oriente Médio e da Ásia. Tenho o privilégio de trabalhar num país democrático, em que a liberdade de expressão é um ponto inegociável. Mas não deixa de ser também um país em que o poder e os poderes se organizam e se mascaram rapidamente. Mesmo na América, os escritores precisam estar atentos a esse ocultamento. E podem fazer suas denúncias por meio não apenas de análises e libelos, mas da ficção.

ÉPOCA – Em que medida o jazz e o cinema foram importantes para a definição de seu estilo de escrever?
DeLillo –
O jazz me ajudou a criar meu próprio método de escrita espontânea, assim como inspirou Jack Kerouac e Julio Cortázar. Sou fã de jazz, já frequentei muitos clubes do gênero em Nova York, embora hoje eu esteja mais recluso. Jazzistas como Thelonious Monk, Charlie Parker e John Coltrane me ensinaram que os temas podem surgir da improvisação e do acaso. O jazz, assim como o cinema de arte, me indicou que o caminho do romance popular pode ser também a grande arte, e que ser romancista não significa rebaixar os temas ou banalizar as histórias.

ÉPOCA – O senhor esteve no Brasil em 2003. Pretende voltar?
DeLillo –
Eu gostaria, mas acho que não voltarei tão cedo. Estou no meio de um romance que consome todo meu tempo. Adorei participar da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty). Desde então, minha mulher (a designer Barbara Bennett) vai ao Brasil. Ela participa de um grupo de observadores de pássaros, com o romancista Jonathan Franzen. Devem ir no fim do ano. Não vou porque esse pessoal não tolera intrometidos! Eu provavelmente os atrapalharia com minhas observações e com minha vontade de ficar isolado.

dica do Jarbas Aragão

Fungos ameaçam acervo da Biblioteca Mário de Andrade em SP

0

Raquel Cozer, na Folha de S.Paulo

Parte do acervo da Biblioteca Mário de Andrade, o segundo maior do país, está infestado por fungos. O problema foi diagnosticado menos de dois anos após o encerramento de uma extensa reforma em seu prédio principal, ocorrida entre 2007 e 2011.

Levantamento interno feito entre dezembro de 2012 e fevereiro deste ano constatou que ao menos 15 dos 22 andares com acervo na torre principal da biblioteca, no centro de São Paulo, foram atingidos em alguma medida.

Foram 18 mil livros -incluindo raros, mais antigos- afetados, dentre os cerca de 340 mil que ficam nesses andares. No total, a biblioteca tem 7 milhões de itens, considerando livros, periódicos, mapas, fotos e documentos.

A questão foi identificada no ano passado por Maria Christina Barbosa de Almeida, que dirigiu a biblioteca no segundo mandato de Gilberto Kassab (PSD) na Prefeitura de São Paulo -gestão que iniciou a reforma na biblioteca.

Sala de periódicos da biblioteca, aberta ao público - Ze Carlos Barretta/Folhapress

Sala de periódicos da biblioteca, aberta ao público – Ze Carlos Barretta/Folhapress

Em março, ao passar o bastão para o novo diretor, o professor da USP Luiz Bagolin, ela entregou relatório apontando problemas na climatização. Indicado por Juca Ferreira, secretário de Cultura na gestão Fernando Haddad (PT), Bagolin assumiu o cargo oficialmente há um mês.

“A ocorrência chama a atenção. Não deveria haver fungos, já que o sistema é climatizado”, disse ele à Folha.

Os fungos resultaram de uma umidade acima do ideal nos andares climatizados -chegando a superar os 60%, quando o recomendado para acervos bibliográficos é 45%.

Como quase todos os R$ 7 milhões do orçamento de 2013 da instituição já estavam empenhados quando Bagolin assumiu, foi necessário um adendo de R$ 400 mil para a higienização e restauro. O trabalho, já iniciado, deve durar de seis meses a um ano.

Nenhum livro chegou a se perder, segundo a instituição, mas volumes infectados ficam inacessíveis ao público, já que têm potencial para causar doenças, e podem ficar deformados.
Procurada para comentar o caso, a ex-diretora Maria Christina preferiu repassar à Folha o relatório que entregou a Bagolin em março.

O texto informa que, até 2007, só os cinco primeiros andares da torre, inaugurada em 1942, eram climatizados. Nunca haviam sido identificados fungos, embora uma infestação por brocas tenha atingido o acervo em 2006.

O sistema de ar condicionado começou a ser instalado em 2008 e a funcionar no segundo semestre de 2011. Entre projeto, instalação e manutenção, três empresas se envolveram no processo.

No início de 2012, foram percebidas deformidades em livros, causadas por fungos. Medidas como higienização e troca de equipamentos foram tomadas, mas no final do ano a situação se agravou.

Em maio deste ano, a biblioteca contratou o Instituto de Pesquisas Tecnológicas para diagnosticar os fungos; agora, especialistas buscam a origem do problema.

“Não sabemos se o projeto de ar condicionado está inadequado; se está adequado, mas a instalação teve problemas; ou se o projeto está adequado, a instalação está adequada e alguma coisa se desregulou”, diz Bagolin.

Segundo ele, como a SP Obras fiscalizou a instalação em 2011, as empresas envolvidas não têm responsabilidade legal sobre o sistema.

O diretor lembra que a Mário de Andrade está de longe em condições melhores que a maior biblioteca do país, a Fundação Biblioteca Nacional, do Rio. Para ele, os fungos refletem um problema crônico nacional. “O Brasil engatinha no que diz respeito à preservação de acervos.”

Editoria de Arte/Folhapress

Editoria de Arte/Folhapress

DIGITALIZAÇÃO

A questão da preservação inclui a digitalização, em relação à qual Bagolin tem visão diferente da gestão anterior. Em vez de terceirizar o serviço, como vinha sendo feito, ele vem organizando um setor interno, para o qual contratou três funcionários.

“Temos 2.000 itens digitalizados num acervo de 7 milhões. Vejo no setor interno não só o serviço da digitalização, mas a aquisição de conhecimento e a chance de desenvolver pesquisa”, diz.

Para 2014, a meta é comprar equipamentos básicos, que devem custar R$ 800 mil.

Outros mais caros, como robôs que viram as páginas sozinhos -como na Biblioteca Mindlin, atual parceira da Mário de Andrade na digitalização-, não são prioridade, já que obras raras têm de ser digitalizadas primeiro e suas páginas precisam ser viradas manualmente.

Outra meta é criar uma sala para crianças, hoje inexistente na instituição. O projeto, estimado em R$ 400 mil, será apresentado em outubro, em evento sobre políticas públicas para a infância.

É claro que as ideias dependem da boa vontade da atual gestão no município. Em 2012 e 2013, a BMA teve orçamentos de, respectivamente, R$ 6 milhões (após projetar R$ 11 milhões) e R$ 7 milhões (após projetar R$ 13 milhões). Para 2014, a meta é conseguir R$ 20 milhões.

RAIO-X LUIZ BAGOLIN

Bagolin, novo diretor da BMA - Eduardo Anizelli/Folhapress

Bagolin, novo diretor da BMA – Eduardo Anizelli/Folhapress

Origem
Nasceu em 1964, em Ribeirão Preto (SP)

Formação
Artista plástico, com mestrado e doutorado em filosofia pela USP

Carreira
Professor e pesquisador do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB/USP)

Go to Top