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Posts tagged formação educacional

Por que o maior sistema educacional do mundo está falhando?

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Na opinião de alguns indianos, o investimento pequeno destinado à educação é responsável pelo ensino deficitário (Foto: Wikimedia)

Na opinião de alguns indianos, o investimento pequeno destinado à educação é responsável pelo ensino deficitário (Foto: Wikimedia)

Iniciativas como a da organização não governamental Pratham ajudam a melhorar a qualidade do ensino na Índia, mas sem o envolvimento efetivo do governo milhões de crianças e jovens não têm acesso a uma formação educacional sólida

Publicado no Opinião e Notícia

No andar térreo de uma escola primária em Jaipur no estado de Rajasthan, 50 alunos esperam o intervalo do almoço. A escola tem três professores, mas dois deles estão ausentes. Um está “doente” e o outro, a diretora da escola, saiu ao meio-dia, com o pretexto que tinha “trabalho externo para fazer”. O ensino é muito fraco e as crianças esforçam-se para ler frases simples em livros de poesia abertos à sua frente.

Já no segundo andar o ambiente é dinâmico. Rekha Gurjar, uma professora da ONG Pratham pede que as crianças leiam um texto escrito no quadro-negro. Ela faz perguntas e as mãos se levantam para responder. Os centros de ensino da ONG Pratham com currículos adaptados ao nível escolar dos alunos ensinam noções básicas da língua híndi e matemática em 40 dias, com base em métodos novos que aceleram o processo de aprendizado.

Cerca de 260 milhões de crianças frequentam a escola na Índia, mais do que em qualquer outro país. A frequência de alunos tem aumentado ao longo dos últimos 20 anos, devido à lei do Direito à Educação (RTE) aprovada em 2009, que obriga os pais a matricularem os filhos nas escolas até a idade de 14 anos. Mas em geral o ensino é muito fraco.

As consequências do baixo nível de escolaridade são graves. O bom rendimento escolar está associado a salários mais altos e ao crescimento econômico mais rápido. A Índia só participará do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), um exame para avaliar os sistemas educacionais em diversos países, em 2021. Mas os resultados dos jovens de 15 anos dos estados de Himachal Pradesh e Tamil Nadu, que fizeram o exame em 2009, mostraram que estavam com um atraso de cinco anos em relação a alunos de Xangai e de países mais desenvolvidos do Leste Asiático.

Na opinião de alguns indianos, o investimento pequeno destinado à educação é responsável pelo ensino deficitário. A Índia gasta 2,7% do PIB com o sistema educacional do país, menos do que outros países em desenvolvimento, como o Brasil. Mas, na verdade, a verba é mal administrada. O orçamento destinado à educação aumentou 80% entre 2011 e 2015, segundo a análise dos orçamentos de oito estados realizada por Geeta Kingdon do University College London. No entanto, o rendimento escolar caiu.

A reforma do sistema educacional da Índia precisa do apoio efetivo do governo. O primeiro-ministro Narendra Modi comprometeu-se a melhorar a educação no país. Mas pouco foi feito. Uma nova proposta de reformulação do ensino ainda aguarda os trâmites burocráticos para ser apresentada. É uma situação lamentável em um país onde mais de 20 milhões de indianos atingem a idade escolar todos os anos e não têm acesso a um ensino de qualidade.

Fontes:
The Economist-Why the world’s biggest school system is failing its pupils

Milton Hatoum: “Falta formação educacional consistente”

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Para o escritor amazonense, autor de ‘Dois irmãos’, a baixa qualidade do ensino público não forma alunos pensadores, capazes de escrever

Camila Guimarães, na Época

ÉPOCA – Por que tanta gente escreve mal?
Milton Hatoum – Não há mistério. Falta uma formação educacional consistente. Como um jovem estudante brasileiro pode elaborar um pensamento se ele mal consegue ler e escrever? Como expressar esse pensamento com a fala e a escrita? Quando penso na relevância da leitura e no seu papel central na formação da cidadania, penso também na qualidade da escola pública.

ÉPOCA – Mas é só a escola? A família não tem influência?
Hatoum- Ambos têm papel fundamental na formação adequada dos jovens como escritores competentes. Mas é preciso ressaltar que a pobreza e a miséria dificultam e até inviabilizam uma razoável formação educacional. É um círculo vicioso: os professores da escola pública são mal remunerados, as condições de ensino são precárias e a posição social dos pais dos alunos é desfavorável, quando não dramática.

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ÉPOCA – Como romper esse círculo vicioso?
Hatoum – A meu ver, os governadores e os 5.570 prefeitos (dos municípios) são diretamente responsáveis pela qualidade da educação. Será que esses políticos (ou a maioria deles) pensam na formação educacional das crianças e jovens brasileiros? Estão sensibilizados com essa questão? Tenho dúvidas. Por outro lado, a classe média paga impostos e paga a mensalidade escolar de seus filhos, sem contar o plano de saúde. Por isso a nossa democracia é manca, é apenas uma caricatura de democracia. Só se pode falar de mérito quando há oportunidades iguais, daí a importância da escola pública de qualidade.

ÉPOCA – Escrever bem é uma habilidade valorizada socialmente no Brasil? Pela sua experiência, a sociedade francesa, por exemplo, prestigia mais a boa escrita?
Hatoum – A literatura é uma espécie de culto na França. Jorge Luis Borges menciona “a quase infinita literatura francesa”. Um romance que ganha o prêmio Goncourt conquista, na pior das hipóteses, cem mil leitores. Ler e escrever bem são tarefas da escola pública francesa, que ainda é razoavelmente consistente. Isso faz parte de uma longa tradição, foi uma conquista da Revolução Francesa, que privilegiou o ensino laico e universal. A mesma coisa ocorre na Alemanha, na Inglaterra e em outros países europeus. Nesses países, e a Inglaterra é um exemplo notável, o estudo da História e das Humanidades é levado a sério.

ÉPOCA – E no Brasil?
Hatoum – A interrupção brusca e brutal do processo democrático teve repercussões graves na qualidade do ensino público e, consequentemente, na sociedade brasileira. Todos sabem como tem sido penoso reparar essa falha histórica. Talvez minha geração seja um elo perdido entre os anseios e promessas de uma educação pública de qualidade e o descaso a essa política educacional durante o regime militar. Penso que a literatura pode aguçar a sensibilidade dos leitores e, não raramente, dotá-los de uma consciência crítica sobre a nossa sociedade e o tempo em que vivemos. A literatura, sem ser panfletária ou rasa, pode muito bem contribuir para a formação da cidadania.

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