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“Como é que alguém se transforma em escritor, ou é transformado em escritor?”

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 Ricardo Piglia em 2000, em entrevista ao EL PAÍS DANIEL MORDZINSKI

Ricardo Piglia em 2000, em entrevista ao EL PAÍS DANIEL MORDZINSKI

‘Anos de Formação: os Diários de Emilio Renzi’, de Ricardo Piglia, sai no Brasil. Leia trecho

Ricardo Piglia, no El País

Dois anos depois da morte do escritor argentino Ricardo Piglia, a editora Todavia lança no Brasil Anos de Formação: os Diários de Emilio Renzi, que percorre a educação formal e sentimental de Renzi, espécie de alter-ego de Piglia. Logo no início do livro, o narrador se questiona: “Como é que alguém se transforma em escritor, ou é transformado em escritor? Não é uma vocação, imagine, também não é uma decisão, mais parece uma mania, um hábito”. É ao redor do ofício do escritor, tendo como cenário uma Argentina artística e política, que o livro se desenvolve.

O lançamento da edição brasileira acontece em São Paulo, nesta terça-feira, às 19h, no Instituto Cervantes, onde acontecerá uma conversa com o tradutor do livro Sérgio Molina, o especialista em literatura argentina Júlio Pimentel Pinto e o editor da revista literária Quatro cinco um, Paulo Werneck. Leia abaixo um trecho do primeiro capítulo do livro de Piglia.

Na soleira

— Desde pequeno repito o que não entendo – ria Emilio Renzi retrospectivo e radiante naquela tarde, no bar da Arenales com a Riobamba. — Achamos divertido o que não conhecemos; gostamos do que não sabemos para que serve.

Aos três anos ficava intrigado com a figura do seu avô Emilio sentado na poltrona de couro, ausente dentro de um círculo de luz, os olhos fixos num misterioso objeto retangular. Imóvel, parecia indiferente, calado. Emilio, o menino, não entendia muito bem o que estava acontecendo. Era pré-lógico, pré-sintático, era pré-narrativo, registrava os gestos, um por um, mas não os encadeava; simplesmente imitava aquilo que via os outros fazerem. Então, naquela manhã subiu numa cadeira e tirou um livro azul de uma das estantes da biblioteca. Depois foi até a porta da rua e se sentou na soleira com o volume aberto no regaço.

Meu avô, disse Renzi, abandonou o campo e foi morar conosco em Adrogué quando minha avó Rosa morreu. Deixou a folhinha sem arrancar no dia 3 de fevereiro de 1943, como se o tempo tivesse parado na tarde da morte de sua mulher. E o calendário aterrador, com o bloco dos números fixo nessa data, continuou em casa durante anos.

Morávamos num lugar tranquilo, perto da estação de trem, e a cada meia hora passavam pela nossa calçada os passageiros vindos da capital. E lá estava eu, na soleira, querendo ser visto, quando de repente uma sombra comprida se inclinou para me dizer que o livro estava de ponta-cabeça.

Acho que deve ter sido o Borges, brincava Renzi naquela tarde no bar da Arenales com a Riobamba. Naquela época ele costumava passar o verão no Hotel Las Delicias, e só mesmo o velho Borges para fazer essa advertência a uma criança de três anos, não é?

Como é que alguém se transforma em escritor, ou é transformado em escritor? Não é uma vocação, imagine, também não é uma decisão, mais parece uma mania, um hábito, um vício, você deixa de fazer isso e se sente mal, mas ter que fazê-lo é ridículo, e acaba se tornando um modo de viver (como outro qualquer).

A experiência, ele percebera, é uma multiplicação microscópica de pequenos acontecimentos que se repetem e se expandem, sem conexão, dispersos, em fuga. Sua vida, ele compreendera, era dividida em sequências lineares, séries abertas que remontavam ao passado distante: incidentes mínimos, estar sozinho num quarto de hotel, ver seu rosto num instantâneo, entrar num táxi, beijar uma mulher, levantar os olhos da página e dirigi-los à janela, quantas vezes? Esses gestos formavam uma rede fluida, desenhavam um percurso – e desenhou um mapa de círculos e cruzes num guardanapo –, digamos que o percurso da minha vida seria assim, disse. A insistência dos temas, dos lugares, das situações é o que eu quero – falando figuradamente – interpretar. Como um pianista que improvisa, sobre um frágil standard, variações, mudanças de ritmo, harmonias de uma música esquecida, disse, e se ajeitou na cadeira.

Poderia por exemplo contar minha vida a partir da repetição das conversas com meus amigos num bar. A confeitaria Tokio, o café Ambos Mundos, o bar El Rayo, La Modelo, Las Violetas, o Ramos, o café La Ópera, La Giralda, Los 36 billares…, a mesma cena, os mesmos assuntos. Todas as vezes que me encontrei com meus amigos, uma série. Se fazemos uma coisa – abrir uma porta, por exemplo – e depois pensamos naquilo que fizemos, é ridículo; mas se observarmos sua reprodução do alto de um mirante, não é preciso nada para obter uma sucessão, uma forma comum, até mesmo um sentido.

Sua vida poderia ser narrada seguindo essa sequência ou qualquer outra parecida. Os filmes a que assistiu, com quem foi ao cinema, o que fez depois; tinha tudo registrado de modo obsessivo, incompreensível e idiota, em minuciosas descrições datadas, com sua trabalhosa letra manuscrita: estava tudo anotado naquilo que agora decidira chamar de “seus arquivos”, as mulheres com que vivera ou passara uma noite (ou uma semana), as aulas que dera, os telefonemas de longa distância, notações, sinais, não era inacreditável? Seus hábitos, seus vícios, suas próprias palavras. Nada de vida interior, somente fatos, ações, lugares, circunstâncias que, repetidas, criavam a ilusão de uma vida. Uma ação – um gesto – que insiste e reaparece, e diz mais do que tudo o que eu possa dizer de mim mesmo.

No bar onde ele se instalava ao cair da tarde, El Cervatillo, na mesa do canto, pegada à janela, tinha colocado suas fichas, um caderno, um par de livros, o Proust, de Painter, e The Opposing Self, de Lionel Trilling, e ao lado um livro de capa preta, um romance, pelo jeito, com frases elogiosas de Stephen King e Richard Ford em letras vermelhas.

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Contudo, tinha percebido que devia começar pelos restos, por aquilo que não estava escrito, ir ao encontro do que não estava registrado mas persistia e cintilava na memória como uma luz mortiça. Fatos mínimos que misteriosamente haviam sobrevivido à noite do esquecimento. São visões, flashes enviados do passado, imagens que perseveram isoladas, sem moldura, sem contexto, soltas, e não podemos esquecê-las, certo? Certo, disse, e olhou para o garçom que ia atravessando por entre as mesas. Mais um branco?, perguntou. Pediu um Fendant de Sion… era o vinho que o Joyce bebia, um vinho seco que o deixou cego. Joyce o chamava de Arquiduquesa, por causa da cor ambarina e porque o bebia como quem pecaminosamente – à la Leopold Bloom – suga o néctar dourado de uma púbere garota aristocrática que se agacha nua, de cócoras, sobre uma ávida cara irlandesa. Renzi frequentava esse bar – que antes se chamava La Casa Suiza – porque guardavam ali, nos frescos porões, várias caixas do vinho joyciano. E com seu pedantismo habitual citou, em voz baixa, o parágrafo do Finnegans celebrando aquela ambrosia…

Era uma radiografia do seu espírito, melhor dizendo, da construção involuntária do seu espírito, disse, e fez uma pausa; não acreditava nessas baboseiras (frisou), mas gostava de pensar que sua vida interior era feita de pequenos incidentes. Assim, poderia enfim começar a pensar numa autobiografia. Uma cena e depois outra e mais outra, não é? Seria uma autobiografia seriada, uma vida em série… Dessa multiplicidade de fragmentos insensatos, começara seguindo uma linha, reconstruindo a série dos livros, “Os livros da minha vida”, disse. Não os que escrevera, mas os que lera… Como li alguns dos meus livros poderia ser o título da minha autobiografia (caso a escrevesse).

Primeiro ponto, portanto, os livros da minha vida, mas nem todos os que li, e sim aqueles dos quais lembro com nitidez a situação e o momento em que os lia. Se eu me lembro das circunstâncias em que estava com um livro, isso para mim é a prova de que ele foi decisivo. Não são necessariamente os melhores, nem os que me influenciaram: são os que deixaram uma marca. Vou seguir esse critério mnemônico, como se eu contasse somente com essas imagens para reconstruir minha experiência. Um livro na lembrança tem uma qualidade íntima somente se vejo a mim mesmo lendo. Estou do lado de fora, distanciado, e me vejo como se eu fosse outra pessoa (sempre mais jovem). Por isso, talvez, penso agora, aquela imagem – fazer de conta que estou lendo um livro na soleira da casa da minha infância – é a primeira de uma série, e é por aí que vou começar minha autobiografia.

Claro que recordo dessas cenas depois de ter escrito meus livros, por isso poderíamos chamá-las de pré-história de uma imaginação pessoal. Por que nos dedicamos a escrever, afinal? Seguimos nessa trilha, por qual motivo? Bom, porque antes lemos… Não importa a causa, claro, importam as consequências. Muita gente deve se arrepender disso, a começar por mim, mas em qualquer bar da cidade, em qualquer McDonald’s tem um trouxa que, apesar de tudo, quer escrever… Na realidade, não é que ele queira escrever, quer é ser escritor e quer ser lido. Um escritor se autonomeia e se autopropõe no mercado persa, mas por que ele resolve assumir essa postura?

A ilusão é uma forma perfeita. Não é um erro, não deve ser confundida com um equívoco involuntário. Trata-se de uma construção deliberada, pensada para enganar a própria pessoa que a constrói. É uma forma pura, talvez a mais pura das formas existentes. A ilusão como romance privado, como autobiografia futura.

No início, afirmou depois de uma pausa, somos como o Monsieur Teste de Valéry: cultivamos a literatura não empírica. É uma arte secreta cuja forma exige não ser descoberta. Imaginamos o que pretendemos fazer e vivemos nessa ilusão… Em suma, são as histórias que cada um conta a si mesmo para sobreviver. Impressões que não estão em condições de ser entendidas por estranhos. Mas é possível uma ficção privada? Ou é preciso que haja mais de uma pessoa? Às vezes, os momentos perfeitos só têm por testemunha a própria pessoa que os vive. Podemos chamar esse murmúrio – ilusório, ideal, incerto – de história pessoal.

Modelo de carreira linear vai desmoronar, diz professora britânica

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Bruno Benevides, na Folha de S.Paulo

No futuro, a criatividade será o maior diferencial entre homem e máquina, diz a professora britânica Lynda Gratton. Especializada em gestão e na relação entre trabalho e tecnologia, ela também vislumbra uma verdadeira revolução na vida profissional, causada pelo aumento da expectativa de vida.

RAIO-X: LYNDA GRATTON, 62

Formação: Especializada em gestão e na relação entre trabalho e tecnologia, professora da London Business School

Obra: “The Shift: The Future of Work is Already Here” (“A mudança: O futuro do trabalho já está aqui”, inédito no Brasil)

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A britânica Lynda Gratton, professora de gestão da London Bussiness School

A britânica Lynda Gratton, professora de gestão da London Bussiness School

 

Folha – Sua pesquisa sobre tecnologia começou a partir de visita a uma vila masai, na Tanzânia, quando viu um morador usando celular. O que isso tem de tão especial?
Lynda Gratton – Mostra que quando temos tecnologia pela primeira vez, a usamos para amplificar o modo como vivemos. Para o masai, o aspecto mais importante da vida são seus animais. Por isso, na minha visita, ele usou o celular para conversar com o irmão sobre as cabras da família. Talvez hoje o masai use seu celular para saber sobre clima ou até para encontrar uma namorada em uma vila vizinha.

Qual o impacto da criatividade no futuro do trabalho?
A tecnologia está substituindo os humanos em trabalhos previsíveis, como anotação de dados, linha de produção e até alguns serviços jurídicos e contábeis. Vamos necessitar que a força de trabalho esteja empenhada na criação de produtos e serviços e em jeitos inovadores de entregá-los. Já o trabalho rotineiro será feito de forma mais efetiva pela tecnologia.

É possível aprender essas habilidades criativas na escola?
O modo como desenhamos nossas instituições tende a limitar a criatividade. O desafio das organizações é ajudar as pessoas a redescobrirem ideias e comportamentos criativos que antes eram naturais para elas. E, também, desenhar o trabalho de modo a encorajar as pessoas a pensar diferente, a falhar e continuar tentando.

O processo de alteração do homem pela máquina, conhecido pelo termo augmentation, deve impactar o trabalho em breve ou ainda leva tempo?
O futuro do trabalho vai ser definido por humanos e computadores trabalhando em sintonia, através da união entre ambos. Isso já está acontecendo. Basta pensar na nossa relação com aplicativos ou em nossos celulares e como eles permitem que facilmente nos comuniquemos em tempo real com outros ao redor do mundo ou que nos movamos entre o ponto A e o B rapidamente. Isso vai aumentar nos próximos anos.

A senhora diz que dinheiro não deve ser o único aspecto no trabalho. Quais os outros?
As organizações precisam oferecer aos empregados recursos intangíveis, como treinamento de habilidades, vitalidade, bem-estar e capacidade de desenvolver redes que os ajudarão a se mover entre carreiras no futuro.

As organizações devem oferecer aos funcionários a capacidade de aprimorar sua empregabilidade. As mais inovadoras já começam a experimentar. Muitas pessoas querem focar em sua saúde e, ao mesmo tempo, sabem da necessidade de aumentar seu grau de empregabilidade e sua habilidade de se transformar, já que terão uma vida profissional mais longa.

Qual o impacto da maior expectativa de vida no trabalho?

O modo como estruturamos o trabalho é baseado em um modelo de vida com três estágios: educação, trabalho e aposentadoria. Esse modelo vai desmoronar. Muitas pessoas não poderão se aposentar aos 60 anos, se pudermos viver bem até 100 anos.

Além disso, ficar aposentado por 30 anos não é atraente para o bem-estar social e psicológico. Vamos estender o trabalho até uma idade avançada e criar mais períodos de descanso, recuperação e reciclagem durante a vida profissional. Vamos mudar do modelo de três estágios para um de múltiplos níveis.

As empresas precisarão criar mais opções para permitir às pessoas períodos de descanso, de recuperação e de treinamento e estudo. Também devem entender que a idade não vai mais ter relação direta com o estágio da vida, já que cada um deverá usar as diferentes opções que existem para sequenciar a vida como achar melhor.

Serei o primeiro da família a me formar, diz bolsista do Prouni

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Publicado no UOL

Gerson Saldanha, 26, está na correria para finalizar o seu trabalho de conclusão de curso. A tensão e a corrida contra o tempo o acompanham na busca pela entrega da “monografia perfeita”. Quem já passou por isso –ou acompanhou de perto o processo– sabe que o período é complicado. Apesar disso, o jovem nascido em Mesquita, região metropolitana do Rio de Janeiro, não tira o sorriso do rosto.

Logo mais, Saldanha vai comemorar a formatura em relações internacionais. Mais que isso. O jovem considera que vai materializar a conquista de toda sua família. “Vou ser o primeiro a se formar. Minha avó teve nove filhos e tem dez netos. Mas eu sou o único que vai concluir o ensino superior”, disse, orgulhoso.

Chegar até aqui só foi possível por causa da própria teimosia e de um pouco de sorte, brinca o estudante. Depois estudar em escolas públicas, seguir carreira militar e ficar mais de três anos longe dos livros escolares, o jovem retomou os estudos para o vestibular e, em 2012, conseguiu obter uma média suficiente no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) para receber uma bolsa integral do Prouni (Programa Universidade para Todos).

“Acho que nunca ia desistir do meu sonho. Sou meio teimoso. Mas, se não fosse a bolsa, eu demoraria muito para entrar na faculdade. Consegui entrar já com 22 anos, imagina se tivesse que esperar ter dinheiro para pagar”, comenta.

Conselho de pai e de mãe

Saldanha foi aluno de escolas públicas durante toda a vida escolar e ouviu muito de seus pais que deveria persistir nos estudos. O pai trabalha há anos como pedreiro e só pôde estudar até a quinta série (hoje quarto ano) do ensino fundamental. Já a mãe, hoje dona de casa, trabalhou por anos como cuidadora de uma senhora do bairro, mas só estudou até o segundo ano do ensino médio.

Meus pais sempre me incentivaram. Eles diziam: você vai ter que fazer faculdade! Vamos estudar. Cheguei até aqui por causa deles.

“Quando era bem mais novo, não tinha muito talento com o futebol. Aí, minha mãe dizia: ‘Se não tem talento para o futebol, vai estudar! Ser alguma coisa na vida’. Foi o que eu fiz”, lembra o jovem, dando gargalhadas. “Meus pais sempre foram incentivadores. Eles diziam: ‘Você vai ter que fazer faculdade, vamos estudar’. Se estou aqui hoje, é por causa deles. Minha mãe sempre foi aquele tipo que exigia o calendário de provas e pendurava na geladeira.”

O incentivo mostrou resultado. Logo no primeiro ano do ensino médio –aos 15 anos–, Saldanha colocou na cabeça que precisaria fazer cursinho pré-vestibular se quisesse passar em uma universidade. Então se matriculou num curso comunitário oferecido pela igreja da região em que morava e começou a maratona de estudos. “Não sei se sou meio doido, mas sempre pensei muito na frente.”

Depois de três longos anos de preparo, Saldanha não conseguiu ser aprovado. O fato de ter “tomado bomba” em todos os vestibulares em 2008, ao final do ensino médio –como Uerj, UFRJ, UFF– fez com que ele visse na carreira militar uma oportunidade de poder contribuir com as contas de casa. O sonho de fazer faculdade estaria adiado, pelo menos por ora.

No mesmo ano, fez a prova da Marinha e passou. Morou no Espírito Santo por cerca de um ano e foi trabalhar num porta-aviões. Apesar de feliz no cargo e com um salário que conseguia ajudar os pais, a vontade de fazer relações internacionais não o largava. “Lá tinha uma galera da França e eu tentava falar inglês com eles. Achava massa.”

Saldanha achou melhor continuar na carreira militar. Concluiu o tempo mínimo como soldado, fez o curso de formação de cabo especialista em barbearia e começou a trabalhar como barbeiro na Escola de Tenentes da Marinha, em 2009.

Naquele mesmo ano, decidiu que o momento de retomar o desejo antigo havia chegado. Apesar de determinado, surgia um novo desafio: a falta de tempo para se preparar para as provas dos vestibulares. “Antes eu não tinha dinheiro, mas tinha tempo para estudar. Na Marinha, eu tinha salário, só que não sobrava tempo.”

A solução? Foi começar a estudar por conta própria em todo o tempo que sobrava entre uma atividade e outra. Os anos seguintes foram de tentativa atrás de tentativa. Só em 2012 Saldanha conseguiu uma média suficiente para ser aprovado no curso de relações internacionais de uma faculdade particular no Rio de Janeiro.

De lá para cá, foram só realizações e muito trabalho, considera Saldanha. “Estou quase me formando e não estou acreditando nem que consegui entrar na faculdade. Almejei tanto esse sonho. Tenho voltado muito no tempo, refletido muito. Só tenho a agradecer.”

A ideia de desbravar o desconhecido e aprender coisas novas sempre esteve presente na vida de Gerson Saldanha. Ele cresceu ouvindo a mãe falar sobre o significado de seu nome: estrangeiro. E por que não viajante?
Talvez tenha sido esse motivo que fez com que o rapaz ainda criança começasse a se interessar por outras línguas. O inglês foi o primeiro idioma que chamou a atenção do estudante. Viajar para fora do Brasil não era uma opção na época, mas isso não o desanimou.

“Eu não podia pagar um curso de inglês, mas eu queria saber mais. Então estudava com livros do pessoal do bairro, dos filhos dos patrões do meu pai. Aí ganhei um curso num concurso de jornal. Você colecionava 30 selos e podia fazer 30 dias de aula. Juntei e estudei os 30 dias”, lembra.

Foi só aos 23 anos que o jovem pode fazer um verdadeiro curso de inglês. Graças a sua habilidade com a escrita, Saldanha ganhou uma das etapas de um concurso de um jornal local. O prêmio foi uma viagem para Seattle, nos Estados Unidos, com tudo pago.

“Queriam que respondesse da forma mais criativa possível o que você leva na bagagem. Pensei e resolvi tentar. Naquele dia, cheguei em casa quase meia-noite e escrevi minha redação”, lembra. “Fiquei três semanas em Seattle (EUA) fazendo um curso de inglês. Foi incrível. Tudo o que eu sempre sonhei. Conversar com gringo, falar inglês, viajar.”

Saldanha voltou da experiência diferente. Começou a pesquisar uma forma de fazer intercâmbio de graça.

Passou a visitar escolas do seu bairro e contar sua história. Com base na experiência pessoal, escreveu um livro e o disponibilizou gratuitamente na internet, com o título “O que Eu Trouxe na Minha Bagagem”.

“Em uma semana, teve mais de 5.000 visualizações. Fiquei muito feliz. Foi aí que decidi sair da Marinha. Dei baixa e foquei no projeto. Comecei a dar mais palestras em escolas e a usar o livro como porta de entrada.”

Agora, com a proximidade da formatura, Saldanha quer continuar com o projeto e realizar outros projetos de educação. “A educação representa tudo. É como uma pecinha de Lego. Você pode pegar uma e montar o que você quiser. A educação transforma você em qualquer coisa. Olha o que ela fez comigo.”

Pesquisa aponta ‘segredos’ de seis escolas públicas de excelência

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Escolas foram detectadas em pesquisa da Fundação Lemann.
Entre as seis, a maioria é pequena e duas delas estão em áreas rurais.

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Publicado em G1

Seis escolas públicas brasileiras destoam dos números ruins do cenário nacional e sedestacam por suas boas práticas de ensino entre os anos finais do ensino fundamental. Formação contínua de professores, avaliações frequentes e proximidade com a comunidade estão entre os segredos para o sucesso do ensino nessas unidades.

As escolas foram detectadas em uma pesquisa feita pela Fundação Lemann, com apoio da Instituto Credit Suisse e do Itaú, cruzando dados do Censo Escolar e da Prova Brasil 2013. Foram levados em conta critérios como o índice de conhecimento considerado adequado em matemática e português, a evolução dos alunos entre o 6º e o 9º ano, entre outros indicadores.

Apesar de poucos recursos, o índice de aprendizado nestas escolas está acima da média brasileira. Entre as escolas selecionadas como cases, todas são municipais, só duas têm redes consideradas grandes, uma no Rio de Janeiro e a outra em Belo Horizonte (MG), as demais são pequenas e estão localizadas em Sobral (CE), Novo Horizonte (SP). Duas delas, além de pequenas, são da zona rural e ficam em Pedra Branca e Brejo Santo, no Ceará (veja lista com os nomes abaixo).

Para Ernesto Martins Faria, coordenador do estudo, diz que ao divulgar o trabalho dessas unidades o objetivo é “dar protagonismo para quem está realmente fazendo a diferença” na edição do Brasil. “A mensagem que o estudo passa é que todo o aluno importa. Não dá para cair na armadilha de olhar só para o aluno mais engajado. Não se perde nenhum aluno.”

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Envolvimento da comunidade
Para fazer com que os alunos aprendam com qualidade, uma das estratégias da escola municipal Miguel Antonio de Lemos, localizada na área rural de Pedra Branca, no Ceará, é envolver a comunidade nas decisões e vida escolar.

A unidade atende 3.136 alunos do 6º ao 9 ano. Lá, o acesso é feito somente por pau de arara, os ônibus não têm passagem por conta das condições das estradas. Nada disso, no entanto, impede a aprendizagem dos alunos.

“Não vivemos só de problemas. Fazemos com que os alunos aprendam e conscientizamos a comunidade. Nosso lema é fazer com que a escola seja a diferença na vida do aluno. Fui alfabetizado nessa escola e tenho uma causa de amor com ela”, diz o diretor Amaral Barbosa de Lima.

Na escola Maria Leite de Araújo, também da área rural de Brejo Santo (CE), a relação estreita com a comunidade também é uma realidade. A escola é pequena, possui 2.465 alunos do 6º ao 9º ano. Os professores moram próximos às famílias dos alunos e as mães acompanham o desenvolvimento e acompanhamento das crianças.

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Olho na evasão
Na escola de Belo Horizonte também destacada pela pesquisa, a Armando Ziller, um dos desafios é a violência do entorno. “Temos problemas como qualquer centro urbano”, afirma a vice-diretora Ivani de Paula Campos.

Para garantir o aprendizado dos alunos, a escola impõe regras e controla as faltas – se houver cinco consecutivas, ou dez alternadas, os pais são convocados. Também faz questão de trazer os pais para a escola. Frequentemente realiza sessões de cinema e bingo para os familiares dos alunos.

Formação de professores
Na escola Gerardo Rodrigues, de Sobral (CE), o diferencial está na formação de professores. Todos os meses os docentes passam por formações sob acompanhamento de uma consultoria e uma vez por semana, se reúnem para estudar e conversar sobre os problemas dos alunos.

“Sabemos quais são os alunos que têm dificuldades e quais são elas”, afirma a Fernanda Lopes, professora de português. Fernanda lembra que outra característica da escola é trabalhar a questão da afetividade entre os alunos. “Atendemos muitas crianças carentes, inclusive no sentido afetivo”

Avaliações frequentes
É de Novo Horizonte, em São Paulo, uma cidade agrícola, a mais de 400 km da Capital, que vem outro bom exemplo de educação pública. Na escola municipal Hebe de Almeida Leire Cardoso, o índice de aprendizado adequado entre os alunos do 9º ano em matemática e português ultrapassa a marca dos 50%.

A qualidade do ensino é mensurada por avaliações, da escola, dos professores e da secretária da educação. O professor de história Ademir Almagro explica que todas as sextas-feiras os alunos fazem uma prova. O resultado, com a média da sala, e da individual, chega já na segunda-feira. “Dá para medir como o está sendo o aprendizado de maneira imediata. Eu sei aonde eu tenho de voltar.”

Almagro diz que a escola colhe agora os frutos de um trabalho que começou há 12 anos. “Queremos que o aluno aprenda com a sensibilidade do professor em sala de aula e com os números revelados pelas avaliações.”

Turno integral
A escola municipal Rodrigues Alves, localizada na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, aderiu ao programa Ginásio Carioca, implantado pela Prefeitura do Rio em 2011. Nas unidades que fazem parte do projeto, os alunos estudam em tempo integral e têm professores de dedicação exclusiva.

No colégio Rodrigues Alves todos os alunos são acompanhados de perto, os que têm dificuldade no aprendizado participam do reforço no contraturno escolar. “A gente nunca desiste do aluno, não importa se ele veio com alguma defasagem. Está todo mundo envolvido. Nós não podemos resolver o problema do país inteiro, mas podemos fazer algo por quem está na nossa frente”, diz a coordenadora pedagógica Maristela Motta.

Depois do período regular das aulas, os alunos têm atividades como xadrez, italiano, história em quadrinhos, debates sobre temas adolescentes, sessões de cinema aliadas aos projetos de leitura, entre outros. As opções mudam a cada semestre.

Maristela lembra que as dificuldades existem como em tantas outras escolas públicas do Brasil, a Rodrigues Alves, por exemplo, não possui uma quadra coberta, e muitas vezes os alunos precisam fazer aulas sob um sol de 40 graus. No entanto, para ela, o diferencial é a “vontade de fazer” da equipe que lá atua. “É a vontade, a maneira de tratar o ser humano. Não é o que fazemos, é como fazemos, a maneira.”

Veja a lista das escolas selecionadas pela pesquisa:
1) Escola Municipal Rodrigues Alves – Rio de Janeiro (RJ)
2) Escola Municipal Armando Ziller – Belo Horizonte (BH)
3) Escola Municipal Gerardo Rodrigues – Sobral (CE)
4) Escola Municipal Hebe de Almeida Leite Cardoso – Novo Horizonte (SP)
5) Escola Municipal Miguel Antonio de Lemos – Pedra Branca (CE)
6) Escola Municipal Maria Leite de Araújo – Brejo Santo (CE)

 

(**) As informações que estão nas imagens são do Inep Censo Escolar e Prova Brasil

‘O analfabeto acha que a culpa é dele’, diz professora de jovens e adultos

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Publicado no G1

Gerações de brasileiros que, durante a infância, não tiveram acesso ao fenômeno da educação universal, enfrentam hoje obstáculos para conseguir dar o primeiro passo no mundo da escolarização. Além da dificuldade de não conseguirem realizar tarefas cotidianas como ler letreiros de ônibus ou rótulos de produtos, adultos analfabetos por vezes se deparam, quando chegam a um curso de alfabetização, com professores treinados apenas para ensinar crianças ou horários de aulas incompatíveis. Segundo a alfabetizadora Jany Dilourdes Nascimento, que desde 1997 trabalha na área, o sentimento de inaptidão faz com que o analfabeto se sinta culpado.

“O analfabeto acha que a culpa é dele, que ele é responsável por ser analfabeto. Ele não tem consciência crítica para saber que na verdade ele foi uma vítima, e não um responsável por essa situação. Infelizmente, ainda hoje, por causa das políticas públicas, parece que é um direito só das crianças”, afirmou Jany, em entrevista ao G1.

Demanda e oferta
Um levantamento inédito feito pelo G1 com base em dados da Fundação Seade e da Prefeitura de São Paulo, e compilados pela ONG Ação Educativa, mostra a incompatibilidade entre o número de salas do Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos (Mova) mantidas pelo governo municipal.

O cruzamento de dados foi feito entre as taxas de analfabetismo em cada um dos 96 distritos da Capital e entre a listagem de turmas do Mova que a Secretaria Municipal de Educação (SME) divulga em seu site oficial.

A taxa de analfabetismo da cidade de São Paulo era dois terços menor que a média nacional em 2010, mas o cruzamento mostra que, considerando as diferenças distritais, a oferta de salas de aula para a alfabetização de jovens e adultos não condiz com a realidade das demandas regionais.

Dos dez distritos com as maiores taxas de analfabetismo, dois não têm sequer uma sala de alfabetização, só cinco também estão na lista de dez distritos com o maior número de salas de alfabetização. Em entrevista ao G1, Lívia Maria Antongiovanni, diretora da Divisão de Orientação Técnica da Educação de Jovens e Adultos da SME, afirmou que, em agosto deste ano, a Prefeitura tinha 12.031 alunos matriculados em 490 salas do Mova, número que tem aumentado desde 2014, e que mantém parceria com 96 instituições para a realização de cursos anuais de alfabetização.

Com índice de população analfabeta de 8,8%, Marsilac, distrito que fica no extremo Sul da cidade, é o que mais concentra pessoas que não sabem ler ou escrever, mas há cinco anos não há salas mantidas pela Prefeitura no local. A taxa de analfabetismo na Capital Paulista era de 4,3% em 2010, mas Marsilac, que tem o maior índice dos distritos paulistanos, tinha números mais próximos que a média brasileira, de 9,6%, segundo dados do Censo Demográfico do IBGE.

A Acoema, associação de moradores de Engenheiro Marsilac, manteve turmas de alfabetização entre 2003 e 2010, e chegou a ter dez salas. Da verba recebida pelas aulas, 12% cobria materal pedagógico e limpeza, e 88% do valor ia para a remuneração de professores e gastos de aluguel das salas. Segundo Maria Lúcia Cirillo, ex-presidente da associação, o problema que levou ao fechamento das turmas é o fato de o bairro estar na zona rural, o que acaba levando a muitas faltas dos alunos. “Quando vem a visita da supervisão e não tem o número [mínimo] de alunos, a sala fica sem pagamento daquele mês, aí ia indo até que ia fechando a sala”, lembra ela. Depois de desenvolver problemas de saúde, Maria Lúcia acabou entregando as últimas turmas à Secretaria de Educação. Desde então, Marsilac não tem cursos de alfabetização em parceria com a Prefeitura.

Meta descumprida
Nesta terça-feira (8), a Unesco celebra o Dia Mundial da Alfabetização, a poucos meses do fim do prazo das seis metas mundiais para a educação definidas para o período entre 2000 e 2015. Alcançar uma redução de 50% nos níveis de analfabetismo de adultos até este ano é a meta 4 e, em abril deste ano, só 25% dos países cumpriram o combinado.

O Brasil não foi um deles, segundo a Unesco. Na época, o governo federal afirmou que o Brasil avançou no combate ao analfabetismo, principalmente entre os jovens, mas disse que, entre as pessoas com mais de 60 anos, a redução da taxa foi mais discreta. Segundo o Censo Demográfico, nessa faixa etária, a taxa era de 14,1% em 2010.

Aprender antes de morrer
Um exemplo que fugiu a essa tendência é o de Therezinha Brandolim de Souza. Esse é o comprido nome da artista de 84 anos conhecida como Tetê. Antes de 2013, quando foi alfabetizada, ela tinha outros predicados. Era a filha mais velha de uma família de imigrantes que cresceu entre um embate da escola com a enxada vencido pela segunda. Tetê casou, perdeu o marido e criou os cinco filhos trabalhando como doméstica em Ribeirão Preto (SP). Mas sempre dizia que queria aprender a ler e escrever antes de morrer.

“Eu trabalhava de noite, então tinha que vir para casa e não sabia ler o nome das ruas. Então eu chorava, chorava, e pedia para Deus me guiar”, lembra ela.

Ela conseguiu, aos 82 anos, depois de inúmeras tentativas, graças a aulas particulares recebidas de Jany, que então trabalhava no Instituto Paulo Freire, ONG que é referência na área de alfabetização. No ano seguinte, depois de escrever um cartão de Páscoa aos netos, e decorá-lo com tecidos coloridos, ela decidiu montar uma colagem com o que sobrou do tecido. Ali nascia a artista que, no fim de agosto, recebeu um prêmio na 40ª Semana de Cândido Portinari em Brodowski, pequeno município em que nasceu o pintor brasileiro.

Onde ex-professores diagnosticaram um “bloqueio” no aprendizado, Jany percebeu que havia apenas um problema de contextualização. Quando recebeu um pedido para dar aulas à idosa, ela descobriu que Tetê já tinha uma base avançada para a alfabetização, faltava que o conteúdo fosse menos infantilizado, e mais próximo do seu cotidiano.

“Pedi para ela escrever a receita do pão que ela faz, e que muita gente adora”, lembra Jany. Em dois meses, segundo a professora, a idosa já era capaz de ler.

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Formação de professores
Para a especialista, que coordenou 20 turmas da ONG Alfabetização Solidária (Alfasol) em São Paulo e na Bahia, alguns dos problemas que podem levar a casos de ineficácia dos curso envolvem a formação de alfabetizadores. “São professores leigos, não são nem formados como professores, são pessoas que atuam voluntariamente, que querem ajudar. quando são professores, são professores de crianças. Se você olhar o currículo das universidades, tem uma grande parte voltada para a educação infantil e fundamental, mas não tem muita coisa pra EJA. Quando tem, é um semestre.”

Lívia, da Secretaria Municipal da Educação, afirma que os alfabetizadores do Mova não precisam ser formados em educação, mas devem passar por um curso de formação inicial e recebem acompanhamento periódico das diretorias regionais de ensino.

As diretorias também são responsáveis por supervisionar a veracidade dos dados oferecidos pelas entidades parceiras, em visitas semanais. “Eles supervisionam o funcionamento das salas dos Movas, se os alunos são regulares. O supervisor vê a frequência, como tá o projeto pedagógico da sala de aula, e orienta também os formadores”, explicou ela.

Entre os outros problemas estão a necessidade de haver pelo menos 12 alunos por sala e a burocracia para evitar fraudes, como listas de alunos fantasmas e professores que são pagos sem oferecer as aulas.

Parcerias com a sociedade civil
O Mova foi criado pelo educador Paulo Freire no fim da década de 1980, quando ele foi secretário municipal de Educação em São Paulo. O programa tem como objetivo formar parcerias com organizações não-governamentais, igrejas e associações comunitárias e de moradores. As entidades se responsabilizam por encontrar um professor, uma sala e um número mínimo de alunos, e a Prefeitura de São Paulo responde pela supervisão pedagógica dos instrutores e financia a manutenção do curso.

Pela lei, cada classe, que deve ter no mínimo 20 alunos matriculados e frequência diária de pelo menos 12 alunos, recebe R$ 600 por mês. A metodologia do curso estima que o processo da alfabetização dure em torno de oito meses.

Ao final do processo, porém, as dificuldades valem a pena, segundo Jany. “Quando conhecíamos os analfabetos, inicialmente eram pessoas que andavam de cabeça baixa, não tinham coragem de conversar. Depois elas saíam outras pessoas.”

Antes de ser alfabetizada, Dona Tetê já desenhava. “Quando eu ficava sozinha na casa da minha filha, eu pegava papel, riscava, riscava, e aí escondia dela. Debaixo do sofá, em qualquer lugar eu enfiava”, lembra ela. “Eu achava que não sabia fazer nada.”

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