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Escola da rede estadual é referência em ensino bilíngue

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 Ciep 449 foi a primeira escola pública de Ensino Médio bilíngue criada no Brasil Foto: Divulgação

Ciep 449 foi a primeira escola pública de Ensino Médio bilíngue criada no Brasil
Foto: Divulgação

 

Publicado em O São Gonçalo

O Ciep Governador Leonel de Moura Brizola (Intercultural Brasil-França), localizado em Niterói, é referência em ensino bilíngue de Português e Francês. A escola oferece aos seus estudantes uma grade curricular diversificada, além de aulas de Biologia e Meio Ambiente no idioma francês. O colégio, que pertence à Secretaria de Educação, é uma das três unidades de ensino da América do Sul que recebeu o selo de qualidade Label France Éducation, concedido a escolas que promovem uma metodologia de excelência da Língua Francesa.

“Em todo o mundo, 158 instituições têm este selo, incluindo o Ciep 449. Isso é motivo de orgulho para os estudantes e toda a equipe desta escola”, afirmou o secretário de Educação, Wagner Victer.

Fruto de uma parceria entre a secretaria e a Académie de Créteil, com apoio do Consulado Geral da França, o Ciep 449 foi a primeira escola pública de Ensino Médio bilíngue criada no Brasil. Para receber o selo, a unidade atendeu a critérios como excelência no ensino da Língua Francesa, plano de formação pedagógica de qualidade para os professores, comprovação de qualificação, diplomas e nível de proficiência dos professores nas classes bilíngues, presença de ao menos um professor francófono com diploma reconhecido, ambiente francófono (recursos educativos, parceiros escolares, jornadas linguísticas e culturais francófonas), entre outros aspectos.

“Apresentamos nossa candidatura por meio do consulado e preenchemos todos os requisitos. Entre eles estão a qualidade de nossos profissionais, pois temos uma equipe de professores com mestrado e doutorado. Também há o Ateliê Científico, onde nossos alunos aprendem Biologia em francês”, explicou a professora do idioma, Danielle Pascotto, doutora em Literatura Francófona e Língua Francesa.

Ser selecionado para receber o selo de qualidade traz uma série de benefícios para a escola. São eles: acesso a serviços de reforço na qualidade do ensino; possibilidade de ajuda financeira para projetos de inovação pedagógica; oferta cultural online; visibilidade da escola; e troca de informações e contatos com as outras escolas selecionadas, por meio do site labelfranceducation.fr.

Intercâmbios

O Ciep 449 também realiza intercâmbios culturais. Em 2016, 38 alunos franceses e cinco professores acompanhantes passaram duas semanas no Brasil, assistindo aulas e participando de atividades propostas pelos professores brasileiros. No final de janeiro e início de fevereiro deste ano, professores e 23 alunos do Ciep viajaram para a França. A cada ano, uma professora brasileira leciona por 10 meses na escola Collège International de Noisy-le-Grand, em Noisy-le-Grand, na França.

Clássicos brasileiros são lançados no Salão do Livro de Paris

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Capa dos livros “Crépuscules”, publicado pela editora Anacaona, e “Histoire d’un vaurien”, pela editora Chandeigne. Fotomontagem com @chandeigne/ Anacaona

Capa dos livros “Crépuscules”, publicado pela editora Anacaona, e “Histoire d’un vaurien”, pela editora Chandeigne.
Fotomontagem com @chandeigne/ Anacaona

Sete livros brasileiros, traduzidos para o francês, estão sendo lançados no Salão do Livro de Paris, que acontece até a próxima segunda-feira (27). A maioria deles é de autores contemporâneos, mas dois romances são clássicos da literatura do Brasil que nunca tinham sido publicados na França: “Memórias de um Sargento de Milícias”, de Manuel Antônio de Almeida, e “Fogo Morto”, de José Lins do Rego.

Adriana Brandão, na RFI

As traduções dos livros brasileiros que chegaram agora às livrarias francesas estão sendo promovidas no estande do Brasil do Livre Paris 2017. Pelo quinto ano consecutivo, o país está presente no principal evento literário francês para dar continuidade a política de divulgação da literatura nacional no exterior.

“Memórias de um Sargento de Milícias”, de Manuel Antônio de Almeida, é publicado pela Chandeigne, uma das editoras francesas que mais investe em literatura e livros sobre o Brasil. As aventuras do jovem Leonardo, que viveu no “tempo do Rei”, isto é, no início do século 19, chegam pela primeira vez à França com o título “Histoire d’un vaurien”. A tradução para o francês é assinada por Paulo Rónai e data dos anos 1950, mas havia sido publicada apenas no Brasil.

Se diz que os clássicos não envelhecem, mas que as traduções sim. No entanto, a publicação desta “Histoire d’un vaurien”, pensada em parceria com Samuel Titan, é uma “dupla homenagem” ao escritor e ao tradutor da obra. “Se fôssemos traduzir agora, não faríamos da mesma maneira, mas a tradução é elegante. Reunir em um só volume o texto saboroso e cheio de humor do Manuel Antônio de Almeida com um personagem muito importante para a língua e a cultura brasileira, que é o Paulo Rónai, é uma maneira de fazer uma homenagem aos dois”, explica a editora Anne Lima. Ela lembra que Rónai, um judeu húngaro e francófono que se exilou no Brasil 1941, se tornou um dos “pais” do português falado no país.

“Histoire d’un vaurien” traz um posfácio de Samuel Titan, editor, crítico e professor de literatura comparada da USP. Ele salienta que é quase um milagre essas “Memórias de um Sargento de Milícias” terem chegado até os tempos de hoje. “Publicado semanalmente em um jornal carioca entre junho de 1852 e julho de 1853, essa pequena jóia da literatura brasileira poderia ter se perdido como tantos outros folhetins do século 19”. O romance conta a história do “primeiro malandro” brasileiro, que nasceu de “uma pisadela e um beliscão durante um encontro em alto mar”, e inspirou grandes escritores. De Machado de Assis a Chico Buarque, os discípulos de Manuel Antônio de Almeida, que morreu aos 30 anos em 1861, são inúmeros.

Traduzir um “monstro da literatura brasileira”

“Fogo Morto”, de José Lins do Rego, chega às livrarias francesas com o título de “Crépuscules” e traz belas ilustrações de Maurício Negro. A tradução é assinada pela editora Paula Anacaona que dedicou muito tempo para transpor para o francês o romance deste “mostro da literatura brasileira”.

Ela diz que se apaixonou pelo romance como leitora, quando ainda nem era tradutora ou editora. Quando abriu a Anacaona, especializada exclusivamente em literatura brasileira, resolveu publicá-lo: “fiquei intimidada, não podia errar, mas foi um prazer. Achava que esse livro tinha seu lugar no espaço cultural francês”.

A principal dificuldade enfrentada por Paula Anacaona foi o regionalismo de Fogo Morto, que se passa no início do século 20 e fala de decadência dos senhores de engenho do Nordeste, e além da multidão de personagens. Ela tomou inclusive a liberdade de ignorar alguns nomes citados uma única vez: “Não é que eu deixei de lado alguns personagens. Eu apaguei pequenas referências de nomes que nunca voltam, que não têm fala. Pequenas coisas que, para mim, criam confusão ao romance que já é complicado”.

“Crépuscules” é o segundo romance do paraibano José Lins do Rego (1901-1957) que a editora Anacaona publica. O primeiro foi “Menino do Engenho” com o título “L’Enfant de la plantation”.

O público francês se interessa por esses clássicos da literatura brasileira? Paula Anacaona diz que apenas “os leitores adultos, com mais de 50 anos, apreciam essa literatura clássica, bem escrita”. Anne Lima avalia que “há ainda muito a se fazer para conquistar leitores e livreiros que têm tendência a escolher o que já conhecem”. Apesar das dificuldades, as duas vão continuar a editar e a defender na França romances que gostam.

Milan Kundera por René Girard: uma entrevista com Trevor Cribben Merrill

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Publicado no Estadão

Só Dom Quixote quer ser Don Juan no século XX

por Pedro Sette-Câmara

O Livro da Imitação e do Desejo – Lendo Kundera com Girard, de Trevor Cribben Merrill, um dos dois novos títulos da Biblioteca René Girard, da É Realizações, trata da obra de Milan Kundera. O livro é aquilo que um bom livro de crítica deve ser: acessível apenas por ser claro e bem escrito, não por buscar uma facilidade motivada pela condescendência, e esclarecedor porque nos leva a ver o mundo como Milan Kundera o enxerga. Gostar de literatura é gostar de obras que nos parecem relevantes porque explicam-nos para nós mesmos; uma parte importante da boa crítica ajudaria nesse trabalho, e faria com que lêssemos melhor aquilo que gostávamos ou que gostaríamos de ler.

Apesar das palavras gentis que Trevor me dirige no fim da entrevista, como tradutor, como interessado em René Girard, só posso dizer que, graças ao livro de Trevor, tornei-me também leitor de Milan Kundera.

Trevor esteve no Brasil esta semana para participar do congresso da Associação Brasileira de Literatura Comparada, na UERJ, quando concedeu esta entrevista exclusiva ao Estado da Arte.

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O filósofo e teórico da literatura francês René Girard. (Foto: divulgação)

No prefácio a To Double Business Bound (uma das poucas obras de René Girard ainda inéditas em português), René Girard fala da continuidade entre literatura e crítica e do potencial “quase teórico” da literatura. No prefácio de O Livro da Imitação e do Desejo, você fala da mesma coisa. Para alguém familiarizado com a teoria mimética de Girard, essa continuidade parece óbvia. Porém, como torná-la clara para alguém que vê a crítica como comentário a respeito de obras, ou, na melhor das hipóteses, como teoria que só lida com texto?
Em A Abadia de Northanger, Jane Austen descreveu a vergonha de uma moça que foi pega lendo um romance (e zombou dela). Mesmo ganhando prestígio no século XIX e no começo do século XX, o romance era percebido como gênero inferior, entranhado demais nos detalhes bagunçados da vida para ser verdadeiramente puro e autocontido, ao mesmo tempo em que não era objetivo o bastante para merecer o pomposo rótulo de “científico”. No entanto, Austen diz que um bom romance exibe “as mais poderosas faculdades da mente” e “o mais vasto conhecimento da natureza humana”. Assim, em vez de ficarmos envergonhados de gostar de romances, deveríamos vê-los como fontes de sabedoria e até de conhecimento antropológico. Como observou [crítico e professor da UERJ] João Cezar de Castro Rocha, Girard tem sua própria “hermenêutica particular”. Como Austen, o pensador francês levou a literatura a sério, especialmente como meio de esclarecer os paradoxos das interações humanas. Seus ensaios sistematizam e agregam aquilo que os romancistas descreveram intuitivamente, isto é, o ir e vir do desejo assíncrono, as manobras da sedução e do coquetismo, a conjunção do amor e da rivalidade. Nesse sentido, eles podem ser vistos como continuação da literatura.

Aquilo de que mais gostei em seu livro é que ele está longe de ser uma mera “aplicação” das ideias de René Girard aos romances de Milan Kundera. Você realmente faz o leitor descobrir o desejo mimético como se fosse uma novidade, mesmo que esse leitor já tenha lido todos os livros de Girard. Imagino, porém, que você tenha lido Kundera primeiro. O que você achou quando descobriu uma obra de crítica que se conectava com os romances de Kundera?
Você tem razão! Eu era um grande admirador de Kundera antes de conhecer Girard. Na verdade, foi Kundera quem me levou a Girard. Em Os Testamentos Traídos, seu maravilhoso livro de ensaios, há uma nota de rodapé em que Kundera diz que Mentira Romântica e Verdade Romanesca é “o melhor livro que já li sobre a arte do romance”. Quando li essa nota de rodapé (na época eu estava em Paris), não perdi nem um minuto — vesti o casaco e fui direto para a livraria! Porém, levei algum tempo para perceber o quanto as ideias de Girard iluminavam os romances de Kundera. Talvez porque, na ficção de Kundera, assim como em nosso mundo contemporâneo, a obviedade do desejo mimético seja tão estonteante que ele acabe um pouco como aquela carta do conto de Edgar Allan Poe, que um ladrão esperto esconde à plena visão. O chefe de polícia usa muitos meios sofisticados para vasculhar o apartamento, chegando a espetar as almofadas do sofá e a desmontar todos os armários, mas nunca enxerga o documento que procura, que está bem no compartimento das cartas! Acho que eu era um pouco como esse chefe de polícia. Existe uma resistência a enxergar as operações do desejo mimético, especialmente, talvez, quando são reveladas de um jeito tão flagrante. Mas quando percebi que Kundera estava o tempo todo brincando explicitamente com o jeito como deixamos a influência dos outros transformar nossa percepção do mundo, tudo pareceu tão óbvio que fiquei com medo de que outra pessoa fosse perceber e publicar um livro sobre o mesmo assunto antes de mim! A obra de Kundera fala desse medo mesmo (que todos os escritores têm), especialmente em suas maravilhosas meditações sobre a “grafomania” em O Livro do Riso e do Esquecimento. Dois açougueiros podem se dar bem, desde que suas lojas não fiquem na mesma rua. Agora, se os dois decidirem virar escritores… cuidado!
Em vez de ficarmos envergonhados de gostar de romances, deveríamos vê-los como fontes de sabedoria e até de conhecimento antropológico
Em seu livro, você coloca Kundera no mesmo nível de Cervantes. Por que Cervantes? Por que não, por exemplo, Flaubert ou algum outro escritor?
Antes de tudo porque o crítico americano Harold Bloom escreveu que Kundera, como Cervantes, praticava o romance “autoconsciente”, o romance ciente de sua própria condição de literatura. Todavia, ele também disse que Kundera escreveu apenas obras de época que não sobreviveriam à época do comunismo na Tchecoslováquia. Assim, para Bloom, Cervantes é muito superior. O que ele não enxerga é a similaridade — os homens de Kundera, jovens e sinceros, que sonham tornar-se grandes Don Juans são Quixotes do erotismo. E os grandes Don Juans de sua ficção (como o mítico dr. Hável de Risíveis Amores, conhecido em toda a Boêmia por suas conquistas) são como versões vilipendiadas dos guerreiros da Idade Média. Assim como, na época do século de ouro espanhol, querer colocar uma armadura e ser um cavaleiro era algo deveras ridículo, quando veio a década de 1960 e as mulheres estavam (vou exagerar apenas para que fique claro) dispostas a ir para a cama sem preocupar-se com coisas como virtude, honra, e se seus irmãos iriam matar seu namorado, querer ser Don Juan era uma fantasia de outra época. Porém, no mundo de Kundera, todos querem ver-se como Don Juans… Nos anos 1980 e 1990, os universitários americanos, tendo conhecido A Insustentável Leveza do Ser graças à medíocre adaptação cinematográfica, entenderam equivocadamente os romances de Kundera, achando que eles eram manifestos em favor de um erotismo sofisticado. Na verdade, eles são análises engraçadas de um mundo sem tabus, cheio de vaidade e de equívocos, onde o hedonismo tornou-se um ideal impossível, e Don Juan não passa de uma sombra vazia de si próprio. Ao avaliar Kundera, Harold Bloom não enxergou nada do aspecto cervantesco de sua ficção.

Como tradutor, não posso deixar de perguntar sobre a multiplicidade de idiomas envolvidos em qualquer projeto ligado a Kundera. Você lê tcheco? Sabendo da fluência de Kundera em francês, podemos considerar as versões francesas de suas obras, revistas por ele, originais? Ao escrever seu livro, você usou as traduções inglesas (minha tradução brasileira usou as traduções atualmente em catálogo pela Companhia das Letras). Você achou que alguma coisa se perdeu? Como eu mesmo já traduzi ficção — contos de Alice Munro, por exemplo — sei que pode ser difícil preservar a atmosfera do texto, mesmo que o sentido esteja correto.

Eu não conseguiria ler uma palavra de tcheco nem se a minha vida dependesse disso, mas fui apresentado aos romances de Kundera por uma expatriada tcheca chamada Karen von Kunes, que criticava a decisão de Kundera de abandonar seu idioma nativo e escrever em francês. Porém, se um autor declara, como fez Kundera, que uma certa edição de sua obra é a definitiva, não vejo motivo para não aceitarmos o que ele diz, a menos que tenhamos algum desejo perverso de limitar a autoridade do autor sobre suas próprias criações. Algumas décadas atrás, a ideia de que os textos fugiam ao controle dos autores era uma das teorias da moda (a “morte do autor”), mas, em nossa época, em que grassa a infração de direitos autorais, ela se tornou uma realidade assustadora. Mais do que nunca precisamos respeitar a propriedade moral do autor sobre o que escreve, seu direito de estabelecer os limites de sua obra. Nas traduções inglesas, aquelas feitas a partir do francês por Linda Asher, e naquelas que Kundera e seu editor americano, o falecido Aaron Asher, revisaram minuciosamente, pouco ou nada se perde em relação à edição francesa. Os leitores de língua inglesa de Kundera podem confiar que encontram a obra do autor exatamente como ele queria que fosse lida. Como tradutor literário de autores como Munro, você sabe, como diz, que é um desafio produzir uma tradução fiel. Ao mesmo tempo, você sabe que, se o tradutor tem talento e cuidado, pode oferecer aos leitores o presente de uma tradução fiel. Permita-me aproveitar a oportunidade para dizer que, na minha opinião, você fez isso com meu próprio livro — e sou muito grato!
Pedro Sette-Câmara é tradutor e doutorando em literatura comparada na UERJ.

Conheça o romance francês com mais de 220 páginas que não utiliza a letra E

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Perec

Rodrigo Casarin, no Página Cinco

Você já pensou em escrever – tá, ler já serve também – um romance inteiro sem a letra E? Pois foi justamente isso que o francês Georges Perec (1936 – 1982) realizou em “O Sumiço”, livro publicado originalmente em 1969 e recentemente traduzido pela primeira vez para o português por José Roberto Féres, o Zéfere, mestre em literatura comparada pela Sorbonne, em tradução literária pela Paris 8, doutor em literatura e cultura pela UFBA, professor e também poeta.

o-sumico-210x300A narrativa, lançada aqui pela Autêntica, conta a história do sumiço de Anton Voyl, um entusiasta de jogos de palavras. Não por acaso, evidentemente, a vogal mais utilizada na língua francesa também desaparece das páginas da obra. “A ambição do ‘Scriptor’, o propósito, digamos, o alvo, sua visada contínua, foi, acima de tudo, criar um produto final tão original quanto instrutivo, um produto apto a propulsionar ou, quiçá, a vir a proporcionar um impulso instigador à construção, à narração, à fabulação, à ação, ou, digamos, numa palavra, ao padrão da narrativa longa atual”, escreve Perec, também autor de “Prix Médicis: A Vida Modo de Usar”, dentre outros, no posfácio – que, como é possível perceber, também abre mão do E.

o sumicoE quem imagina que o escritor optou por algo breve, o que poderia facilitar as coisas, engana-se: a história traduzida ocupa mais de 220 páginas. Com uma empreitada tão grande e desafiadora quanto a de Perec pela frente, Zéfere começou a verter “O Sumiço” para o português em 2008, enquanto fazia seu mestrado, e só foi conclui-lo em 2015.
“Antes de mais nada, antes de estudar as minúcias do livro e investigá-las ainda mais nas dissertações de mestrado e tese de doutorado que escrevi em torno de Perec e sua obra, senti a necessidade de experimentar essa restrição com a língua portuguesa, fazer exercícios textuais sem o E. Meu primeiro teste foi, então, reescrever lipogramaticamente, sem a letra E, alguns versos de Manuel Bandeira, o que resultou em ‘Caio fora pra Pasárgada’’”, conta o tradutor.

O resultado é uma prosa com uma estética um tanto estranha para o leitor. Veja esse trecho como exemplo: “Na ponta, surgiu um sacristão com uma túnica da cor limão agitando um turíbulo do ouro mais maciço, aí uma padraria (um trio) brandindo um crucifixo sob um baldaquim um pouco baranga, com babados a frufrulhar, aí cinco funcionários da casa mortuária Borniol, içando um caixão acaju com alças cromadas. Um dos funcionários tropicou: o oblongo caixão balançou, caiu, abriu: danação! Hassan Ibn Abbou havia sumido!”

O próprio tradutor assume que foi obrigado a buscar “estratégias e estruturas que implicam a construção de um outro português, ou, ao menos, a sua reconstrução, a sua reciclagem, reativando potencialidades latentes ou adormecidas, colocando em relação termos que jamais ou raramente se encontrariam no nosso falar cotidiano, reformulando grande parte dos pensamentos e falas que nos saem, em geral, tão naturalmente, que sequer nos damos conta do que estamos realmente dizendo”.

Os desafios da tradução

Para Zéfere, a maior dificuldade do trabalho esteve principalmente na necessidade de se criarem jogos de linguagem que apontem constantemente para a ausência da letra. “Foi essa a jogada de mestre do autor, a sua grande sacada: escrever um livro sem o E, mas que fala, exatamente, do sumiço do E. Quanto à fidelidade da tradução, precisei refletir a cada momento sobre aquilo a que eu deveria ser fiel, e sempre optei por oferecer ao leitor lusófono jogos que não se prendiam, necessariamente, àquilo que estava explícito, mas mais ao implícito, isto é: não me deixei limitar pelo dito, busquei explorar igualmente o não-dito, ou melhor, o interdito entredito, o proibido exibido nas entrelinhas”, conta.

Como exemplo cita o jogo que existe em uma das passagens. “O protagonista, Anton Voyl, antes de sumir e, consequente, colocar todos seus amigos aflitos em busca de uma solução para o mistério do seu sumiço, instala no seu carro um dispositivo antirroubo, ‘anti-vol’; só que esse ‘vol’ de ‘anti-vol’, em francês, pode ser pronunciado como Voyl, o sobrenome do personagem, sob o qual, nas entreletras, lê-se a palavra ‘voyelle’, vogal, ou seja: o dispositivo era não somente antirroubo mas, igualmente, anti-vogal, duplo sentido que não se produz num simples ‘antirroubo’ em língua portuguesa”, diz, expondo um dos problemas que encarou.

A solução encontrada para tal foi também trabalhar com uma dupla interpretação. Rebatizou Anton Voyl para Antoin Vagol – um nome relativamente conhecido dos brasileiros, Antoine, mas sem o E, acompanhado de um sobrenome que é um anagrama da palavra ‘vogal’ – e no lugar do dispositivo antirroubo, colocou na tradução “uma invocada ignição ativada por discriminação vocal”. “É algo um tanto quanto futurístico, sim, anacrônico, talvez, mas que garante, implicitamente, que se diga o indizível, que se apresente a ausência da vogal, graças à polissemia de ‘discriminação vocal’, que pode significar reconhecimento por voz e, quem sabe, atitude discriminatória em relação a uma certa vogal”, argumenta.

E, ao cabo, o que Zéfere achou da experiência? “Uma coisa é certa: ninguém sai ileso de um trabalho como esse, e muito menos a língua! Foi engraçado me ver tão profundamente habitado por esse sumiço, que me peguei escrevendo até mesmo artigos acadêmicos em que eu evitava certas palavras, sem perceber, porque elas continham E”. Sorte que a vogal já voltou ao vocabulário do tradutor.

Aluna de escola pública aprende francês em casa e é aprovada na Sorbonne

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Marcelle Souza, em UOL

As primeiras aulas de francês começaram na cozinha de casa, onde a filha virou aluna e a mãe, professora. Naquela época, Natália Marques não sabia que as lições iriam levá-la tão longe: hoje ela estuda letras modernas na Universidade Paris-Sorbonne.

Mas o caminho até a França não foi simples. Natália sempre estudou em escolas públicas e a família não tinha dinheiro para matricular nenhum dos três filhos em um curso de idiomas. “Eu vi que os primos dela aprendiam inglês desde criança. Então eu disse ‘filha, não posso pagar, mas vou te ensinar o que eu sei”, conta a mãe Sandra Marques, que aprendeu as primeiras palavras em francês com uma amiga e depois ganhou uma bolsa para estudar o idioma na adolescência.

Sem dinheiro para um curso da filha, a mãe instalou um quadro branco na cozinha e começou a ensinar Natália aquilo que sabia. Sandra é professora de educação infantil e, por causa da fluência em francês, nas horas vagas trabalha como baby sitter (babá) em casa de famílias estrangeiras que moram no Brasil.

Por influência da mãe, Natália também começou a trabalhar cuidando de crianças francesas no horário de folga da escola. Em 2012, foi convidada para acompanhar uma família francesa que iria voltar para o país.

“Fiz cursinho e fui aceita na PUC com bolsa integral pelo Prouni. Mas, para minha surpresa, no primeiro semestre de aula recebi uma proposta para ser au pair [babá] na França e não hesitei: larguei tudo e vim para cá”, diz.

Ficou quase um ano trabalhando por lá e voltou com um novo sonho: fazer uma faculdade na França. Foi um longo ano de preparação para o exame de proficiência, com muitas horas de estudo em casa, e a seleção. “Tinha dias que não aguentava mais estudar e tudo parecia tão impossível que tinha vontade de chutar o balde. Mas minha mãe sempre dizia que eu era inteligente e que podia ir longe”, diz.

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“Quando li o e-mail dizendo que tinha sido aceita na Sorbonne, as lágrimas caíram involuntariamente. Chorei em silêncio. Depois li o e-mail mais uma vez e então comecei a gritar e a dar risada ao mesmo tempo. Pensei que a minha mãe fosse desmaiar”, diz.

Há cinco meses em Paris, Natália mora na casa dos pais do namorado e viveu boa parte desse tempo com os cerca de 200 euros que a família conseguia mandar mensalmente. Assim que chegou conseguiu um emprego, mas teve que abandoná-lo para dar conta dos estudos.

“Sempre soube que o ensino na escola pública no Brasil era precário, mas vindo para cá senti na pele essa diferença. Os outros alunos sabem um pouco sobre tudo. Alguns até me ensinam coisas sobre a história do Brasil que eu mesma não conhecia. Às vezes é vergonhoso”, diz. “Eu sinto que tenho progredido, e esse segundo semestre já está bem melhor que o primeiro. Os professores são bem compreensivos e estão sempre à disposição, isso ajuda bastante”.

Agora com um novo emprego, ela busca outra moradia e pretende ajudar outros brasileiros que sonham em estudar na França. “Estou desenvolvendo um blog e um canal no YouTube para ajudar e incentivar pessoas que querem vir para cá”, conta.

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