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‘É preciso se dedicar’, diz estudante da rede pública que domina 10 idiomas

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Nascido em Santa Lúcia, João sempre estudou em escolas públicas (Foto: Deivide Leme/Tribuna Impressa)

Nascido em Santa Lúcia, João sempre estudou em escolas públicas (Foto: Deivide Leme/Tribuna Impressa)

Fábio Rodrigues, no G1

 

“Nada é impossível. Se você se dedicar, você aprende”. É dessa forma que o estudante de uma escola pública de Santa Lúcia (SP) João Vitor Martinez de Oliveira, filho de um metalúrgico e de uma dona de casa, explicou a facilidade que tem para aprender idiomas. Além do português, o jovem de 18 anos domina outras nove línguas na leitura e na escrita: espanhol, francês, inglês, italiano, alemão, russo, japonês, coreano e mandarim, língua oficial da China, país onde fará intercâmbio por seis meses a partir de agosto após ser aprovado em um concurso.

Aluno do Centro de Estudos de Línguas (CEL), na Escola Estadual João Manuel do Amaral, em Araraquara, Oliveira sempre frequentou escolas públicas onde aprendeu inglês e mandarim, mas aos 15 anos começou a estudar sozinho em casa. “Eu procurava músicas, textos, vídeos infantis com músicas do alfabeto para saber soletrar certas palavras e fui aprendendo. Depois treinava com amigos nativos que vinham fazer intercâmbio no Brasil, então, eu perguntava como se expressar no idioma deles com gírias como a gente também usa aqui”, relatou o jovem da pequena Santa Lúcia, cidade com 8,2 mil habitantes.

Segundo ele, o mandarim é a língua preferida. “É também a mais difícil, porque não tem alfabeto, é preciso conhecer o ideograma”, contou. A paixão pelo idioma é tão grande que ele foi aprovado em primeiro lugar na região central em um concurso promovido pela Secretaria da Educação do Estado, em parceria com o Instituto Confúcio.

No próximo mês, ele embarca para Nanchang e ficará hospedado por seis meses na Universidade Jiangxi Normal University com tudo pago. O jovem também receberá ajuda de custo no valor de 1,5 mil iuenes, a moeda local (cerca de R$ 500). A única despesa dele será com as passagens aéreas, que custam cerca de R$ 3,5 mil ida e volta. O valor foi pago pelos pais.

Estudante de Santa Lúcia adora mandarim e irá para a China em agosto (Foto: Clausio Tavoloni/EPTV)

Estudante adora mandarim e fará intercâmbio na China em agosto (Foto: Clausio Tavoloni/EPTV)

Dedicação
Filho de um metalúrgico e de uma dona de casa, Oliveira tem uma irmã de 16 anos e outro de 23 e não se considera superdotado. “Tenho força de vontade, só isso. A maioria das pessoas não consegue aprender um idioma por falta de estudo”, explicou o jovem.

Apesar da dedicação, ele disse que estuda apenas uma hora por dia e que prefere conversar com os nativos que vêm ao Brasil aprender português. O contato permitiu que ele aprendesse com os estrangeiros até a cozinhar. “A culinária chinesa é fácil”, relatou.

Expectativa
Com a ajuda da internet, Oliveira frequenta as redes sociais chinesas e disse estar preparado para a nova aventura, apesar da ansiedade. “É um país com uma cultura totalmente diferente, então você tem aquele receio do choque cultural, mas estou confiante de que vai dar tudo certo”, disse.

Quando voltar, ele pensa em prestar vestibular para o curso de letras em alguma universidade pública. Um dos objetivos do estudante é se tornar professor de língua portuguesa na China. O outro é aprender grego.

A mãe do estudante disse que está contente com a novidade, mas triste porque o filho ficará mais de 17 mil quilômetros distante de casa. “Vai dar saudade, preocupação, mas acredito que vai dar tudo certo porque ele é responsável, se esforça, então ele merece”, afirmou a dona de casa.

João conversa conversa com chineses por meio de redes sociais (Foto: Clausio Tavoloni/EPTV)

João diariamente conversa conversa com chineses por meio de redes sociais (Foto: Clausio Tavoloni/EPTV)

Viva Proust

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Há cem anos, um escritor francês descobria o passado em uma xícara de chá

Luis Antônio Giron na revista Época

 

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A primeira parte do romance Em busca do tempo perdido (À la recherche du temps perdu), de Marcel Proust (1871-1922), foi lançada em Paris no dia 14 de novembro de 1913 pelo editor Grasset. O volume levava o titulo de O caminho de Swann (Du côté chez Swann), e era dividido em três seções: “Combray”, “Um amor de Swann” e “Noms de pays: Le nom”. Trata-se do primeiro de um romance em sete volumes que iriam ser publicados até 1927, cinco anos após a morte de seu autor. A Recherche, como é conhecida universalmente a obra, tornou-se o primeiro clássico do século XX – ou, segundo alguns críticos, o derradeiro do século XIX. É impossível resumi-la sem incorrer em banalidade. Isso porque ela resulta de um processo de escritura no qual um narrador persegue seu passado e tenta fixá-lo no papel, sem matá-lo. A única maneira de fazer isso é usar a memória como arma da imaginação O passado surge ao narrador de forma concreta, como um susto, no instante em que ele mergulha a madeleine em uma xícara de chá, e de lá saltam episódios, cheiros e pessoas que ele não pensava mais em recordar, e talvez nem quisesse. Ao longo dessa pungente expedição mental, ele converte a própria vida em uma obra de ficção – ou, como diríamos hoje, de autoficção, uma mistura de fatos reais, imaginados, sonhados e elaborados. É um livro tão intenso que hoje, cem anos depois, o leitor sente as palavras de Proust pulsarem como um organismo vivo.

Além de precursor da autoficção, Proust antecipou os escritores de fan-fiction do século XXI em pelo menos um ponto: a autopublicação. Ele enviara as 712 páginas manuscritas do livro em 1912 a três editores. Os três se recusaram a publicá-lo. O parecerista da primeira editora para a qual enviou o manuscrito então intitulado Temps perdu (Tempo Perdido), Fasquelle, Jacques Madeleine, ficou irritado ao ler o manuscrito, mas, mesmo assim, tentou resumir o enredo, como se isso fosse possível: “Um homem tem insônia. Revira-se na cama, reconstitui impressões e alucinações do período de sonolência, algumas das quais tem a ver com a dificuldade para adormecer quando criança no quarto da casa de campo dos pais em Combray. Dezessete páginas! Uma frase (no final da página quatro e na página cinco) se estende por quarenta e quatro linhas”. Pobre Madeleine (ele tinha de ter esse sobrenome?)… Passou a história como um obtuso, como se portam muitos leitores até hoje, incapazes de “perder tempo” com as digressões proustianas.

O autor não esmoreceu. Fez estampar trechos do livro em jornais e revistas, enquanto buscava outros editores. Enviou uma versão datilografada, dividida em vários cadernos e intitulada Le temps retrouvé (O tempo reencontrado), sob o título geral da obra de Les intermitences du coeur (As intermitências do coração) ao editor Gaston Gallimard. Nova recusa – que custaria mais tarde ao prestigiado Gallimard a pecha de insensível. No início de 1913, enviou o livro às Éditions Ollendorf, cujos pareceristas também não entenderam nada. Foi então que Proust pediu ao amigo René Blum que recomendasse o livro ao editor Grasset. Em março, Proust fechou contrato com Grasset. Ficou combinado que Proust pagaria toda a produção do volume.

Só no começo de março de 1913, quando revisou as primeiras provas, ele chegou ao título definitivo da série: À la recherche du temps perdu. Até outubro, mais três provas foram impressas. Proust revisava obsessivamente seu texto. Ele havia planejado a obra ao longo de quase vinte anos. Seu primeiro livro publicado, a coletânea de contos Les plaisirs et les jours (Os prazeres e os dias), de 1896, já continha o gérmen de tramas e personagens da Recherche. Seu romance inacabado, Jean Santeuil, escrito entre 1896 e 1901 (e publicado postumamente em 1952), esboça personagens que se parecem com protagonistas da Recherche, como Madame Verdurin e suas manias musicais, o inseguro dândi Charles Swann e o escritor Bergotte. Este último foi baseado em Anatole France, autor querido de Proust e hoje injustificadamente fora de moda.

Proust cuidou também da divulgação da Recherche. Na antevéspera do lançamento do livro, Proust concedeu estrategicamente uma entrevista a Élie-Joseph Bois, do jornal (repare no nome) Le Temps. As declarações de Proust são reveladoras e ajudam a explicar seu projeto. Na entrevista, anuncia que Du Côté chez Swann é o apenas o recorte de uma obra extensa: “Sou como alguém que tem uma tapeçaria grande demais para os apartamentos atuais e que foi obrigado a cortá-la”. O romance, afirma, não é fundado na psicologia plana, mas na psicologia no tempo. Ele deseja que fatos e personagens do livro ganhem a pátina do tempo ao final da leitura. É um livro dominado, explica, pela distinção entre memória involuntária e memória voluntária. Segundo ele, a memória voluntária, racional, é mais fraca que a involuntária, aquela que surge “de um cheiro, um sabor encontrados em circunstâncias diferentes, que recordam em nós, apesar de nós, o passado, e nos faz sentir como o passado era diferente daquilo eu acreditávamos lembrar, e que nossa memória voluntária pintava, como os maus pintores, com cores sem verdade”. Seu livro pretende revelar, por meio de “uma dosagem exata de memória e esquecimento”, um universo peculiar e único.

O livro não foi entendido, e obteve poucas críticas. Proust passou o resto da vida revisando, reescrevendo, reinventando o seu passado. Finalmente conseguiu que publicassem três partes da Recherche sem que precisasse pagar por isso: À l’ombre de jeunes filles em fleur (1918), Le chemin de Guermantes (1921-1922) e Sodome et Gomorre, lançada em 14 de novembro de 1922, quatro dias antes da morte de Proust. Em 1921, a obra, mesmo em andamento, ganhava reconhecimento universal. Quando morreu, por se recusar a tratar uma bronquite que degenerou em pneumonia, deixou três volumes para ser publicados: La prisionère, lançado em 1923, Albertine disparue, em 1925, e o último, Le Temps retrouvé, incompleto, em 1927. Resumir esses livros seria como tentar sintetizar uma existência inteira.

Que mensagem final nos deixa Proust? Talvez a de que lembrar é um exercício sem fim cujo resultado artístico, quando existe, só pode ser um fragmento, uma ruína. Ele carrega o leitor pelos descaminhos de suas memórias que vão surgindo como espantos súbitos. E assim nos faz recordar de repente de coisas que gostaríamos de esquecer para não nos comovermos com elas. No final, o passado terá se transformado dentro de nós mesmos. A memória se fixa numa emoção incontrolável. Será uma deslembrança, uma criação involuntária e em perpétua metamorfose. Ao virar a última página da Recherche, quando olharmos em torno, Proust não estará mais lá. Ele nos abandonou ao nosso próprio esquecimento.

Duas traduções inéditas de Manuel Bandeira

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Nina Rizzi, no Revista Bula

“Chambre vide” (Quarto vazio) e “Bonheur lyrique” (Feli­ci­da­de Lírica) foram escritos em francês por Manuel Ban­dei­ra e publicados no livro “Li­ber­tinagem”, em 1930, sem haver uma correspondente versão em português, como é o caso de outros poemas que o autor fez nos dois idiomas: “Nuit morte” (Noite morta), “Fleurs Famées” (Flores murchas) e “Évocation de Recife” (Evocação ao Recife).

 

QUARTO VAZIO

Petrópolis, 1925

Gatinho branco e cinzento

Fica ainda no quarto

A noite está fria lá fora

E o silêncio pesa

Eu tenho medo da noite

Gatinho irmão do silêncio

Fica ainda

Fica comigo

Gatinho branco e cinzento

Gatinho

A noite pesa

Não têm borboletas na noite

Onde estão esses insetos agora?

Os mosquitos dormem sobre o fio da eletricidade

Eu estou me sentindo muito sozinho neste quarto

Gatinho irmão do silêncio

Fica ao meu lado

Que é preciso que eu sinta vida perto de mim

E é você que faz com que este quarto não esteja vazio

Gatinho branco e cinzento

Fica ainda no quarto

Acordado minucioso e lúcido

Gatinho branco e cinzento

Gatinho.

 

FELICIDADE LÍRICA

Coração tísico

O meu coração lírico

Tua felicidade não pode ser como a dos outros

É preciso que você construa

Uma felicidade única

Uma felicidade tão lastimável como os farrapos de um pobre diabo

[uma criança pobre

— Feita por ela mesma.

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