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Ainda há o que se escrever sobre ‘A Metamorfose’, de Kafka?

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Silvano Filho, no Homo Literatus

Embora resenhada e comentada inúmeras vezes pelas mais diversas pessoas, a obra A Metamorfose, de Franz Kafka, sempre deixa novas impressões e reflexões aos seus leitores

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Ilustração: John Foster Dyess

Há quem torça o nariz quando encontra nas páginas literárias da internet ou em revistas alguma matéria ou resenha sobre A Metamorfose, a obra mais famosa do escritor tcheco Franz Kafka. Muito já se escreveu sobre essa história simples, sem floreios, que economiza páginas ao se apresentar sem rodeios narrativos desnecessários. O leitor mergulha na história e já nem lhe interessam as causas dessa metamorfose, mas o que acontecerá dali para frente.

Se a técnica literária dessa novela já foi tão explorada e até se reconhece sua inovação e importância para a literatura mundial, o que ainda há para se escrever sobre A Metamorfose? Eu prefiro comentar sobre as impressões e reflexões que esta obra provoca. Confesso que o final da leitura me impressionou mais que o início. É uma versão da parábola da vaca no penhasco.

Esta parábola que citei conta a história de um mestre que recebe abrigo numa casinha velha no alto de um penhasco. A comida era escassa e a família não tinha dinheiro para nada. O dono da casa revelou que a fonte de alimentação provinha de uma única vaca da qual tiravam leite e seus subprodutos e o excedente era usado para trocar por comida no vilarejo vizinho.

Quando foi embora, o mestre voltou de noite e empurrou a vaca do penhasco. Alguns anos depois, o mestre retornou àquela mesma casa e a situação que encontrou foi outra. A casa estava reformada e ampliada e ninguém passava fome. O mestre quis saber como se deu a mudança e o dono da casa disse que numa manhã a vaquinha tinha caído do penhasco e sem ter com o que se sustentar, todos procuraram trabalho, desenvolveram suas capacidades e hoje a família vivia melhor do que quando dependiam da vaquinha.

Basta ler A Metamorfose para ver como ela se encaixa nessa história. Gregor era a vaquinha leiteira em que sua família se encostava. Ele não caiu de um penhasco, mas acordou no corpo de um inseto gigante e não conseguiu mais trabalhar. Quando sua família percebeu que a vaca foi chutada do penhasco, ou melhor, transformou-se num inseto, saíram para trabalhar e tal qual a parábola, se descobriram vivendo melhor que antes. Dá para sentir dó da vaca que se esborrachou do alto do penhasco, mas senti ainda mais dó de Gregor. Eu não esperava que o final dele fosse o que foi.

‘A metamorfose’, de Kafka, faz 100 anos ignorado na República Tcheca

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Escritor não era tão popular em sua cidade natal, a capital Praga.
Seus textos têm fama de serem difíceis de ser entendidos em tcheco.

Publicado no G1

Escritor Franz Kafka em foto de arquivo (Foto: HO File/AP)

Escritor Franz Kafka em foto de arquivo
(Foto: HO File/AP)

Apesar de Franz Kafka ser o autor tcheco mais conhecido do século 20 e um dos ícones turísticos de sua cidade natal, a capital Praga, o centenário da publicação de sua obra mais famosa, “A metamorfose”, tem pouca repercussão na República Tcheca, onde o escritor nunca foi muito popular.

Foi em outubro de 1915 que o texto apareceu publicado em alemão, o idioma no qual escrevia Kafka, na revista “Die Weissen Blätter” (“As folhas brancas”) de Leipzig, na Alemanha.

A primeira edição em formato de livro data de dezembro desse mesmo ano, por meio da editora alemã Kurt Wolff.

“A metamorfose” é o assustador relato de Gregor Samsa, um viajante de negócios que certa manhã acorda transformado em uma barata gigante. Os estudiosos de Kafka interpretaram esta transformação como uma metáfora sobre o peso insuportável da responsabilidade.

A diretora da Sociedade Franz Kafka de Praga, Marketa Malisova, chancela esta interpretação da obra.

“Kafka a escreveu sob a influência de todas as circunstâncias que lhe afetavam. O sentido de ‘A Metamorfose’ foi válido há 500 anos e será válido dentro de mil”, comentou Malisova à Agência Efe.

Com o tempo, esta obra de 72 páginas, escrita por Kafka em 1912, e que reflete de certa forma a experiência vital do autor, se transformou em seu romance mais conhecido.

Nascido em Praga em 1883, Kafka morreu de tuberculose justo um mês antes de completar 41 anos, trabalhou em uma empresa de seguros e deixou uma obra publicada muito curta e uma obra póstuma mais extensa, que pediu que fosse destruída, mas que se salvou e acabou sendo editada.

Apesar de seu sucesso mundial, primeiro nos Estados Unidos na década de 1940 e depois da Segunda Guerra Mundial na Europa Ocidental, em seu país natal quase não se conhece ou se lê a obra de Kafka.

“A Metamorfose”, por exemplo, teve que esperar até 1929 para ser traduzida ao tcheco, o idioma oficial da Tchecoslováquia, um país que surgiu da decomposição do Império Austro-Húngaro.

Kafka nunca foi profeta em sua terra. Seu biógrafo tcheco, o filólogo Josef Cermak, lembra que suas primeiras traduções foram realizadas por intelectuais de tendência anarquista, o que criou a ideia de que era um autor revolucionário.

Após a guerra e a instauração da ditadura comunista, mudou o regime e a produção de Kafka esteve proibida por ser considerado um autor “reacionário”, destacou Cermak. Até mesmo os estudiosos de Kafka foram acossados pela polícia política do regime comunista.

Em 1990, quando foi derrubado o sistema socialista, se estabeleceu a Sociedade Franz Kafka de Praga, com o explícito objetivo de reviver a tradição cosmopolita que tornou possível o fenômeno da literatura germânico-praguense do qual surgiu Kafka.

No entanto, 25 anos mais tarde, muito poucos tchecos leem as obras de Kafka, em parte porque seus textos têm fama de serem difíceis de ser entendidos em tcheco, reconheceu Malisova.

Apesar de a República Tcheca oficialmente não preparar nenhum evento comemorativo do centenário de “A Metamorfose”, a Sociedade Franz Kafka não deixará a data passar em branco.

Esta entidade dispõe de um dos exemplares originais da primeira edição em formato livro de 1915 e unirá o centenário a celebração de seus 25 anos como associação cultural.

Um concerto, uma mostra fotográfica e um espetáculo junto ao monumento de Franz Kafka em Praga são alguns dos eventos programados para lembrar a data.

Aprenda lições de vida com 5 frases de Franz Kafka

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Confira curiosidades sobre a vida do escritor tcheco e saiba o que você pode aprender com as suas obras

Publicado no Universia Brasil

“O tempo é teu capital; tens de o saber utilizar. Perder tempo é estragar a vida”. Essa sábia frase foi dita por Franz Kafka, considerado pela crítica como um dos escritores mais influentes do século XX, destacando-se como um dos principais autores da literatura moderna.

Nascido em Praga, atual capital da República Checa,no dia 03 de julho de 1883, Kafka nasceu numa família judia de classe média, mas também cresceu sob a influência das culturas tcheca e alemã. Por isso, o escritor era falante do alemão. Kafka ingressou na faculdade de Direito, na qual se formou, mas ao mesmo tempo se dedicava à literatura. Em 1917, devido à tuberculose, o escritor foi obrigado a se afastar do seu trabalho. Sendo assim, a maior parte das suas obras foi publicada postumamente.

Em seus livros, Kafka procurava expor a impotência e fragilidade do ser humano, mostrando o poder das instituições diante das personagens. As suas principais obras, A Metamorfose, O Processo e O Castelo, revelam características próprias do escritor, como a abordagem de temas metafísicose arquétipos de alienação, a brutalidade física e psicológica, a ansiedade do homem do século XX, o conflito entre pais e filhos, entre outras complexidades.

Em A Metamorfose, um dos mais conhecidos livros do escritor, publicado em 1915, é contada a história de Gregor, homem que acorda e descobre que está transformado em inseto. Por meio dessa narrativa, o autor faz uma análise a respeito do estado emocional do ser humano, deixando lições de vida ao longo da narrativa.

A seguir, confira 5 frases inspiradoras do escritor:

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‘A metamorfose’ de Kafka completa 100 anos de publicação em 2015

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Livro foi escrito em 1912, mas só chegou às livrarias em 1915

Publicado no Divirta-se

Um dos clássicos da literatura mundial, o livro ‘A metamorfose’, de Franz Kafka, completa 100 anos em 2015. Antes de falar que estamos fazendo a conta errada, é bom conhecer a história da obra.

Kafka escreveu ‘A metamorfose’ entre 17 de novembro e 7 de dezembro de 1912. A publicação, no entanto, só ocorreu em 1915. O livro conta a história do caixeiro-viajante Gregor Samsa, transformado em inseto monstruoso. A história é narrada com um realismo inesperado, que associa o senso de humor ao que é trágico, grotesco e cruel na condição humana.

O título da obra reflete o perfil de Kafka, um escritor extremamente meticuloso, a ponto de se tornar obsessivo, com a utilização das palavras. ‘A metamorfose’ tem várias edições em português e já foi inspiração para filmes e para peças de teatro.

Iscas de leitura

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iscas de leitura


“Leitura” (Reading), 1892
by Almeida Júnior (1850-99)

Em meio à feiura efêmera da política e da violência, podemos seguir outro poeta e lembrar com Drummond: ‘E como ficou chato ser moderno, agora serei eterno’

 

Ana Maria Machado em O Globo

Fim de ano e de governo, hora de balanços, promessas, esperanças. Uma encruzilhada dos tempos: também começo de ano e de governo. Em meio a tanta notícia ruim, sequestros, tiroteios, assaltos, massacres de escolares, números negativos e escândalos em série, tudo a alimentar nossa apagada e vil tristeza, o ritual de recomeço procura se nutrir de bons sinais aqui e ali . O reatamento de relações diplomáticas entre Cuba e Estados Unidos. O encontro de uma canção inédita nos guardados de Dorival Caymmi. A empolgante vitória de Gabriel Medina como campeão mundial de surfe — e a elegância com que os adversários reconheceram sua grandeza.

O Ano Novo recorda a beleza de começos e recomeços. “Belo porque corrompe com sangue novo a anemia”, como já cantou João Cabral em “Morte e vida severina”. Que seja, então. Mas em meio à feiura efêmera da política e da violência, podemos seguir outro poeta e lembrar com Drummond: “E como ficou chato ser moderno, agora serei eterno.”

Convido então a buscar um pouco dessa beleza eterna. Para muita gente, verão é também tempo de férias, a oportunidade de mergulhar em leituras. Não vou sugerir novidades, isso já foi feito à exaustão nas páginas pré-natalinas. Mas proponho um passeio por começos instigantes. Hoje muita gente só compra livros pela internet, perdendo a oportunidade de folheá-los numa livraria. Então trago ao espaço comum de nosso jornal algumas frases iniciais de bons livros, iscas de romances. Talvez você reconheça algumas, talvez tenha saudades de outra e resolva reler. Pode também se deixar fisgar por uma desconhecida e então a busque para conferir. Os livros virão identificados ao final da coluna. Nenhum é novidade. Mas creio que, sem exceção, cada um poderá dar prazer e ajudar a pensar sobre o mundo que nos cerca — razão pela qual faço questão de trazê-los a esta página de opinião.

A — Em meus anos mais jovens e mais vulneráveis, meu pai me deu um conselho que, desde então, tenho feito virar e revirar em minha mente. “Sempre que tiver vontade de criticar alguém”, disse, “lembre-se de que nem todo mundo teve as vantagens que você teve.”

B — Alguém deve ter dito mentiras sobre Joseph K., pois, sem ter feito nada de errado, certa manhã ele foi preso.

C — No dia em que o matariam, Santiago Nazar levantou-se às 5h30m da manhã para esperar o navio em que chegava o bispo. Tinha sonhado que atravessava um bosque de grandes figueiras onde caía uma chuva branca, e por um instante foi feliz no sonho, mas ao acordar sentiu-se completamente salpicado de cagada de pássaros.

D — O homem me pede fogo. Ergo para ele o isqueiro aceso e noto contrariado que minha mão treme um pouco. Seus olhos cor de zinco se fixam nos meus dedos. Nervoso? Sacudo a cabeça negativamente, odiando-o como se pode odiar a pessoa que nos descobre o segredo que mais queremos ocultar.

E — Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte.

F — Se querem mesmo ouvir o que aconteceu, a primeira coisa que vão querer saber é onde nasci, como passei a porcaria da minha infância, o que meus pais faziam antes que eu nascesse, e toda essa lengalenga tipo David Copperfield.

G — Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o que, mas sei que o universo jamais começou. Que ninguém se engane. Só consigo a simplicidade através de muito trabalho.

H —Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira.

I — Ela ficou, mas a gota de sangue que pingou na minha luva, a gota de sangue veio comigo.

J — Foi um número errado que começou tudo, o telefone tocando três vezes, altas horas da noite, e a voz do outro lado chamando alguém que não morava ali.

K — Ai, me dá vontade até de morrer. Veja a boquinha dela como está pedindo beijo — beijo de virgem é mordida de bicho-cabeludo. Você grita vinte e quatro horas e desmaia feliz.

L — Foi no verão de 1998 que meu vizinho Coleman Silk — que, antes de se aposentar dois anos antes, tinha sido catedrático de literatura clássica no vizinho Athena College durante mais de vinte anos, além de acumular mais dezesseis como decano da universidade – me confidenciou que, aos 71 anos de idade, estava tendo um caso com uma faxineira que trabalhava na faculdade.

Graças a Scott Fitzgerald (“O Grande Gatsby”), Franz Kafka (“O processo”), Garcia Marquez (“Crônica de uma morte anunciada”), Erico Veríssimo (“Saga”), Machado de Assis (“Memórias póstumas de Brás Cubas”), J. D. Salinger (“O apanhador no campo de centeio”), Clarice Lispector (“A hora da estrela”), Leon Tolstoi (“Ana Karenina”), Lygia Fagundes Telles (“A noite escura e mais eu”), Paul Auster (“Trilogia de Nova Iorque”), Dalton Trevisan (“O vampiro de Curitiba”), Philip Roth (“A nódoa humana”).

Boas leituras.

Ana Maria Machado é escritora

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