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Frederico Lourenço, escritor português e tradutor da Bíblia, virá para a Flip 2017

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Autor também traduziu do grego para o português clássicos como ‘Odisseia’ e ‘Ilíada’. Festa Literária Internacional de Paraty acontece de 26 a 30 de julho.

Publicado no G1

O escritor português Frederico Lourenço, autor de romances e de traduções de clássicos como “Odisseia” e “Ilíada”, de Homero, além da “Bíblia”, vai estar na 15ª Festa Liberária Internacional de Paraty (Flip), anunciou a organização nesta terça-feira (2).

No evento, que acontece de 26 a 30 de julho, Lourenço vai lançar o primeiro dos seis volumes de sua tradução da “Bíblia” direto do grego antigo. No Brasil, a obra sai pela Companhia das Letras.

O escritor e tradutor português Frederico Lourenço, autor de romances e de traduções da "Odisseia", da "Ilíada" e da "Bíblia", que vem para a Flip 2017 (Foto: André Nassife/Divulgação)

O escritor e tradutor português Frederico Lourenço, autor de romances e de traduções da “Odisseia”, da “Ilíada” e da “Bíblia”, que vem para a Flip 2017 (Foto: André Nassife/Divulgação)

Também ensaísta, o escritor “irá debater as possibilidades da tradução entre línguas separadas por séculos, a os dilemas da condição humana que atravessam a cultura ocidental desde a Grécia Clássica até os dias de hoje, além de outros temas que permeiam todo o universo literário”, informa a organização da Flip em nota.

Lourenço é o terceiro nome anunciado para a Flip 2017. Os outros dois são o premiado jamaicano Marlon James, ganhador o Man Booker Prize en 2015, e Diamela Eltit, conhecida pelo seu trabalho experimental e considerada uma das principais escritoras chilenas das últimas décadas.

“Frederico Lourenço é um destacadíssimo ensaísta e intelectual no campo dos estudos clássicos, tradutor da ‘Ilíada’, da ‘Odisseia’ e agora da ‘Bíblia’ em sua versão grega, um projeto de peso imenso”, afirmou em nota a curadora da Flip 2017, Joselia Aguiar.

“Foram poucos, e até agora todos padres, os que se dedicaram a essa tarefa, a de trazer para a língua portuguesa esse conjunto de livros que influencia toda a história do Ocidente, recuperando seu valor literário. Nesta Flip, será um daqueles momentos imperdíveis em que vamos fazer uma espécie de balanço da tradição ocidental a partir da literatura.”

Perfil de Frederico Lourenço

Nascido em Lisboa em 1963, Frederico Lourenço dá aula de Estudos Clássicos, Grego e Literatura Grega na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde é professor associado.

Além dos clássicos de Homero, traduziu duas tragédias de Eurípides, “Hipólito” e “Íon”. Pelo trabalho com a “Odisseia”, ganhou o prêmio de tradução do PEN Clube Português e da Associação Portuguesa de Tradutores.

Seu primeiro romance é “Pode um desejo imenso” (2002), volume inicial da trilogia de mesmo nome, que inclui “O curso das estrelas” (2002) e “À beira do muro” (2003). Lançou também a coletânea de contos “A formosa pintura do mundo” (2004).

Lançou ainda coletâneas de crônicas e poemas, além de ensaios sobre dança e cultura grega clássica. De seu trabalho de não ficção, destacam-se ainda dois livros autobiográficos: “Amar não acaba” (2004) e “A máquina do Arcanjo” (2006).

Mais sobre a Flip 2017

A 15ª Flip vai homenagear o escritor Lima Barreto. Nascido no Rio de Janeiro em 1881 e morto apenas 41 anos depois, o autor é conhecido pelo livro “Triste Fim de Policarpo Quaresma” e pelas críticas sociais e políticas ao Rio e ao Brasil.

A obra de Lima Barreto já vinha sendo cogitada como tema de discussões na Flip há alguns anos. E o evento, sobretudo em 2016, foi criticado pela ausência de autores e autoras negras em sua programação.

De acordo com a organização da Flip, “a edição resgatará a trajetória de um homem que estabeleceu-se como escritor no Rio de Janeiro, capital da Primeira República e da cultura literária do país. Em um meio marcado pela divisão de classes e pela influência das belas letras europeias, era difícil para um autor brasileiro com as suas origens afirmar seu valor”.

Joselia Aguiar, jornalista que é a curadora da Flip 2017, lembrou em nota que Lima Barreto por muito tempo “ficou na ‘aba’ de literatura social, e sua obra e trajetória possibilitaram muitos debates sobre a sociedade brasileira”.

“O que eu gostaria, mesmo, é que a Flip contribuísse para revelar o grande autor que ele é. Para além das questões importantíssimas sobre o país que ajuda a levantar, tem uma expressão literária inventiva e interessante, à frente de sua época em termos formais, capaz de inspirar toda uma linhagem da literatura em língua portuguesa.”

A Bíblia toda e para todos

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Frederico Lourenço, aqui fotografado em 2014, sempre teve a intenção de traduzir a Bíblia Miguel Manso

Frederico Lourenço, aqui fotografado em 2014, sempre teve a intenção de traduzir a Bíblia Miguel Manso

 

A editora Quetzal vai começar a publicar em Setembro uma nova tradução da Bíblia. É feita a partir do grego por Frederico Lourenço e sairá em seis volumes, até 2019. Está a ser apresentada como a mais completa jamais feita em português.

Lucinda Canelas, no Publico

Francisco José Viegas tem uma “relação muito especial” com a Bíblia, mas desde que começou a ler os quatro evangelhos na nova tradução de Frederico Lourenço que a Quetzal faz chegar às livrarias a 23 de Setembro essa “relação muito especial” transformou-se numa “aventura maravilhosa”. A leitura não confirmou apenas que são fundamentais para a cultura ocidental – fez com que descobrisse neles a “invenção do romance moderno”. “Ler esta Bíblia é uma aventura poética, uma aventura da história”, que muito se deve à coragem de Frederico Lourenço, “alguém que transformou um sopro num relâmpago”.

Viegas, editor da Quetzal, falava esta quarta-feira de manhã na Cinemateca, em Lisboa, numa conferência de imprensa em que apresentou esta ambiciosa edição que divide a Bíblia em seis volumes – dois dedicados ao Novo Testamento, quatro ao Antigo – como a mais completa alguma vez publicada em português. Isto porque, explicaria depois o tradutor, é feita a partir da Bíblia grega, que no Antigo Testamento tem 53 livros, ao contrário da hebraica, que tem apenas 24, e da católica, com 46.

Até aqui, as traduções disponíveis em português não incluíam todos os livros do Antigo Testamento. Esta passará a fazê-lo, o que significa que terá, ao todo, 80 livros e uma organização bem diferente da das traduções tradicionais, que segue a matriz latina e que começa no Livro do Génesis e termina no do Apocalipse. Uma organização que não é, de todo, cronológica (o Génesis não foi o primeiro a ser escrito). “A forma completa do Antigo Testamento nunca tinha sido editada”, diz Lourenço. À tradução do actual cânone católico juntar-se-ão sete livros: o 3.º e o 4.º dos Macabeus, Salmos de Salomão, Odes, o Livro de Susana, o de Bel e o Dragão e a Epístola de Jeremias.

Depois de ler o primeiro volume, o que junta os evangelhos de João, Lucas, Mateus e Marcos, Francisco José Viegas garante que esta nova edição é verdadeiramente uma “experiência múltipla”, em que a poesia, a história, a contemplação, a magia e o puro amor das palavras se encontram. E o tradutor, claro, “é o alquimista deste milagre”, um “milagre” que só não é “alquimia pura”, porque dá muito trabalho. “O Frederico Lourenço obrigou-me a ler a Bíblia de outra maneira, com novos sentidos, novas palavras.”
Texto que não se entende

Frederico Lourenço, escritor, poeta e especialista em cultura helenística que já traduziu para português obras tão fundamentais como a Odisseia e a Ilíada, comprou a sua primeira edição do Novo Testamento em grego há mais de 30 anos, quando estava prestes a entrar no primeiro ano de Estudos Clássicos, quando era ainda um católico praticante “bem dentro da Igreja”. Hoje essa ligação perdeu-se – Lourenço continua a acreditar em Deus, mas já não é um católico praticante –, embora nunca tenha chegado para questionar a importância da Bíblia. “Descobrir mais tarde o Antigo Testamento em grego foi revelador, porque a versão grega mantém toda a qualidade poética que o texto tem”, diz.

Na tradução que está a fazer dos 80 livros da Bíblia cruza a grega com a hebraica para mostrar que há complementaridades e diferenças. As dezenas e dezenas de notas que cada um dos seis volume da Quetzal trará juntam-se às introduções para ajudar o leitor a compreender o texto e o seu contexto, falam da origem de determinadas palavras e alertam para esta ou aquela interpretação que, ao longo da história, deu origem a debate e até a outros escritos.

Frederico Lourenço quis com esta abordagem pôr à disposição uma edição para todos: “Falta uma versão da Bíblia para crentes e não-crentes”, disse ao jornalistas, uma versão não-apologética daquele que é “talvez o livro mais importante de toda a tradição ocidental”. Para o tradutor, a Bíblia não devia ser um exclusivo das faculdades de Teologia, mas presença obrigatória em todos os cursos de Humanidades. “Esta edição tem uma intencionalidade linguístico-histórica, não teológica. (…) As notas tentam explicar a materialidade do texto, que muitas vezes não se entende.”

É precisamente porque o texto por vezes não se entende – e porque quer ser fiel ao que foi escrito, de acordo com a versão grega – que Lourenço optou por usar muito os parêntesis rectos ao longo do texto, assinalando as palavras que estarão subentendidas. “Às vezes o grego não nos permite atribuir um sentido exacto a determinada frase… Os parêntesis permitem-me dizer ao leitor o que foi realmente escrito e o que foi acrescentado para tornar o texto inteligível.”

O que se lê hoje nas igrejas pode ser bem diferente do que foi escrito na versão grega – para quem conhece as traduções disponíveis, vai sentir diferenças, por exemplo, no Pai Nosso e no Sermão da Montanha, de Mateus, garante Lourenço – porque houve um esforço de simplificação para que o livro chegasse mais facilmente às pessoas. “Há cartas de Paulo que parecem escritas por Marcel Proust, com frases que duram três páginas” e que depois na liturgia são resumidas a uma linha, exemplifica. “O que quis nesta edição foi dar alguns elementos para que as pessoas possam ter ideia do debate crítico que rodeia a Bíblia”, isto sem comprometer qualquer outro propósito: “O valor espiritual dos textos está lá sempre.” E é provavelmente por causa desse valor que Lourenço defende a sua intemporalidade – “tem 2000 anos, mas é um livro hoje e é um livro amanhã”.

Tal como aconteceu com a Ilíada e a Odisseia, Frederico Lourenço, 53 anos, esteve à espera do momento certo para se entregar a esta tradução. E é mesmo de entrega que se fala, já que abdicou de tudo o que estava a fazer profissionalmente – à excepção das aulas que dá na Universidade de Coimbra – para se poder dedicar ao projecto, algo que sempre quis fazer. “Senti que tinha mesmo de fazer isto”, disse ao PÚBLICO. “E agora sinto o mesmo que senti quando estava a trabalhar na Ilíada e na Odisseia – pânico de morrer antes de acabar.”

Passar dos dois poemas de Homero para a Bíblia confrontou-o com “dois gregos diferentes”, embora muitas palavras se repitam. A Bíblia, assegura, é muito mais difícil de traduzir porque nela a diversidade da linguagem é muito maior. É, no entanto, “muito bonito ver a continuidade da língua grega, perceber que às vezes se fala da vida de Jesus com as mesmas palavras com que se fala de Ulisses e de Penélope”.

Pegar na Bíblia era também um sonho antigo de Francisco José Viegas, que diz que publicá-la, numa altura em que “editar é cada vez mais difícil”, é “correr um risco” que dá muito prazer. Em grande parte devido ao tradutor em quem confiou: “Se a Bíblia é fogo, o nome de Frederico Lourenço vai ficar gravado no fogo.”

O preço de capa deste primeiro volume, cuja tiragem não foi divulgada, será de 19,90 euros. O segundo volume sairá em Março de 2017 e a Quetzal conta ter o último dos seis volumes nas livrarias no começo de 2019. No Brasil, a editora Companhia das Letras começará a publicar esta tradução da Bíblia em Maio de 2017.

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