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5 escritores incríveis e polêmicos para ler

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Hunter Thompson Créditos: Reprodução

Hunter Thompson
Créditos: Reprodução

 

Publicado no Guia da Semana

Alguns escritores, além de terem feito história com seus pensamentos inovadores e escritas peculiares, produziram obras que ficaram marcadas e, ao mesmo tempo, tornou cada um deles extremamente polêmicos. Seja pelo comportamento, pela escrita, pelos assuntos abordados ou por tudo isso junto, o fato é que ficaram ainda mais conhecidos e, sim, foram reconhecidos.

Assim, apesar de duramente criticados, apontados e julgados, são escritores que, com certeza, valem a leitura. Por isso, o Guia da Semana lista 5 deles que você precisa saber mais a respeito. Confira:

SIGMUND FREUD

Sigmund Freud foi um médico neurologista, criador da psicanálise e um dos maiores pensadores que a humanidade já teve. Austríaco, desenvolveu teorias sobre sonhos, sobre a relação entre pais e filhos, sobre a sexualidade infantil e muitas outras, revolucionárias e, sem dúvidas, extremamente polêmicas. Assim, Freud documentou tudo em escritos e livros, tornando-se um escritor reconhecido, pela clareza com que escrevia sobre assuntos tão complexos e intensos e, ao mesmo tempo, um autor questionado.

Dica de livros: A Interpretação dos Sonhos, Luto e Melancolia.

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CHARLES BUKOWSKI

Bukowski foi um escritor e poeta alemão que chocou – e encantou – o público com seu estilo único e peculiar. Dono de uma escrita obscena, que narra porres memoráveis, relacionamentos baratos e muitas de suas relações conflituosas e sexuais. Foi claramente influenciado por Dostoiévsky, pelo pessimismo, e Ernest Hemingway, pelas frases curtas e palavras simples, ficando conhecido como poeta sujo.

Dica de livros: Mulheres, Cartas na Rua e O Amor é um cão dos diabos.

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NELSON RODRIGUES

Ainda na escola, Nelson Rodrigues ganhou um concurso de redação com um tema sobre adultério. Já adulto, bordava temas delicados para a sociedade da época e, até mesmo, para a sociedade atual. Escrevia sobre assuntos que estavam cobertos por véus que ele, tão bem, soube retirar. Nelson tocava nas feridas sem dó nem piedade e também falava sobre suas imperfeições.

Dica de livros: Meu destino é pecar, O Casamento e O homem proibído.

Foto sem data Nelson Rodrigues, fumando.

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Nelson Rodrigues, fumando.

 

HUNTER S. THOMPSON

Conhecido pelo seu estilo de escrita extravagante, o jornalista Hunter Thompson criou o Jornalismo Gonzo, que une-se ao estilo literário e retira as fronteiras entre o escritor e o relato. Conhecido como lenda da contracultura, escrevia completamente entorpecido de diversos tipos de droga, sempre em primeira pessoa e fugindo das estruturas convencionais. Assim, misturava alucinação com realidade, ficção com fatos e informações imprecisas.

Dica de livros: Medo e delírio em Las Vegas e Rum: Diário de um jornalista bêbado e

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DAN BROWN

Praticamente todos os livros do escritor geraram polêmica (e debates eternos), mas, principalmente, os que abordam temas religiosos. O motivo? As revelações, até então confidenciais. A repercursão é tanta que sempre que Dan lança um livro, muitos outros para debater, retrucar e questionar suas teses são lançados na sequência.

Dica de livros: Código da Vinci, Anjos e Demônios e O Símbolo Perdido.

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Nathália Tourais redator(a)

Morre o historiador Peter Gay, biógrafo de Sigmund Freud

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Publicado no Paraná Online

peter-gayMais famoso biógrafo de Sigmund Freud, o historiador judeu de origem alemã Peter Gay morreu na segunda-feira, 11, em sua casa, em Nova York, aos 91 anos, ‘de velhice’, segundo informou Elizabeth Glazer, sua enteada.

Judeu de origem alemã, Gay tinha pouco mais de 10 quando escapou da Alemanha de Hitler, em 1933. Nos Estados Unidos, dedicou sua vida a pesquisar a história que deixou para trás, produzindo estudos e biografias de personagens da cultura europeia. Foram mais de 25 livros, e o mais conhecido deles é justamente Freud: Uma Vida Para o Nosso Tempo.

Entre seus livros publicados no Brasil estão, ainda, O Século de Schnitzler, em que o diário do escritor austríaco Arthur Schnitzler, de quem Freud tanto gostava, serve de guia a construção de um retrato da burguesia vitoriana do século 19; e Represálias Selvagens – Realidade e Ficção, com três ensaios sobre os romances Casa Sombria (1853), de Charles Dickens, Madame Bovary (1857), de Gustave Flaubert, e Os Buddenbrook (1901), de Thomas Mann. Sua ideia era mostrar que as obras mais representativas do realismo literário constituem documentos de valor para o historiador. Seus livros são publicados no Brasil pela Companhia das Letras.

25 livros indispensáveis para qualquer estudante

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Fonte: Shutterstock      Existem grandes obras da literatura que são indispensáveis para qualquer estudante

Fonte: Shutterstock
Existem grandes obras da literatura que são indispensáveis para qualquer estudante

Conheça a lista e entenda a importância de ler tais livros para a sua vida

Publicado no Universia Brasil

Durante o período de férias, os estudantes tendem a se distanciar um pouco das leituras, até mesmo para relaxar por algumas semanas antes de voltar para a rotina de estudos. No entanto, existem grandes obras da literatura que são indispensáveis para qualquer estudante pois, além de ampliarem os conhecimentos, são também grandes fontes de entretenimento.

Pensando nisso, a Universia Brasil preparou uma lista com 25 obras que não podem faltar na sua estante nessas férias. Aproveite seus momentos de descanso e leia!

1. Freedom – Jonathan Franzen

Este livro narra a história de uma família norte-americana e suas desventuras durante o século 20. É interessante observar as diversas mudanças de pontos de vista e da sociedade com o passar dos anos.

2. Este Lado do Paraíso – F. Scott Fitzgerald

Trata-se do primeiro romance do escritor de O Grande Gatsby. Assim como ele, é uma grande crítica a sociedade (especialmente aos jovens) dos Estados Unidos do período da Primeira Guerra Mundial. Um dos pontos interessantes do livro é o forte cunho autobiográfico, especialmente no que diz respeito ao protagonista, Amory Blaine, um aspirante a escritor.

3. Norwegian Wood – Haruki Murakami

Batizado em homenagem a uma canção dos Beatles, o livro se passa no Japão, na década de 60. O personagem principal, Toru Watanabe vive um dilema ao se dividir entre dois amores e enfrentar as descobertas da faculdade em uma época conturbada.

4 . 1984 – George Orwell

Uma das obras mais famosas do gênero da distopia, 1984 é um livro de forte cunho político, que debate questões éticas sobre a individualidade das pessoas e até que ponto o controle do Estado é válido. É fundamental para a formação do senso crítico de qualquer estudante.

5. Crime e Castigo – Fiódor Dostoievski

Uma das obras primas da literatura russa, Crime e Castigo foi publicado no século XIX, mas sua discussão sobre os valores morais permanece atual. Permeado por influências filosóficas, o livro narra a história de um estudante, Rodion Rasólnikov, que não consegue lidar com sua própria consciência após cometer um assassinato.

6. Admirável Mundo Novo – Audous Huxley

Outro clássico das distopias, Admirável Mundo Novo, lida com questões muito pertinentes, como a chamada “ditadura da felicidade” – na qual todos teriam que estar sempre felizes, não importam os meios necessários para atingir esse estado – e a alienação. Embora se passe em um mundo imaginário, a história tem muitos elementos que fazem repensar as atitudes e pensamentos das pessoas na atualidade.

7. Cem Anos de Solidão – Gabriel García Marquez
Escrita pelo vencedor do Prêmio Nobel, Cem Anos de Solidão é uma obra essencial para compreender o realismo mágico da literatura latino-americana. Ao narrar todas as desventuras de gerações da família Buendía, o escritor expande os limites da linguagem e discorre, também, sobre aspectos da história da América do Sul. Tudo isso com o grande mote da solidão humana como plano de fundo na trama.

8. Lolita – Vladimir Nabokov

Mais um tesouro da literatura russa, Lolita é um clássico que lida com sentimentos profundos e controversos como a paixão, além de polêmicas éticas e morais. Trata-se da história de Humbert, um homem casado que se apaixona pela enteada, Dolores (Lolita), de maneira obsessiva.

9. O Grande Gatsby – F. Scott Fitzgerald

Ambientado na década de 1920, O Grande Gatsby é uma crítica ácida ao consumismo e a frivolidade da classe alta americana da época. Além de tratar sobre temas como o egoísmo e a ambição, é um livro indispensável para aqueles que buscam compreender o “American Way of Life”.

10. Adeus às Armas – Ernest Hemingway

Outra narrativa com cunho autobiográfico, o livro foi baseado nas experiências do escritor e jornalista como motorista de ambulâncias na Itália, durante a Segunda Guerra Mundial, o que garante a veracidade da ambientação. Além das mazelas da guerra, o leitor também se envolve com a profundidade do trágico amor de Frederic e Catherine.

11. As Vinhas da Ira – John Steinbeck

Também escrita por um vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, esta narrativa é ótima para quem deseja entender um pouco mais do contexto da Grande Depressão nos EUA durante os anos 30. Trata-se da trajetória da família Joad que, após se endividar e perder tudo, enfrentar uma dura jornada em busca de oportunidades na Caifórnia.

12. O Mestre a Margarida – Mikhail Bulgakov

Esse é um caso em que o processo de elaboração da obra é tão interessante quanto sua narrativa em si. Para escrever a história de uma visita do diabo à Moscou dos anos 20, o escritor elaborou 4 manuscritos, ao longo de 12 anos, sendo que a versão final foi concluída por sua esposa, após a morte de Bulgakov. Por seu forte conteúdo crítico sobre a política de a sociedade, O Mestre e a Margarida chegou a ser censurado pelo governo soviético e sua primeira versão integral foi publicada somente em 1973, na Alemanha.

13. A Cabana do Pai Tomás – Harriet Beecher Stowe

Esse livro também tem uma grande importância histórica, pois é considerado por muitos um dos fatores que levou à Guerra de Secessão dos EUA(1861 – 1865). Trata-se de um grande manifesto contra a escravidão, afinal, Tomás, o personagem principal, é um escravo pacifista que acaba sofrendo duramente as condições da escravidão. A história revela o horror dessa prática e deve ser lida por estudantes para que erros como esse não se repitam.

14. O Estrangeiro – Albert Camus

O filósofo argelino Albert Camus mostra em O Estrangeiro, uma de suas obras mais conhecidas, as bases de sua filosofia do absurdo. Ao discorrer sobre a história de Mersault, um homem frio e aparentemente sem sentimentos, o autor buscar entender a relação do homem com o universo e como esse mistério pode apenas não fazer sentido.

15. A Arte da Felicidade – Um Manual para a Vida – Dalai Lama e Howard C. Cutler

Esse livro se baseia em uma série de entrevistas concedidas pelo Dalai Lama ao dr. Howard Cutler. Como o próprio título diz, ele ensina como driblar problemas típicos da vida dos estudantes, como ansiedade, estresse, medo e, ao mesmo tempo, a cultivar sentimentos como a bondade.

16. Fausto – Johann von Goethe

Baseada em uma lenda alemã, a obra prima de Goethe conta a história do médico Fausto, que fez um pacto com o diabo Mefistófeles para obter conhecimento e acaba perdendo a alma, mesmo após apaixonar-se pela doce e pura Margarida. Além de ser um dos clássicos da literatura mundial, Fausto oferece um grande conteúdo histórico para os estudantes.

17. Paraíso Perdido – John Milton

Os versos do poeta britânico fazem referência às obras bíblicas, como o Gênesis. Trata-se de uma releitura da história sobre a perdição de Adão e Eva no Jardim do Éden, que recria o debate sobre os princípios éticos e morais, os conceitos éticos e morais.

18. O Senhor das Moscas – William Golding

A narrativa se passa em uma ilha deserta, após um acidente de avião em que crianças e adolescentes sobrevivem sem a supervisão de nenhum adulto. Para sobreviver, os jovens formam uma comunidade, que acaba tendo um final trágico. O livro representa uma grande crítica ao ideal do “bom selvagem” e também ao comportamento das pessoas na sociedade.

19. O sol é para todos – Harper Lee

Mais uma história que debate um dos maiores problemas da sociedade, o preconceito, O Sol É Para Todos conta a trágica história de um jovem negro que foi acusado injustamente de ter estuprado uma jovem branca. Além de tocar no polêmico tema da violência sexual, O Sol É Para Todos aborda a injustiça racial e se tornou uma das obras que embasaram o movimento pelos Direitos Civis nos EUA nos anos 60.

20. O Concorrente – Stephen King

Mais um clássico de ficção científica, O Concorrente se passa no ano de 2025, em um cenário nem um pouco animador. É em um mundo dominado pela pobreza e a alienação que Ben Richards, o protagonista, vive. Para conseguir pagar o tratamento de saúde da filha, ele acaba sendo voluntário para participar do programa de TV O Foragido, no qual pessoas perdem a vida na tentativa de ganhar o prêmio, em uma espécie de luta de gladiadores. A história discute os valores morais e sentimentos como a determinação e o respeito pela vida.

21. Laranja Mecânica – Anthony Burgess

Outro clássico das distopias, a Laranja Mecânica é indispensável para entender as raízes da violência. Em uma sociedade do futuro, o jovem Alex é líder de um grupo de adolescentes que cultuam a violência, porém, para interromper seus atos brutais, o governo inglês acaba transformando Alex em uma vítima do próprio conceito que pregava. A história reflete sobre a banalização da violência e suas consequências para a mente humana.

22 – Civilização e seus descontentamentos – Sigmund Freud

O pai da psicanálise aborda nesta obra um tema clássico da psicologia: o dilema entre a vontade individual do ser humano frente ao bem comum. Partindo desse embate, Freud analisa como as pessoas conseguem lidar com a culpa gerada por seus desejos reprimidos pela sociedade, criando novas formas de expressão. Uma boa dica para quem deseja entender o pensamento de Freud, tema de aulas em diversas áreas.

23. Hamlet – William Shakespeare

Considerada uma das melhores tragédias já escritas, a peça de Shakespeare é aclamada por sua trama recheada dos maiores dilemas existenciais da humanidade, que trata de sentimentos universais como a ira e a ambição.

24. A Divina Comédia – Dante

Obra prima do Renascentismo na literatura, A Divina Comédia é uma trilogia de poemas -Inferno, Purgatório e Paraíso – utilizada até hoje para compreender os valores do mundo medieval. Além da beleza poética, seu valor histórico também é imenso, afinal, o livro é considerado o primeiro texto escrito em italiano (o Latim era o idioma utilizado em obras literárias até então).

25. O Rio Que Saía do Éden – Richard Dawkings

Com base na teoria de Charles Darwin, Richard Dawkings explica o surgimento das milhares de espécies de seres vivos do planeta a partir da genética, estabelecendo relações entre eles. Com uma linguagem leve, repleta de metáforas, o cientista consegue desenvolver suas ideias e torna-las compreensíveis para os estudantes, fazendo com que O Rio Que Saía do Éden se torne uma leitura recomendada não apenas para estudiosos da biologia.

Qual o verdadeiro significado dos contos de fadas?

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Qual o verdadeiro significado dos contos de fadas?

, na BBC Brasil

Era uma vez um estúdio de animação chamado Walt Disney Company, que lançou um feitiço que o permitiu assumir o controle do reino dos contos de fadas e se tornar uma corporação de mídia multinacional maior que o pé-de-feijão de João.

Desde então, gerações de crianças de todo o mundo cresceram assistindo a versões animadas de histórias que durante séculos não estavam nem no papel, e muito menos vinham acompanhadas de uma infinidade de brinquedos caros.

Malévola, a mais recente aposta da Disney na caixa registradora das bilheterias, tenta recuperar o lado negro da história da Bela Adormecida. Com um orçamento de mais de US$ 175 milhões, o filme traz Angelina Jolie no papel da fada má cuja perversidade é realçada por chifres, vestidos vampirescos e bochechas pontiagudas. A narrativa é contada sob o ponto de vista dessa sedutora anti-heroína, e descreve como um coração puro se transformou em pedra por causa de uma dura traição.

Os contos de fadas eram lendas contadas verbalmente. Em seu ensaio Breaking the Disney Spell, o professor de literatura Jack Zipes afirma que essas narrativas abordam temas como “iniciação, adoração, informação e doutrinação”. Por isso, se caracterizam por uma simplicidade superficial. São apenas histórias, livres de passagens descritivas e monólogos interiores, e povoadas por personagens que podem parecer unidimensionais. Os bonzinhos são sempre bonzinhos e os malvados, malvados. As imagens que essas fábulas conjuram costumam ser pouco sofisticadas e suas descrições beiram o banal: florestas são densas, princesas são bonitas e por aí vai. Como definiu o escritor Philip Pullman, “não há psicologia em um conto de fadas”.

Bem, diga isso a Freud ou a Jung. As histórias podem até não ter uma psicologia explícita, mas observe mais de perto e verá que seus traços psicológicos são difíceis de serem ignorados.

Pense no uso de sonhos em A Bela Adormecida. E isso é apenas o começo no que se refere a essa fábula, em particular. A princesa virginal, a picada da agulha, a cerca espinhosa que brota em torno da jovem e que floresce para o príncipe: a história está embebida em simbolismo psicológico. Se a roca simboliza a penetração, o sangue derramado sugere a menstruação e a cerca viva é a vagina. Uma vagina com dentes pronta para emascular qualquer príncipe que tentar atravessá-la apressadamente.

Para analistas, 'A Bela Adormecida' traz uma série de simbolismos sexuais

Para analistas, ‘A Bela Adormecida’ traz uma série de simbolismos sexuais

Os contos de fadas mais conhecidos hoje foram recolhidos e recontados em livros por entusiastas como os Irmãos Grimm, E.T.A. Hoffman e Hans Christian Andersen. Ao fazer isso, esses autores codificaram histórias que sempre foram fluidas, passando de uma pessoa a outra, e ganhando ou perdendo detalhes a cada nova narrativa, como em uma brincadeira de telefone sem fio. Mas, uma vez que passaram a ter uma existência escrita, tornaram-se textos que especialistas podiam analisar. E para Freud e Jung, eram tão produtivas quanto a Galinha dos Ovos de Ouro.

Os dois tinham suas teorias sobre por que essas histórias ressoam tão profundamente na psique humana. Para Jung, os personagens são arquétipos, e o motivo pelo qual parecem unidimensionais é porque cada um representa diferentes facetas de nossas personalidades. Para Freud, os contos de fadas têm origem no mesmo lugar que os sonhos, e imagens como florestas e espinhos indicam desejos reprimidos e fantasias não-realizadas. E sendo Freud quem era, tudo tem um fundo sexual.

As ideias de Freud influenciaram fortemente o psicólogo austro-americano Bruno Bettelheim, cujo livro A Psicanálise dos Contos de Fadas se tornou um sucesso no fim dos anos 70. Suas visões continuam populares até hoje, definindo metamorfoses, como a transformação do sapo em príncipe e da menina em pássaro, como uma alusão ao distúrbio da personalidade múltipla, ou ainda as tarefas impossíveis enfrentadas pelos protagonistas como exemplos das relações ambíguas encontradas em famílias problemáticas. Isso sem falar nas figuras paternas dos contos de fadas, geralmente homens fracos, monstruosos ou simplesmente ausentes.
Clássicos recontados

É sempre animador ver essas histórias surradas pelo tempo serem usadas como ponto de partida para novas narrativas, como Malévola.

Michael Cunningham, ganhador do prêmio Pulitzer por As Horas, faz uma referência a Hans Christian Andersen no título de seu mais novo romance, The Ice Queen, que conta a história de um músico batalhador, seu irmão gay e sua namorada terminal. O próximo livro de Cunningham, que deve ser lançado em 2015, reúne histórias curtas que recontam as fábulas mais tradicionais.

“Aqueles que cresceram assistindo às versões da Disney muitas vezes se assustam ao ver tanta morte e violência nos contos originais, e que foram cortadas das animações comerciais. Os contos de fadas são, na realidade, bem obscuros, intensos e estranhos”, diz o escritor.

Se voltar às origens é perturbador, as fontes que as inspiraram deveriam vir com alertas. Charles Perrault é o responsável por boa parte do que conhecemos hoje de A Bela Adormecida, mas sua primeira inspiração foi uma fábula italiana na qual uma jovem virgem cai em um sono tão profundo que não acorda nem ao ser estuprada por um rei que passava pelo local, engravidar e dar à luz gêmeos. Ela só desperta quando um dos bebês acidentalmente suga seus dedos em vez de seu peito. Uma cena forte o suficiente para mandar um leitor desavisado para a terapia.

Universo literário de Sigmund Freud é mapeado

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A literatura exerceu forte influência na vida profissional e pessoal do pai da psicanálise

Felipe Torres, no Diário de Pernambuco

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Sigmund Freud. Ilustração: Blackzebra/Editoria de arte/DP

Você já deve ter percebido. Regularmente a literatura persegue o mesmo objetivo da psicanálise, o de explicar a complexidade da alma humana, revelar conflitos, inquietudes e perturbações da alma. Sigmund Freud (1856-1939) não apenas sabia disso, como era exímio leitor de autores clássicos e contemporâneos. Conheça os hábitos de leitura e os relacionamentos mantidos pelo criador da psicanálise.

20140306144109620399aNascido 24 anos após a morte de Goethe, Freud foi vastamente influenciado por ele. Aliás, foi depois de ouvir leitura de A natureza, texto então atribuído a Goethe, que Freud decidiu cursar medicina (o ensaio era, na verdade, de Georg Tobler). Freud citou Goethe em várias correspondências. As menções também surgiam de maneira inesperada nos textos técnicos, nos quais um pensamento poético se aliava a um pensamento metapsicológico.

Os interesses científicos de Goethe reverberam na obra do pai da psicanálise: (ótica, botânica, geologia, osteologia). O poema A dedicatória do Fausto, de Goethe, foi usado por Freud como prólogo ou epílogo de todos os tratamentos psicanalíticos realizados por ele. As manifestações do Eros na obra de Goethe alimentaram os estudos freudianos.

20140306144142438679aEra chamado por Freud de “poeta-filósofo”, pois uma característica marcante de sua poesia era a relação com as reflexões, assim como os poetas pré-socráticos. Em O mal-estar na civilização, Freud reconhece: “Em plena aflição do início, encontrei meu primeiro ponto de apoio na máxima do poeta-filósofo Schiller, segundo a qual ‘fome e amor’ movem as engrenagens do mundo.”

Freud chegava a sonhar com os poemas do escritor alemão. Chegou a usar estrofe de À alegria, de Schiller, no trabalho de interpretação de sonhos de um de seus pacientes, descrito como “um rapaz de homossexualidade forte, porém reprimida”. Schiller também foi um importante teórico da estética, um dos primeiros a utilizar a palavra e o conceito de “trieb” (pulsão), em especulações sobre a percepção do belo e a função da arte.

Pode-se dizer que a vida e a obra de Freud foi guiada por dois “gênios”: o de Goethe, relacionado ao Eros, ao gozo sensível da beleza do mundo e da criação artística, e o de Schiller, encarnação do sublime, da força do ideal, do drama do mundo interior, da revolta contra a injustiça e da exigência da ética.

20140306144214849029iCom Hoffman, Freud redescobre e conceitua um sentimento típico das crianças, e que pode ser atualizado na fase adulta. Trata-se da “inquietante estranheza”, ou seja, a emoção ou sensação de quando algo familiar, conhecido ou íntimo se torna estranho, angustiante, até mesmo aterrador. Freud considerava Hoffman “o mestre inigualável do ‘estranhamento inquietante’ na criação literária”, pois as obras do escritor eram recheadas de motivos capazes de despertar no leitor a sensação.

Sentia-se atraído por temas e conceitos abordados na obra de Hoffman, considerado o inventor do conto fantástico moderno: o duplo, a alucinação, a magia, o mistério da arte e do canto, a telepatia. Em um dos ensaios freudianos, há uma exaustiva análise de O homem de areia, conto de E.T.A. Hoffman. No texto, são citados Shakespeare, Heinrich Heine, Mark Twain, Friedrich Schiller, Goethe, Dante, Schnitzler, Oscar Wilde.

20140306144242543165aO escritor russso foi tema do ensaio Dostoiévski e o parricídio (ato de matar o próprio pai), escrito por Freud em 1928 e utilizado como prefácio do volume A versão original de Os irmãos Karamazov (esboços e fragmentos do último romance do autor). No texto, Freud sentencia: “Na rica personalidade de Dostoiévski, é possível distinguir quatro aspectos: o escritor, o neurótico, o moralista e o pecador”.

Mais adiante, elogia: “Ele tem seu lugar não muito atrás de Shakespeare. Os irmãos Karamazov é o romance mais grandioso jamais escrito”. Por meio da análise da obra de Dostoiévski, Freud consegue explicar a um público leigo ideias fundamentais de sua teoria (mais especificamente relacionadas ao ego, superego e id).

O psicanalista condenava Dostoiévski por ser pecador, jogador, incapaz de renunciar às tentações. Dizia que ele “se entregava à experiência do mal como se o erro lhe fosse necessário para, em seguida, proclamar as mais exigências éticas, na condição de moralista”.

20140306144316724448oFreud não somente leu, como se referiu largamente a Shakespeare ao longo da vida. Assim como ele, o dramaturgo inglês explorou a alma humana e seus conflitos, tumultos, fantasmas, loucuras. Adolescente, Freud já recitava de cor cenas de Júlio César e Hamlet. Aos 16 anos, quando se apaixonou, escreveu em carta que só o seu “absurdo hamletiano” o impedia de revelar o sentimento.

Na vida pessoal e profissional, Freud interagia sempre com obras como A tempestade, Macbeth, Sonhos de uma noite de verão. Dizia que Édipo Rei era uma “tragédia do destino” e Hamlet, “tragédia do caráter”. Via em Hamlet um histérico: melancólico e agitado. Estudou Macbeth, mas dizia “não encontrar solução” (não sabia explicar a prostração de Lady Macbeth após o crime por ela instigado).

Em um dos textos, O tema dos três escrínios, inspira-se em O mercador de Veneza e Rei Lear. Vê na personagem Cordélia uma “figura de morte”, e no rei Ricardo III um “modelo para identificação das exceções”. Com a ajuda de Sonhos de uma noite de verão, Freud estuda o delírio poético.

20140306144502154403aFreud admirava o poeta desde a adolescência: comentava sobre a extrema facilidade que possuía para decorar os versos de Heine, quase involuntariamente. Certa vez, apontou como seu livro favorito a coletânea de poemas Livro de Lázaro, que Heine escreveu em 1854, paralítico, pouco antes de morrer. O bom humor inteligente de Heine era muito admirado por Freud, assim como a sua concepção laica da existência humana (chegou a referir-se a Heine como “companheiro de descrença”) .

 

 

 

 

Foto: freud.org.uk/reprodução da internet

Foto: freud.org.uk/reprodução da internet

>>> CONTEMPORÂNEOS

Embora fosse mais cientista e menos escritor, Sigmund Freud interagiu com autores de sua época e até desenvolveu laços de amizade com alguns. Leitor atento, expressava admiração por meio de numerosas correspondências e, em contrapartida, tinha a obra lida e comentada por nomes como Thomas Mann e Stefan Zweig. A proximidade de Freud com seus pares também se dava por mera cortesia (caso de Schnitzler) ou por considerar notáveis algumas ideias, embora discordasse delas (Romain Rolland). Esses relacionamentos se mostraram de grande importância na vida do pensador considerado o pai da psicanálise.

20140306173442497887iFreud tinha várias afinidades e gostos em comum com Thomas Mann. Os dois abordaram em suas obras o ocultismo, as narrativas bíblicas, o mito de Fausto. Tornou-se grande admirador da obra freudiana e prestou vários tributos ao contemporâneo.

20140306173522177799iBastante reconhecido em sua época, foi abordado por Freud por ter criado a ideia de “sentimento oceânico”, uma sensação inspirada na mística hindu. Embora o conceito fosse rejeitado por Freud, ele respeitava bastante o pensamento de Rolland.

20140306173455705740aAssim como Freud, era médico, judeu, ateu, escritor prolífico, praticante de hipnose. Trocaram cartas, se conheceram pessoalmente, mas a proximidade era mais por cortesia do que por real admiração por parte de Freud.

20140306173503535343aTrocou correspondências assiduamente com Freud por três décadas. Tinha o hábito de mostrar seus escritos inéditos ao amigo, e vice-versa. Recebia elogios na mesma medida em que os concedia.

>>> TOP 10 de Freud

Em 1907, Freud respondeu pesquisa de opinião feita pelo editor e livreiro Hugo Heller, que pediu a indicação de “dez bons livros”. Como resposta, Freud diz que ali não estão as dez maiores obras-primas da literatura, ou os dez livros mais importantes. Listou, portanto, “bons livros”, conforme solicitado:

Cartas e obras, de Multatuli
O livro do jângal, de Kipling
Sobre a pedra branca, de Anatole France
Fecundidade, de Zola
Leonardo da Vinci, de Merejkóvski
A gente de Seldwyla, de G. Keller
Os últimos dias de Hutten, de C.F. Meyer
Ensaios, Macaulay
Os pensadores da Grécia, de Gomperz
Histórias alegres, de Mark Twain

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> BIBLIOTECA DE FREUD
Freud era amante dos livros. Sua biblioteca em Viena, na Áustria, era composta de mais de 2 mil títulos. Eram obras de todos os gêneros: ciências do espírito e da natureza, religiões, história, filosofia, etnologia, mitologia, biografias, relatos de viagem, literatura alemã e estrangeira. Especula-se que alguns desses volumes lhe serviram de documentação para os próprios livros (por exemplo, A essência do cristianismo, de Feuerbach, para O futuro de uma ilusão; e os Cadernos de Leonardo da Vinci para Uma recordação de infância…)

>AS OBRAS
O autor com maior presença nas prateleiras era Shakespeare, com edições inglesas e alemãs. Dostoiévski era igualmente bem representado nas prateleiras de Freud. Ali também estavam as obras completas de Gustav Flaubert (18 volumes), Guy de Maupassant (20) e Anatole France (21). Entre os alemães, Goethe, Heine e, em destaque entre os contemporâneos, Thomas Mann e Stefan Sweig. Curiosamente, não havia nada de Schnitzler na biblioteca de Freud.

> ATÉ O FIM
Em vários livros havia frases sublinhadas e observações rabiscadas nas margens: “Não, não! Burrice. Estúpido!”. Poucos dias antes de morrer, voltou suas atenções para A pele de onagro, de Balzac. “Era justamente o livro de que eu necessitava; fala do encolhimento e da morte por inanição”, teria dito.

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