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Cartazes da Feira de Frankfurt riem de estereótipos brasileiros

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Danielle Naves de Oliveira na Folha de S. Paulo

No ano passado, o diretor da Feira do Livro de Frankfurt, o alemão Jürgen Boos, disse que o Brasil não se resumiria a “samba e Ipanema” ao anunciar o país como o homenageado da próxima feira, que acontece de 9 a 13 de outubro.

Mas a imagem vencedora do concurso anual de cartazes organizado pelo evento germânico brinca com a ideia de um “Brasil festivo”: ela estampa um cachorrinho da raça teckel (ou dachshund) vestido a caráter para o Carnaval, acompanhado da frase “Esperando pelo Brasil” em alemão.

O uso irônico do estereótipo é uma das marcas do bem-humorado concurso, que existe desde 2006 e já virou uma tradição do evento.

Karina Goldberg, assessora-executiva da feira e uma das organizadoras do concurso, diz que o teckel “é uma verdadeira instituição, um símbolo alemão relacionado a conforto, estilo, mas também a uma nobreza decadente e fora de moda”.

Para ela, fantasiar o cachorro é transformar um pouco o alemão em brasileiro, tirar-lhe de seu cotidiano e dar mais agito, cor e animação.

Juntamente ao cão carnavalesco, de autoria de Yvonne Winnefeld, mais nove trabalhos foram premiados. Em segundo lugar ficou “Jogador de Futebol”, de Victor Guerrero, que faz uma montagem com Pelé segurando um livro.

A partir de setembro, os pôsteres serão espalhado em parques, estações de metrô, livrarias e cafés da cidade.

Yvone Winnefeld/Divulgação
Cartaz de autoria de Yvone Winnefeld, "O teckel", que surpreendeu o juri ao unir estereótipos dos Brasil e da Alemanha numa só imagem. Cartaz venceu concurso anual de cartazes organizado pela Feira do Livro de Frankfurt, cujo objetivo é dar as boas vindas ao país convidado e criar uma identidade visual bem-humorada do evento
Cartaz de autoria de Yvone Winnefeld, “O teckel”, que surpreendeu o juri ao unir estereótipos dos Brasil e da Alemanha numa só imagem. Cartaz venceu concurso anual de cartazes organizado pela Feira do Livro de Frankfurt, cujo objetivo é dar as boas vindas ao país convidado e criar uma identidade visual bem-humorada do evento

Dicionário de crianças colombianas surpreende adultos

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São definições cheia de poesia e sabedoria, apesar da pouca idade de seus autores. Ou talvez por isso mesmo.

Arturo Wallace, na BBC

Crianças produziram cerca de 500 definições, que viraram livro de sucesso

Crianças produziram cerca de 500 definições, que viraram livro de sucesso

Vão desde A de adulto (“Pessoa que em toda coisa que fala, fala primeiro de si”, segundo Andrés Felipe Bedoya, de 8 anos), até V de violência (“A parte ruim da paz”, na definição de Sara Martínez, de 7 anos).

O dicionário está no livro “Casa das estrelas: o universo contado pelas crianças”, uma obra que surpreendeu ao se tornar o maior sucesso da Feira Internacional do Livro de Bogotá, no final do mês de abril. A surpresa aconteceu especialmente porque o livro foi publicado pela primeira vez na Colômbia em 1999 e reeditado no início desse ano.

“Isso me faz pensar que o livro continua revelando, continua falando sobre as pequenas coisas”, disse à BBC Mundo Javier Naranjo, que compilou as definições feitas por crianças colombianas.

“Eles têm uma lógica diferente, outra maneira de entender o mundo, outra maneira de habitar a realidade e de nos revelar muitas coisas que esquecemos”, diz.

É assim que, no peculiar dicionário, a água é uma “transparência que se pode tomar”, um camponês “não tem casa, nem dinheiro. Somente seus filhos” e a Colômbia é “uma partida de futebol”.

Além disso, uma das definições de Deus passa a ser “o amor com cabelo grande e poderes”, a escuridão “é como o frescor da noite” e a solidão é a “tristeza que a pessoa tem às vezes”.

‘Outra visão do mundo’

As definições – quase 500, para um total de 133 palavras diferentes – foram compiladas durante um período “entre oito e dez anos”, enquanto Naranjo trabalhava como professor em diversas escolas rurais do Estado de Antioquía, no leste do país.

“Na criação literária fazíamos jogos de palavras, inventávamos histórias. E a gênese do livro é um dos exercícios que fazíamos”, conta ele, que agora é diretor da biblioteca e centro comunitário rural Laboratório do Espírito.

Ele diz que teve a ideia de pedir aos alunos uma definição do que era uma criança, em uma comemoração do dia das crianças.

“Me lembro de uma definição que era: ‘uma criança é um amigo que tem o cabelo curtinho, não toma rum e vai dormir mais cedo’. Eu adorei, me pareceu perfeita.”

“As crianças escolheram algumas palavras e eu também: palavras que me interessavam, sobre as quais eu me perguntava. Mas não fugi de nenhum”, afirma Naranjo.

No dicionário aparecem temas do cotidiano da Colômbia, como guerra e “desplazado”, pessoa que se desloca pelo país, geralmente fugindo de conflitos. Um dos alunos definiu a palavra criança como “um prejudicado pela violência”.

Aprender a escutar

Para a publicação, Naranjo corrigiu a pontuação e a ortografia das definições escolhidas, mas afirma não ter tirado nenhuma das palavras por “questões ideológicas”.

Por isso, o livro mantém a voz das crianças, com suas formas de explicar as coisas e construções gramaticais particulares. Bianca Yuli Henao, de 10 anos, define tranquilidade como “por exemplo quando seu pai diz que vai te bater e depois diz que não vai”.

O ex-professor diz que o respeito à voz das crianças também é parte do sucesso do livro, que foi reeditado em 2005 e 2009 e inspirou obras semelhantes no México e na Venezuela.

As vendas do livro ajudaram a financiar as atividades da biblioteca atualmente dirigida por Naranjo, que continua convidando as crianças a deixar a imaginação voar com outras dinâmicas.

“Nós adultos somos condescendentes quando falamos com as crianças e deve ser o contrário. Mais que nos abaixarmos temos que ficar na altura deles. Estar à altura deles é nos inclinarmos para olhar as crianças nos olhos e falar com elas cara a cara. Escutar suas dúvidas, seus medos e seus desejos”, diz.

Sabedoria infantil

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Adulto: Pessoa que em toda coisa que fala, fala primeiro dela mesma (Andrés Felipe Bedoya, 8 anos)

Ancião: É um homem que fica sentado o dia todo (Maryluz Arbeláez, 9 anos)

Água: Transparência que se pode tomar (Tatiana Ramírez, 7 anos)

Branco: O branco é uma cor que não pinta (Jonathan Ramírez, 11 anos)

Camponês: um camponês não tem casa, nem dinheiro. Somente seus filhos (Luis Alberto Ortiz, 8 anos)

Céu: De onde sai o dia (Duván Arnulfo Arango, 8 anos)

Colômbia: É uma partida de futebol (Diego Giraldo, 8 anos)

Dinheiro: Coisa de interesse para os outros com a qual se faz amigos e, sem ela, se faz inimigos (Ana
María Noreña, 12 anos)

Deus: É o amor com cabelo grande e poderes (Ana Milena Hurtado, 5 anos)

Escuridão: É como o frescor da noite (Ana Cristina Henao, 8 anos)

Guerra:Gente que se mata por um pedaço de terra ou de paz (Juan Carlos Mejía, 11 anos)

Inveja: Atirar pedras nos amigos (Alejandro Tobón, 7 anos)

Igreja: Onde a pessoa vai perdoar Deus (Natalia Bueno, 7 anos)

Lua: É o que nos dá a noite (Leidy Johanna García, 8 anos)

Mãe: Mãe entende e depois vai dormir (Juan Alzate, 6 anos)

Paz: Quando a pessoa se perdoa (Juan Camilo Hurtado, 8 anos)

Sexo: É uma pessoa que se beija em cima da outra (Luisa Pates, 8 anos)

Solidão: Tristeza que dá na pessoa às vezes (Iván Darío López, 10 anos)

Tempo: Coisa que passa para lembrar (Jorge Armando, 8 anos)

Universo: Casa das estrelas (Carlos Gómez, 12 anos)

Violência: Parte ruim da paz (Sara Martínez, 7 anos)

Fonte: livro Casa das estrelas: o universo contado pelas crianças, de Javier Naranjo

Cidade mineira terá réplica de teatro de Shakespeare em 2016

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Em 2016, festivais mundo afora lembrarão os 400 anos da morte de William Shakespeare. No Brasil, a celebração promete ser bem ambiciosa, com a inauguração da primeira réplica oficial fora da Inglaterra do famoso teatro Shakespeare Globe de Londres.

A réplica do Shakespeare Globe mineira terá 1,5 mil lugares e será inaugurada em 2016 (Divulgação)

A réplica do Shakespeare Globe mineira terá 1,5 mil lugares e será inaugurada em 2016 (Divulgação)

Mariana Della Barba, na BBC Brasil

O teatro será construído na cidade mineira de Rio Acima, a 30 quilômetros de Belo Horizonte, e custará R$ 43 milhões.

Fora a construção do teatro em si, com sua característica forma circular e 1,5 mil lugares, o projeto envolve ainda a criação de uma escola de dramaturgia, festivais teatrais itinerantes, uma filial no Rio e ações de intercâmbio entre o Globe brasileiro e o original, além de outras iniciativas.

E a maioria delas saiu da mente do ator e produtor Mauro Maya, um ex-torneiro mecânico que há 15 anos, quando era funcionário da Vale, se “viciou” em Shakespeare, como ele mesmo diz.

“Foram quatro anos de negociação com o pessoal do Shakespeare Globe. Eu cheguei lá com meu inglês totalmente vira-lata”, conta Maya à BBC Brasil. “Mas fui mostrando que o Brasil não era só samba e futebol. Fui mostrando minha paixão por Shakespeare e, assim, fui ganhando os caras.”

Ele conta que resolveu dar vazão ao seu sonho “maluco” de criar uma plataforma shakespeariana no Brasil quando conseguiu convencer a Vale a ceder para esse fim um terreno de 20 mil metros quadrados que estava abandonado. Outros patrocínios de peso estão sendo negociados.

Maya (esq.) se reuniu no Globe com Peter McCurdy, responsável pela marcenaria artesanal do teatro londrino

Maya (esq.) se reuniu no Globe com Peter McCurdy, responsável pela marcenaria artesanal do teatro londrino

Sotaque brasileiro

Segundo Maya, o projeto também pretende ir além do dramaturgo inglês, ao debater e encenar autores nacionais, como Guimarães Rosa, Machado de Assis e Ariano Suassuna. Ainda seguindo essa ideia de intercâmbio, grupos daqui também vão interpretar Shakespeare no exterior.

Outra característica “brasileira” do complexo em Rio Acima se dá na construção do Globe brasileiro. “Como é uma réplica, é claro que o projeto da obra e a atmosfera da Inglaterra serão mantidos, mas o teatro vai ganhar roupagem e cores brasileiras”, conta o ator.

A fachada típica do teatro em Londres (leia o quadro), com seu telhado de palha e muita madeira, será idêntica, assim como o anfiteatro principal, aberto e circular. No entanto, no teatro de Rio Acima, ganhará destaque a técnica de pau a pique, bastante comum no Brasil. Também serão usados elementos barrocos relacionados à cultura brasileira e, especialmente, à mineira.

O Shakespeare Globe inglês confirmou à BBC Brasil que o mesmo escritório de arquitetura responsável pelo teatro em Londres está envolvido no projeto mineiro, dando diretrizes e acompanhando a construção. O engenheiro Peter McCurdy, cuja empresa pesquisou e recriou o lado artesanal da construção britânica, também está trabalhando com Maya no projeto.

‘Filiais’

Além de eventos na sede em Rio Acima, o Globe Theatre brasileiro também terá outros fora do local.
A região de Belo Horizonte receberá, a partir do mês que vem, um festival de teatro e projetos culturais, que vai passar por 25 cidades, como Ouro Preto, Mariana, Itabira, Tiradentes, Congonhas e a própria Rio Acima. A iniciativa recebeu R$ 3 milhões em patrocínio da Petrobras, que serão investidos neste ano na tentativa de fomentar o interesse pelas artes cênicas na região.

Já no Rio de Janeiro, o Globe brasileiro vai ter uma espécie de filial em um prédio doado pelo poder público na zona portuária, área da cidade que vem passando por um intenso projeto de remodelação.
Mas a empolgação de Maya com o projeto o fez ir além das capitais nacionais para buscar mais parceiros. Em Nova York, ele pediu a colaboração do James Shapiro, professor da Universidade de Columbia especialista em Shakespeare e autor de vários livros sobre o dramaturgo.

Shapiro aceitou participar fazendo parte do conselho que vai gerir o teatro em Rio Acima. O projeto terá outros colaboradores de peso no cenário brasileiro, como Barbara Heliodora, uma das críticas de teatro mais renomadas do Brasil e especialista em Shakespeare, e o diretor teatral Gabriel Vilella, cujo espetáculo Romeu e Julieta foi apresentado em português no Globe Theatre londrino. Ambos serão coordenadores de núcleos temáticos de arte e educação ligados ao Globe brasileiro.

Para a grande inauguração, em 2016, Maya sonha com um festival completo, com 37 peças. “Nesse dia, vou me despedir do meu lado produtor e empreendedor. E vou voltar a atuar”, conta. “Aos 43 anos, eu vou ser Hamlet.”

Os teatros de Shakespeare

O primeiro teatro criado pela companhia de Shakespeare foi o Globe Theatre, construído em 1599 no sudeste de Londres. Mas em 1613 um incêndio destruiu totalmente a construção, cuja cobertura de palha ajudou a propagar o fogo rapidamente.
Um segundo Globe, no entanto, foi erguido no ano seguinte, exatamente no mesmo local – e funcionou durante 28 anos. Em 1642, ele foi fechado e destruído durante a Revolução Puritana, assim como os outros teatros da capital britânica.
Em 1997, o famoso teatro foi reconstruído às margens do Rio Tâmisa, a 230 metros de seu local original. Batizado de Shakespeare Globe, ele foi inaugurado com uma produção de Henrique 5º. É uma réplica desse teatro que será construída no interior mineiro.

Saraiva: de 0 a 9 em uma semana

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Sextante lidera ranking das editoras com larga vantagem

Cassia Carrenho, no PublishNews

1A editora Saraiva ressurgiu na lista essa semana assumindo a 5º posição. Dos nove livros, seis são do selo infantil Caramelo. O sucesso dos desenhos do Bob Esponja e Dora, a aventureira – além dos descontos nas livrarias – não só colocou a editora na lista, como a deixou em lugar de destaque.

Outro grande destaque foi o livro Sonho grande (Primeira Pessoa) que foi para o 1 º lugar de negócios em sua segunda semana na lista dos mais vendidos. Também estreia na lista o livro Casagrande e seus demônios (Globo), sobre o ex-jogador e atual comentarista de futebol, que foi direto para o 3º lugar na lista de não ficção.

No ranking das editoras, a briga do o 2º ao o 5º lugar está quente! Record com 11, Intrínseca, 10, Ediouro e Saraiva com 9. Todo mundo junto e embolado. Lá na frente, quem respirou aliviada foi a Sextante, tranquilamente com 16 livros na lista.

Biógrafo revela pegadinha com viúvo e surtos psicóticos de Casagrande

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Gilvan Ribeiro fala sobre os desafios de fazer a biografia do ex-jogador

Gilvan Ribeiro fala sobre os desafios de fazer a biografia do ex-jogador

Luis Augusto Símon, no UOL

O jornalista Gilvan Ribeiro vai lançar no dia 9 de abril a biografia de Casagrande, chamada “Casagrande e seus demônios”. Amigos de longa data, eles travaram um duelo de vontades até que o livro saísse. Houve momentos em que Casagrande estava entusiasmado e, em outros, sentia um certo receio por tanta exposição. “Quando a gente conversava, tudo bem, mas agora que está no papel, fica complicado”, disse algumas vezes. Houve outras vezes em que Gilvan irritou-se com a falta de disciplina do biografado.

Na fase final, quando deveria colocar tudo no papel, Gilvan conseguiu um afastamento não remunerado de três meses no Diário de S.Paulo, onde é editor de Esportes. “Foi um tempo para escrever, mas tive problemas familiares com as operações de minha mãe e de meu filho. Então, quando faltava um mês, fui para um chalé em uma praia deserta e me disciplinei. Acordava cedo, tomava café, andava na praia, dava um mergulho e trabalhava até a noite.”

E o livro saiu. Na entrevista abaixo, Gilvan fala sobre alguns capítulos, que misturam brincadeiras infantis, futebol, Telê Santana, cocaína, heroína, Dops, o demônio Belias e seus 71 companheiros e a redenção do cidadão Walter Casagrande Jr.

Por que o Casagrande resolveu se expor tanto?

Ele era muito amigo do Marcelo Frommer, músico dos Titãs, que morreu atropelado. O Marcelo queria fazer um livro contando a vida dele e eles se reuniram muitas vezes, havia muitas fitas gravadas. Um dia, a gente estava almoçando e ele falou sobre a ideia e perguntou se eu queria fazer. Topei, mas falei que ele precisaria de disciplina. O Casagrande queria que a gente aproveitasse as fitas, mas estava difícil recuperá-las. Então, eu o convenci a falar tudo de novo. Houve muitos contratempos, tivemos várias discussões, mas enfim o livro saiu. Eu acho que ele queria resgatar um projeto que começou devido a amizade dele com o Frommer e também porque queria contar a história da vida dele. É uma historia incrível, daria para fazer um livro muito maior.

O livro fala sobre a luta contra as drogas?
É o primeiro capítulo. Tem a ver com o título do livro, “Casagrande e seus demônios”. Em 2006, ele, por curiosidade intelectual, estava estudando os demônios bíblicos. São 72 e o Rei Salomão os aprisionou em um vaso de cobre e os jogou no Rio Babilônia. Muitos homens, pensando que era um tesouro, pularam no rio e abriram o vaso, soltando, involuntariamente os demônios. Salomão aprisionou todos novamente, menos o mais importante deles, que se chama Belial. Foi com eles que Casagrande convivia.

Eram alucinações?
Sim, entrou em surto psicótico. Era um período em que ele estava usando muitas drogas. Injetava heroína e cocaína. Ficou preso em seu apartamento por um mês e, nos últimos dez dias, não dormiu nem se alimentou. Estava muito fraco. E começou a ver os demônios que estava estudando. Sentava no sofá e um deles estava lá. Disfarçadamente, ia para a cozinha e…lá estava outro. Foi muito duro. Ele sofreu muito.

Eu descrevi assim: “Magro de assustar, usava o cinto com furos adicionais, cada vez mais próximos da outra extremidade para segurar a calça na linha de cintura, e exibia as maçãs do rosto proeminentes, ressaltadas por bochechas chupadas para dentro. A sua figura esquálida e os olhos fundos, com as pupilas dilatadas, agora demonstravam só fragilidade. E medo”.

Ele entrou em surto psicótico. Era um período em que ele estava usando muitas drogas. Injetava heroína e cocaína

E o que ele fez contra os demônios?

Ele ligava para a mãe e para o pai, durante a noite, e não falava nada. Eles ouviam o telefone, atendiam e do outro lado somente a respiração do filho. O Casão estava travado, não conseguia falar. Um dia, rompeu o silêncio. Disse que estava precisando de ajuda. A mãe levou um padre para benzer o apartamento. Ele tem certa rejeição à Igreja Católica, principalmente por causa da Inquisição e do viés conservador, mas aceitou que o apartamento fosse benzido. Precisava de ajuda. Mas não adiantou.

E então?
Tentou se mudar para um hotel e, é claro, não adiantou nada. Os demônios foram junto. Foi então que aconteceu o acidente de carro. Ele deixou o hotel e, sem dormir há muito tempo e sem se alimentar, estava fraco e sem reflexos. Dormiu ao volante e o carro capotou. Ele se levantou e conseguiu escapar. Só não morreu porque é um atleta, é um cavalo de forte.

Ele foi para a Copa da Alemanha e na volta é que teve a recaída forte. A Globo conseguiu que nada vazasse. No afastamento maior, de um ano, isso não foi possível, mas houve muita discrição. Pagaram todo o tratamento

Então, ele resolveu se internar?
Não foi bem assim. Precisou ser internado involuntariamente pelo filho mais velho, Victor Hugo. Ele convenceu a mãe do Casagrande, que estava muito relutante, a também assinar o documento.

E como foi a Globo em relação às drogas?
O Casagrande é muito agradecido a eles. Antes desse período em que ficou preso no apartamento, ele havia tido uma overdose, que o tirou do trabalho por um mês. Ele foi para a Copa da Alemanha e na volta é que teve a recaída forte. A Globo conseguiu que nada vazasse. No afastamento maior, de um ano, isso não foi possível, mas houve muita discrição. Pagaram todo o tratamento.

E hoje, você vê o Casagrande pronto para novos voos profissionais?
Bom, ele já recuperou a posição dele na principal rede de televisão do Brasil. Cobriu o Mundial Interclubes, onde o lado torcedor aflorou. Se emocionou bastante. Mas ele sabe que é um dependente químico e que a luta é cotidiana.

Ele frequenta alguma associação de dependentes?
Não, mas se consulta uma vez por semana com uma psiquiatra. E trabalha com três acompanhantes terapêuticas, que se revezam. Elas o acompanham ao banco, aos restaurantes, sempre está com uma delas.

E a parte política de Casagrande?
Eu trato disso também. Fui com ele até o Arquivo do Estado e recuperamos a sua ficha no Dops. Não há nada de criminoso ali, mas fizemos questão de publicar um dos relatórios para que se visse como tudo aquilo era um absurdo. Houve um dia em que, pela manhã, teve um jogo no Parque São Jorge de artistas contra os jogadores do Corinthians, em prol da democratização do país. Gonzaguinha, Fagner, Toquinho estavam lá, entre outros. E, de noite, houve um show para arrecadar fundos para a campanha do Lula para governador. Era 1982.

Então, um agente do Dops acompanhou o jogo e outro viu o show. Não há nada demais relatado. Apenas a descrição de quem estava no jogo e do que se falou no show, quais artistas e jogadores participaram. Tudo era tratado como ação subversiva. O Casagrande também é citado, num outro documento, por haver assinado um manifesto contra o racismo, imagina só.

O livro parece denso, não?
Creio que sim, ele não tem a pretensão de esgotar a história do Casagrande, principalmente porque ele está vivo e ela ainda não terminou. Não é feito em ordem cronológica, mas o final de cada capítulo remete ao seguinte. É tortuoso, mas consegui achar todos esses “ganchos”. Acho que ficou interessante. Tem a parte alegre, um capítulo chamado Pegadinhas do Casão, que conta coisas da juventude dele.

Um exemplo?
O Casão e seus amigos da Penha têm um humor muito parecido com o daquele filme “Quinteto Irreverente”, conhece? O filme conta a vida de cinco caras que só pensam em sacanear os outros. Um dos casos é assim: o cara vai até o cemitério e vê um viúvo deixando flores no túmulo da esposa. Então, ele chega também, começa a chorar e diz para o viúvo que tinha muita inveja dele. Que a falecida o amava de verdade, sempre falava bem dele e, quando o viúvo já intrigado pergunta quem é ele, responde: “Não sou ninguém, sou só o amante. Comigo era só sexo, mas ela te amava muito”. E o viúvo, italiano, começa a gritar putana, putana…. O Casão fez algo assim.

Como foi?
Ele participou de uma pornochanchada e arrumou um papel de figurante para um amigo dele, o Marquinho. E o cara se apaixonou por Acácia, uma das atrizes. Foi contente contar para o Casagrande, que fez uma cara de quem não aprovava. Marquinho se frustrou: “Pensei que você fosse gostar, pô”. Mas o Casão disse que ela era uma atriz pornô, coisa e tal.

Marquinho argumentou que Acácia não fazia cenas de sexo explícito, insistiu no namoro e passou a ser vítima de brincadeiras sacanas de Casão e Magrão, outro amigo inseparável da Penha. Um dia, os três foram almoçar no Grupo Sérgio, que tinha uma clientela tradicional, bem familiar, de classe média. Então começou um diálogo mais ou menos assim:

Casagrande – Estou numa situação complicada, com um dilema: se você, Marquinho, soubesse que a mina de um amigo seu o traía, você contaria pra ele?
Marquinho – Eu não falaria, não. Às vezes, o cara pode até ficar com bronca de você.
Casagrande – Mesmo se fosse um grande parceiro, você não contaria?
Marquinho – Não, não diria nada.
Casão – Mas… e se fosse assim como um irmão?
Marquinho – Nãooo, pô, já disse. Aonde você quer chegar?
Casão – Ah… e se você tivesse comido a mina do seu melhor amigo?

Depois de um silêncio tenso no ar, Casão voltou à carga:
E se eu lhe disser que eu transei com a sua namorada…

Nem deu tempo de terminar a frase. Marquinho subiu na mesa e provocou tumulto no Grupo Sérgio. Ele foi para o carro, quis ir embora sozinho, mas Casagrande e Magrão entraram atrás. No caminho, a gozação continuou. Casagrande perguntou a Magrão como era o nome de uma música famosa de Sidney Magal e, em vez de cigana Sandra Rosa Madalena, ele falou pilantra Acácia Rosa Madalena.

Muito irritado, Marquinho puxou o breque de mão e o carro deu um cavalo de pau. Quase bateu. Então, o motorista falou que só levaria os dois para casa se não abrissem mais as boca.

Passado uns dias, Magrão foi procurar Casagrande e falou que havia brigado com Acácia. “Perdeu uma princesa”, disse Casão. “Como, uma princesa, você falou que ela fazia pornô!”, gritou Marquinho. “Falei brincando, você tem cabeça fraca, acredita em tudo”, disparou Casão.
“Mas por que não me contou depois?”, questionou. “Mas você falou que o assunto estava morto e não podíamos falar mais nada…”.

E o Casagrande na seleção?

Tem um capítulo sobre isso que mostra a relação conflituosa que teve com o Telê. Nas Eliminatórias para a Copa de 86, o ataque era Renato Gaúcho, Casagrande e Éder. Estava muito bem, mas os três se desgastaram muito com Telê, que cobrava muito. Era uma coisa extrema, de falar não enche o saco e de gritos. Houve um jogo em que Eder deu uma cotovelada em um peruano e ele foi cortado. Renato Gaúcho foi punido pelo Telê por fugir da concentração e também ficou fora da Copa.

Casagrande tem certeza que também não foi cortado porque se cuidou e teve um comportamento espetacular. Além disso, uma enquete com jornalistas apontou ele, Zico e Leandro como insubstituíveis. Depois, nos treinos, irritou-se muito quando Telê o tirou do time titular para colocar o Zico que estava se recuperando de uma contusa. Não pelo Zico, que é um ídolo do Casão, mas por serem de posições diferentes. O Casagrande achava que o Telê o estava testando muito, exigindo muito sempre. E ele acha também que treinou e excesso, até no Carnaval e que por isso virou o fio. Ficou na reserva do Muller e do Careca.

O Casão e seus amigos da Penha têm um humor parecido com o filme “Quinteto Irreverente”. O filme conta a vida de cinco caras que só pensam em sacanear

Em livro, Casagrande relata luta para se livrar das drogas

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A partir da próxima segunda-feira será possível conhecer detalhes da luta enfrentada pelo ex-jogador e atual comentarista da TV Globo Walter Casagrande. O dia marca o lançamento do livro “Casagrande e Seus Demônios” (Globo Livros; 248 páginas), escrito pelo jornalista Gilvan Ribeiro, editor de esportes do jornal Diário de S. Paulo.

Na obra, Casão, como é chamado pelos amigos, conta o calvário que sofreu com as drogas, histórias do seu tratamento e a sua recuperação, que segue até hoje com a ajuda de psicólogos.

Na edição deste final de semana, a revista Veja traz trechos inéditos do livro. No quinto capítulo da obra há detalhes sobre o período em que Casagrande permaneceu internado. Durante sete meses, ele ficou sem ter nenhum contato com amigos e familiares.

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