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5 livros de ficção que acertaram em cheio sobre o futuro

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Fábio Jordão, no TecMundo

A realidade tem inúmeras influências na literatura, mas, às vezes, pode acontecer o caminho inverso. Seja de maneira involuntária ou proposital, muitas vezes o mundo real se inspira no fantasioso e acaba criando uma realidade nunca antes imaginada.

Não são raros os escritores que tiveram capacidades inacreditáveis para criar histórias sobre o futuro, com ideias pra lá de malucas na época, mas algumas foram tão certeiras que é assustador olharmos para trás e vermos que a riqueza de detalhes nas descrições é tão similar à nossa realidade.

Pensando nisso, resolvemos separar algumas obras de ficção científica escritas nos últimos dois séculos que têm diversas semelhanças com o nosso cotidiano. É importante ressaltar que há dezenas de livros desse tipo, mas escolhemos alguns mais peculiares e famosos. Evidentemente, você pode dar sua contribuição nos comentários.

Ralph 124C 41+

O ano era 1911, e um gênio chamado Hugo Gernsback publicava a primeira parte da história “Ralph 124C 41+” (que teria doze partes no total). Trata-se de uma obra que, em boa parte, praticamente previa nossa atual realidade. Em 1925, essa história foi reunida em um único livro, o que garantiu que muitas pessoas conhecessem as ideias inusitadas de Gernsback.

O nome por si só já é curioso, visto que não faz muito sentido para quem apenas visualizar um bocado de números. Todavia, esse código tem um significado em inglês: One (1) to (2) foresee (4C) for (4) one (1) another (+), que em português seria algo como “Um para prever para o outro”.

A grande genialidade aqui é que, basicamente, o autor conseguiu ter uma noção de quase toda a nossa tecnologia moderna, incluindo televisões (com canais), controles remotos, telefones com vídeo, aviões capazes de realizar voos transcontinentais, energia solar colocada em prática, filmes com som, comidas sintéticas, roupas artificiais, gravadores de fitas e até mesmo as viagens espaciais.

Falando assim, até parece que o escritor entrou em uma máquina do tempo e esteve no meio de nós para vislumbrar todas essas coisas (e talvez ele realmente tenha feito essa viagem), afinal são muitas ideias que deram certo. Não é de se duvidar que muitos cientistas tenham aproveitado algumas de suas ideias para bolar invenções fantásticas.

2001: Uma Odisseia no Espaço

A obra de Arthur C. Clarke escrita em 1968, que ficou mundialmente conhecida após a adaptação de Stanley Kubrick (filme de mesmo nome que foi lançado em 1969) para os cinemas, previa algumas coisas que realmente existiriam no futuro, ou seja, no nosso presente.

Clarke acertou em algumas ideias, incluindo viagens espaciais (ainda que não possamos viajar da mesma forma como ele descrevia, fazemos passeios até a Lua e bolamos planos de ir até Marte), computadores muito avançados (os nosso estão quase chegando ao mesmo patamar) e iPads.

iPads? Sim! Os personagens da história “2001: Uma Odisseia no Espaço” recebiam notícias e se comunicavam com “papéis eletrônicos”. O iPad não é tão fino quanto um papel, mas ele é bem parecido com o que também vimos no filme de Kubrick. A única coisa errada mesmo foi o ano: uma tecnologia que era prevista para 2001 acabou saindo apenas em 2010.

Neuromancer

William Gibson não teve uma visão de um futuro tão distante, mas é surpreendente perceber que o autor conseguiu descrever tão bem a nossa atual realidade quando a internet ainda estava dando seus primeiros passos. No livro “Neuromancer” , lançado em 1984, o escritor conta a história de um hacker que vive em um futuro totalmente conectado.

Até aí, nada de extraordinário, porém a grande sacada dessa história é que ele dá detalhes sobre uma avançada rede global de computadores chamada “Matrix” (soa familiar?). A internet aqui é diretamente ligada aos usuários, sendo necessária uma conexão com os órgãos da pessoa. O livro trata ainda de coisas mais complexas , como a transferência de consciência dos seres humanos para memórias de computador.

A verdade é que muito do que ele descreve ainda nem existe, mas essa rede mundial repleta de hackers é uma realidade que conhecemos por fazer parte do lado frágil da história (que sofre com as invasões e tem seus dados pessoais reféns dos bandidos digitais).

Da Terra à Lua

Escrito pelo autor francês Jules Verne, que no Brasil é comumente conhecido como Júlio Verne, o livro “De la Terre à la Lune” foi escrito lá em 1865, ou seja, mais de 100 anos antes da primeira viagem à Lua (que aconteceu em 1968). Esta obra é centrada na ideia de que seria possível enviar um objeto para a Lua com o auxílio de um enorme canhão.

O desejo de sair do planeta Terra não foi algo inédito no livro de Verne, mas os detalhes e as situações apresentadas mostram grande semelhança com o que aconteceu posteriormente. Neste livro, é apresentada a ideia de enviar um projétil cilíndrico para a Lua (o que lembra muito os foguetes usados para visitar o satélite natural do nosso planeta).

Quer mais? O escritor ainda teve a brilhante ideia de enviar seres humanos para o espaço. Na história de “Da Terra à Lua”, três astronautas embarcam no projétil, sendo que a viagem começa em Tampa, no estado da Flórida (EUA). Além de pensar que pessoas de fato poderiam ir ao espaço, Verne também acertou no local da partida (mesma região de onde saíram algumas missões Apollo).

Frankenstein

A história do cientista Victor Frankenstein é mundialmente conhecida, sendo que ela já recebeu inúmeras adaptações para a telona, televisão e outros tipos de mídia. A obra da escritora Mary Shelley narra o incrível nascimento de uma criatura (que normalmente é chamada de Frankenstein) que surgiu a partir de tecido morto, uma técnica que o tal doutor teria desenvolvido na faculdade.

Atualmente, não temos nenhum monstro bizarro andando por aí, mas, conforme a autora previu, a ciência de fato evoluiu, principalmente no campo da medicina. Hoje, temos inúmeros casos de cirurgias complexas bem-sucedidas, sendo possível fazer transplante de órgãos, inclusive dos mais vitais, como o coração.

A autora também acertou no fato de que a eletricidade seria de suma importância para que determinados procedimentos fossem tivessem sucesso. Felizmente, ninguém conseguiu montar uma criatura sinistra para aterrorizar as pessoas.

Como será o futuro?

Diante de tantas coincidências, é natural imaginar como será o futuro daqui a 20, 30 ou até 100 anos. Para ter uma boa noção, talvez seja válido começar a ler os livros de ficção científica, que certamente já têm boas pistas sobre as próximas invenções mirabolantes. Será que vamos visitar outras galáxias daqui a algumas décadas? Eu não duvido!

Fundador do Blogger e Twitter investe no futuro da escrita on-line

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medium

Evan Williams lançou Medium, nova plataforma de publicação

Publicado em O Globo [via New York Times]

Como fundador da Blogger e Twitter, Evan Williams ajudou a mudar a forma como as pessoas escrevem online. Agora, com a sua mais recente start-up, Medium, ele está tentando descobrir como vamos escrever no futuro.

Williams também ainda está tentando decidir como descrever seu empreendimento. Medium é para mensagens curtas e longas, por escritores amadores e profissionais. Ela enfatiza um design limpo e conta com uma rede de escritores e leitores para editar e descobrir novos posts.

Lançada em 2012 para um pequeno grupo de usuários, Medium agora recebe 13 milhões de visitantes únicos por mês, Williams disse quinta-feira em um jantar oferecido pela Fortune, em Menlo Park, na Califórnia. Na próxima semana, a start-up irá introduzir um aplicativo para iPhone para leitura de mensagens (mas ainda não para escrevê-los).

Depois que deixou as operações do dia-a-dia no Twitter, onde ainda é um membro do conselho, Williams voltou a pensar sobre a escrita e jornalismo. Quinze anos depois que co-fundou o Blogger, que foi vendido para o Google em 2003, parecia que as plataformas de blogs “consideravam que o trabalho já estava todo feito”, disse ele.

Mas há um monte de coisas blogs não fazem bem, acrescenta ele, como filtragem e promoção de mensagens de interesse para os leitores. E usá-los pode ser demorado, forçando escritores a escolher fundos e formatos e a atualizar seus blogs regularmente.

Na maior parte, ao que parece, ele tem procurado encontrar um equilíbrio entre o velho modo de edição, onde os editores profissionais eram os porteiros, e um novo, onde qualquer um pode postar qualquer coisa online.

“A forma como a mídia está mudando não é totalmente positiva quando se trata de criar uma cidadania mais informada”, escreveu Williams em Medium. “Agora que nós transformamos o compartilhamento de informações em algo que praticamente não exige nenhum esforço, como podemos aumentar a profundidade da compreensão, além de criar condições de concorrência equitativas que incentivem idéias que vêm de qualquer lugar?”

Medium é diferente de blogar e twittar em certos aspectos, a prova de como Williams tem tentado lidar com este problema. Por exemplo, ele paga alguns escritores profissionais por posts, um esforço para semear o site com peças de alta qualidade. E não há comentários no final dos posts. Em vez disso, os leitores podem deixar notas vinculadas a palavras ou frases específicas. Escritores podem escolher se essas notas são públicas ou proibir as notas em tudo.Williams diz que isto permite um feedback mais construtivo e mais conversas sobre idéias.

Com uma mistura de curadoria algorítmica e humana, Medium sugere outros posts da plataforma que as pessoas devem gostar de ler. Williams disse na quinta-feira que teve como objetivo, eventualmente, oferecer sugestões mais personalizadas.

“Isso significa que suas mensagens se ligam a dos outros, as suas ideias vão colidir com as dos outros, e, em vez de viver em uma ilha em algum lugar na web, você faz parte de um todo dinâmico, em que cada parte faz com que as outras sejam melhores”, escreveu ele em sua introdução da plataforma.

Algumas das funcionalidade do Medium reconhece o que as pessoas costumam ler mais em seus celulares do que nos computadores. Os posts têm uma estimativa de quantos minutos é preciso para serem lidos, e Medium formata automaticamente para telas pequenas.

A eloquência do silêncio

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Sérgio Rodrigues, no Todo Prosa

1A importância do silêncio numa narrativa de ficção se manifesta de diversas formas, incluindo as óbvias elipses e subentendidos, pois, como disse Erico Verissimo (que cito de memória), “um dos segredos do romancista é nunca explicar demais”. Tudo aquilo que não é dito oferece à imaginação do leitor – coautor pouco comentado de qualquer obra literária – espaço para se espraiar, ligar os pontinhos, produzir e não apenas decifrar sentido. Embora geralmente esquecido, até mesmo o silêncio que vem antes da primeira frase do texto, como os milênios de não-ser que precedem o nascimento de qualquer bebê, é tão fundamental quanto o clímax de uma história. O silêncio que vem depois do fim, então…

Vamos começar pelo começo. Entramos em “Viva o povo brasileiro”, de João Ubaldo Ribeiro, um dos grandes romances de nossa literatura, vendo o herói ser fuzilado. A sugestão de uma longa história passada, mas calada, insinua-se na estranha precedência de uma conjunção adversativa a adversar o ignorado:

Contudo, nunca foi bem estabelecida a primeira encarnação do Alferes José Francisco Brandão Galvão, agora em pé na brisa da Ponta das Baleias, pouco antes de receber contra o peito e a cabeça as bolinhas de pedra ou ferro disparadas pelas bombardetas portuguesas, que daqui a pouco chegarão com o mar.

Se repararmos bem, veremos que o longo futuro da história também já se encontra, cifrado, nessa abertura. Mas por que o relato não começa antes? Como José Francisco foi parar na Ponta das Baleias naquele momento fatal? Que vida teve? Será que sabia tocar rabeca, amou uma ou várias mulheres, contraiu caxumba na infância? Quem são seus pais, seus avós, seus antepassados remotos? Por que começar justamente ali?

Porque o resto – tal é o poder que tem o texto literário de transformar em determinismo as opções autorais mais arbitrárias – é silêncio.

Se o silêncio que antecede a primeira palavra de uma história costuma passar despercebido, aquele que vem depois do ponto final é de uma eloquência ensurdecedora. Dificilmente haverá um escritor que não tenha, em algum momento, se deparado com esta queixa, que por sinal é muitas vezes infundada: “Mas a história não termina…”.

Que o leitor, sobretudo aquele de um tipo mais ingênuo, exija como final de qualquer relato ficcional um arremate claro que junte todas as pontas da trama, de preferência num laçarote vistoso e provido de uma inequívoca moral, é compreensível. O problema é o autor acreditar que deve obrigatoriamente se curvar a tal demanda, deixando de compreender o quanto de reverberação pode acrescentar à sua história, em certos casos, um silêncio brusco, aparentemente prematuro e definitivamente perturbador.

Não me refiro aqui ao simples ato de apontar um futuro em branco, um pós-texto qualquer, deixando ao leitor um convite ao preenchimento do vazio da página, como se vê por exemplo no engenhoso – e famoso – fim de “Uma aprendizagem”, de Clarice Lispector:

… eu penso o seguinte:

Ocorre que, a essa altura, o conflito central do livro de Clarice já se resolveu, Lóri e Ulisses estão na cama, o que torna a indeterminação do futuro uma esperteza estilística – além de um espelho da vida real, claro, comentário irônico sobre a tentação do impossível “felizes para sempre” que insiste em rondar as expectativas daquele nosso leitor ingênuo.

Contudo – como diria João Ubaldo –, o silêncio brusco, aparentemente prematuro e definitivamente perturbador exige mais do que isso. É preciso que o conflito que moveu a narrativa, ou pelo menos uma parte dele, fique sem solução. É preciso obrigar o leitor a apostar num dos desenlaces possíveis e ao mesmo tempo condená-lo à tortura eterna de não saber se ganhou ou perdeu.

Um dos exemplos mais antigos e bem-sucedidos que conheço desse tipo de fim está na novela “A interdição”, de Honoré de Balzac (no volume 4 de “A comédia humana”, na nova edição da Biblioteca Azul), uma de minhas leituras de fim de ano. A história gira em torno do processo de interdição que move uma rica parisiense – uma daquelas mulheres ambiciosas, vaidosas, calculistas e ordinárias que Balzac adorava pintar – contra o ex-marido, de olho em sua fortuna, sob a alegação de que o sujeito enlouqueceu.

Aqui sou obrigado a incluir um spoiler, o que imagino não ser grave no caso de um livro lançado em 1836, mas vale o alerta: o ex-marido é um nobre dotado não apenas de lucidez, mas também de um caráter admirável que o leva a atos de um desprendimento vertiginoso. O juiz encarregado do caso, não menos probo, percebe isso tão claramente que chega a se emocionar. A história se encaminha para um fim previsível e reconfortante: o processo de interdição é ignóbil, será rejeitado, que beleza.

Aí entra o gênio de Balzac. Sob uma desculpa rota, quem sabe um mal-entendido, o juiz honesto é afastado na última hora do caso. Em seu lugar nomeia-se um juizinho novato, arrivista, venal. Fim.

Como assim – fim? E o processo que dá título à narrativa? Qual é o veredito? Não sabemos. Ao condenar moralmente o novo juiz, as últimas linhas nos levam a supor que o nobre homem será lesado pela ex-mulher sem caráter, mas a verdade é que não temos como saber. O silêncio chega primeiro, transformando “A interdição”, que do contrário seria apenas uma boa novela, numa novela memorável.

(Em outro ponto do imenso painel de “A comédia humana”, Balzac, que gostava de voltar a personagens de livros anteriores, nos informará que a litigante de má-fé perdeu o processo, afinal. Isso não diminui em nada a reverberação que o fim de “A interdição” deixa na cabeça do leitor.)

O papel tem futuro

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RENOVAÇÃO Montagem com diferentes tipos de papel: o Alcorão no século VII, o códice de Gutenberg, ascensão dos jornais e o sulfite. Ele mudou, mas ainda é essencial (Foto: Reprodução)

RENOVAÇÃO
Montagem com diferentes tipos de papel: o Alcorão no século VII, o códice de Gutenberg, ascensão dos jornais e o sulfite. Ele mudou, mas ainda é essencial (Foto: Reprodução)

Para o escritor Nicholas Basbanes, que pesquisou a história dos meios de conservar a escrita, ele continuará a ser importante, porque jamais será substituído

Amanda Polato na revista Época

“A sociedade sem papel está se aproximando, queiramos ou não. Não podemos enterrar a cabeça na areia. Podemos escolher ignorar o mundo eletrônico, mas isso não fará diferença”, escreveu o cientista da informação Frederick Wilfrid Lancaster em… 1978. Ao lado de outros entusiastas do futuro digital, ele previa um mundo maravilhoso com grande variedade de obras à disposição dos estudantes, menos impressões e redução de custos. Bibliotecas inteiras caberiam numa mesa. Quem não se adaptasse a tempo e abandonasse o papel viveria uma transição caótica. Trinta e cinco anos depois, muito do futuro imaginado por ele se concretizou. Mas o papel ainda persiste.

As bibliotecas continuam abarrotadas. Os livros impressos convivem com a popularização dos e-readers e tablets. “Usar um não significa descartar o outro”, afirma o escritor Nicholas Basbanes, autor do livro recém-lançado On paper (No papel), sem edição no Brasil.  Num momento em que se discute o futuro do papel e até sua eventual extinção, o livro de Basbanes tenta explicar sua importância e a maneira como ele influenciou o curso da história. Bibliófilo, ele investigou a origem do papel e seus diferentes usos. Conversou com pesquisadores, donos de indústrias, bibliotecários e até pessoas que ainda fazem papel à mão, como há 2 mil anos. A longa jornada pela história do papel convenceu Basbanes de que a supremacia do papel tem raízes profundas – e será impossível substituí-lo.

Basbanes diz que os livros não se tornarão obsoletos tão cedo, porque são os mais simples e confiáveis meios de preservação. Dispositivos eletrônicos e softwares estão em constante mudança. Aquilo que foi registrado num formato específico hoje pode não ser lido amanhã. “Já segurei nas mãos um livro com mais de 500 anos. Você pode dizer, com segurança, que o mesmo acontecerá com uma obra criada digitalmente?”, diz Basbanes.
Grandes acervos históricos não abrem mão do papel. Nos Estados Unidos, o Arquivo Nacional encomendou folhas super-resistentes para ajudar a preservar documentos originais, como a Declaração da Independência, a Constituição e a Carta dos Direitos. O responsável pelo trabalho foi Timothy Barrett, do Centro do Livro da Universidade de Iowa, que registra e resgata técnicas milenares de fabricação de papel à mão. “Estamos nos movendo em direção a um mundo digital holográfico maravilhosamente fascinante, mas, ironicamente, nesse ambiente, os documentos em papel em certos casos se tornarão mais importantes, e não menos importantes”, diz.

813_papel2É inegável que a tecnologia altera hábitos, mas as características únicas do livro tradicional dão a ele muitos anos a mais de vida. A tecnologia não conseguiu substituir algumas das vantagens do papel. Ele pode estar sempre à disposição nas estantes e ser exibido em reuniões sociais. Nos livros, há o contato com textura mais macia. É possível manipular as páginas, sobrepô-las ou dobrar as pontas para se concentrar em outras partes. As palavras não competem com alertas de aplicativos, mensagens que sempre pulam nas telas ou com o link para o filme sobre a obra no YouTube, como acontece nos tablets e smartphones.

A demanda por papel tem caído em algumas regiões, como América do Norte e Europa. As grandes indústrias atribuem isso à estagnação econômica e ao avanço da tecnologia. As preocupações com o meio ambiente também resultam no menor uso de papel. Mas não é possível dizer que o setor viva um retrocesso. Foram produzidos 400 milhões de toneladas de papel em 2012, em comparação com os 399 milhões no ano anterior.

Esses milhões de toneladas têm os mais variados destinos. A Associação Britânica de Historiadores do Papel registra mais de 20 mil usos atualmente. Há empresas que investem em papéis especiais, selos, cartões-postais, jogos de cartas e outros nichos de mercado. Há usos tradicionais que perduram. Em qualquer parte do mundo, ninguém consegue se identificar oficialmente sem usá-lo. É uma tradição que começou nos tempos medievais. As pesquisas de Basbanes revelam que o papel, tão barato, abundante e portátil, tornou a burocracia possível e contribuiu para a expansão dos árabes pelo Oriente Médio, pelo Norte da África e parte da Europa. A papelada cresceu ainda mais com a Revolução Francesa, em 1789, quando o poder deixou de ficar concentrado no rei e foi distribuído aos funcionários públicos, que deviam dar provas escritas dos serviços feitos.

Ainda hoje, os governos exercem seu poder de controle por meio de uma série de regras, cumpridas apenas com a apresentação de documentos, protocolos e termos impressos. A burocracia criou duas classes de pessoas: as que têm papéis e as que não têm. Na França, os imigrantes ilegais são justamente conhecidos como sans papiers (sem papéis). Os Estados também não conseguiram reduzir o uso do papel em suas atividades diárias. Em mais de dois séculos de atividade, o Arquivo Nacional americano acumula 80 bilhões de papéis oficiais – e apenas 5% de todo o volume produzido no último ano foi para as prateleiras.

Nas empresas, o inconfundível barulho das impressoras não deixa dúvidas de que o amplo uso de computadores e e-mails não livrou os profissionais das folhas. No início dos anos 2000, os pesquisadores Abigail J. Sellen e Richard H.R. Harper publicaram o livro The myth of the paperless office (O mito do escritório sem papel). Diziam que a internet aumentou as impressões em 40%. Para quem previa que a tecnologia acabaria com o papel, é um dado embaraçoso.

Previsões sobre o mundo digital também já mostraram que nossas carteiras ficariam sem notas. É verdade que o papel-moeda perdeu importância. Dá para notar no dia a dia que é possível comprar praticamente tudo com transferências bancárias e cartões de débito e crédito. Num futuro próximo, os celulares cumprirão boa parte dessa função. No entanto, números de Bancos Centrais mostram que a fabricação de notas e moedas não começou a cair. Na Zona do Euro, elas representam 9% das transações, mas o total em circulação sobe ano após ano. Em 2012, havia E 876,8 bilhões fora dos bancos, cerca de 2% a mais que em 2011, segundo o Banco Internacional de Compensações. Em alguns países,  como a Suécia, há esforços para acabar com as notas. Alguns estabelecimentos não aceitam notas, como pubs e pequenos negócios. A solução, aparentemente moderna, prejudica moradores de zonas rurais, que não têm cartões. O mesmo vale para os Estados Unidos. Segundo o empresário Douglas Crane, que fornece papel para as notas de dólares, 20% dos americanos não têm conta bancária. O papel-moeda também é fundamental para imigrantes. Mesmo com grandes inovações relacionadas à carteira eletrônica, é difícil imaginar algo tão simples e anônimo quanto um pedaço de papel, que permite operações fora do sistema bancário. As altas taxas cobradas pelos bancos também desestimulam o uso do crédito e débito para compras pequenas. O avanço das moedas eletrônicas esbarra ainda na segurança. A quebra de um código poderia significar a reprodução de dinheiro indefinidamente. Até agora, não foi inventado nenhum sistema infalível. Mesmo que um novo sistema surja e convença todos (inclusive os excluídos) a trocar as carteiras por celulares, isso acabaria com apenas uma utilidade do papel. Restariam ainda 19.999.

Neil Gaiman explica por que nosso futuro depende de livrarias, leituras e sonhos

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Anastácia Ottoni no Literatortura

Neil Gaiman, autor renomado que recentemente publicou O Oceano no Fim do Caminho, fez uma palestra para a The Reading Agency falando sobre o futuro da leitura e das bibliotecas. Gaiman fala com paixão a respeito e levanta questionamentos sobre como os autores devem sempre escrever verdades mesmo que contidas na “mentira” fictícia.

Confira um resumo da palestra:

“Eu acho que nós temos responsabilidades para com o futuro. Responsabilidades e obrigações com as crianças, com os adultos nos quais aquelas crianças vão se transformar, com o mundo onde eles vão se encontrar habitando. Todos nós – como leitores, como escritores, como cidadãos – têm obrigações. Pensei em tentar explicitar algumas dessas obrigações aqui.

Acredito que temos a obrigação de ler por prazer, em privado e em lugares públicos. Se lemos por prazer, se os outros nos veem ler, então nós aprendemos, nós exercitamos a nossa imaginação. Nós mostramos aos outros que a leitura é uma coisa boa.

Temos a obrigação de apoiar bibliotecas. De usar bibliotecas, de incentivar outras pessoas a usarem as bibliotecas, de protestar contra o fechamento de bibliotecas. Se você não valoriza as bibliotecas, então você desvaloriza informação ou cultura ou sabedoria. Você está silenciando as vozes do passado e você está prejudicando o futuro.

Temos a obrigação de ler em voz alta para os nossos filhos. De ler para eles coisas que eles gostam. De ler para eles histórias das quais já estamos cansados. De fazer as vozes para tornar interessante, e não de parar de ler para eles apenas porque eles aprendem a ler para si mesmos. Use o tempo de leitura em voz alta como um momento de ligação, como o tempo em que não há telefones sendo verificados, em que as distrações do mundo são postas de lado.

Temos a obrigação de usar a língua. Para nos empurrar: para descobrir o que as palavras significam e como implantá-las, para nos comunicarmos de forma clara, e dizer o que queremos dizer. Não devemos tentar congelar a linguagem, ou fingir que é uma coisa morta, que deve ser respeitada, mas devemos usá-lo como uma coisa viva, que flui, que empresta palavras, que permite aos significados e às pronúncias mudar com o tempo.

Nós, escritores – e, especialmente escritores para crianças, mas todos os escritores – temos uma obrigação com nossos leitores: é a obrigação de escrever coisas verdadeiras , especialmente importante quando estamos criando contos de pessoas que não existem em lugares que nunca existiram – a entender que verdade não está no que acontece, mas o que ela nos diz sobre quem somos. A ficção é a mentira que diz a verdade, afinal de contas.

Temos a obrigação de não entediar os nossos leitores, mas fazê-los precisarem virar as páginas. Uma das melhores curas para um leitor relutante, afinal, é um conto cuja leitura não pode ser interrompida. E enquanto dizemos aos nossos leitores coisas verdadeiras e damos a eles armas e armadura e passagem para qualquer sabedoria adquirida a partir de nossa curta estadia neste mundo verde, temos a obrigação de não pregar, não ensinar, não forçar mensagens morais pré-digeridas goela abaixo dos nossos leitores, como aves adultas que alimentam seus bebês com larvas pré-mastigadas, e nós temos a obrigação de nunca, jamais, em hipótese alguma, escrever alguma coisa para as crianças que nós mesmos não gostaríamos de ler.”.

Você pode conferir em inglês aqui.

Para conhecer outra palestra magnífica do autor, recomendo o vídeo emocionante de sua apresentação, de 2012, aos formandos da University of the Arts, na Philadelphia. Basta ativar as legendas.

dica do Rodney Eloy

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