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Literatura fantástica brasileira é redescoberta em dois livros

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Cena do filme ‘Uma História de Amor e Fúria’ (2013), animação de Luiz Bolognesi Foto: Europa Filmes

Principais editoras do País voltam os olhos para fantasia, ficção científica e horror, enquanto editoras especializadas falam sobre crescimento do gênero

André Cáceres, no Estadão

Dentro da literatura brasileira existe uma outra literatura subterrânea, invisível. Nela, autoras e autores radicalmente inventivos na forma e no conteúdo destilam ideias vertiginosas. Por décadas desprezada pela crítica, ofuscada pelo mercado e ignorada pelo público, a ficção especulativa nacional vem sendo (re)descoberta. Dois lançamentos recentes contribuem para isso: a coletânea Fractais Tropicais (Sesi-SP) reúne 30 dos melhores contos de ficção científica no Brasil; e o estudo Fantástico Brasileiro (Arte e Letra) perpassa a história da literatura nacional pinçando elementos fantásticos na obra dos principais autores.

O intelectual israelense Yuval Noah Harari, autor de Sapiens e Homo Deus, acredita que hoje a ficção científica é o mais relevante gênero artístico existente, pois “molda a compreensão do público de coisas como inteligência artificial e biotecnologia, que provavelmente transformarão nossas vidas e a sociedade mais do que qualquer outra coisa nas próximas décadas”. Talvez isso explique por que Ana Maria Gonçalves se interessou pelo estilo. A autora de Um Defeito de Cor – lançado em 2006, foi considerado por Millôr Fernandes o mais importante livro da literatura brasileira no século 21 – ambienta seu próximo livro, Quem é Josenildo?, em uma São Paulo futurista cujos habitantes têm chips implantados em seus cérebros.

Ao se aventurar pelo estilo, Gonçalves entra em uma longa tradição que é apresentada didaticamente na coletânea Fractais Tropicais, organizada por Nelson de Oliveira em três “ondas” de autores. Essa divisão foi cunhada por Roberto de Sousa Causo, escritor e pesquisador do gênero, que também tem um conto na antologia. A primeira fase surgiu nos anos 1960 pelas mãos do editor Gumercindo Rocha Dorea, 94, pioneiro na publicação sistemática do gênero no Brasil. Nela se encaixam a acadêmica da ABL Dinah Silveira de Queiróz (1911-1982), autora de Eles Herdarão a Terra (1960), e André Carneiro (1922-2014), autor, entre outros de Piscina Livre (1980) e Amorquia (1991).

A segunda e terceira ondas despontaram à margem do mercado editorial. Uma com as fanzines dos anos 1980 e a outra, ainda em expansão, pela internet. Ambos os períodos se confundem, pois vários autores continuam produzindo intensamente, como Carlos Orsi, Gerson Lodi-Ribeiro e Braulio Tavares, todos contemplados na antologia. Enquanto alguns autores como Tavares, Causo e Jorge Luiz Calife se mantêm em um registro que prima pelo rigor científico, outros nomes como Fausto Fawcett, Ronaldo Bressane e Andréa Del Fuego transitaram durante a carreira pela literatura mainstream e injetam influências diversas no gênero.

A obra demonstra que a literatura especulativa brasileira, diferente da estrangeira, tem um pé no absurdo surrealista de Murilo Rubião, José J. Veiga e Campos de Carvalho, nas maquinações fantásticas de argentinos como Jorge Luis Borges (o conto Metanfetaedro, de Alliah, brinca com a geometria de uma forma inventiva que lembra as ficções de Borges) e Adolfo Bioy Casares, e no realismo mágico de Gabriel García Márquez. A mistura é singular, sem paralelos na literatura mundial.

Insólito literário

Fantástico Brasileiro não se limita à ficção científica, mas amplia seu escopo para a fantasia, o horror e outras categorias especulativas. Para empreender tal investigação, Bruno Anselmi Matangrano, doutorando em letras pela USP, e Eneias Tavares, professor de literatura na UFSM, utilizam o conceito de “insólito”. Essa ideia, proposta pelo professor da UFRJ Flavio García, é um guarda-chuva que abarca desde o inseto monstruoso de Franz Kafka, a cegueira coletiva de José Saramago e o defunto-autor de Machado de Assis até dragões, robôs, fantasmas e sociedades distópicas.

O conto que inaugurou o elemento insólito na literatura brasileira é Um Sonho (1838), do político, jornalista e escritor Justiniano José da Rocha (1812-1863). Nele, a protagonista Teodora recebe a visita fantasmagórica de sua mãe morta, Tereza, que antevê sua morte em três dias. A aparição é tida como onírica pela mulher, mas três dias depois ela de fato morre. Já o luso-brasileiro Augusto Emílio Zaluar (1825-1882) foi autor da primeira ficção científica do País, intitulada Dr. Benignus (1875), que retrata “um cientista buscando a transcendência espiritual através do conhecimento científico”, contam os estudiosos. “Em outras palavras, o insólito brasileiro nasce praticamente ao mesmo tempo que a noção de literatura nacional.”

Mas o aspecto especulativo ou fantasioso não se limita aos autores identificados especificamente com esses gêneros. O mérito de Matangrano e Tavares é mostrar como esse elemento permeia toda a literatura nacional, como no modernismo de Mário de Andrade (Macunaíma) e Menotti Del Picchia (A Filha do Inca, ficção científica também conhecida como República 3000) ou no regionalismo insólito de Graciliano Ramos (A Terra dos Meninos Pelados) e Ariano Suassuna (O Auto da Compadecida). O conto Congresso Pamplanetário, de Lima Barreto, por exemplo, mostra uma reunião entre representantes de diversos planetas para discutir o papel de Júpiter na política espacial. Já Um Moço Muito Branco, de Guimarães Rosa, sugere a visita de um alienígena ao sertão nordestino.

É claro que Fantástico Brasileiro reserva a maior parte de suas páginas à catalogação de autores dedicados exclusivamente à literatura especulativa, principalmente contemporâneos como Felipe Castilho (A Ordem Vermelha) e Aline Valek (As Águas Vivas Não Sabem de Si). No entanto, outros nomes de contemporâneos pouco associados a ela também estão contemplados no livro, como Joca Reiners Terron (Noite Dentro da Noite), Ignácio de Loyola Brandão (Não Verás País Nenhum) e Chico Buarque (Fazenda Modelo), o que torna o livro interessante também para quem não conhece os gêneros em questão. Detalhando a produção nacional em uma divisão temática, a obra torna-se referência incontornável para quem quiser se aprofundar no tema.

Mercado editorial

Nos últimos anos, a ficção especulativa ganhou espaço também no mercado editorial. Grandes editoras criaram ou reformaram selos para publicar esse tipo de literatura, como a Fantástica Rocco, a Suma de Letras (da Companhia das Letras) e a Minotauro (da Planeta). “Do ponto de vista editorial, a FC brasileira vive nesta segunda década do século o seu melhor momento, com o surgimento ou a consolidação de editoras, principalmente em São Paulo, como Devir, Aleph, Draco, Tarja, Terracota, Giz”, escreve Braulio Tavares em Páginas do Futuro, coletânea que organizou para a Casa da Palavra.

A editora Bárbara Prince, da Aleph, especializada em traduções dos clássicos estrangeiros de FC, afirma que o público do gênero, embora restrito, vem crescendo especialmente entre os mais jovens. “Pode ser meio bobo, mas acho que um dos fatores para esse aumento é a normalização do nerd. O interesse por ficção científica acompanha isso. Ainda existe preconceito por parte do leitor mais velho, mas tenho visto os jovens se aproximando.” Ela acredita que o recente sucesso de obras audiovisuais como A Chegada e Black Mirror ajuda a desmistificar o estilo, mas lamenta: “Ainda existe a ideia de que esse tipo de história é infantil e exclusivamente masculina.”

Erick Sama, editor da Draco, uma das principais casas de autores nacionais, acredita que o onipresente complexo de vira-lata brasileiro vem sendo vencido aos poucos. “No começo, tínhamos uma preocupação sobre como o público reagiria, se as pessoas só se interessam pelo que tem grife estrangeira, mas foram barreiras que quebramos. Sinto que o público se importa cada vez menos se é estrangeiro ou daqui, desde que seja bom.” Em 2018, a coletânea de contos Solarpunk, organizada por Gerson Lodi-Ribeiro para a Draco, chegou a ser publicada pela World Weaver Press nos Estados Unidos, o que apenas reforça a qualidade pouco explorada dos autores brasileiros. “O retorno que recebemos é a surpresa de ‘Isso é tão bom, é nacional mesmo?’”, brinca Erick.

Victor Gomes vem consolidando a editora Morro Branco com autoras estrangeiras premiadas, como Margaret Atwood, Octavia Butler e N.K. Jemisin, mas espera que esses títulos ajudem a fomentar interesse para a literatura nacional. “Precisamos mudar a percepção do público. Temos essa pendência como um povo, não só na literatura, de pensar que o estrangeiro é melhor”, lamenta ele. “Nesse momento, estamos trazendo obras principalmente internacionais, mas nossa ideia é, por meio delas, melhorar o mercado de ficção científica aqui no Brasil e em um futuro bem próximo trazer obras nacionais desse gênero.”

Essa opinião é compartilhada por Thiago Tizzot, editor da Arte e Letra, de Curitiba, que publica autores nacionais como Fausto Fawcett e Ana Cristina Rodrigues. Ele vê no mundo virtual uma ferramenta poderosa para esse fomento. “A literatura especulativa cria universos que são propícios para o surgimento de grupos de discussão. A internet hoje permite encontrar pessoas que gostem das mesmas coisas que você. Isso faz com que esses grupos se fortaleçam e o interesse por esses livros aumente”, afirma o editor.

Thiago acredita que a recente entrada de grandes editoras nesse cenário e a evolução qualitativa das pequenas e médias torne as obras brasileiras ainda mais atraentes para o público. “Até pouco tempo atrás, o autor nacional se autopublicava ou tinha editoras que não faziam um trabalho tão profissional. A partir do momento que editoras mais consistentes deram espaço para esses autores, isso reflete na percepção do leitor.”

Enquanto essa onda de imaginação literária floresce, resta aguardar o que os autores da literatura nacional terão a dizer em um Brasil cujo cotidiano é cada vez mais surrealista.

Criadora de ‘Altered carbon’ discute ‘corpo descartável e mercantilizado’ de futuro distópico

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Cena de ‘Altered Carbon’, série nova da Netflix – Netflix / Divulgação

Laeta Kalogridis ficou conhecida em Hollywood pelos roteiros de “Ilha do medo” (2010) e “O exterminador do futuro: Gênesis” (2015)

Alessandro Giannini, em O Globo

SÃO PAULO — Roteirista de sucesso em Hollywood, Laeta Kalogridis, de 52 anos, ficou conhecida pelo trabalho em filmes como “Ilha do medo” (2010), “Alexandre” (2004) e “O exterminador do futuro: Gênesis” (2015). “Altered carbon” eleva a carreira da escritora a um novo patamar, já que ela surge também como produtora executiva da série original da Netflix. Laeta falou com exclusividade ao GLOBO sobre o que a atraiu na obra do escritor Richard K. Morgan: uma tecnologia que torna o corpo descartável.

O que mais chamou sua atenção em “Carbono alterado”, de Richard K. Morgan, quando leu os livros pela primeira vez?

Gostei da história subjacente. Da forma como uma tecnologia destrutiva pode mudar a maneira como a gente vive como seres humanos. Quando li, achei isso muito interessante e queria ver como ficava na tela.

Há muitos temas incorporados na história e um deles é a possibilidade de alcançar a imortalidade pela troca de corpos. Outras questões subjacentes dizem respeito ao gênero e etnia. Acha que conseguiu despertar interesse por esses temas?

Estava interessada na ideia do corpo se tornar descartável ou mercantilizado. Na vida contemporânea, temos como cultura tratar tudo como dispensável, inclusive o meio ambiente e o nosso planeta. Achava que podíamos levar esse conceito ainda mais além, expandindo-o à relação com os corpos nos quais vivemos. Mas no que diz respeito à mudança de gênero ou etnia acho que não, porque se trata de uma ocorrência corriqueira tanto no livro quanto na série. Não lidamos muito profundamente com essas questões.

Laeta Kalogridis, criadora de ‘Altered carbon’ – Divulgaçaõ

Como foi a colaboração com Morgan?

Falamos muito enquanto eu estava escrevendo e quando começamos a filmar. A visão dele foi o que me levou a adaptar o livro. Então, ele foi um grande parceiro na transposição da sua obra para um novo meio.

No Globo de Ouro deste ano, os principais prêmios de TV foram para histórias femininas, capitaneadas por mulheres. Acha que o momento é favorável para criadoras?

Parece-me que estamos no meio de uma grande mudança, o que é muito bom. Acho que devemos muito às mulheres que vieram antes de nós e lutaram e sofreram para serem vistas e ganhar espaço. Quanto mais diversos e variados os criadores, mais interessante e melhor a conversa vai ser. Sinto-me feliz por fazer parte desse momento. No entanto, acho que temos muito trabalho a fazer, ainda.

Conversando com parte do elenco feminino, quando vieram ao Brasil, em dezembro, elas disseram que ficaram encantadas com o desenho de seus personagens. Houve alguma mudança nesse sentido?

Sim. Estava interessada em expandir o papel que as mulheres tinham no livro. Ao dar a elas mais complexidade e mais força. Acho que conseguimos, porque as mulheres na série me parecem mais interessantes, fortes e complexas.

Que outras mudanças promoveu ao adaptar o livro?

Como os livros são narrados quase inteiramente sob a perspectiva do Kovacs, eu quis expandir isso e ver o mundo sob outros pontos de vista, também.

“Altered carbon” lembra muito alguns clássicos da ficção-científica no cinema, especialmente “Blade Runner — O caçador de androides” (1989). A comparação procede?

Acho que “Altered carbon” é, sim, tributário da procedência e do visual do primeiro “Blade Runner”, ou seja, do trabalho do escritor Phillip K. Dick e também de William Gibson, especialmente da trilogia “Sprawl” (que inclui “Neuromancer”). Aquela ideia de questionar para onde a humanidade vai, de mostrar o encontro entre Ocidente e Oriente, destacar como resultado a explosão populacional, e principalmente destacar as diferenças entre quem tem e quem não tem dinheiro.

A intrigante história real por trás de ‘Alias Grace’, série baseada no livro de Margaret Atwood

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 Divulgação/Netflix Sarah Gadon protagoniza a minissérie baseada em ‘Vulgo Grace’, romance de Margaret Atwood

Divulgação/Netflix
Sarah Gadon protagoniza a minissérie baseada em ‘Vulgo Grace’, romance de Margaret Atwood

Dois assassinatos. Dois culpados. Apenas um é salvo da forca — e como gênero e classe influenciaram o desfecho disso tudo

Caio Delcolli, no HuffpostBrasil

Ao chegar em casa após dois dias fora, o fazendeiro Thomas Kinnear estranhou a ausência de sua governanta Hannah Nancy Montgomery. Naquele mesmo dia, 30 de julho de 1843, ele foi assassinado com um tiro à queima-roupa, dado com uma arma de cano duplo. Montgomery fora morta algumas horas antes, com uma machadada na parte de trás da cabeça, ao ser estrangulada.

Os corpos foram escondidos no porão da casa; o de Montgomery foi desmembrado e colocado sob uma grande banheira. Todos os itens de valor com os dois foram levados, assim como vários outros da casa. No dia seguinte, os corpos foram descobertos — e os culpados também: James McDermott, 20, e Grace Marks, 16, ambos empregados de Kinnear, estavam em fuga para os Estados Unidos. A imprensa dizia que eles eram amantes.

Embora os dois tenham sido condenados à morte em julgamento, apenas o rapaz foi enforcado. O crime, ocorrido no município de Vaughan, no então chamado Canadá Superior — hoje a região é conhecida como o estado de Ontário —, continua a instigar curiosidade. Não se sabe exatamente o papel que Marks teve nos assassinatos, mas é certo que ela participou deles. A garota foi sentenciada à prisão perpétua. Por que o júri a permitiu viver? Ela matou ou não matou o patrão e a governanta?

Você pode tirar suas próprias conclusões ao ler Vulgo Grace (Alias Grace, no título original), romance de Margaret Atwood que aborda o caso, ou assistir à minissérie baseada nele, que estreia na Netflix nesta sexta-feira (3).

“Grace Marks recebeu clemência porque foi capaz de ganhar a simpatia de um júri todo masculino por meio da bem-sucedida performance de gênero que ela fez”, defende a historiadora canadense Ashley Banbury.

“Ela usou o cavalheirismo e o protecionismo do sistema legal do Canadá do século 19 ao colocar-se como uma mulher ‘digna’ da proteção da lei.”

Banbury, quando estudante de história na Universidade Mount Royal, em Calgary, Alberta, escreveu um dos poucos artigos acadêmicos sobre o caso de Marks. Publicado no periódico Mount Royal Undergraduate Humanities Review, o texto baseia-se nos transcritos do julgamento, reportagens de jornais da época e o diário de uma mulher que visitou a garota na prisão.

A historiadora disse em entrevista ao HuffPost Brasil que usou “um pouco de lente feminista” para fazer a análise.

O que tornou Marks “digna” foi encaixar-se no preceito da “mulher ideal” daquela época: “virtuosa, casta, subserviente, modesta, bela e respeitável”. Banbury, hoje estudante de Direito na Osgoode Hall Law School, Toronto, defende no artigo que fosse vítima ou acusada, a mulher naquele tempo era pressionada a provar aderência a essas características quando dentro de um tribunal colonial.

O sistema legal, por sua vez, tornava-se mais simpático às prisões em vez de penas de morte — era uma maneira de os homens que faziam parte dele mostrarem o quão progressistas eles eram. Sujeitar mulheres à forca iria contra o então movimento de tornar o Canadá um país mais civilizado.

Grace Marks, basicamente, usou o sistema patriarcal contra ele próprio para escapar da pena de morte.

Netflix/Divulgação Imigrante da Irlanda, Grace Marks teve um pai alcoólatra e abusivo (na imagem, Sarah Gadon em cena da adaptação para a TV).

Netflix/Divulgação
Imigrante da Irlanda, Grace Marks teve um pai alcoólatra e abusivo (na imagem, Sarah Gadon em cena da adaptação para a TV).

Na ocasião, as coisas não estavam boas para o lado dela: ela era uma imigrante irlandesa de apenas 16 anos que não tinha raízes no país ao qual chegara apenas quatro anos antes. Ela vinha de uma família de mais cinco irmãos, cujo pai era alcoólatra e abusivo; a mãe morrera no navio durante a viagem. O histórico dela de estabilidade em empregos deixava a desejar também. Quando Kinnear a contratou, tratava-se do quinto emprego dela. Marks trabalhava para ele há menos de um mês quando o patrão e a governanta foram assassinados.

“Ela se retratou não apenas como a mulher ideal, mas também como vítima das maquinações de McDermott, acusando-o de ser o mentor dos assassinatos”, conta Banbury.

Durante o julgamento, a garota chegou a contradizer a “feminilidade” que demonstrava ter, ao confessar que não impediu o colega de assassinar Montgomery. Marks relatou, por exemplo, que em uma mesma noite em que ela dividiria um quarto com a governanta, McDermott disse que mataria Montgomery durante o sono com um machado.

“Eu supliquei que ele não a matasse naquela noite, senão poderia me acertar em vez dela”, contou Marks.

Ela também disse: “Pelo amor de Deus, não a mate no quarto, você vai deixar o chão todo ensanguentado”.

Não houve objeção ao assassinato e tampouco houve tentativa de avisar Montgomery.

Apesar disso tudo, deu certo: Nem o fato de Montgomery estar grávida, como foi descoberto na autópsia, e possivelmente do patrão, fez a garota ser condenada à morte pelo tribunal.

McDermott, por sua vez, tentou convencer a todos de que era o “homem ideal” daquela época: heterossexual, respeitável, com laços na comunidade e posse de propriedades. No entanto, o tiro saiu pela culatra.

“A falta de simpatia do júri por ele também ajudou Marks a evitar a execução”, diz a historiadora.

“Quanto mais ele a culpava pelos assassinatos, mais a comunidade (e até o advogado de defesa dele!) o culpava não apenas pelas mortes, mas por ‘coagir’ Marks a envolver-se nelas.”

Toronto Public Library Retratos de Marks e McDermott feitos no julgamento.

Toronto Public Library
Retratos de Marks e McDermott feitos no julgamento.

O artigo da canadense levanta que historiadores tendem a discordar a respeito da performance de gênero de mulheres em tribunais na época colonial, tomados pelo pensamento patriarcal e protecionista.

Acreditava-se que o dever do homem era proteger as mulheres — e eles precisavam ser vistos como homens pela sociedade. Algumas mulheres se valeram disso para fazer o papel da “mulher ideal” ou da “vítima perfeita” e, assim, obter a proteção dos homens. Era uma maneira de elas afirmarem a demanda delas por justiça.

Outros historiadores, por outro lado, afirmam que a necessidade de desempenhar uma performance de gênero em julgamento significava que os tribunais não eram capazes de proteger a maioria das mulheres.

Por ter sido quase impossível para elas terem todas as rigorosas características da “mulher ideal”, os julgamentos pendiam para performances de gênero. Assim, verificava-se o quão próxima do ideal a mulher estava — o que poderia ter um papel-chave no veredito. Muitas não consideraram ter acesso à julgamentos justos.

Grace Marks foi vista fazendo isso. Vizinhos e testemunhas a apoiaram. Para eles, era simplesmente impossível que uma garota jovem, bonita, trabalhadora e respeitável fosse capaz de matar alguém.

Após a condenação, ela foi enviada à prisão Kingscon Penitentiary para cumprir a pena.

A história da garota não para por aí. Uma vez encarcerada, ela continua a intrigar e refletir o pensamento patriarcal, violento e contraditório que permeava a sociedade canadense.

Toronto Publica Library Capa do transcrito do julgamento de Grace Marks e James McDermott.

Toronto Publica Library
Capa do transcrito do julgamento de Grace Marks e James McDermott.

Em artigo no periódico Canadian Woman Studies, a socióloga Kathleen Kendall, da Universidade de Southampton, do Reino Unido, levanta que após oito anos e meio de encarceramento, Marks começou a apresentar sinais de loucura.

O humor dela passara a oscilar da euforia à quietude e apreensão; ela dizia ver diariamente figuras estranhas invadirem seu corpo e deixou de dormir à noite para procurá-las em seu quarto.

Marks foi transferida para o manicômio Provincial Lunatic Asylum, em Toronto, no qual passou os 16 anos seguintes. Aos 20 e poucos anos, ela se tornara um dos primeiros prisioneiros do Canadá a serem chamados de “criminosos loucos”.

Kendall, cuja linha de pesquisa aplica o ponto de vista da sociologia na medicina, diz no artigo que naquela época os “loucos” começaram a ser identificados como um grupo de pessoas moralmente repreensíveis, dignas de serem presas.

As prisioneiras viviam uma contradição. Acreditava-se que mulheres eram seres moralmente puros por nascença e criminosas tinham dentro de si tanto a pureza quanto a corrupção moral — elas eram inocentes e culpadas, boas e más.

Eram vistas, portanto, como mais corruptas do que homens, porque haviam violado uma suposta lei natural. Ou eram apenas vítimas das circunstâncias. Kendall argumenta que, se pertencesse ao primeiro grupo, uma mulher “não havia deixado a graça, estava além dela”, mas “se estivesse no segundo, a virtude iria permanecer [nela]”.

O resultado dessa ambiguidade era o tratamento tanto negligente quanto paternalista que as detentas recebiam dentro de um sistema que, em tese, tinha como principal objetivo moralizar os criminosos, vistos como imorais.

Depois do período no manicômio, Marks voltou à penitenciária, com seu mundo de punições físicas e rigorosa disciplina. Após um total de 30 anos de encarceramento, ela foi perdoada e liberada por bom comportamento.

Registros da Kingscon Penitentiary contém um diálogo com ela na ocasião da libertação:

“Pergunta: Na sua opinião, quais são os melhores meios para se regenerar criminosos?

Resposta: Tratamento gentil.

Pergunta: Você acredita que sua prisão lhe foi benéfica de um ponto de vista moral e religioso? E que agora você está mais qualificada para se sustentar do que antes de entrar na prisão?

Resposta: Duvido.”

Ela se mudou para Nova York e acredita-se que tenha vivido lá até a morte.
Grace Marks segundo Margaret Atwood

Publicado em 1996, Vulgo Grace é finalista do renomado prêmio Booker e considerada uma das principais obras da escritora canadense. Trata-se de uma abordagem ficcional do caso, embora esteja embasada em pesquisa feita pela autora.

O psiquiatra Dr. Simon Jordan, personagem criado por Atwood, entrevista Grace Marks para conhecer a história dela. Há várias suspeitas de que a garota seja louca, pois ela tem episódios de histeria e não consegue se lembrar dos acontecimentos relacionados às mortes de Thomas Kinnear e Nancy Montgomery. Talvez ela seja apenas insana e nem tenha assassinado os patrões, afinal. Este é o ponto de partida para a narrativa de Vulgo Grace se desenrolar.

Em outubro deste ano, o romance ganhou nova edição da Rocco, que publica no Brasil as obras de Atwood. Geni Hirata, tradutora do livro, afirma que se trata de uma obra de ficção não convencional.

“E apesar de ter levantado todas as informações sobre o caso e não ter contrariado nenhuma delas, Atwood não desvenda os mistérios e enigmas de um duplo assassinato, nem provém respostas factuais”, conta.

“Um aspecto recorrente em Vulgo Grace e em outras obras da autora é a extrema dificuldade em se descobrir o que realmente aconteceu em determinada ocasião. Na realidade, sua ficção reflete questões mais amplas da condição humana, o controle opressivo da sociedade, condições de extremo desespero e privação, e a opressão feminina.”

O trabalho faz parte de uma leva de novas edições de livros da autora com projeto gráfico de Laurindo Feliciano. Começou em janeiro deste ano com Dicas da Imensidão — coleção de contos até então inédita — e em junho continuou com o clássico O Conto da Aia. Em 2018, sairão novas edições de Oryx e Crake e O Ano do Dilúvio, os dois primeiros volumes da trilogia de ficção científica/distopia MaddAddam; o último volume, também chamado MaddAddam, será publicado próximo do fim do ano.

Laurindo Feliciano/Rocco Nova capa de 'Vulgo Grace', feita por Laurindo Feliciano para a Rocco.

Laurindo Feliciano/Rocco
Nova capa de ‘Vulgo Grace’, feita por Laurindo Feliciano para a Rocco.

Ao ler Vulgo Grace pela primeira vez ainda adolescente, a cineasta e atriz canadense Sarah Polley, indicada ao Oscar de melhor roteiro adaptado por Longe Dela (2007), já queria adaptar o romance para o cinema.

Vinte anos depois, em 2012, foi anunciada a sonhada adaptação para longa-metragem, mas no fim, tornou-se uma minissérie — dirigida por Mary Harron (Psicopata Americano), escrita por Polley e com Sarah Gadon (Indignação) no papel de Grace Marks. Exibida em setembro pela emissora canadense CBC, Alias Grace chega ao catálogo mundial da Netflix agora em novembro.

Coincidentemente, a estreia ocorre no mesmo ano em que The Handmaid’s Tale (Hulu), série baseada em O Conto da Aia, causou enorme alvoroço e venceu oito Emmys, tornando-se uma das produções mais premiadas da cerimônia (a série chega ao Brasil no início de 2018 pelo Paramount Channel). Wandering Wenda (CBC), desenho animado infantil baseado em outro livro de Atwood, também teve estreia neste ano.

É incontornável falar da obra da escritora sem mencionar sua tradição de sempre contar histórias com personagens femininas no mínimo incomuns. Segundo Polley, enquanto em O Conto da Aia Atwood imagina uma (extrema) possibilidade, em Vulgo Grace ela aborda o quão longe os direitos das mulheres já chegaram. A roteirista acredita que, hoje, vivemos um momento entre essas duas histórias.

George Pimentel via Getty Images Sarah Polley, Margaret Atwood e Sarah Gadon no Toronto International Film Festival.

George Pimentel via Getty Images
Sarah Polley, Margaret Atwood e Sarah Gadon no Toronto International Film Festival.

“Essas questões são urgentes e fico feliz por essas coisas da Margaret estarem no mundo dessa maneira”, disse em entrevista à CBC News.

A escritora já viu a minissérie e aprovou. Ela disse, também à CBC News, que os roteiros de Sarah Polley são “poderosos”.

“Devo dizer que me deu pesadelos terríveis. Não me refiro aos que você tem quando acordado — O Conto da Aia me dá esses. Quando eu estava dormindo, [Alias Grace] me deu pesadelos.”

Os dois primeiros episódios foram exibidos em setembro no Festival de Toronto. Os comentários que circulam pela internet, além de elogios da crítica especializada, indicam que bem como The Handmaid’s Tale, a minissérie traz questões contemporâneas — mas, desta vez, no século 19. Discriminação de imigrantes, aborto e luta de classes são algumas, segundo o New York Times.

Com seis episódios de uma hora de duração cada, Alias Grace também tem no elenco Zachary Levi, Rebecca Liddiard e David Cronenberg.

Portugal inclui igualdade de gênero nas escolas em projeto experimental de currículo flexível

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A Escola Secundária de Moura, que fica na região do Alentejo, é uma das 235 instituições de ensino portuguesas a adeirar ao projeto experimental (Foto: Reprodução/Google Maps)

A Escola Secundária de Moura, que fica na região do Alentejo, é uma das 235 instituições de ensino portuguesas a adeirar ao projeto experimental (Foto: Reprodução/Google Maps)

Projeto tem aulas sobre temas de ‘cidadania e desenvolvimento’, como igualdade de gênero, interculturalidade, segurança rodoviária e educação financeira.

Ana Carolina Moreno, no G1

O ano letivo em Portugal começou, no mês passado, com uma novidade em 235 escolas públicas e privadas. Elas fazem parte do Projeto de Autonomia e Flexibilidade Curricular, uma experiência pedagógica aprovada pelo Ministério da Educação que incluiu uma nova disciplina no currículo: cidadania e desenvolvimento.

Estudantes de quatro faixas etárias vão participar do projeto-piloto. Eles estão matriculados, no ano letivo 2017-2018, nos primeiros anos de cada um dos três ciclos do ensino básico (equivalente ao fundamental, no Brasil), e do ensino secundário (o ensino médio). Isso quer dizer que os alunos do 1º, do 5º, do 7º e do 10º anos terão aulas de cidadania e desenvolvimento, que vão ser ministradas em modelos distintos.

Portugal tem atualmente cerca de 1,3 milhões de estudantes matriculados em 4.314 escolas do primeiro ciclo do ensino básico, 1.209 escolas do segundo ciclo, 1.486 do terceiro ciclo, e 963 escolas de ensino secundário, segundo dados oficiais.

Ao G1, o governo português explicou que a Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania prevê liberdade para as escolas definirem como vão distribuir as aulas ao longo do ano, e “possibilitando a realização de projetos interdisciplinares”.

O objetivo, segundo o Ministério da Educação, é “que os estudantes desenvolvam e participem ativamente em projetos que promovam a construção de sociedades mais justas e inclusivas, no quadro da Democracia, do respeito pela diversidade e da defesa dos direitos humanos”.

A estratégia é um resultado de um processo de discussão que ouviu estudantes professores e entidades da sociedade civil sobre a promoção da educação para a cidadania no meio escolar, e foi desenvolvido pelo Grupo de Trabalho de Educação para a Cidadania, criado em 2016.

Três grupos de conteúdo

O projeto separa os conteúdos de cidadania e desenvolvimento em três grupos: o primeiro tem temas que deve ser tratados obrigatoriamente com os alunos de todos os anos participantes do projeto. Nesse grupo estão incluídos a igualdade de gênero e os direitos humanos.

No segundo grupo, o conteúdo deve aparecer em pelo menos dois dos três ciclos de ensino básico. Já os conteúdos do terceiro grupo são opcionais, e as escolas podem escolher apresentá-los aos estudantes de qualquer ano.

Veja abaixo a divisão dos conteúdos por grupo:

Grupo 1: direitos humanos, igualdade de gênero, interculturalidade, desenvolvimento sustentável, educação ambiental e saúde
Grupo 2: mídia, instituições e participação democrática, literacia financeira e educação para o consumo, sexualidade e segurança rodoviária
Grupo 3: empreendedorismo, mundo do Trabalho, risco, segurança, defesa e paz, bem-estar animal, voluntariado, outras (de acordo com as necessidades de educação para a cidadania diagnosticadas pela escola)

Um site criado pelo governo reúne materiais elaborados pelo ministério em parceria com entidades públicas e da sociedade civil, para “apoiar as escolas no trabalho”.

Projeto experimental

O despacho que instituiu o projeto, assinado pelo secretário de Estado da Educação, João Miguel Marques da Costa, em junho deste ano, deu às escolas autonomia para aderirem ou não à experiência. As 235 instituições participantes são de todas as partes de Portugal, incluindo os Açores, a Ilha da Madeira e quatro escolas portuguesas em outros países (Cabo Verde, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor Leste).

O texto cita a importância de melhorar a qualidade de ensino para que as escolas consigam fazer com que todos os estudantes, quando terminem a “escolaridade obrigatória” (ou seja, os 12 anos de ensino básico e secundário) atinjam o mesmo nível, definido no que Portugal chama de “perfil dos alunos”.

O perfil foi definido pelo governo um documento que prevê a formação, em todos os alunos do país, de valores como “responsabilidade e integridade”, “cidadania e participação” e “excelência e exigência”.

Entre outros princípios inclusos no despacho está a “garantia de uma escola inclusiva, cuja diversidade, flexibilidade, inovação e personalização respondem à heterogeneidade dos alunos, eliminando obstáculos de acesso ao currículo e às aprendizagens, adequando estas ao perfil dos alunos”.

Além disso, o documento fala sobre a “flexibilidade contextualizada na gestão do currículo”, o que exige a utilização de “métodos, as abordagens e os procedimentos que se revelem mais adequados para que todos os alunos alcancem o Perfil dos alunos”.

Meu país é rico, mas eu não posso ir à escola

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 Uma criança vai para a escola levando sua mochila no Congo. Entreculturas

Uma criança vai para a escola levando sua mochila no Congo. Entreculturas

Há 264 milhões de menores sem escolarização no mundo e dois terços vivem em países com recursos naturais abundantes

Lola Hierro, no El País

No início de setembro, cidades e vilarejos se enchem desde bem cedo de crianças sonolentas e nervosas que enfrentam seu primeiro dia de aula. Essa imagem tão habitual para alguns não é, de forma alguma, algo comum para muitos, muitíssimos outros. Recentemente, vem avançando a escolarização dos menores —entre 2000 e 2015 o acesso à escola primária chegou a 90% das crianças— mas ainda restam 264 milhões fora da escola em todo o mundo. E dois terços deles vivem em países ricos em recursos naturais, mas que paradoxalmente ocupam os últimos postos de desenvolvimento e têm orçamentos em educação inferiores a 3% de seu PIB.

Para chamar a atenção sobre esta realidade tão gritante, a ONG Entreculturas lançou a campanha Escolas em perigo de extinção e, com ela, um relatório intitulado Educação em zonas de conflito que analisa minuciosamente as relações entre o direito à educação, a exploração dos recursos naturais, a paz e o desenvolvimento sustentável.

“A forte pressão sobre os recursos minerais, fósseis, pesqueiros, florestais, agrícolas e hídricos e a luta por seu controle geram, além da degradação ambiental, tensão, conflitos, violência e deslocamentos forçados”, resume o estudo, que descreve como os civis que vivem nessas regiões exploradas veem seus direitos serem violados. Sobretudo o da educação. Os dados falam por si: 87% das pessoas desalojadas no mundo na última década vêm de regiões de exploração mineira e petrolífera.

Hombeline Bahati, coordenadora de um projeto de melhoria de qualidade de vida do Serviço Jesuíta ao Refugiado, conhece o assunto. Trabalha em Masisi, na castigada região de Kivu norte, na República Democrática do Congo (RDC). Um país com abundantes recursos minerais que há 20 anos está mergulhado em um conflito sem perspectivas de acabar. A RDC é uma mina de tântalo, o minério que faz funcionar os telefones móveis, e todos querem se beneficiar dela.

“Há problemas tribais por conta do acesso por terra, porque com a crise de Ruanda nos anos noventa, os hutus se deslocaram para Masisi e continuam ali, e não há lugar para todos”, explica Bahati, em Madri, onde está para dar visibilidade a seu trabalho. “Então, desde que chegaram os brancos para ajudar e descobriram a riqueza de nossas montanhas, começaram a explorar a terra e não mais só para cultivá-la, mas para obter maiores benefícios. Aí entraram o Governo, as milícias, as grandes empresas extrativistas… já foi uma luta de todos contra todos”, descreve.

Só em Masisi estão 11 campos de refugiados e Bahati trabalha em sete. Estima-se que neles vivem —ou sobrevivem— cerca de 36.000 pessoas. “A partir da formação em diferentes ofícios, essas pessoas podem ser autônomas. São famílias que tiveram de ir para outras cidades ou campos de refugiados para ter o mínimo de tranquilidade, porque sofriam com os confrontos entre guerrilhas e entre estas e o exército regular”.

É um círculo vicioso: menos educação, mais conflitos, mais conflitos, menos educação. E a particularidade de que a briga tem a ver direta ou indiretamente com a exploração dos recursos de um país só piora as coisas. Segundo o relatório, é um agravante para as crianças em idade escolar: “Dez dos países com indicadores educacionais mais baixos são ricos em recursos naturais. Oito deles estão sendo ou foram assolados por conflitos. Dos 40 conflitos produzidos entre o ano de 1999 e o de 2013 foram feitos ataques recorrentes à educação, mais da metade vinculados direta ou indiretamente aos recursos naturais”, enumera. E além disso durante os últimos 60 anos, entre quatro e seis em cada 10 conflitos armados tiveram um vínculo com a exploração de recursos naturais. A maioria foi na África subsaariana, mas também na América Latina e Ásia.

A razão fundamental é que essas contendas se prolongam por mais tempo, estão associadas a maiores níveis de violência, especialmente contra as mulheres, e são mais difíceis de superar. O risco de ressurgimento é muito mais alto, em parte porque os processos de paz e reconciliação não costumam abordar a governança e a gestão dos recursos naturais.

Em Masisi, Bahati é testemunha diariamente de como isso afeta a educação das crianças: “Quando há um conflito nada funciona, nem os colégios. Chegam famílias refugiadas com seus filhos para uma nova comunidade e as escolas da região não têm vagas para todos, estão lotadas, então as crianças não conseguem ter acesso à educação ou têm a uma de muito má qualidade”, descreve.

Outras guerras menos visíveis

Há conflitos armados mais violentos à primeira vista, como o da República Democrática do Congo. Neles há ataques a escolas, assassinatos, deslocamentos forçados de comunidades inteiras e uma importante degradação do meio ambiente. Mas existem outros de menor escala que afetam milhões de pessoas de pequenas comunidades locais e têm sua origem na apropriação de enormes extensões de terras que depois serão exploradas por grandes empresas (cultivos de soja em grande escala, por exemplo, na América Latina) ou na luta por recursos decrescentes (água, terras, pastos, pesca…).

Calcula-se que há ativos mais de 2.000 conflitos ambientais, uma cifra que aumentou nos últimos anos em paralelo com os assassinatos de ecologistas, que com frequência também exercem a liderança educacional em suas comunidades. Um dos mais conhecidos foi o de Dorothy Stang, mas não o único. Estes crimes aumentaram 59% entre 2004 e 2015, com 185 assassinatos em 16 países, segundo o último relatório da Global Witness.

Nos conflitos armados relacionados com recursos naturais são frequentes os ataques à educação. Desde os ataques a escolas e professores, a destruição de salas de aula, o recrutamento de meninas e meninos como soldados até a violência contra mulheres e meninas, estudantes e docentes. No caso da República Democrática do Congo, desde 2013 foram destruídas mais de 500 escolas e prejudicados mais de 200.000 alunos.

Nos conflitos ambientais os impactos não são tão visíveis, em parte porque os ataques diretos a escolas, professores e estudantes são menos frequentes, mas também são muito danosos e violam o direito à educação de milhões de menores. A apropriação de terras por parte de empresas desloca a população que nelas habitava ou trabalhava, com a consequente perda de oportunidades educacionais para os afetados. No Quênia há 30.000 escolas em risco de desaparecimento por causa deste fenômeno. Um total de 83% não conta com um título jurídico de propriedade, por isso seus efetivos donos não podem defender-se.

Uma questão de gênero

Dentre todos os prejudicados por esse tipo de disputa, as mulheres e meninas têm um problema adicional. A educação lhes dá poder para enfrentar diversas discriminações. Mas se não têm a oportunidade de se formar, serão mais propensas a sofrer outros abusos. É o caso do casamento infantil ou do acesso à saúde e ao emprego. Sem esquecer que nos lugares onde existem conflitos pelos recursos naturais há com frequência violações em massa de mulheres, como arma de guerra. Além das sequelas físicas e psicológicas, elas ficam estigmatizadas por toda a vida e marginalizadas, por isso o tecido social das comunidades acaba destroçado.

Bahati descreve sua experiência com essa situação. Explica que os deslocados perdem o acesso à terra, já não têm onde cultivar e, portanto, deixam de ganhar dinheiro. “Quando muito podem realizar alguma atividade econômica informal, mas se lhes sobra algo do pouco dinheiro que ganham para destinar à educação, vão privilegiar os filhos homens”, conta Bahati. “O fato de as meninas ficarem nos campos sem fazer nada as leva à escravidão sexual: nos meus campos acontece muito”, afirma a congolesa. “Por menos de meio dólar, os pais as prostituem.”

Mais guerra, pior alimentação e pior educação

Como se mencionava antes, uma boa parte das pessoas mais pobres do mundo vive em países ricos em recursos naturais. E também boa parte das que passam fome. Essa combinação de pobreza e fome dificulta o acesso à educação e a aprendizagem efetiva: uma criança com fome ou com carências nutricionais não vai render adequadamente na escola. No entanto, a educação é fundamental para sair do círculo da pobreza.

 Duas meninas trabalham no campo, na Etiópia. Entreculturas

Duas meninas trabalham no campo, na Etiópia. Entreculturas

O mesmo ocorre com os problemas de saúde: afetam o direito à educação porque favorecem o absenteísmo, o abandono e as dificuldades de aprendizagem. Outras consequências sobre a saúde são a poluição gerada pelas indústrias da mineração ou dos hidrocarbonetos, a destruição da infraestrutura sanitária e a propagação de doenças.

Medidas realistas

Com esta campanha, a Entreculturas faz um chamado aos Governos de países onde existem conflitos relacionados com os recursos naturais. Exortam-nos a buscar o consentimento livre, prévio e informado das populações locais e a que respeitem seus direitos fundamentais, sobretudo o direito à vida, à alimentação adequada, à saúde e à educação. Sobre esta última, o relatório enfatiza que é imprescindível que sejam reforçados os meios e o financiamento atuais para mitigar os déficits existentes. Um exemplo positivo, na opinião dos pesquisadores, é o da Etiópia, onde a pobreza foi reduzida à metade desde 1995, quando o país começou a aplicar programas educacionais mais eficazes.

No caso das comunidades indígenas, é dada ênfase especial no investimento em uma educação bilíngue, em um reforço do enfoque multicultural e da orientação da educação para o empoderamento para a defesa dos direitos referentes a seu estilo de vida, à propriedade da terra e à gestão de seus recursos.

Por outro lado, os autores consideram necessário incorporar a questão da governança dos recursos naturais aos processos de paz e reconciliação por parte dos Governos nos países em conflito, dos atores que desempenham um papel de mediação e das organizações sociais que contribuem para a restauração da paz.

Apesar de tudo, Hombeline Bahati sabe que nem Masisi nem Kivu serão uma terra pacífica em curto prazo. Por isso, pede a adoção de medidas realistas para conseguir que a população sobreviva da maneira mais digna possível e com acesso aos melhores recursos, também dentro das circunstâncias. Não se pode acabar com a guerra de um dia para o outro, mas é possível sensibilizar as comunidades locais sobre a importância da educação. Ela, nascida nessa terra indômita, vai notando mudanças. “A sensibilização é muito importante, cada vez mais pais entendem que é fundamental que seus filhos e filhas se formem. O aumento da demanda é observado também na existência de um número cada vez maior de universidades e centros de formação profissional. Antes eram para poucos privilegiados, mas nos últimos anos o acesso se tornou mais comum”, afirma.

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