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Posts tagged George Orwell

Os seis conselhos de George Orwell para escrever melhor

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Edições do livro ‘1984’ na Feira do Livro de Hong Kong. Aaron Tam / AFP

Escritor os incluiu em ensaio publicado em 1946, em que criticava principalmente a linguagem política

Jaime Rubio Kancock, no El País

Normalmente se diz que não há regras para escrever bem. Mas não é verdade. Ajuda ter em mãos, por exemplo, as seis normas propostas por George Orwell. Seu filho, Richard Blair, as lembrou em uma entrevista feita por Bernardo Marín e publicada há alguns dias pelo EL PAÍS.

1. Nunca use uma metáfora, comparação ou outra frase feita que esteja acostumado a ver escrita.

2. Nunca use uma palavra longa se pode usar uma curta que signifique o mesmo.

3. Quando possível eliminar uma palavra, sempre elimine.

4. Nunca use a voz passiva quando puder usar a ativa.

5. Nunca use uma expressão estrangeira, una palavra científica ou um termo de jargão se puder pensar em uma palavra equivalente em seu idioma que seja de uso comum.

6. Descumpra qualquer uma dessas regras antes de escrever algo que pareça estúpido.

Orwell as incluiu em um ensaio intitulado Politics and the English Language (A Política e a Língua Inglesa), publicado em 1946 na revista Horizon. O artigo criticava principalmente a linguagem política, mas seus conselhos podem ser aplicados a qualquer texto. Por exemplo, o The Guardian o citou há alguns anos para criticar como escrevemos na internet. E também pode servir para qualquer idioma, apesar de o ponto 4, o que se refere à voz passiva, ser aplicado com mais frequência no inglês.

Para o autor britânico, essa preocupação com a linguagem não é nem “frívola” nem exclusiva dos escritores profissionais. Quando alguém se livra dos maus hábitos ao escrever, “pode pensar com mais clareza, e pensar com clareza é o primeiro passo para a regeneração da política”.

Tópicos imprecisos

Na opinião do autor britânico, são dois os problemas principais de muitos textos: as imagens banais e a falta de precisão. Quando escrevemos temos que deixar que “o significado escolha a palavra, e não ao contrário”, afirma. Tem que se fazer um esforço e pensar antes de começar a juntar letras, para evitar assim “as imagens desgastadas ou confusas, todas as frases pré-fabricadas, as repetições desnecessárias e os enganos e imprecisões”.

Nos textos que critica se acumulam “metáforas moribundas”, que foram tão usadas que perderam seu significado. Pensemos, por exemplo, em “enlouquece as redes sociais”. Outro vício habitual, segundo Orwell, é o de usar termos pretensiosos com a intenção de “dar um ar de imparcialidade científica a juízos tendenciosos”, além de “palavras que quase carecem de significado”.

Por exemplo, termos como democracia, socialismo e liberdade, que normalmente são usados com “significados diferentes que não se podem reconciliar entre si”. Não é o mesmo ler informação sobre notícias falsas em um texto do The New York Times e declarações de Donald Trump, que se apropriou dessa expressão, fake news, para classificar todas as manchetes de que não gosta.

Paradoxalmente, outra palavra que não significa o mesmo de acordo com quem a utiliza é “orwelliano”, usada por “críticos de todos os lados”, como publicou o The New York Times em um artigo que mencionava que esse texto, é, junto com 1984 e A Revolução dos Bichos, um dos mais influentes de Orwell.

George Orwell pensando em se seguir suas cinco primeiras normas ou apostar em a sexta Getty Images

Defender o indefensável

Como já apontamos, Orwell se preocupava principalmente em como eram mal escritos os textos políticos, algo que não podemos dizer que tenha mudado muito. Orwell cita exemplos que parecem muito atuais, como falar de “pacificação” quando “se bombardeia povoados indefesos pelo ar” ou de “transferência de população” quando “se despeja milhões de camponeses de suas terras”.

“Um orador que usa essa classe de fraseologia tomou distância de si mesmo e se transformou em uma máquina” que tenta “defender o indefensável”, escreveu Orwell. O que consegue é que “as mentiras pareçam verdadeiras, e o assassinato, respeitável”. Como recorda Steven Pinker em The Sense of Style, essa abstração tão vaga acaba desumanizando.

Quatro perguntas

É fato que escrever mal é fácil: não precisa se preocupar como nos expressamos, basta escolher expressões do catálogo de frases feitas. Mas também leva a que os textos sejam desagradáveis e ineficazes.

Por outro lado, um escritor cuidadoso se fará ao menos quatro perguntas antes de redigir qualquer texto:

– O que quero dizer?

– Quais palavras expressam isso?

– Qual imagem ou expressão deixa mais claro?

– Essa imagem é suficientemente nova para fazer efeito?

E talvez mais duas:

– Posso ser mais breve?

– Disse algo feio que é evitável?

Orwell e a pós-verdade

Os seis conselhos de Orwell para escrever bem são muito conhecidos, mas ultimamente se fala bem mais de outro texto de Orwell: o romance 1984, publicado em 1949, três anos depois de A Política e a Língua Inglesa. O clássico sempre foi popular (a primeira adaptação cinematográfica foi feita em 1956), mas nos últimos meses foi bastante citado em referência à pós-verdade e às notícias falsas. Um exemplo: esse fragmento que poderia explicar a diferença entre uma mentira e uma pós-verdade.

Aqui, a palavra-chave é preto-branco. Como tantas outras palavras da novilíngua, também esta tem dois sentidos antagônicos. Aplicada a um opositor, significa o hábito de afirmar sem pudor que o preto é branco, contrariando a evidência dos fatos. Aplicada a um membro do Partido, designa a lealdade diligente em afirmar que o preto é branco quando a disciplina do Partido assim exige. Mas significa também a capacidade de acreditar que o preto é branco, e mais ainda, de saber que o preto é branco, e esquecer que alguma vez se tenha pensado o contrário. Isso implica a constante alteração do passado, só possível pelo sistema de pensamento que na verdade abarca todo o resto, e que se designa na novilíngua pela palavra duplipensar.

Clássico da literatura A Revolução dos Bichos vai virar game

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Todos games são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros

Matt Davidson, no IGN

Uma equipe de desenvolvedores independentes se juntou para criar uma adaptação em game do clássico livro A Revolução dos Bichos (Animal Farm), escrito e lançado pelo autor norte-americano George Orwell em 1945.

Descrito no site oficial como um game do gênero “adventure-tycoon”, o game Animal Farm irá colocar os jogadores no papel de um dos animais vivendo na fazenda antes e durante da chamada “revolução dos bichos, mostrando assim os “altos e baixos do Animalismo”.

O lado “adventure” do game vai focar em escolhas, permitindo ao jogador decidir seu caminho nessa revolução animal. Já o aspecto “tycoon” vai focar no gerenciamento da fazenda, de modo que ambos estilos combinados vão criar uma “narrativa consistente”, permitindo que os jogadores experimentem as consequências de suas decisões de gerenciamento ao longo da trama.

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Publicado originalmente em 1945, A Revolução dos Bichos é considerado uma das grandes obras da ficção moderna e é constantemente citado em listas de “melhores livros de todos os tempos”. Escrito sob o ponto de vista de animais vivendo em uma fazenda, Orwell quis refletir a ascensão do stalinismo na Rússia e fazer uma alegoria sobre os perigos do poder absoluto e de regimes totalitaristas. Foram exatamente esses os temas que conduziram a equipe criativa a desenvolver o game.

Imre Jele (fundador do Bossa Studios), disse ao site Polygon: “É a hora certa para a sociedade, uma vez que estamos nos encaminhado para uma era desconfortavelmente parecida com o universo descrito por George Orwell”, ressaltando ainda que o time quer que o jogador seja capaz de se identificar da mesma forma com o “opressor e os oprimidos”. Além de Jele, a equipe de desenvolvimento inclui Andy Payne (fundador da Just Flight e da AppyNation), Georg Backer (Fable), Jessica Curry (Everybody’s Gone to the Rapture, Dear Esther), Kate Saxon (Mafia III, Alien: Isolation, Witcher 3), entre outros.

É importante ressaltar que o projeto foi totalmente autorizado pelos herdeiros de George Orwell, os quais, de acordo com Jele, “discutiram nossos objetivos e ideias incansavelmente durante o processo, da forma que deveriam”.

Ainda não há informações sobre a data de lançamento, mas a equipe de desenvolvimento confirmou que o game será lançado para PC e “outras plataformas”.

Flip 2017: escritora sul-africana Deborah Levy é mais uma confirmada

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A escritora sul-africana Deborah Levy, uma das convidadas da Flip 2017 - Sheila Burnett / Divulgação

A escritora sul-africana Deborah Levy, uma das convidadas da Flip 2017 – Sheila Burnett / Divulgação

 

Em ‘Coisas que não quero saber’, autora responde a Orwell e dialoga com Virginia Woolf

Publicado em O Globo

RIO – Deborah Levy, escritora sul-africana radicada na Inglaterra, será mais uma das convidadas da 15ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que acontece entre os dias 26 e 30 de julho. O anúncio foi feito pela organização do evento na manhã desta quinta-feira.

Autora de romances, peças e poemas, Deborah já foi finalista do Man Booker Prize duas vezes e é apontada por Liz Calder, editora e uma das fundadoras da Flip, como “uma das vozes mais originais, astutas e surpreendentes que temos hoje”.

Na Flip, a autora lançará “Coisas que não quero saber” (Autêntica), ensaio memorialístico que responde aos ensaios “Por que escrevo”, de George Orwell, e mantém um diálogo com “Um teto todo seu”, de Virginia Woolf. Na obra, Deborah reflete sobre as razões que a levaram a escrever e fala de lugares que viveu, como a África do Sul em pleno apartheid e o subúrbio londrino de Finchley.

No Brasil, ela já publicou o romance “Nadando de volta para casa” pela editora Rocco, em 2014, com o qual foi finalista do Man Booker Prize pela primeira vez. A casa vai lançar, agora, “Hot milk”, obra com a qual foi finalista do mesmo prêmio pela segunda vez. Nos livros, Deborah explora questões sobre identidade, exílio e deslocamento.

Richard Blair: “A sociedade evoluiu para o que George Orwell viu”

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Richard Blair, filho de George Orwell, na estação da Atocha (Madri), no último domingo. Carlos Rosillo

Richard Blair, filho de George Orwell, na estação da Atocha (Madri), no último domingo. Carlos Rosillo

 

Filho do escritor e presidente da Orwell Society reflete sobre o legado do seu pai

Bernardo Márin, no El País

Em fevereiro de 1937, um jovem britânico na faixa dos 30 anos, idealista e desajeitado, chegava às trincheiras da frente de Aragão para defender a República Espanhola. Chamava-se Eric Arthur Blair, embora a história o recorde como George Orwell. Neste mês, 80 anos depois do começo daquela aventura, o inglês Richard Blair, único filho do escritor, um engenheiro agrícola aposentado de 72 anos, viajou a Huesca (Espanha) para participar da inauguração de uma grande exposição sobre seu pai. Em uma conversa com o EL PAÍS durante sua rápida passagem por Madri no regresso a Londres, Blair evocou a figura de Orwell e comentou a atualidade do seu legado e a onda de interesse em torno do seu último romance, 1984, transformado em best-seller mundial desde a posse de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos.

“É verdade que nas últimas semanas, com as referências nos Estados Unidos aos ‘fatos alternativos’ [mencionados por Kellyanne Conway, uma das principais assessoras do presidente], aumentou muito o interesse por seu livro. Mas meu pai nunca deixou de estar na moda.” Originalmente, 1984 não era uma profecia, e sim uma fábula sobre os totalitarismos nazista e stalinista. Mas, como observa Blair, alguns detalhes que no romance pareciam ficção científica há bastante tempo foram incorporados ao nosso cotidiano – caso das câmeras de segurança que vigiam quase todos os nossos movimentos, ou o conhecimento que algumas empresas têm sobre nós apenas pela forma como navegamos na Internet ou pelo uso que fazemos do nosso cartão de crédito. “A sociedade evoluiu para o que ele viu. O mundo se encaminhou para Orwell”, afirma.

George Orwell e seu filho Richard, em 1946. Vernon Richards

George Orwell e seu filho Richard, em 1946. Vernon Richards

 

Blair é o presidente da Orwell Society, organização sem fins lucrativos que se dedica a promover o debate de ideias e o conhecimento sobre a vida e obra do escritor, sob uma escrupulosa neutralidade em questões políticas. Talvez por isso, escolha muito bem suas palavras quando fala de Trump. “Acho que neste momento há muita tensão e compressão na Casa Branca. É verdade que Trump está atacando a imprensa, mas é um completo enigma, todos estão manobrando e aprendendo a conviver.” Naturalmente se alegra com o aumento das vendas dos livros de seu pai, inclusive porque é o herdeiro dos seus direitos autorais, (“que caducam em 2020”, comenta). Mas admite que é inquietante que esse efeito se deva aos paralelismos vistos pelo público entre a situação atual e a distopia que Orwell descreveu.

O escritor e sua mulher, Eileen, adotaram Richard em 1944. Dez meses depois, Eileen morreu durante uma cirurgia. Alguns amigos sugeriram ao escritor, tuberculoso, que devolvesse o menino, mas ele se recusou. A relação entre pai e filho se estreitou quando ambos se mudaram para a ilha de Jura, na Escócia. Um lugar mais saudável para conviver com a doença, e tão frio que, “se você se afastasse seis polegadas [15 centímetros] da chaminé, congelava”. Daqueles anos, Blair guarda a lembrança de um pai amoroso, que lhe fabricava brinquedos de madeira, com um peculiar senso de humor e nenhum dos escrúpulos da educação moderna. Certa vez, deixou o pequeno Richard, de três anos, dar uma tragada num cachimbo que ele havia enchido com o tabaco que juntava das bitucas do pai. O efeito, além de um tremendo ataque de vômito, foi que o menino ficou, temporariamente, vacinado contra o vício de fumar.

Foi em Jura que Orwell concluiu 1984. Durante o dia, escrevia em seu quarto e compartilhava os entardeceres com o menino. Uma de suas atividades favoritas era a pesca, em especial das lagostas que completavam uma dieta parca por causa do racionamento do pós-guerra. Na volta de um fim de semana de descanso no oeste da ilha, naufragaram e quase morreram afogados. Salvaram suas vidas, mas segundo Blair, o incidente agravou a saúde do seu pai. Seu amigo David Astor, dono do jornal The Observer, onde o escritor publicava, pediu permissão para importar dos EUA o antibiótico estreptomicina, então recém-descoberto. Mas Orwell desenvolveu alergia ao medicamento, e o esforço foi em vão. “As unhas lhe caíram, brotaram bolhas nos lábios”, recorda Richard. O escritor morreu em janeiro de 1950. Tinha 46 anos, e seu filho estava prestes a completar seis.

Qual é o ensinamento mais importante que Orwell nos deixou? Para os jornalistas, há vários, segundo Blair. “Seja honesto. O mais importante são os fatos que você puder provar, não a realidade que você gostaria que fosse. Hoje, os jornalistas não têm tempo de checar os fatos, e os erros se perpetuam e se multiplicam na Internet, até se transformarem numa verdade.” O filho do escritor recorda também suas seis regras para escrever com clareza: “Nunca use uma metáfora ou comparação que você costume ler [os clichês]; nunca use uma palavra longa se puder usar outra mais curta; se puder cortar uma palavra, corte; nunca use a voz passiva se puder usar a ativa; nunca use um termo estrangeiro, científico ou jargão se puder usar uma palavra de uso cotidiano; rompa qualquer uma destas regras se a alternativa for escrever alguma coisa francamente ruim”. E conclui com a definição de liberdade feita por seu pai: “Liberdade é poder dizer algo que os outros não querem ouvir”.

Blair se diz particularmente preocupado com a falta de diálogo na sociedade contemporânea. “As pessoas se dedicam a gritar umas com as outras, sem se escutarem.” E se surpreende ao ver que os jovens, em vez de falar cara a cara, passam o dia olhando seus celulares. “Até os casais nos restaurantes! Estarão se comunicando entre si por mensagens?”, brinca. E o que pensaria Orwell do século XXI, da Internet, dos grandes avanços científicos e da pós-verdade? “Ah, essa é a pergunta do milhão. Mas não é possível entrar na cabeça de ninguém. Nem responder a isso lendo seus livros. Se fosse vivo, teria 113 anos e teria tido muitas novas influências… é bobagem especular”. Portanto, nem ele sabe, nem há como saber. Mas se atreve a supor uma coisa: que, de qualquer forma, provavelmente faria reflexões cheias de bom senso.

Richard Blair visitou a Espanha para participar da inauguração de uma exposição, intitulada Orwell Toma Café em Huesca, que recorda a participação de seu pai na Guerra Civil espanhola. A mostra, organizada pelo Governo da região de Aragão, pela administração provincial de Huesca e pela prefeitura da cidade, foi inaugurada em 17 de fevereiro, coincidindo com o 80º. aniversário da chegada do escritor à frente de Aragão, e ficará aberta até 25 de junho.

O nome da exposição é uma alusão a uma frase que Orwell incluiu em Lutando na Espanha (Homage do Catalonia), seu livro de memórias sobre o conflito, supostamente dita pelo general que comandava as tropas republicanas depois da captura da localidade de Siétamo: “Amanhã tomaremos um café em Huesca”. Mas a cidade aragonesa não caiu, embora alguns jornais da zona leal à República tenham chegado a publicar essa notícia em suas primeiras páginas.

Orwell não tomou esse café, mas Richard na semana passada aproveitou a oportunidade, na companhia de um descendente de outro protagonista da sua aventura espanhola: Quentin Kopp, organizador de eventos da Orwell Society e filho do comandante Kopp, chefe do escritor nas milícias do POUM (Partido Operário de Unificação Marxista), próximas do trotskismo.

Lutando na Espanha é uma obra honesta, que não agrada totalmente a quem mantém uma visão maniqueísta da guerra. Orwell foi à Espanha para lutar contra o fascismo, mas, como aconteceu com os trotskistas e anarquistas, acabou sendo perseguido pelos comunistas de linha soviética. A Espanha ainda não compreendeu bem sua história recente, segundo Blair, e esse livro, o mais vendido sobre a Guerra Civil, contribui para reduzir “esse grande buraco negro que há entre 1936 e 1975”. “Ainda há pessoas que chegam até mim com lágrimas nos olhos e me dizem: obrigado pelo que o seu pai fez”.

Mais que Orwell, Huxley previu nosso tempo

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Admiravel mundo novo - a ficção

O era da “pós-verdade”, dos “fatos alternativos” e da anestesia intelectual nas redes sociais mais parece a distopia “Admirável mundo novo”

Helio Gurovitz, na Época

Publicado em 1948, o livro 1984, de George Orwell, saltou para o topo da lista dos mais vendidos depois da posse de Donald Trump. Parece que as mentiras e a propaganda de Trump – ou melhor, a “pós-verdade” e os “fatos alternativos” – foram antevistos no Grande Irmão, no Ministério da Verdade e em todo o universo orwelliano. A distopia de Orwell, mesmo situada no futuro, tinha um endereço certo em seu tempo: o stalinismo. Sua obra toda, não apenas 1984, está repleta de ataques às ditaduras totalitárias que procuravam manter o poder pela censura de vozes discordantes, pelo extermínio de opositores, pelo controle da informação e pela difusão de uma versão única e centralizada da verdade. Mas é um equívoco ver em Trump ou Vladimir Putin espectros ressuscitados do nazismo e do stalinismo, retratados em 1984. Orwell fez uma caricatura da ditadura, não da democracia. O mundo da “pós-verdade”, dos “fatos alternativos” e da anestesia intelectual nas redes sociais mais parece outra distopia, publicada em 1932: Admirável mundo novo, de Aldous Huxley.

Não se trata de uma tese nova. Ela foi levantada pela primeira vez em 1985, num livreto do teórico da comunicação americano Neil Postman: Amusing ourselves to death (Nos divertindo até morrer), relembrado por seu filho Andrew em artigo recente no The Guardian. “Na visão de Huxley, não é necessário nenhum Grande Irmão para despojar a população de autonomia, maturidade ou história”, escreveu Postman. “Ela acabaria amando sua opressão, adorando as tecnologias que destroem sua capacidade de pensar. Orwell temia aqueles que proibiriam os livros. Huxley temia que não haveria motivo para proibir um livro, pois não haveria ninguém que quisesse lê-los. Orwell temia aqueles que nos privariam de informação. Huxley, aqueles que nos dariam tanta que seríamos reduzidos à passividade e ao egoísmo. Orwell temia que a verdade fosse escondida de nós. Huxley, que fosse afogada num mar de irrelevância.”

No futuro pintado por Huxley, a sociedade está dividida em castas. Crianças projetadas geneticamente saem de fábricas de bebês e são condicionadas a exercer das funções mais nobres às mais abjetas. Não há mães, pais ou casamentos. O sexo é livre. A diversão está disponível na forma de jogos esportivos, cinema multissensorial e de uma droga que garante o bem-estar sem efeito colateral: o soma. Restaram na Terra dez áreas civilizadas e uns poucos territórios selvagens, onde grupos nativos ainda preservam costumes e tradições primitivos, como família ou religião. “O mundo agora é estável”, diz um líder civilizado. “As pessoas são felizes, têm o que desejam e nunca desejam o que não podem ter. Sentem-se bem, estão em segurança; nunca adoecem; não têm medo da morte; vivem na ditosa ignorância da paixão e da velhice; não se acham sobrecarregadas de pais e mães; não têm esposas, nem filhos, nem amantes por quem possam sofrer emoções violentas; são condicionadas de tal modo que praticamente não podem deixar de se portar como devem. E se, por acaso, alguma coisa andar mal, há o soma.”

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Para chegar à estabilidade absoluta, foi necessário abrir mão da arte e da ciência. “A felicidade universal mantém as engrenagens em funcionamento regular; a verdade e a beleza são incapazes de fazê-lo”, diz o líder. “Cada vez que as massas tomavam o poder público, era a felicidade, mais que a verdade e a beleza, o que importava.” A verdade é considerada uma ameaça; a ciência e a arte, perigos públicos. Mas não é necessário esforço totalitário para controlá-las. Todos aceitam de bom grado, fazem “qualquer sacrifício em troca de uma vida sossegada” e de sua dose diária de soma. “Não foi muito bom para a verdade, sem dúvida. Mas foi excelente para a felicidade.”

No universo de Orwell, a população é controlada pela dor. No de Huxley, pelo prazer. “Orwell temia que nossa ruína seria causada pelo que odiamos. Huxley, pelo que amamos”, escreve Postman. Só precisa haver censura, diz ele, se os tiranos acreditam que o público sabe a diferença entre discurso sério e entretenimento. “Quão maravilhados ficariam todos os reis, czares, führers do passado (e comissários do presente) em saber que a censura não é uma necessidade quando todo o discurso político assume a forma de diversão.” O alvo de Postman, em seu tempo, era a televisão, que ele julgava ter imposto uma cultura fragmentada e superficial, incapaz de manter com a verdade a relação reflexiva e racional da palavra impressa. O computador só engatinhava, e Postman mal poderia prever como celulares, tablets e redes sociais se tornariam – bem mais que a TV – o soma contemporâneo. Mas suas palavras foram prescientes: “O que afligia a população em Admirável mundo novo não é que estivessem rindo em vez de pensar, mas que não sabiam do que estavam rindo, nem que tinham parado de pensar”.

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