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Posts tagged Geraldo Alckmin

Reforma escolar de São Paulo é boa, mas governo paulista se atrapalhou

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BOA CAUSA, PÉSSIMA PROPAGANDA Barraca em escola ocupada. A mudança é boa, mas faltaram comunicação e liderença (Foto: Luiz Claudio Barbosa/Folhapress)

BOA CAUSA, PÉSSIMA PROPAGANDA
Barraca em escola ocupada. A mudança é boa, mas faltaram comunicação e liderença (Foto: Luiz Claudio Barbosa/Folhapress)

 

A reestruturação da rede escolar em curso em São Paulo é boa para todo mundo – mas o governo errou em não trazer professores e especialistas para o seu lado

FLÁVIA YURI OSHIMA, na Época

Protestos de alunos, professores e pais tomaram as ruas próximas às escolas públicas. A razão foi a decisão de reorganização da rede escolar. Parece uma descrição de cenas ocorridas no Estado de São Paulo recentemente. Mas elas ocorreram em 1971. Há 44 anos, a reorganização integrou séries do ensino básico, até então separadas, num ciclo único de oito anos, da 1ª à 8ª série. A prioridade era a inclusão. O exame de admissão na 5ª série guilhotinava boa parte dos estudantes. Enquanto 70% das crianças ficavam na escola até a 4ª série, apenas 25% conseguiam cursar da 5ª à 8ª série. O ciclo único de oito anos ajudou a aumentar o número de brasileiros com o primeiro grau completo.

A mobilização contra a reestruturação decidida agora pelo governo paulista levou à invasão de 34 escolas em diferentes cidades de São Paulo por alunos e militantes políticos. A maior parte dos protestos é motivada pela decisão de aumentar o número de escolas de ciclo único. São aquelas só de ensino médio ou só de ensino fundamental, em seus dois diferentes ciclos (do 1º ao 5º ano e do 6º ao 9º ano). A reforma remanejará alunos e esvaziará alguns prédios. A mudança criará 754 novas escolas de ciclo único, desocupará 93 prédios (o equivalente a 1,8% da rede inteira) e afetará 340 mil estudantes.

A reorganização de 2015 tem objetivo oposto à de 1971: ela pretende separar turmas de ciclos diferentes que convivem numa mesma escola. Mas os medos que ela desperta são idênticos. Assim como no passado, as famílias não querem tirar seus filhos da escola em que estudam por vários motivos. A logística para levar e buscar crianças e adolescentes pode mudar. Alunos e famílias têm vínculos afetivos com as escolas e suas equipes. Os professores temporários temem perder aulas e sofrer reduções salariais. Todos – pais, alunos e professores – temem a queda na qualidade do ensino. Essas preocupações são legítimas num processo dessa envergadura. Nenhum temor, no entanto, é justificativa para colocar em xeque as vantagens do ciclo único. Se bem aproveitada e executada, essa pode ser uma das mais promissoras reorganizações da rede pública já feitas no país.

Uma das razões é demográfica. O número de brasileiros em idade escolar diminuiu. Segundo o Censo Escolar, a educação básica perdeu, entre 2000 e 2014, 5,1 milhões de alunos. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) calcula que, até 2030, a parcela da população entre 5 e 19 anos sofrerá uma redução de 20%. A municipalização de parte das escolas e o aumento da renda do brasileiro, que levou alunos para as escolas particulares, amplificaram o efeito da onda demográfica. Em São Paulo, há 2 milhões de alunos a menos na rede estadual. Essa mudança pode ser vista nas escolas. O Estado conta hoje com 2.956 classes sem alunos. Nos casos extremos, há escolas com apenas 30% da ocupação. Não é preciso ser um gênio da administração pública para saber que manter classes ociosas em locais sem demanda é um desperdício de recursos e, sobretudo, de oportunidades. Essas vagas podem ser usadas para criar creches, centros de ensino técnico e de formação de professores.

DIÁLOGO Estudantes em Diadema. Eles desocuparam a escola quando o secretário recebeu suas reivindicações (Foto: Carla Carniel/FramePhoto/Folhapress)

DIÁLOGO
Estudantes em Diadema. Eles desocuparam a escola quando o secretário recebeu suas reivindicações (Foto: Carla Carniel/FramePhoto/Folhapress)

 

As escolas de ciclo único tendem também a ser ambientes mais propícios à aprendizagem. Países com conhecida qualidade em educação pública aderiram há muitas décadas à organização proposta pelo governo de São Paulo. Reino Unido, Japão, Austrália, Suíça, França e Cuba estão entre eles. O raciocínio é simples. As necessidades de crianças de 7 anos são diferentes das de pré-adolescentes de 12 anos ou de jovens de 16 anos. Crianças precisam de parquinho, de espaço para correr e ambientes lúdicos para o incentivo à leitura e ao aprendizado. Laboratórios de ciências e bibliotecas bem fornidas são mais úteis para estudantes mais velhos. No mundo ideal, essas opções não (mais…)

USP propõe bônus a aluno de escola pública que se define preto

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Fábio Takahashi, na Folha de S.Paulo

A USP votará neste mês proposta que prevê a criação de bônus de 5% no vestibular para candidatos de escolas públicas que se declararem pretos, pardos ou indígenas. Hoje, não há benefício específico para esse grupo.

Está previsto ainda aumento do bônus para demais alunos da rede pública, que pode ir dos atuais 15% a até 20%.

Ou seja, um aluno pardo que cursou o ensino básico na rede pública poderá ter um acréscimo de até 25% na sua nota no vestibular. Hoje ele só pode chegar aos 15%.

O modelo é uma resposta à proposta apresentada em dezembro pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP) e pelos reitores de USP, Unesp e Unicamp. Consultadas, as unidades da USP rejeitaram diversos pontos.

Editoria de arte/Folhapress

Editoria de arte/Folhapress

Um dos pilares do projeto inicial era a criação do “college”, um curso superior semipresencial, de dois anos, para alunos da escola pública. Os que fossem aprovados entrariam nas universidades sem passar por vestibular.

Essa ideia não consta no novo documento desenhado pela universidade.

A instituição decidiu apostar no aumento dos bônus para atingir as metas do projeto inicial (que estão mantidas): 50% de calouros de escolas públicas, em cada curso, sendo 35% deles pretos, pardos e indígenas.

Hoje, 28% dos aprovados na USP são da rede oficial.

O prazo para chegar aos patamares, porém, foi alterado, de 2016 para 2018.

DIVERGÊNCIAS

A nova proposta da USP, à qual a Folha teve acesso, é uma síntese das sugestões feitas pelas suas 42 unidades. Ela foi sistematizada pela pró-reitoria de graduação e será votada no seu conselho.

Segundo a reportagem apurou com membros do órgão, a maioria dos itens da proposta deve ser aprovada com facilidade.

Apenas o trecho sobre pretos, pardos e índios deve sofrer resistências. Nas discussões internas, o projeto inicial do governo e dos reitores sofreu críticas diversas e até opostas.

A direção da Faculdade de Medicina, por exemplo, entendeu que ele mudaria muito o perfil do alunato, o que poderia reduzir a qualidade da USP.

Já a FFLCH (área de humanas) disse haver espaço para uma opção mais ousada, com adoção de cotas –reserva de vagas a alunos de escolas públicas, pretos, pardos e índios.

Já o “college” foi criticado pela maioria das faculdades, que entenderam que seria pouco atrativo deixar alunos dois anos em curso “à parte”.

A nova proposta da USP tenta acomodar as divergências internas.

Em carta às faculdades, a pró-reitora de graduação, Telma Zorn, afirma que o prazo mais longo para atingir as metas foi colocado para que o processo seja feito “de modo responsável”.

A reitoria disse que não se manifestará agora publicamente porque a proposta pode mudar. O projeto prevê ainda um cursinho para mil alunos, ministrado pela USP.

Adoção de cotas enfrenta resistência de professores da USP

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Fábio Takahashi e Talita Bedinelli, na Folha de S.Paulo

Professores de diferentes segmentos da USP divulgaram nos últimos dias posições contrárias ao projeto de cotas para alunos de escolas públicas, desenhado pelos reitores das universidades e pelo governo do Estado.

Entre os críticos estão, por exemplo, docentes de destaque da área de humanas, o diretor interino da Faculdade de Medicina e a associação de professores –as argumentações são diferentes.

Apesar de ter sido pensado pelos administradores das escolas, a proposta, que tem o aval do governador Geraldo Alckmin (PSDB), só entrará em vigor se for aprovada internamente nos conselhos da USP, Unesp e Unicamp.

Uma das inovações é a adoção de um curso intermediário, de dois anos, para os melhores estudantes de escolas públicas. Após essa etapa, os formados poderiam escolher as vagas oferecidas em cada curso das universidades, sem a necessidade do vestibular.

Em carta aberta enviada a professores e alunos, as professoras titulares (topo da carreira) Lilia Schwarcz, da antropologia, e Maria Helena Machado, da história, criticam o formato do programa.

Elas veem problemas no curso intermediário, que será, em parte, a distância.

“Não é difícil imaginar que teríamos uma USP predominantemente branca e notavelmente elitista contraposta a uma USP virtual, onde alunos de escola pública, de baixa renda e pretos, pardos e indígenas, ficariam em espaços separados”, afirmam.

A Adusp (sindicato docente) criticou o cronograma proposto por reitores e pelo governo. O projeto foi divulgado oficialmente em dezembro. E deve ser aprovado até junho para que possa entrar em vigor já em 2014 (último ano do mandato de Alckmin).

Já a Frente Pró-Cotas Raciais da USP, que reúne professores, alunos e servidores, diz que “dois anos de espera [no curso] atrasarão o desenvolvimento educacional e profissional dos cotistas”.

Reservadamente, docentes que acompanham o processo dizem que o programa não avançará se houver resistências no Conselho Universitário, que se reúne em abril.

Editoria de Arte/Folhapress

Editoria de Arte/Folhapress

MÉRITO

Diretor interino da Faculdade de Medicina, José Otávio Costa Auller Júnior também se mostrou contrário, em artigo publicado pela Folha.

A argumentação é diferente dos demais. “Acreditamos que a nova política tenha impacto negativo na qualidade dos alunos selecionados.”

Segundo ele, o problema é que as universidades terão de destinar recursos para dar reforço a alunos, em vez de investir em pesquisa.

O reitor da USP, João Grandino Rodas, afirmou que se buscou um projeto que visasse uma maior inclusão de alunos excluídos, sem que houvesse perda do mérito acadêmico. “Agora cabe à nossa comunidade decidir. E arcar com as consequências.”

O projeto estadual foi idealizado pelos reitores num momento em que o governo estava pressionado pela adoção das cotas nas universidades federais, que reservarão 50% das suas vagas a estudantes de escolas públicas.

Os idealizadores afirmam que a proposta é um modo de garantir a autonomia das instituições, que podem optar por modelo pensado por elas.

Caso seja rejeitado, dizem, há a possibilidade de a Assembleia Legislativa impor um modelo. Já há projetos tramitando que determinam a adoção de cotas semelhantes à das escolas federais (reserva direta de vagas)

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