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Os ecos dos protestos de junho de 2013 em livro e debate

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Obra traz ideias ainda em formação de nomes como Paulo Mendes da Rocha, Hans Ulrich Gumbrecht, Gilberto Gil e Fausto Fawcett

Maria Fernanda Rodrigues, no Estadão

Quando o brasileiro saiu às ruas para protestar contra o aumento da tarifa de ônibus e contra tantas outras insatisfações em junho de 2013, Natasha Felizi, pesquisadora do Portal Panfletos da Nova Era, e João Paulo Reyes, ativista formado em audiovisual, tiveram que assistir de casa porque esperavam o nascimento da filha. Mas isso não bastava. “Nervosos com essa situação, decidimos produzir um pequeno jornal com textos publicados na internet que estávamos lendo”, conta Reys. Eles então acionaram a artista Maria Borba, que pediria ajuda a uma amiga do mercado editorial para imprimir o material.

Manifestação do Movimento Passe Livre em São Paulo, realizada em 17 de junho

Manifestação do Movimento Passe Livre em São Paulo, realizada em 17 de junho

Chegaram à Rocco, e a editora, que já queria publicar um livro ali, no calor da hora, com textos de intelectuais de peso, convidou o trio para organizar essa obra. Brasil em Movimento – Reflexões a Partir dos Protestos de Junho é o resultado de meses de entrevistas e contato com nomes divers0s – de Davi Kopenawa a Fausto Fawcett, de Gilberto Gil a Hans Ulrich Gumbrecht. Um debate nesta quinta-feira, dia 15, às 19 horas, na Livraria da Vila (Rua Fradique Coutinho, 915), com Lucio Gregori, Raquel Rolnik e Paulo Mendes da Rocha – três dos mais de 30 autores do livro – marcará o lançamento em São Paulo. A ideia não é falar da obra em si, mas, como explica Maria Borba, continuar pensando o Brasil. “Este pensamento e movimento não terminam nunca, são constantes e precisam estar sempre em transformação. A luta continua”, diz.

Trata-se de um livro datado, como os próprios organizadores colocam na apresentação, e João Paulo Reyes justifica sua publicação agora, um ano e meio depois: “Junho foi um momento de importância histórica para o País e deveria ser documentado. É uma maneira de retratar o que as pessoas estavam pensando naquele momento, e transportar essas reflexões no tempo pelo livro, que é uma mídia que alcança o futuro”. Para Maria, o objetivo é apresentar um conjunto de pensamentos abertos, em desenvolvimento – em forma de texto, entrevista e trabalho artístico, e não produzir uma análise. “Uma abertura necessária no sentido de nos permitir acompanhar o movimento de um país”, comenta.

Uma cronologia dos protestos, iniciada com a manifestação em Porto Alegre, no dia 27 de março, contra o aumento da passagem de ônibus e encerrada em 26 de agosto, com a confirmação da condenação em primeira instância do morador de rua Rafael Braga Vieira, preso no Rio durante protesto, completa a obra que reproduz, ainda, obras de Cildo Meirelles, Tunga e Carmela Gross, entre outros.

Mas a história não acaba com o lançamento, acreditam. “O debate tem que continuar ecoando para que os presos políticos, feridos, vítimas da polícia e da repressão desproporcional não tenham suas causas esquecidas ou abafadas. O objetivo maior deste livro talvez seja contribuir para que junho continue ecoando, se possível cada vez mais, até que haja justiça”, diz Natasha Felizi.

Brasil em Movimento – Reflexões a Partir dos Protestos de Junho
Org.: Maria Borba, Natasha Felizi e João Paulo Reyes
Editora: Rocco (448 págs.,R$ 59,50)

Gilberto Gil elege os livros prediletos de sua biblioteca

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Gil listou os livros mais importantes de sua formação como homem e artista Fábio Seixo / Agência O Globo

 

Publicado no jornal O Globo

Todos os livros de Gilberto Gil têm vista para o mar. Na sua casa, os volumes estão reunidos em três estantes: uma ocupa uma parede inteira da sala de estar, outra fica na sala de jantar, e a terceira, na sala de TV, todas bem em frente à praia de São Conrado. São centenas deles. Os livros sobre música ficam ao lado dos que tratam de arte barroca; os de religião estão escorados por um “Dicionário gonzagueiro”. Há livros sobre o Rio de Janeiro, a Bahia, o Brasil, e há um chamado “69 lugares para amar”, uma espécie de roteiro romântico do mundo. Há uma pilha só com enciclopédias botânicas. Roberto Carlos talvez nem desconfie, mas nas estantes do Gil estão a salvo dois exemplares da biografia não autorizada “Roberto Carlos em detalhes”, de Paulo César Araújo — cuja tiragem foi incinerada em 2007. A coleção Jorge Amado fica numa prateleira alta, sobre a cabeça de quem circula entre os ambientes, junto a outros objetos sagrados da casa, como uma imagem de São Jorge. Os livros dividem prateleiras com fotos dos filhos, DVDs e instrumentos musicais. Alguns estão com a lombada desgastada pelo uso e há muitos com o cheiro fresco da livraria.

Em meio ao agitado momento político do país, o cantor, compositor e ex-ministro da Cultura Gilberto Gil abre com um show a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), o mais importante evento sobre livros e literatura no Brasil, quarta-feira. De lá, volta direto para o Rio, para o lançamento de sua biografia, “Gil bem perto” (Nova Fronteira), feita em conjunto com a jornalista Regina Zappa.

E foi nesse clima de celebração da leitura e de reflexões sobre a própria vida e o Brasil que Gil, a convite da Revista O GLOBO, listou os livros mais importantes de sua formação como homem e artista.

— Minha primeira memória com livros é da cozinha de casa, em Ituaçu (cidade natal, no interior da Bahia). Para mim, os livros eram um utensílio doméstico a mais, como as gamelas que minha avó usava. Estudar era como cozinhar. Foi assim que li Monteiro Lobato, o Tesouro da Juventude, as revistas de guerra que meu pai trazia, misturado aos perfumes da cozinha — detalha Gil, lembrando que em 1976 esta intimidade com o universo “bananada de goiaba, goiabada de marmelo” viraria a música “Sítio do Picapau Amarelo”, a trilha de abertura do seriado infantil da TV Globo. — Eu fui buscar nesta memória da infância, a maneira como eu lia Monteiro Lobato, os elementos da canção.

Da cozinha da avó, o mapa literário de Gilberto Gil segue pela biblioteca da escola, com os livros de poesia de Olavo Bilac, Gonçalves Dias e Castro Alves. Que foram influenciá-lo mais à frente, quando começou a escrever os primeiros poemas, entre 1961 e 1962 (a ultrarromântica “Triste serenata” é uma música originada de um poema dessa época).

— Descobri a poesia estudando português na escola. A poesia era uma categoria importante na vivência da língua. Lendo poesia, você percebe o que mais te atrai, o que mais te surpreende como articulação frasística, como capturação de originalidade. Meus primeiros exercícios de poesia estão impregnados de Olavo Bilac.

Aos nove anos, foi estudar em Salvador, e o mar passou a fazer parte da sua rotina. Foi quando “Capitães de areia” caiu nas suas mãos:

— Foi um magnetismo, a realidade da praia, as negras mercando acarajé, os pescadores. Havia um mundo narrativo sobre essas pessoas organizado em dramaturgias próprias… E era Jorge Amado.

Foi na universidade que os livros começaram a pesar nas costas. Gil estudou Administração de Empresas, e a formação humanística do curso o levou a descobrir o historiador Caio Prado Jr, o sociólogo Florestan Fernandes. Começou a questionar o Brasil e os brasileiros. A perceber as “assimetrias”, como diz, entre as gentes. Até que tomou emprestado na biblioteca da universidade um livro de capa alvinegra. “O capital”, de Karl Marx.

São 14h30m de uma quarta-feira, 19 de junho, aniversário de Chico Buarque, na semana em que as manifestações pelo país ganham corpo. Gil ainda não almoçou, que ver o jogo do Brasil x México, às 16h, pela Copa das Confederações. No dia seguinte viajaria cedo para a Paraíba, onde começaria uma turnê de shows juninos. Pouco antes da entrevista, finalizou uma música nova para a nora, a cantora Ana Cláudia Lomelino, mulher do filho Bem Gil. Está na sala de casa, deixa-se rabiscar para as fotos (escolhe um poema de Pablo Neruda). Usa sandálias que parecem tão confortáveis quanto um par de pantufas. E fala de “O capital”.

— Foi um livro capital — ri. — Li a maior parte do tempo sem entender nada. Lia, relia. Mesmo assim, me despertou o interesse pela crônica política e econômica. Lia nas horas de trabalho. Nessa época eu trabalhava na alfândega, minha função era fiscalizar navios, e eu ia muitas vezes de madrugada para o porto, e ficava ali, algumas vezes lendo dentro do próprio navio. Me lembro de ler “O Capital” às 3h, 4h da manhã, completamente confundido, naquela barafunda de termos e sentimentos.

Impacto parecido ao de “O capital” só sentiria mais tarde, com “Morte e vida severina”, do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto. Já tinha ouvido falar no livro à época do seu lançamento, em 1955. Mas o épico tupiniquim só lhe revirou o estômago no teatro, na montagem com música de Chico Buarque, dez anos depois, em São Paulo.

— O mergulho foi ali. Depois li “Duas águas”, depois alguém me deu de presente a “Obra completa”. Eu fiz uma escolha: o poeta-símbolo pra mim é João Cabral. Toda minha poesia sofreu uma exigência “cabraliana” depois de conhecer a sua obra — atesta Gil, citando o próprio Tropicalismo.

Tirando a própria “Obra completa” de João Cabral, e “Capitães de Areia”, nenhum dos outros títulos lembrados por Gil está nas estantes de São Conrado. Alguns foram para a casa de Salvador, outros se perderam com o tempo. Há uma dose de desapego, mas outra de circunstância. Certo dia, conta Gil, estava em Salvador, em casa, e fuçou a estante em busca de uma leitura para a tarde. Tomou da prateleira o volume de “Distraídos venceremos”, presente do próprio autor, o poeta curitibano Paulo Leminski, em 1987. Mas qual não foi sua surpresa…

— Já estava todo comido pelas traças. Mas sabe que eu achei interessante? Achei que aquele efeito estava ligado ao tipo de poesia do Leminski… O caminho das traças era o caminho do tempo. Um acréscimo à poesia. O caminho delas foi roubando as letras, deixando palavras esburacadas, e o que é mais pós-modernista? — provoca Gil, citando outro tomo que levaria a uma ilha deserta, acaso houvesse motivo.

Levaria também o romance autobiográfico “As palavras”, de Jean-Paul Sartre, o primeiro livro apresentado a ele pelo amigo Caetano Veloso.

— Eu passo a me interessar por Sartre por causa de Caetano, ele, que até hoje se confessa um existencialista, foi quem me apresentou. Ali fui refletir sobre o que é o existencialismo, e viver o sentimento desta plenitude, da individualidade, erguendo-se em si próprio, sustentando-se em si próprio — comenta Gil, para quem a compreensão “da existência frente à essência”, se for possível resumir o existencialismo desta maneira, pôs em xeque a própria religiosidade. — Todos esses questionamentos, mesmo os anteriores, lá, com “O capital”, de descoberta dos problemas sociais, das assimetrias da sociedade, das imperfeições do indivíduo, tudo isso ia minando uma segurança minha, aquela vida no berçário da divindade (ri da própria metáfora).

A amizade com o escritor e músico suíço Walter Smetak ampliou os questionamentos. Espécie de guru esotérico e filosófico de toda uma geração da MPB, que incluía Tom Zé e Caetano, Smetak emprestou a Gil livros essenciais na sua formação, como os ensaios teosóficos da escritora russa Elena Blavatsky, a “Madame Blavatsky”.

— Houve ainda “Religião comparada”, os “Upanixades” (escrituras hindus). Foi uma época de muita leitura de livros, ao contrário de hoje, que tudo chega pra gente de maneira mais fragmentada, em estantes de links — compara Gil, tirando da prateleira imaginária, no entanto, a Bíblia. — Nunca li inteira. Dos textos que li, “O cântico dos cânticos” foi o que mais me comoveu, e que acabou, futuramente, chegando ao “quântico dos quânticos”, verso chave do álbum “Quanta” (1997).

Da discografia de Gilberto Gil, “Quanta” foi o álbum que mais exigiu estudo, comenta a mulher, Flora Gil.

— Ele mergulhou nas leituras sobre física quântica, neurociência, física, nunca o vi lendo tanto — diz ela.

Do período em que se exilou com Caetano Veloso em Londres, entre 1969 e 1971, Gil lembra-se de outro título que o deixou fascinado: “The politics of ecstasy”, do neurocientista Timothy Leary, o papa da onda hedonismo-LSD nos anos 60 e 70.

— Fiquei louco com aquilo. Fui com uma sacola numa livraria em Charing Cross e roubei dez livros, pois não tinha dinheiro para comprar. Mandei pelo correio para amigos no Brasil. As pessoas precisavam ler aquilo — diverte-se Gil, antes de comparar com o momento atual, das manifestações que levaram o Brasil todo às ruas nas últimas semanas. — Era muito parecido com o que está acontecendo agora. Havia um mundo novo eclodindo, que estimulava minha imaginação, minha criatividade.

Além das longas entrevistas que fez com o músico para a biografia “Gil bem perto” (que inclui também depoimentos de amigos de Gil), a jornalista Regina Zappa passou dias convivendo com ele, em Salvador. Assistiam à novela “Avenida Brasil”, tomavam café da manhã juntos. Aos poucos, Gil ia se lembrando de histórias, nomes, causos. Da relação com os livros, Regina observou que ele é absolutamente intuitivo, lê o que lhe cai nas mãos, o que acha por acaso.

— A formação da infância é muito presente para ele, me chamou a atenção como ele lembra os detalhes daquela época — comenta Regina, também autora de biografias de Chico Buarque, Hugo Carvana e Paulo Casé. — Ele lê muito o que indicam os amigos, Caetano Veloso foi muito importante neste sentido, e agora, Hermano Vianna, José Miguel Wisnik. É interessante como isso tudo vai virando música.

A música “A paz”, por exemplo (“invadiu o meu coração…”), que compôs com João Donato, surgiu do título do livro “Guerra e paz”, de Leon Tolstoi. Na biografia, Gil explica a história: “A letra foi sendo construída sobre essa contradição, reiterando minha insistência sobre o paradoxo”.

Escrever letras de música, sim, muito, e sempre; poesias também, bem como prefácios de outros livros e ensaios (mês passado, lançou o livro “Cultura pela palavra”, em conjunto com o também ex-ministro da Cultura Juca Ferreira, reunindo textos e discursos de ambos sobre Economia Criativa, Lei do Direito Autoral e Lei Rouanet). Mas ficção…

— Eu não me vejo, de maneira alguma. A letra de música é concentrada, econômica, pá, pá, pá. “Domingo no Parque” é uma narrativa, uma tragédia, são três personagens maravilhosos que estão ali. Mas passar dali para 200 páginas é um fôlego que nunca quis ter. Se penso em alguma história, vira música. “Foi a polícia que deu a notícia, que meu amor tinha morrido…” (cantarola “A notícia”). Diferentemente de Chico Buarque, que tem vocação para romancista — explica Gil, cujo romance preferido do amigo é “Estorvo”, fechando a lista da sua estante fundamental.

Flora ainda lembraria outros dois:

— Assim que nos conhecemos, ele me deu um livro que estava lendo, fascinado, “A autobiografia de um iogue” — observa ela. — Outro muito importante é um que ele tem na mesinha de cabeceira, “Autocontroleterapia” (do educador japonês Tomio Kikuchi), sobre técnicas de meditação. Quando ele está doente, em vez de abrir a gaveta de remédio, ele abre este livro.

Troca de poema de Caio Fernando Abreu por música de Gilberto Gil adia publicação

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Marco Rodrigo Almeida, na Ilustrada

A notícia atiçou a curiosidade de leitores no final do ano passado: finalmente a poesia de Caio Fernando Abreu (1948-1996) seria reunida em livro.

Análise: Versos retratam ressaca que se deu sobre a geração de Caio Fernando Abreu

Quando morreu, aos 47 anos, Caio já era um autor consagrado de dezenas de contos, dois romances, crônicas, peças de teatro e artigos para jornais e revistas.

E também de centenas de poemas. Mas, fora um ou outro verso, Caio nunca publicou sua produção poética, desconhecida mesmo por fãs e especialistas em sua obra.

O escritor Caio Fernando Abreu - Folhapress

O escritor Caio Fernando Abreu – Folhapress

Em novembro, essa faceta oculta do escritor esteve prestes a vir à tona. A editora Record anunciou que no dia 30 chegaria às livrarias o livro “Poesias Nunca Publicadas de Caio Fernando Abreu”.

Organizado pelas pesquisadoras Letícia da Costa Chaplin e Márcia Ivana de Lima e Silva, o livro, que nasceu como tese de doutorado de Chaplin, traria 116 poemas.

O título chegou a ser distribuído para a imprensa, mas, poucos dias depois, a editora cancelou a distribuição dos 3.000 exemplares para as livrarias. Alegou apenas que a atitude foi tomada em “virtude de um erro editorial”.

Se o livro tivesse sido publicado, não seria difícil para um fã de MPB detectar o erro: a página 49 trazia, como se fosse poema de Caio, a letra de “Barato Total”, de Gilberto Gil.

Os versos da canção foram localizados pelas organizadoras em um diário de Caio de 1976. Ao lado da letra há rostos de mulheres desenhados com caneta preta. Um deles seria o retrato da cantora Gal Costa, que gravou a música no disco “Cantar” (1974).

Procuradas pela reportagem, as organizadoras não responderam aos recados até o fechamento desta edição.

A Record informou que o livro está em processo de análise e que uma edição corrigida será lançada. A data ainda não foi definida.

Paula Dip, autora da biografia “Para Sempre Teu, Caio F.” (ed. Record), vai revisar o livro. Ela conta que proporá a substituição de “Barato Total” por um poema que não integrava a versão recolhida e o acréscimo, na introdução, de um texto que explique o erro.

Além disso, Dip quer incluir as palavras que as organizadoras não conseguiram identificar nos manuscritos originais e que aparecem no livro com a legenda “palavra ilegível”.

Editoria de Arte/Folhapress

Editoria de Arte/Folhapress

VERSOS OCULTOS

Os manuscritos dos poemas de Caio estão hoje na PUC -RS, em Porto Alegre, que mantém seu acervo. A maior parte do material foi doada pelo amigo e diretor de teatro Luciano Alabarse; o restante estava em diários com a família.

O material a que as organizadoras tiveram acesso mostra que ele escreveu poesia durante toda a carreira. Os primeiros versos são de 1968, o último, de 1996. Curiosamente, o autor nunca manifestou intenção de publicá-los.

“Ele era muito perfeccionista. Dizia ‘não sou poeta, escrevo poesia muito mal’. Ele se via mesmo como contista”, diz Dip, que foi amiga do autor.

Apesar disso, seus contos e poemas têm forte ligação. Nos dois casos sobressaem temas como a solidão e o desencanto. As referências musicais são outro ponto em comum.

Caio usou trechos de letras de Caetano Veloso e citou músicos como Tom Jobim em alguns poemas. À intérprete de “Barato Total” ele dedicou, além de desenho no diário, um verso do poema “Rômulo”: “Fomos ver o show da Gal cantando deixa sangrar”.

Biografia em quadrinhos, ‘Lomax’ acompanha a popularização do blues

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Publicado originalmente no G1

Na moda das biografias em quadrinhos, foi lançada na França ‘Lomax’, que acompanha a peregrinação de dois pesquisadores de música no sul dos Estados Unidos no começo do século XX. John e Alan Lomax, pai e filho, percorreram fazendas e entrevistaram descendentes de escravos e prisioneiros para capturar o espírito do blues que estava se disseminando naquela região.

A ideia inicial do autor era fazer um documentário, mas o projeto acabou não dando certo, para sorte dos amantes das biografias e das histórias em quadrinhos. Apesar de o gênero estar fazendo sucesso no Brasil, nenhuma editora brasileira comprou os direitos para publicação do livro no país.

Entre as curiosidades da obra está o fato de Alan gravar as músicas em cilindros de cera, mesmo enfrentando dificuldades logísticas de transporte. Ele acreditava que um dia os arquivos estariam disponíveis para todo o mundo. Há cerca de quatro meses, o que era um sonho se tornou realidade. Todo o arquivo sonoro dos Lomax foi digitalizado e colocado na internet. Uma das raridades é ‘Stagolee’, balada do homem malvado que é considerada uma das raízes do blues, que influenciou Bob Dylan, Bruce Springsteen e o folk dos anos 60.

O Brasil também teve trabalhos pioneiros. Na década de 30, o escritor Mário de Andrade realizou a Missão de Pesquisas Folclóricas. Nos anos 90, Hermano Vianna, Beto Villares e Gilberto Gil também registraram músicas históricas no projeto Música do Brasil. Mas, ao contrário dos arquivos dos Lomax, este material não está disponível na internet.

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