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Tiragens iniciais gigantescas de livros indicam tendências de mercado e estratégia de vendas

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Mais do que best-sellers, buscam-se agora os títulos capazes de romper a barreira de 1 milhão de exemplares vendidos

Marcelo Gonzatto no Zero Hora

Tiragens iniciais gigantescas de livros indicam tendências de mercado e estratégia de vendas Fernando Gomes/Agencia RBS

Foto: Fernando Gomes / Agencia RBS

O lançamento de 1889, livro de Laurentino Gomes que sai este mês com tiragem inicial gigantesca para um volume sobre história do Brasil, ilustra o sistema de grandes apostas que move o mercado editorial brasileiro. Mais do que best-sellers, buscam-se agora os chamados mega-sellers – títulos capazes de romper a barreira de 1 milhão de exemplares vendidos.

Esse time seleto de candidatos a fenômeno comercial, integrado por um crescente número de autores nacionais, foi crucial para inflar as vendas de obras de caráter geral no ano passado e evitar a mesma queda sofrida pelos setores didático e religioso. Por esse motivo, são alvo de uma intensa disputa entre editoras em busca de um final feliz para seus lançamentos.

:: Saiba quais são os livros com maior tiragem no Brasil

Laurentino é um exemplo do esforço das editoras para atrair possíveis campeões de popularidade. O primeiro livro da série sobre história do Brasil, 1808, saiu pela Planeta, e o segundo, 1822, pela Nova Fronteira: juntos, já venderam mais de 1 milhão de exemplares. Sua nova obra será publicada pela Globo Livros, com tiragem inicial de 200 mil exemplares – a média nacional é 4,5 mil. Assim, é possível medir a expectativa da editora em relação ao título.

Como resultado da disputa por escritores bons de venda, o valor pago em adiantamento para firmar contrato com autores desse calibre disparou.

– Há cinco anos, pagava-se cerca de US$ 5 mil a um escritor de ponta. Hoje, chega a mais de US$ 50 mil – revela a presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL), Karine Pansa.

Laurentino se junta no olimpo comercial a outros brasileiros como Padre Marcelo – que fez milagre ao vender mais de 8 milhões de exemplares de Ágape e largar com 500 mil de Kairós –, e Cristiane Cardoso, filha do bispo Edir Macedo, também ele integrante dessa elite com a biografia Nada a Perder. A nova geração nacional de mega-sellers, muitos deles ligados à fé, divide espaço com estrangeiros de apelo mundano como E.L.James (da série 50 Tons) e Dan Brown (de Inferno). Esse grupo sustenta o crescimento do filão literário a que pertence. Como mostra a pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro, o segmento geral vendeu 4,2% mais livros em 2012 do que em 2011, enquanto o didático caiu 10%, e o religioso,18% (setor que não inclui fenômenos como Padre Marcelo por escolha de classificação das editoras).

– Os megalançamentos, como esse do Laurentino, é que estão puxando o crescimento – analisa Karine.

O consultor editorial Carlo Carrenho afirma que as tiragens iniciais gigantescas não refletem apenas uma expectativa, mas também uma estratégia de mercado. É como uma profecia que se autocumpre: as livrarias interpretam a impressão volumosa como garantia de que a editora vai investir pesado para divulgar e distribuir o livro. Assim, sentem-se seguras para comprar mais exemplares e vendem mais para o público.

– A primeira coisa que as livrarias perguntam é qual a tiragem inicial. Usam a informação para avaliar o tamanho da aposta naquele título – explica Carrenho, destacando que o estratagema não elimina o risco:

– O mercado de livros se parece realmente com um jogo. Nunca dá para garantir que vai vender bem.

As apostas, porém, estão em alta no Brasil.

 

USP São Carlos cria programa que simplifica textos para ajudar na leitura

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Projeto pode auxiliar pessoas com distúrbios de compreensão de textos.
Palavras complexas são substituídas por mais simples e frases encurtadas.

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Publicado por G1

Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), do campus de São Carlos (SP), desenvolveram um programa de computador para ajudar quem tem dificuldades para ler e incentivar quem quer aprender. Segundo o pesquisador Thiago Pardo, o projeto também pode ser utilizado por quem tem distúrbios graves de compreensão de textos.

“Pessoas com algum tipo de deficiência cognitiva, como demência, afasia e dislexia, podem se beneficiar do texto adaptado e simplificado. O projeto também serve para outras vertentes, como aprendizes de outras línguas e crianças aprendendo em várias séries”, afirmou Pardo.

A invenção, criada no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC), levou dois anos para ficar pronta. Quando encontra palavras mais complexas, o sistema traz sinônimos. Outra ferramenta diminui as frases muito grandes.

Programa desenvolvido na USP simplifica textos (Foto: Reginaldo dos Santos/EPTV)

Programa desenvolvido na USP simplifica textos
(Foto: Reginaldo dos Santos/EPTV)

“Ele trabalha com adaptação textual. Tem três grandes formas de adaptar um texto: simplificar a parte sintática, cortando sentenças longas em menores, trocando palavras difíceis por mais comuns; também sumarizar, tornar o texto mais curto pegando a parte principal dele e dar uma definição curta para um conceito mais complexo”, explicou a pesquisadora Sandra Aluísio.

Dificuldades
Um levantamento feito pelo Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional (Inaf) mostrou que 68% da população brasileira possui um nível de alfabetização rudimentar e básico, que pode representar dificuldades para ler e entender o que está escrito.

O professor de informática Isaias Gomes Paz constata as dificuldades dos alunos em sala de aula. Ao ler um texto simples da internet, uma menina de nove anos ficou confusa. “É o analfabetismo funcional, quando a criança consegue identificar as palavras, entender e digitar, porém não consegue compreender o conteúdo que essa palavra representa”, disse Paz.

A equipe da USP instalou o programa no computador usado nas aulas de informática. Quando o sistema resumiu o texto, a estudante conseguiu compreender. “Agora está fácil, o texto está menor”, contou a menina.

O programa pode ser acessado pela internet. Para simplificar a leitura, basta colar um texto e escolher o modo com palavras mais fáceis ou com frases mais curtas.

Projeto levou dois anos para ser desenvolvido na USP de São Carlos (Foto: Reginaldo dos Santos/EPTV)

Projeto levou dois anos para ser desenvolvido na USP de São Carlos (Foto: Reginaldo dos Santos/EPTV)

O ‘portuglês’ que merecemos

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Norma Couri, no Observatório da Imprensa

O céu da boca brasileira não tem limite para os desvarios da língua portuguesa. A Veja desta semana reagiu em duas páginas à síndrome Odorico Paraguaçu que tomou conta dos políticos depois dos 15 dias que abalaram o Brasil. Foi para confundir a voz das ruas que os poderosos de Brasília exercitam empolamento, eufemismo e embromação como garante a revista? É preciso um Elio Gaspari botar em ação a Madame Natasha de suas colunas no Globo e na Folha de S.Paulo, a professora que cuida de evitar que o idioma português seja colocado em áreas de risco? Ou esse linguajar é próprio de Brasília como há tempos Augusto Nunes vem distribuindo o troféu besteirol às frases dos políticos?

Elas beiram o vocabulário do melhor personagem de O Bem Amado (Dias Gomes), “para cada problemática uma solucionática”, “destabocado somentemente”, “providenciamentos inauguratícios”.

“Talqualmente”, como diria Odorico, Joaquim Barbosa referiu-se a empoladas “proposituras” quando as ruas queriam ação, Brasília resolveu discutir “mobilidade urbana” quando o povo pedia redução do preço das passagens, e Renan Calheiros compareceu ao casamento de um amigo em Trancoso a bordo de um avião da FAB, que no seu linguajar tratava-se de “um avião de representação”.

O veterano correspondente no Brasil do jornal espanhol El País, Juan Arias, matou a charada numa mesa da FLIP: “Tenho a sensação de que a sociedade brasileira está falando uma língua e o poder, outra”.

Novilíngua

O que o ‘brasilês’tem de distinto do português? A jornalista portuguesa Helena Sacadura Cabral reagiu num artigo em Lisboa: “Hoje não se fala português… linguareja-se!” (ver aqui). A birra vinha por conta dos eufemismos da imprensa, negros ou pretos foram banidos da imprensa em favor dos afrodescendentes, empregadas domésticas são auxiliares ou secretárias, favelas são comunidades, caixeiros-viajantes viraram técnicos de vendas. Aborto? Não, interrupção voluntária de gravidez. Mãe solteira? Nunca, escreva família monoparental. Casamento gay? Heresia, união homoafetiva.

E não cometa a gafe de dizer cego a quem não enxerga – outro dia uma comentarista da CBN desculpou-se no ar. No rádio, diga invisual. Marido, namorado? Escreva companheiro. Num desses programas de culinária que grassam na televisão, a apresentadora comentou nos bastidores que preferia não apresentar o famoso Bolo Nega Maluca ou teria de ensinar o Bolo Afrodescendente com Variação Psíquica Instável.

Nem entramos no mérito de estarmos separados de Portugal pela mesma língua, que é o grande entrave para tornar o português uma língua única incluindo Angola, Moçambique, Guiné Bissau, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde. Porque lá roupa-velha é um ensopado, putos são apenas garotos, apelido é sobrenome, fato é terno e um filme que aqui ganhou o título de A Caixa de Pandorado lado de lá do Atlântico chamou-se A Boceta de Pandora.

Da mesma forma o clássico de Jacques Demy Os Guarda Chuvas de Cherbourgvirou na terrinha Os Chapéus de Chuva de Cherbourg, e Um Bonde Chamado Desejo, denso livro de Tennessee Williams adaptado para o cinema, chamou-se Um Elétrico Chamado Desejo em Portugal e, no Brasil, Uma Rua Chamada Pecado.

As diferenças são tantas que os filmes portugueses vêm para o Brasil com legenda em português e, na abertura de um seminário no BNDES no Rio, há quatro anos, o economista português Joaquim Oliveira Martins fez sua apresentação… em inglês.

O Brasil ainda tem o ‘nordestinês’que chama “alma sebosa” os bandidos muito cruéis, “caritó” a mulher que não se casou, “jegue-manso” o amante discreto e ressaca de malafobia.

Por isso dá calafrio na espinha saber que a TV que o consumidor paga caro para ter o privilégio de boas opções resolveu dublar seus filmes e séries para atrair a classe emergente. É só zapear (êpa, em português, por favor, mudar de canal) aqueles mais de 100 canais para encontrar um bom filme e, quando isso acontece, não é que John Wayne está falando português? Os cinco canais da Telecine adotaram a versão dublada (salvam-se o Cult e o Premium que concedem uma segunda opção) depois do resultado da pesquisa Datafolha feita no ano passado, a pedido do Sindicato de Distribuidores Cinematográficos do Rio de Janeiro. São 35% os adeptos do som original contra 56% que preferem a versão dublada. De acordo com a Folha de S.Paulo de domingo (7/7), o original com legendas “tende a ficar como opção reservada à minoria de assinantes que prefere esse formato” (ver “A vitória do filme dublado”).

Foi tudo muito de repente. Tanto que, na mesma reportagem, Alessandro Maluf, gerente de marketing da Net, que é líder em assinantes no país, disse que “quando Jack Bauer [protagonista de 24 Horas] começou a falar português do dia para a noite foi uma dor de cabeça”. Eles foram obrigados a colocar os dois áudios.

O problema, como denunciou Helena Sacadura Cabral, é que estamos linguajeando. Nas rádios um carro de polícia é uma viatura, para os policiais entrevistados os seres humanos são sempre elementos, e os taxistas afirmam estar tripulados quando têm passageiros.

Em um dos seus ótimos artigos na página 2 da Folha de S.Paulo, Ruy Castro embatucou quando uma companhia aérea informou que seu voo seria “fusionado” (fundido noutro?) e ao atravessar a rua para pegar uma via menos congestionada soube que a estrada era “pedagiada”. “Não estão errados”, concluiu Ruy, “apenas pernósticos.”

Surdos cegos e idiotas

Os políticos a gente escuta pouco, com os portugueses estamos quase nos acostumando, mas com a dublagem não há quem aguente essa língua que não é uma coisa nem outra – fica no meio.

E os brasileiros começam a se apoderar dela no dia a dia, o ‘portuglês’. O mesmo Ruy Castro foi surpreendido a caminho do aeroporto de Congonhas quando o taxista, querendo aliviar seu nervosismo pelo engarrafamento, perguntou “a que horas está marcado o seu apontamento?” (do inglês “appointment”, como os filmes dublados traduzem encontro ou compromisso). E ele jura que ouviu num filme da TV a tradução literal de “I’ll give you a ring”, vou te telefonar, para “vou te dar um anel”.

Quando a coisa descamba de “it’s raining cats and dogs” (chovendo à beça) para “está chovendo cães e gatos”, a gente começa a dar razão aos ingleses que dizem “if you pay peanuts, you get monkeys”. Ou seja, se pagam mixaria para os tradutores, só vão conseguir macacos (alusão à gíria “peanuts”,que tem duplo sentido: pode ser amendoim mas também mixarias). Os dubladores recebem R$ 89,35 a hora, mais 5% se dubla dois personagens, e mais 10% se encarna a fala de um protagonista de filme. Mas seu tempo é rigidamente controlado.

Há anos o jornalista Sérgio Augusto vem denunciando as aberrações das dublagens de televisão. “A dublagem de filmes para a TV foi o anel que tivemos de entregar para não perdermos também os dedos para o cinema. Ela é um dos atestados de que a televisão não é mesmo coisa séria.”

Na dublagem, “toast”, que costuma vir com o chá, é sempre “torrada”mesmo quando o ator está fazendo um brinde, um toast.

Tem as pegadinhas. “Já vi red tape traduzida até por ‘durex vermelho’. Red tape significa apenas burocracia”, escreveu Sérgio Augusto num artigo para a Folha, 25 anos atrás. Pelo jeito, as emissoras não leram.

E “red herring” (pista falsa)? Foi traduzido literalmente por “arenque vermelho”.

“Mourning”é luto e não “manhã”.Não fez nenhum sentido a atriz contar à mãe num filme que ia fazer um papel em O Electra Chega de Manhã, referindo-se à peça de Eugene O’Neil, Mourning Becomes Electra (1931). Electra também não é um avião, é uma pessoa, e a peça no Brasil foi traduzida por Electra e os Fantasmas. Se a frase passou despercebida, causou estranheza ouvir na boca de um ator inglês que era preciso abrir um “cego veneziano”. “Venetian blind”é veneziana.

As legendas também surpreendem, mas pelo menos dão a chance ao público de ouvir o som na língua original.

Sérgio Augusto concluiu: “Dublados e legendados como os que a TV exibe presumivelmente para uma seleta audiência de surdos cegos e idiotas resultam quase sempre numa pândega esquizóide, com o dito brigando com o escrito”.

Nova classe média

Eis nossa TV por assinatura de agora em diante. E tudo porque, segundo a Folha, o número de assinantes de TV paga no Brasil, com a ascensão das classes E, D e C, saltou de 5,3 milhões em 2007 para 16,2 milhões em 2013. Claudia Clauhs, diretora de programação dos canais da Fox, pioneira em adotar as dublagens na TV, explicou a estratégia com o seguinte eufemismo: “Identificar os programas que têm mais apelo junto à classe C e tornar sua linguagem mais acessível, usando termos mais fáceis”.

Mas sem conseguir que os atores fechem a boca antes que o dublador ecoe sua frase, já que o inglês – ao contrário do português – é uma língua sintética.

O que a reportagem da Folha não disse é que é consenso no mercado o fato de a televisão ser veículo de massa, e a leitura de legendas já exclui grande parte desse público.

A polêmica legendagem versus dublagem vem de longe. Em tese, as legendas seriam mais baratas (um gerador de caracteres, um “subtitler” – êpa, em inglês mesmo – resolve a parada).

Mas os responsáveis pela escolha já decidiram há muito tempo. Na Folha de 13 de março de 1988, antes da emergência da nova classe média, Irineu Guerrini, da TV Cultura, abreviou a polêmica: “Em terra de analfabeto essa escolha nem se discute”.

É dublagem mesmo.

‘Vovó do Rap’ faz sucesso ao criar poesias e transformá-las em música

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Aos 63 anos, Judimar Molina começou a escrever após morte do marido.
Ela já recebeu dezenas de prêmios nacionais e internacionais com as letras.

'Vovó do Rap' com a roupa para uma apresentação em Praia Grande (Foto: Mariane Rossi/G1)

‘Vovó do Rap’ com a roupa para uma apresentação em Praia Grande (Foto: Mariane Rossi/G1)

Mariane Rossi, no G1

De cabelos brancos, ela coloca o boné de aba reta e ajeita o bermudão com a palavra ‘hip hop’. A grossa corrente de prata também não pode faltar no figurino da ‘Vovó do Rap’ durante as apresentações. Aos 63 anos, Judimar Gomes Molina descobriu o talento de transformar suas poesias em rap, e assim, levar uma mensagem de conscientização para os jovens de Praia Grande, no litoral de São Paulo.

Após a morte do marido, Judimar tirou todas as antigas poesias do fundo do armário. O que antes era motivo de brigas entre o casal passou a se tornar o maior hobby dela. Para voltar a escrever e não cair na solidão, ela resolveu terminar os estudos. Durante o casamento, tentava aprender com os próprios filhos um pouco da língua portuguesa, já que o pai só deixou ela estudar até a 4ª serie e, mesmo após o casamento, o marido também não permitia os estudos. Por isso, aos 50 anos, Judimar voltou para a 5ª série.

1Pouco tempo depois, ela passou a fazer parte do grupos de poetas de Santos e Praia Grande e, finalmente, entrou na faculdade de pedagogia. Para vivenciar a profissão, começou a fazer trabalho voluntário nas escolas de Praia Grande. Na sala de aula, ela descobriu sua vocação: incentivar a poesia e transformá-las em rap. Assim, encontrou uma forma de usar suas rimas para se aproximar da sociedade e, principalmente, dos jovens.

Judimar descobriu esse talento por acaso. “Os meus amigos estavam fazendo umas poesias tipo Castro Alves, com um linguajar culto e eu era a quarta a falar. Mas a criançada não estava nem aí. Até a gente não entende direito algumas palavras. E como eu gosto de interagir e estava vendo um desinteresse muito grande, pensei que deveria inovar. Começou a vir uma poesia na minha cabeça, e que vinha com uma batida diferente”, conta ela. Quando foi a vez de Judimar, ela cantou poesia mais ritmada e o rap se formou. A plateia de alunos pediu bis e ela continuou. Daí em diante, Judimar voltou a escrever poesias todos os dias e declamá-las em forma de raps. Ela se juntou ao Sarau das Ostras, um grupo de rap e hip hop de Praia Grande, e passou a fazer apresentações com os rappers, que a acolheram e passaram a chamá-la carinhosamente de ‘Vovó do Rap’. Para entrar no clima, ela aprendeu a usar boné, bermudão e camiseta larga para ‘combinar’ com os outros integrantes. “Onde tem evento eu vou com eles. Eles gostam de mim”, afirma ela.

Judimar também levou o rap para outras escolas, asilos e para as crianças. Ela conta que muitas diretoras e professoras ligam para ela ir ajudar na conscientização de diversos temas abordados pela escola, como drogas e desigualdade social. “Eles pedem pra fazer um rap sobre a semana da família, sobre a dengue, sobre o ECA ou temas infantis”, explica. A ‘Vovó do Rap’ acredita que o ritmo, as gírias e o vocabulário bem ‘descolado’, que aprendeu a inserir nas letras, lhe aproxima dos jovens. “Às vezes eu vou à escolas e tem uns alunos rebeldes. Quando eu apresento o rap eles se aproximam, querem fazer um rap junto. É legal pra mim. É bom ter o contato com os jovens. Vou passando conhecimento e vou aprendendo também”, comemora. A Vovó do Rap também chegou aos asilos. “Eu comecei e o homem no violão começou a dar uma batidinha. Eles levantaram e começaram a dançar. Falaram que serviu até de exercício físico para eles. Coisas assim são gratificantes. É bom ver esse retorno”, fala Judimar.

Poesias da Vovó do Rap (Foto: Mariane Rossi/G1)

Poesias da Vovó do Rap (Foto: Mariane Rossi/G1)

A ex-faxineira teve que esperar para poder divulgar suas poesias. Quando jovem, ela adorava escrever, mas o marido a proibia. “Ele tinha muito ciúme. Elas ficaram na minha gaveta há muitos anos. A partir do momento que ele faleceu, eu comecei a mostrar as minhas poesias. Agora já são mais de 500. Já ganhei 35 prêmios, até de nível internacional”, conta. A coleção de títulos está por várias partes da casa dela. São troféus, medalhas e livros, além de pastas e mais pastas de poesias.

O sucesso incentivou Judimar a seguir em frente com as composições. Uma notícia no rádio, uma coisa diferente na televisão, tudo é motivo de inspiração para Judimar escrever as letras dos próprios raps. “Às vezes, quando eu sento no computador e falo que eu vou escrever, aquilo começa a ‘jorrar’”, diz. Além das poesias com temas do dia a dia, as preferidas de Vovó do Rap são as rimas que contam causos e tem um final inesperado. Letras românticas e melosas ficam fora do seu repertório. “Gosto mais daquela que faz refletir, que causa impacto, que quando a pessoa lê a poesia, ela pense um pouco sobre aquilo”, fala.

Nos planos da ‘Vovó’ estão os projetos sociais que envolvem música, poesia e educação. Ela quer continuar no voluntariado para ensinar a fazer poesia, ler e declamar. “Quero sempre fazer sobre temas novos, de tudo um pouco, conforme o ambiente. Mas sempre transformando tudo em rap”, finaliza ela.

'Vovó do Rap' quer continuar fazendo letras e trabalhos voluntários com a poesia (Foto: Mariane Rossi/G1)

‘Vovó do Rap’ quer continuar fazendo letras e trabalhos voluntários com a poesia (Foto: Mariane Rossi/G1)

Professora vira ‘mãe por acaso’ ao adotar aluno em Belo Horizonte

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Convivência começou na escola, quando menino passava por problemas.
Tânia de Carvalho falou sobre a alegria de ser mãe.

Sara Antunes, no G1

A relação de Rodrigo Carvalho Gomes com a mãe tem abraços, elogios e muita bronca, levando Tânia Margareth de Carvalho, de 54 anos, às risadas. Tímido, o jovem de 18 anos se incomoda um pouco com o jeito expansivo dela e com a mania de abordar pessoas ao acaso sempre tentando ajudar. Da mesma maneira, há dez anos, Tânia decidiu fazer algo por um dos alunos, descrito por outros professores como uma criança triste e pouco participativa na escola. O menino era como diziam e não gostava da ideia de revelar os problemas. Pouco a pouco, ela conseguiu. Foram muitos passeios ao clube, lanches e visitas, até ficarem mais próximos e se chamarem, enfim, mãe e filho.

Mãe e filho demonstram cumplicidade e carinho construídos em anos de convivência em família. (Foto: Laura de Las Casas/G1)

Mãe e filho demonstram cumplicidade e carinho construídos em anos de convivência em família. (Foto: Laura de Las Casas/G1)

Rodrigo foi adotado por Tânia, professora dele à época, aos oito anos de idade. Ela se lembra do dia em que ele foi transferido para sua turma, já que a outra professora o considerava um aluno difícil de lidar. No primeiro exercício em sala, no qual cada criança deveria se desenhar, o menino se fez com lágrimas nos olhos e disse estar triste. Não satisfeita com a explicação, ela deu início a atividades envolvendo todos os alunos; a ideia era fazê-lo se abrir e não se sentir só. Logo, em conversa com uma tia do garoto, descobriu que Rodrigo vivia em casa problemas familiares graves, o que justificava o jeito fechado e solitário do menino.

Casada há 14 anos, Tânia sempre quis ter filhos. Ela nunca engravidou, mas esse instinto maternal sempre existiu e foi vivido por meio de sua forte relação com as sobrinhas, com os vizinhos e, claro, com os alunos. Ao contar em casa sobre a história de Rodrigo, o marido da professora começou a insistir para que ele fosse passar uns dias na casa do casal. “Como a gente sempre saía com as minhas sobrinhas para passear, ir ao clube, ele deu a ideia da gente levar o Rodrigo junto”, conta.

Rodrigo abraça os pais em fotos do album de família no ano em que chegou à nova casa. (Foto: Tânia Margareth/Arquivo Pessoal)

Rodrigo abraça os pais em fotos do album de
família no ano em que chegou à nova casa.
(Foto: Tânia Margareth/Arquivo Pessoal)

Na primeira visita, em um feriado prolongado, Rodrigo ficou uma semana, indo ao clube diariamente. A hora de ir embora foi difícil. O menino, chorando muito, pediu para ficar insistentemente. “Eu lembro de sentir o meu coração partindo, de sentir que eu estava fazendo mal a ele, deixando ele ir embora. Mas ai depois as coisas foram acontecendo, ele começou a vir sempre, e a mãe biológica dele me procurou, me contou que não tinha condições de criá-lo, me pediu para ficar com ele”, lembra.

Ela sabia o que queria, mas esperou uma posição do marido, também muito apegado ao garoto. O caminhoneiro Wilson Marques Gomes atendeu às expectativas e sugeriu a adoção de Rodrigo. O casal explicou ao menino que havia duas opções. Eles poderiam virar tutores, cuidando dele até os 18 anos ou registrá-lo como filho. “Ele não pensou duas vezes e me falou que queria ser adotado”, diz.

“Quando eu vim para cá não era uma coisa que eu achei que fosse fazer tanta diferença na minha vida. Mas aos poucos eu fui percebendo que aquilo era sério, que eu estava me apegando. Era difícil ir embora”, conta o jovem. Tânia acredita que no mundo existem filhos de mães trocadas, cabendo ao destino uni-los com as mães verdadeiras. “Eu não me lembro da minha vida sem ele. (…) É o filho que eu queria”, explica ela.

A dinâmica da casa de Tânia mudou um pouco com a presença do menino, e levou alegria para a vida do casal, que se tornou uma família com a chegada de Rodrigo. “No começo ele me chamava de professora, mas um dia conversamos e eu expliquei à ele que ele podia me chamar de como ele quisesse. Nesse mesmo dia , lá do quarto dele, ele me gritou de longe: ‘Mamãe, mamãe!’. E a partir daí eu deixei de ser professora e passei a ser mamãe”.

Os dois compartilham gostos em comum, o que fortalece a relação de mãe e filho. O mais forte é pelos livros. Tânia também incentiva Rodrigo a escrever poesias, coisa que o jovem faz desde novo. A troca de experiências é, segundo a professora, uma via de mão dupla, já que Rodrigo também apresentou à mãe muito sobre o mundo. “A maior recompensa de ser mãe é poder passar o que eu tenho de melhor pra alguém e muitas vezes identificar a minha pessoa nele. E ele em mim também, porque isso daqui é uma troca maravilhosa. Ele está aqui, é meu amigo, meu companheiro”.

No dia das mães, neste domingo (12), a família pretende escolher um restaurante especial para comemorar. Mesmo considerando o jeito exagerado de Tânia, Rodrigo admira o coração grande da mulher que o escolheu como filho. “O melhor dela é esse pensamento positivo, e essa questão de sentir a energia dela. Contagia!”, diz. E a mãezona ainda demonstra a vontade de aumentar a família: “Eu sempre acho que aqui ainda cabe mais. Ainda não veio porque não tenho um quarto sobrando. Mas eu acho que tem uma menininha em algum lugar por aí que vai me encontrar em algum momento”, diz, com esperança.

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