Canal Pavablog no Youtube

Posts tagged Graphic Novel

Clássico de Graciliano Ramos ganha versão em quadrinhos

0
Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Publicado na Brasileiros

Lançado em 1938, Vidas secas, de Graciliano Ramos, é um dos maiores clássicos da literatura brasileira. Por meio da jornada de Fabiano e sua família de retirantes em busca de comida, água e abrigo numa peregrinação pelo sertão nordestino, o autor fala das dificuldades de sobrevivência no campo e sobre relações de poder. Se no conteúdo o enredo de Graciliano é hoje tão atual quanto sempre foi, o texto ganha novo formato nesta graphic novel, que a Galera Record lança em agosto.

Com roteiro de Arnaldo Branco e ilustrações de Eloar Guazzelli, o leitor tem a chance de olhar para a clássica obra por um novo ângulo. A ideia é encontrar detalhes e ressaltar temas que talvez tenham passado despercebidos numa leitura anterior. Ao mesmo tempo, a graphic novel traz os fãs de quadrinhos para dentro de uma das mais importantes obras da literatura nacional.

Para isso, a dupla foi fiel ao texto original de Graciliano. À obra clássica unem-se a experiência de Arnaldo na adaptação de outros grandes livros para o formato HQ – como “Véu de noiva” e “O beijo no asfalto”, de Nelson Rodrigues – e o traço premiado de Guazzelli.

Concurso Cultural Literário (127)

14
Foto: Universo dos Leirtores

Foto: Universo dos Leirtores

Pílulas azuis

Frederik Peeters (autoria), Fernando Scheibe (tradução)

Nesta narrativa gráfica pessoal e de rara pureza, por meio de um roteiro simples e de temas universais (o amor, a morte), Frederik Peeters conta sobre seu encontro e sua história com Cati, envolvendo o vírus ignóbil que entra em cena e muda tudo, e todas as emoções contraditórias que ele tem de aprender a gerenciar: amor, raiva, compaixão.

Pílulas azuis nos permite acompanhar, sem nenhum vestígio de sentimentalismo, através de um prisma raramente (senão nunca) abordado, o cotidiano de uma relação cingida pelo HIV, sem deixar de lançar algumas verdades duras e surpreendentes sobre o assunto.

Apesar da seriedade do tema, Pílulas azuis é uma obra cheia de leveza e humor. Não é à toa que é considerada por muitos a obra-prima de Frederik Peeters. Uma das mais belas histórias de amor já publicadas. Leia um trecho.

***

Em parceria com o Universo dos Leitores e a Nemo, vamos sortear 3 exemplares de “Pílulas azuis“, graphic novel sensacional de Frederik Peeters.

Para concorrer, responda na área de comentários:

Qual pílula você receita para diminuir o preconceito no mundo de hoje?

Se participar via Facebook, por favor deixe seu e-mail de contato.

Para ficar sempre por dentro das novidades e promoções, sugerimos que curta as páginas dos envolvidos neste concurso cultural:

O resultado será divulgado dia 20/8 neste post.

Boa sorte!

Confiram os sorteados:

Elton dos Santos

Tatiana Barboza

Erivaldo Figueredo

 

Parabéns!

 

Melhores quadrinhos de 2014

0
Detalhe da HQ "Tungstênio", de Marcello Quintanilha

Detalhe da HQ “Tungstênio”, de Marcello Quintanilha

Télio Navega, no Gibizada
A onomatopeia acima pode traduzir o resultado da votação de melhores HQs do ano. Depois de muitas lamúrias, nós, os dez eleitores, conseguimos, enfim, escolher as nossas dez HQs favoritas. Com muito sofrimento, pois o ano foi bárbaro, principalmente de títulos de autores brasileiros. A lista final, com um ranking dos mais votados (cada eleitor escolheu dez HQs, em ordem decrescente), não é para determinar o melhor ou o pior título publicado no Brasil em 2014, mas uma oportunidade de o leitor ter uma noção do bom material que saiu por aqui e conhecer o gosto pessoal de cada um de nós.

Sete de nós votaram no álbum “Tungstênio” (Veneta), do niteroiense Marcello Quintanilha, que obteve 10-7-7-6-10-9-10, totalizando 59 pontos. O primeiro lugar de cada lista recebe 10, e o último, 1. Curiosamente, “A vida de Jonas” (Zarabatana Books), de Magno Costa, foi lembrado por OITO dos dez eleitores, mas a HQ de Quintanilha aparece no top 5 de seis deles. E três (Audaci Júnior, Jotabê Medeiros e eu) escolheram “Tungstênio” como a melhor do ano. Dois outros (Heitor Pitombo e Paulo Ramos) votaram em “O quinto Beatle – A história de Brian Epstein” (Aleph) como o preferido. E dois (Henrique Amud e Ramon Vitral) concordaram que “Wimbledon Green” (A Bolha), de Seth, foi o melhor. Três (Daniel Lopes, Delfin e Vinicius Cazella) escolheram outros títulos: “Cânone Gráfico” (Barricada), com organização de Russ Kick; “Grande Sertão: Veredas”, de Eloar Guazzelli e Rodrigo Rosa a partir do livro de Guimarães Rosa; e o “Demolidor” de Mark Waid, respectivamente.

Em décimo lugar, aparece “Olympe de Gouges” (Record), de José-Louis Bocquet e Catel Muller, mesma dupla de “Kiki de Montparnasse”. Em nono, a deliciosa aventura “Bom de briga” (Quadrinhos na Cia.), de Paul Pope. Logo acima, surge “Wimbledon Green”, de Seth. E, em sétimo, a divertida e premiadissima série “Saga”, de Brian K. Vaughan e Fiona Staples. O primeiro volume saiu no Brasil pela Devir.

O álbum de Costa obteve 1-4-3-8-2-2-7-8, totalizando 35 pontos e um honroso sexto lugar, atrás de “Cumbe” (Veneta), de Marcelo D´Salete, com 6-8-4-5-8-5 e 36 pontos, em quinto. Em quarto lugar, aparece “Aos cuidados de Rafaela” (Zarabatana Books), de Marcelo Saravá e Marco Oliveira, com 5-9-9-3-7-3 e 36 pontos. O critério de desempate foi o maior número de notas altas. Em terceiro, aparece “Os ignorantes – Relatos de duas iniciações” (WMF Martins Fontes), com 8-9-7-7-8 e 39 pontos. Acima, em segundo, “O quinto Beatle”, com 4-5-8-10-1-10-9 e 47 pontos.

Primeira graphic novel de Quintanilha, “Tungstênio” é inspirada em um caso policial real, ouvido pelo autor através do rádio. E o que chama mais a atenção do leitor, além da arte, extremamente realista de Quintanilha, são os diálogos coloquiais, com gírias e expressões populares. No caso, das pessoas de Salvador, cenário da HQ publicada também em espanhol.

Melhores quadrinhos de 2014

Eis as listas:

01 – “Tungstênio” (Veneta), de Marcello Quintanilha
02 – “Quaisqualigundum” (Dead Hamster), de Roger Cruz e Davi Calil
03 – “Os ignorantes – Relatos de duas iniciações”
(WMF Martins Fontes), de Étienne Davodeau
04 – “Olympe de Gouges” (Galera/Record),
de José-Louis Bocquet e Catel Muller
05 – “Cumbe” (Veneta), de Marcelo D’Salete
06 – “Aos cuidados de Rafaela” (Zarabatana Books),
de Marcelo Saravá e Marco Oliveira
07 – “O quinto Beatle – A história de Brian Epstein” (Aleph),
de Vivek J. Tiwary, Andrew C. Robinson e Kyle Baker
08 – “Bidu – Caminhos” (MSP/Panini),
de Eduardo Damasceno e Luís Felipe Garrocho
09 – “L’Amour: 12 oz” (Mino), de Luciano Salles
10 – “A vida de Jonas” (Zarabatana Books), de Magno Costa

AUDACI JÚNIOR
“Jornal da Paraíba”

01 – “Canone Gráfico” (Barricada),
com organização de Russ Kick e vários autores
02 -” Os ignorantes ”
03 – “Cumbe”
04 – “Tungstênio”
05 – “Olympe de Gouges”
06 – “O Quinto Beatle”
07 – “A vida de Jonas”
08 – “Gavião Arqueiro” (Panini), de Matt Fraction e David Aja
09 -” L’Amour: 12 Oz” (Mino), de Luciano Salles
10 – “O amor infinito que tenho por você” (Balão Editorial),
de Paulo Monteiro

DANIEL LOPES
Videocast “Pipoca e Nanquim”

01 – ” Grande Sertão: Veredas” (Globo),
de Eloar Guazzelli e Rodrigo Rosa a partir do livro de Guimarães Rosa
02 – “Aos cuidados de Rafaela”
03 – “O quinto Beatle”
04 – “Tungstênio”
05 – “Klaus” (Balão Editorial), de Felipe Nunes
06 – “Saga” vol.1 (Devir), de Brian K. Vaughan e Fiona Staples
07 – “Cumbe”
08 – “A vida de Jonas”
09 – “Paolo Pinocchio” (Zarabatana Books), de Lucas Varela
10 – ” Astronauta: Singularidade” (MSP/Panini), de Danilo Beyruth

DELFIN
Site “Terra Zero” e Revista “Machado”

01 – “O Quinto Beatle”
02 – “Aos Cuidados de Rafaela”
03 – “A Vida de Jonas”
04 – “Cânone Gráfico” (Barricada/Boitempo),
de Russ Kick (organizador) e vários artistas
05 – “Tungstênio”
06 – “Dora” (independente), de Bianca Pinheiro
07 – “O Cão Que Guarda as Estrelas” (JBC), de Takahashi Murakami
08 – “Saga” Vol. 1
09 – “Fashion Beast” (Panini),
de Alan Moore, Antony Johnston e Fecundo Persio
10 – “Vida e Obra de Terêncio Horto” (Quadrinhos na Cia.),
de André Dahmer

HEITOR PITOMBO
Revista “Mundo dos Super-Heróis”

01 – “Wimbledon Green” (A Bolha), de Seth
02 – “Parafusos – Mania, depressão, Michelangelo e eu”
(WMF Martins), de Ellen Forney
03 – “Bom de briga” (Quadrinhos na Cia.),
de Paul Pope
04 – “Os ignorantes”
05 – “Saga” vol. 1
06 – “A pior notícia” (A Bolha), de Stéphane Blanquet
07 – “Aâma” vol. 2 (Nemo), de Frederik Peeters
08 – “Aos cuidados de Rafaela”
09 – “Kaput” (WMF Martins Fontes), de Guazzelli,
a partir do livro de Curzio Malaparte
10 – “O quinto Beatle”

HENRIQUE AMUD
Site “Pula Pirata”

01 – “Tungstênio”
02 – “O Estrangeiro” (Quadrinhos na Cia.), de Jacques Ferrandez,
a partir do livro de Albert Camus
03 – “Sorge, o Espião” (Veneta), de Isabel Kreitz
04 – “Garras de Anjo” (Nemo), de Moebius e Jodorowsky
05 – “Bom de Briga”
06 – “Aú, o Capoeirista e o Fantasma do Farol”
(Papel A2 Texto e Arte), de Flávio Luiz
07 – “O Processo” (Veneta), de David Zane Mairowitz e Chantal Montellier,
a partir do livro de Franz Kafka
08 – “A Morte de Ivan Ilich” (Peirópolis),
de Caeto, a partir do livro de Liev Tolstói
09 – “Coração das trevas” (Veneta), de David Zane Mairowitz
e Catherine Anyango, a partir do livro de Joseph Conrad
10 – “Safadas de Natal” (Nemo), de vários autores

JOTABÊ MEDEIROS
“O Estado de S. Paulo”

01 – “O quinto Beatle”
02 – “Tungstênio”
03 – “Yeshua – Onde tudo está” (Devir) vol.3,
de Laudo Ferreira e Omar Viñole
04 – “Aos cuidados de Rafaela”
05 – “As barbas do Imperador – D. Pedro II, a história de um monarca em quadrinhos” (Quadrinhos na Cia.), de Lilia Moritz Schwarcz e Spacca
06 – “Cumbe”
07 – “Olympe de Gouges”
08 – “Legião” (Zarabatana Books), de Salvador Sanz
09 – “A vida de Jonas”
10 – “Duas luas” (GiBiz), de André Diniz e Pablo Mayer

PAULO RAMOS
“Blog dos Quadrinhos”

01 – “Wimbledom Green”
02 – “Saga – Volume 1”
03 – “Cumbe”
04 – “Os Ignorantes”
05 – “L’Amour: 12 oz”
06 – “Xula” (independente) de Bruno di Chico,
Bruno Maron, Calote e Ricardo Coimbra
07 – “Vida de Prástico” (Gato Preto), de Ricardo Coimbra
08 – “20th Century Boys” (Panini), de Naoki Urasawa
09 – “A Vida de Jonas”
10 – “Quaisqualigundum”

RAMON VITRAL
Site “Vitralizado”

01 – “Tungstênio”
02 – “O quinto Beatle”
03 – “Os ignorantes”
04 – “A vida de Jonas”
05 – “Bom de briga”
06 – “Cumbe”
07 – “Saga” vol.1
08 – “Aos cuidados de Rafaela”
09 – “Aâma” vol.2
10 – “Bidu: caminhos”

TÉLIO NAVEGA
“Gibizada”

01 – “Demolidor” (Panini),
de Mark Waid, Paolo Rivera e Marcos Martin
02 – “Os Mortos-Vivos” (HQM), de Robert Kirkman e Charlie Adlard
03 – ” A Vida de Jonas”
04 – “Planetary” vol. 4 (Panini), de Warren Ellis e John Cassaday
05 – ” Saga – Volume 1″
06 – “Transmetropolitan” (Panini) vol. 5,
de Warren Ellis e Darick Robertson
07 – “Hellblazer” (Panini), de Peter Milligan
08 – “Injustiça – Deuses entre nós” (Panini),
de Tom Taylor, Jheremy Raapack e Mike S. Miller
09 – “Happy!” (Devir), de Grant Morrison e Darik Robertson
10 – “O Ladrão dos Ladrões” (HQM),
de Robert Kirkman, Nick Spencer e Shawn Martinbrough.

VINICIUS CAZELLA
Videocast “Dois Quadrinhos”

Grande Sertão: Veredas ganha adaptação em quadrinhos

0

Adaptação para Graphic Novel teve aprovação da família de Guimarães Rosa

Publicado no Divirta-se

Grande Sertão: Veredas ganha adaptação em quadrinhosA história de Riobaldo Tatarana, ex-jagunço que relembra lutas e a paixão reprimida por Diadorim, é traçada por uma travessia pelo sertão e pelas águas do rio São Francisco, retratada em Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa. O clássico da literatura brasileira ganhou adaptação em quadrinhos, com roteiro de Eloar Guazelli e arte de Rodrigo Rosa.

Na história, a tentação aparece de diversas formas, uma delas é a figura do diabo. No caso de Eloar, a tentação veio em forma de desafio: cortar o texto de aproximadamente 600 páginas.

“Não pensei em desistir. A partir do momento que decidi entrar, foi como entrar no sertão, mesmo… E, quando você entra no sertão, desistir é morrer.”

Eloar conta que adaptar a linguagem do clássico foi uma ousadia: “É uma obra de 600 páginas, e eu tive que cometer o pecado de cortar, cortar e cortar e me ater à essência. É um tratado antropológico, filosófico e uma das obras mais importantes sobre ser brasileiro. Procurei ser fiel e traduzir os mais belos momentos de algumas frases.”

Na obra original — famosa por sua prosa poética, de sintaxe inovadora —, a narrativa é pontuada por idas e vindas no tempo, além de pausas em que Riobaldo reflete sobre questões como a existência ou não do diabo. Na adaptação, porém, a cronologia está em ordem. Por isso, a cena famosa, em que Riobaldo e Diadorim se conhecem, ainda crianças, está quase no começo do livro.

Além dos prazos e da arte de condensar mais de 600 páginas em quadrinhos, outro grande desafio foi convencer a família de Guimarães Rosa a autorizar a publicação da graphic novel.

A família dele é conhecida por fazer restrições a tudo que se refere a obra dele. Os exemplos mais conhecidos são o filme Grande Sertão, para o qual o cineasta Silvio Tendler que refez o caminho de Riobaldo e a biografia Sinfonia Minas Gerais — A vida e a literatura de João Guimarães Rosa, de Alaor Barbosa, retirada das livrarias em 2008.

Os autores, no entanto, contam que a família acompanhou a produção da HQ. “A única etapa que foi um pouco mais difícil foi acertar os traços da personagem Diadorim. Depois de algumas tentativas, chegamos ao visual dela”, lembra Rodrigo.

Desafios da ilustração
Representar em imagem um livro que usa a ambivalência como recurso foi o desafio que o ilustrador Rodrigo Rosa encontrou. O exemplo mais famoso dessa ambiguidade é o “jagunço” Diadorim, que na verdade é mulher. Rodrigo buscou um traço andrógino sem revelar de cara seu segredo. “Foi uma das coisas mais difíceis de desenhar, acho que fizemos seis versões. Tive cuidado para não ficar a cara da Bruna Lombardi”, diz Rodrigo, em referência à atriz que interpretou Diadorim na versão televisiva do romance, em 1985.

Rodrigo conta que outra passagem difícil foi o suposto pacto que Riobaldo faz com o diabo. Afinal, o personagem conta sua história de vida a um interlocutor a fim de convencê-lo — e convencer a si mesmo — de que o demônio não existe. “Como no livro o pacto não é claro, tentei passar essa dúvida. Mostro Riobaldo na encruzilhada e o desenho vai ficando com um traço mais surrealista”, afirma.

Trabalhar os momentos da obra de Guimarães sem ser redundante foi o terceiro de desafio. “Procurei brechas que permitissem o dialogo. Li o livro e anotei as coisas que me pareciam interessantes graficamente. Fiz pesquisa sobre a região, os costumes, tudo o que pode ser acrescentado, no aspecto visual”, lembra.

“O Brasil tem um nível de inteligência e entusiasmo que sempre me impressiona”, diz Neil Gaiman

0
Neil Gaiman

(Foto: Creative Commons/ Flickr)

Evandro Furoni, na Galileu

Pela primeira vez em anos, os brasileiros vão poder colocar as mãos em um dos primeiros sucessos do escritor britânico Neil Gaiman, Violent Cases (Ed. Aleph). A graphic novel de 1987, desenhada por Dave McKean, conta a história de uma criança que se trata com o ex-médico do gangster Al Capone, misturando realidade e ficção. Mais conhecido pelas HQs de Sandman, Gaiman também é autor de livros, filmes e até já escreveu alguns episódios da série britânica Doctor Who. Na edição deste mês da Galileu (nº 280/ novembro), falamos sobre a importância do trabalho dele. Confira a conversa na íntegra.

Violent Cases está sendo relançado no Brasil. O que mudou no seu estilo de contar histórias desde aquela época?

O que eu venho fazendo por toda a minha vida adulta é criar essas pequenas histórias estranhas que, ao mesmo tempo, são verdadeiras sobre minha vida, minha identidade, como eu vejo o mundo e são uma mentira absoluta também, pois não são verdadeiras de modo algum.

Em Violent Cases, Mr. Punch e Oceano no Fim do Caminho, por exemplo, um dos temas centrais é a criança que tenta decifrar o mundo dos adultos. Por que esse assunto é tão recorrente?

Todos nós fomos crianças em algum momento, é uma coisa que todo mundo compartilha. Além disso, para mim, essas três obras são meios de eu tentar dar sentido a minha vida.

Sei exatamente o momento em que Violent Cases começou. Foi em 1986, eu estava levando para a cama o meu filho Mike, que tinha uns três anos. Ele ficava batucando nervoso nas minhas costas. E eu pensei: “Eu me lembro como me sentia quando era levado para a cama e de jurar para mim mesmo que nunca faria aquilo com outro ser humano. E aqui estou eu, com 26 anos, carregando o meu filho”. Essa foi uma revelação interessante, ver a vida como algo contínuo.

É difícil expor sua vida nas obras?

É muito estranho. Eu sou uma pessoa reservada. Mas Violent Cases começa com uma história quase verdadeira da minha vida, meu pai deslocou meu ombro quando eu tinha três anos de idade e fomos ver o cara que tinha sido o médico osteopata de Al Capone. Além disso, Dave Mackean desenhou alguém parecido comigo, então o personagem sou obviamente eu.

Parte da diversão sobre isso é que realmente tem verdade lá, mas a verdade não é a história. É mais um mosaico, em que você pega os seus quadrados, o vermelho o verde, o amarelo e os usa para criar uma grande imagem.

Violent Cases é um dos primeiros trabalhos que você fez em parceria com Dave McKean. Nos anos seguintes, vocês acabaram trabalhando juntos em uma série de projetos. O que Dave oferece de único, na sua opinião?

Primeiro, nós somos incrivelmente diferentes e, ainda assim, gostamos muito um do outro, somos amigos dede quando eu tinha 26 anos e ele 23. O fato de eu nunca saber o que esperar de Dave é outra razão para a gente continuar trabalhado. Os melhores artistas com os quais qual trabalhei são P. Craig Russell , Charles Vess e Dave Mckean. Uma das coisas que eu amo sobre Charles e Craig é que eu sempre meio que sei o que esperar. Já com Dave é como ir a um restaurante no escuro, onde os garçons são cegos e colocam coisas no seu prato que você não faz ideia do que são.

Você nunca se limitou aos quadrinhos: escreve livros, trabalhou com roteiros, se envolve com música, entre outras coisas. Como você “muda a chave” na hora de um novo projeto?

O importante é pensar no caminho, no que vocês está fazendo e qual é a ferramenta do seu ofício. Você tem a mesma visão, a mesma capacidade artística, mas não vai pensar do mesmo modo que faz quando está desenhando.

Eu sempre quis escrever quadrinhos, tenho certeza que sempre vou fazer isso, assim como vou escrever para televisão. Mas se eu escrever um quadrinho do Dr. Who não será do mesmo jeito que escrevi The Doctor’s Wife [episódio da série escrito por Gaiman, em 2011].

Você é um dos autores mais ativos nas mídias sociais, e chegou até a compartilhar no seu blog o processo de escrita de Deuses Americanos. Como essas mídias influenciam o seu trabalho?

Para mim, é tudo igual. Em 1987, quando escrevi Violent Cases, nós tínhamos boletins; em 1998, a AOL; e, em 2001, o meu blog. Para mim sempre foi sobre fugir da solidão e achar modos de se comunicar. O Twitter e o Facebook são a mesma coisa que do que fazíamos no passado, mas com mais barulho.

Você gostaria de dizer algo ao Brasil?

Primeiro de tudo, queria dizer que o Brasil é um dos meus países favoritos. Ontem mesmo eu fiz uma piada com a minha mulher Amanda [Palmer, cantora e atriz americana], quando estávamos falando que metade das encomendas do novo livro dela vieram do Brasil. Eu a fiz prometer que ela irá visitá-los no ano que vem, e eu irei junto. Ela fará um evento, eu provavelmente farei uma sessão de leitura ou de autógrafos.

Mas eu fico um pouco nervoso de estar no Brasil, porque na última vez que eu fiz uma noite de autógrafos, em São Paulo, em 2002, mais de mil pessoas apareceram, e uns 300 ficaram de fora. Isso foi por volta das 11 horas da noite, eles tentaram fechar o local e fazer todo mundo ir embora. As pessoas ameaçaram fazer um tumulto, então eu fiquei assinando até às 2 horas da manhã. O Brasil tem um nível de inteligência e entusiasmo que sempre me impressiona.

Go to Top