O mundo criado por William Shakespeare em suas peças é imenso e denso, por vezes sendo difícil saber por onde adentrá-lo. Para isso, escolhemos as cinco melhores peças do bardo para quem quiser adentrar no seu mundo de loucura, vingança e sangue.

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José Figueiredo, no Homo Literatus

Shakespeare é o máximo e poucos são os que discutem tal afirmação. O homem (ou os vários, dependendo da teoria conspiratória que você acredite) foi capaz de criar um mundo de personagens fortes, complexos, engraçados e modernos.

Pessoas que se deixam levar pelas emoções, hesitantes, altamente manipuláveis estão no leque de criações do bardo inglês. O nível de complexidade – e de loucura – de alguns personagens é tamanho que ainda hoje são referência para a criação de personagens modernos.

Mesmo a crítica, feroz como só ela pode ser, tem a firme convicção de que ele, ainda hoje, é um dos nomes essências da Literatura Universal – ao ponto que Harold Bloom, professor de Yale e crítico literário, dizer que Shakespeare é centro de todo cânone ocidental.

Mas as peças são muitas e há Ricardos e Henriques demais, ficando difícil a escolha de uma peça. Para tanto, escolhemos cinco das melhores peças para quem quer adentrar no mundo shakespeariano. (Confesso que a lista é um tanto quanto pessoal da parte desse que vos escreve, porém não há lista de peças de Shakespeare que não o seja).

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A Megera Domada

Comecemos por uma comédia. Essa história é provavelmente a mais conhecida de forma indireta hoje. Há pelo menos duas grandes referências a ela para quem mora no Brasil: o filme 10 coisas que eu odeio em você, com Heath Ledger e Julia Stiles e a novela (sim, uma novela) O Cravo e a Rosa. Mesmo que não saiba, você conhece muito bem a história de Bianca, obrigada pelo seu pai, Batista, a casar-se apenas depois que sua irmã mais velha, Catarina, casar-se. No meio desse casamento impedido e do desespero de Lucêncio em casar com Bianca surge Petrúquio, alguém disposto a encarar um casamento com a megera do título para ter o volumoso dote que acompanha a esposa. Em meio a toda situação, damos muitas risadas das tentativas de Petrúquio em conquistar e convencer a perversa Catarina. Uma boa forma de se entrar no mundo do bardo com leveza, contudo sem negar a complexidade subjacente que pode haver por trás de uma história tão inocente.

Otelo

O ciúme e as conseqüências provocadas por ele são coisas que nos acompanham desde os gregos. No entanto, ninguém soube até hoje criar um homem tão ciumento e cego, capaz de agir sem pensar, do que Shakespeare. Otelo é nada mais do que isso: um homem ciumento em meio hostil (entre o racismo por ser mouro e a inveja por ser bem sucedido na condição de negro/pardo). Tudo, porém, não andaria se não houvesse o pior entre os vilões criados por ele: Iago. Quem traça o destino do mouro e da sua esposa, Desdêmona, é esse ser rancoroso que vai enganando o cego Otelo por meio de artifícios dúbios que apenas um homem cego vê. E para aqueles que se perguntam qual é o estopim para tamanha vingança de Iago, o motivo que surge ao lermos a peça mostra que Shakespeare conhecia a alma humana como poucos. Iago faz tudo e faz por ter sido deixado em segundo plano numa promoção, nada mais do que isso – e cá temos o motivo fútil hoje em dia tão debatido. Uma peça onde a tragédia corre para um desfecho terrível e nada podemos fazer além de acompanhar tudo até o final.

Rei Lear

Podemos dizer que existem histórias tão antigas quanto à própria humanidade, sendo esse o nosso caso em Rei Lear. Era uma vez um rei velho que decide dividir o seu reino entre suas três filhas para que estas e seus respectivos maridos cuidem deles e dele próprio. O resto, como é previsível aos mais lúcidos, é o resultado dessa decisão errada. Pessoas gananciosas não faltam e consequências horripilantes também não. Lear descobre que as pessoas que o amavam, na sua maioria, o faziam devido ao seu poder e descobre quem realmente merece seu amor e apreço – mesmo que para alguns seja tarde demais. Ele perde tudo com o decorrer da peça: seu reino, o respeito, a sanidade e muito mais. Uma linda peça composta com o que há de mais obscuro das ações humanas.

Hamlet

O príncipe da Dinamarca pode é provavelmente um dos personagens de Shakespeare mais conhecidos junto ao casal Romeu e Julieta. É dele, por exemplo, a famosa frase “ser ou não ser, eis a questão”. Entretanto, não podemos resumir o mais complexo dos personagens do bardo em um jargão já um tanto batido devido à complexidade e às múltiplas e por bem dizer infinitas interpretações que a peça gera ainda hoje. Em síntese, o enredo não parece ter nada demais: Hamlet, príncipe da Dinamarca, pretende vingar a morte de seu pai, também Hamlet. Para tanto, ele tem de matar Cláudio, atual rei e seu tio. Mas a coisa não fica por aí. Cláudio, para se tornar rei, casa-se com a rainha, mãe de Hamlet e o resto já se ver que não vai acabar bem. Entre o fantasma do rei morto e Ofélia, noiva do instável Hamlet há mais coisas que supõe nossa vã filosofia – para usar outra das famosas tiradas do personagem-título.

Macbeth

Apesar de não ser a melhor das peças para a maioria, devo admitir que esta é a favorita desse que vos escreve. Não há nada em excesso ou em falta nessa peça que gira em torno da crescente cobiça. Macbeth é um general que junto a Banquo, também general e amigo, acaba de vencer mais uma batalha para o rei Duncan da Escócia. Tudo vai bem até dois acontecimentos virarem a cabeça do nosso protagonista. Três bruxas surgem e fazem duas profecias a Macbeth e Banquo: Macbeth será rei, bem como os filhos de Banquo o serão, mesmo que ele não o seja. Tudo isso já seria o suficiente para esperarmos uma grande situação. Contudo, a grande personagem ainda está por surgir. Lady Macbeth, ao saber da profecia, incita o marido a matar o rei – e aqui a razão de ambos degringola de vez. O que temos depois é muito sangue – digno de um filme de Tarantino –, cobiça, vingança e loucura. Aquela que não deve ter seu nome pronunciado é o melhor exemplo de que todos somos manipulados – e ainda dá vazão ao velho ditado, “por trás de um grande homem há uma grande mulher”. Muito pode ser dito sobre essa peça e o principal seria: Leiam-na!