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Posts tagged Guerra E Paz

5 escritores russos que você deveria ler

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Leitura difícil é compensada por profundidade de temas e personificação de autores nas obras

Publicado no Guia da Semana

A primeira coisa que nos vem à cabeça quando pensamos em Literatura Russa é que a leitura é praticamente impossível. Isso faz com que, muitas vezes, deixemos de conhecer um título incrível por achar que não vamos conseguir compreendê-lo ou que o prazer de ler será transformado em algo extremamente cansativo.

Entretanto, os escritores russos possuem algo de especial: eles não são distintos e peculiares apenas pela escrita, mas pelas próprias pessoas que foram ou são, o que os torna a personificação de suas próprias obras. Isso, sem dúvidas, faz com que nós, leitores, consigamos enxergar um pouco do que eles são por dentro… E essa é uma experiência impagável.

Assim, para que você conheça alguns dos maiores nomes e se aproxime dessa literatura incrível e profunda, o Guia da Semana lista os escritores que você deveria ler. Confira:

LEON TOLSTOI

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Tolstoi era conde e nasceu em uma família rica. Ficou órfão muito cedo, ainda na infância, e foi criado e educado por perceptores. Devido ao sentimento de vazio que sentia, alistou-se ao exército e, no início da vida adulta, passou a investir boa parte do tempo (e dinheiro) em bebida, jogo e prostitutas. Mais tarde, repudiou profundamente essa fase.

Mais velho, preocupado com a precariedade da educação no meio rural, criou uma escola para filhos de camponeses. O escritor mesmo escreveu grande parte do material didático e, ao contrário da pedagogia da época, deixava os alunos livres, sem excessivas regras e sem punições.

Teve 13 filhos de um casamento extremamente complicado e, depois de ter se dedicado imensamente à vida familiar, passou a escrever e tornou-se imensamente famoso logo com os primeiros títulos – Guerra e Paz, e Anna Karenina.

Bem sucedido como escritor, atormentava-se com questões sobre o sentido da vida e, por isso, passou a viver de forma simples como os camponeses.

Indicações de obras: Guerra e Paz, Anna Karenina, Ressurreição.

FIÓDOR DOSTOIÉVSKI

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Dostoiévski é considerado um dos maiores autores da história da humanidade, posição de extrema responsabilidade e reconhecimento. Entretanto, engana-se quem pensa que sua vida foi tranquila e maravilhosa.

Na juventude, participou de um grupo intelectual revolucionário e foi acusado de conspirar contra o imperador da Rússia e condenado à morte. Apenas quando já estava posicionado para ser fuzilado, teve sua pena transformada em trabalhos forçados e o fato o marcou e mudou completamente sua história.

Suas obras exploram a autodestruição, humilhação e assassinato, além de analisar estados patológicos que levam ao suicídio, à loucura e homicídios.

Indicações de obras: Crime e Castigo, Os irmãos Karamázov, Diário do Subsolo, O Idiota e Os Demônios.

DANIIL KHARMS

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Em suas obras, protestava contra o realismo socialista e, por pouco, não acabou passando pela mesma situação que Dostoiévski. Assim, com a censura, já que não conseguia mais escrever como queria para a literatura adulta, passou a escrever livros infantis – e chocou as autoridades.

Os contos fizeram muito sucesso com o público infantojuvenil, afinal, o autor adotou um humor sombrio e tragicômico para contar situações banais. Em um de seus mais famosos, diversas velhas lançavam-se pela janela só para satisfazer a curiosidade de saber o que a velha anterior estava olhando. Mais adiante, o narrador, cansado de ver as mulheres morrendo, vai para a feira. O título? “Velhas que caem”.

Indicações de obras: Esqueci como se chama, Os sonhos teus vão acabar contigo, As velhas que caem.

NIKOLAI GOGOL

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Gogol foi um contista genial, romancista e teatrólogo, além de um dos fundadores da moderna literatura russa. Levou à Russia o realismo fantástico e escreveu livros considerados obras primas, como “O Capote” e “O Retrato”.

O gosto pela leitura veio através de seu pai e a crença e religião de sua mãe – o que mais tarde transformou-se em um apego pelo misticismo extremamente doentio. Conheceu o grande poeta Alexandre Pushkin, que influenciou obras que ainda não haviam começado a ser escritas.

A sua obra reflete o lado moralista das questões que dizem respeito à condição humana, trágica e inapelavelmente prisioneira na sua jaula.

Indicações de obras: O Capote, O Retrato, Arabescos e Almas Mortas.

ANTON TCHEKHOV

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O escritor inventou uma nova forma de escrever contos: com o mínimo de enredo e o máximo de emoção. Em suas histórias, criava atmosferas, registrando situações que não se encerravam no final dos relatos – diferente do gênero da época, intrigante, com desfechos inesperados. Com uma visão de mundo ora humorística, ora poética, ora dramática, Tchekhov captou momentos ocasionais da realidade, fatias de vida, pequenos flagrantes do cotidiano, estados de espírito da gente comum. A genialidade de sua arte era transformar incidentes laterais e aparentemente insignificantes da existência individual em representações perfeitas do destino humano. Suas histórias não tinham o fanatismo e a densidade de Dostoievski nem o idealismo de Tolstoi, eram apenas humanas.

Indicações de obras: A Gaivota, As três irmãs, A festividade e A arte da simulação.

Nathália Tourais redator(a)

Lições de Tolstói

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O escritor russo nos ensina em ‘Guerra e paz’ que apesar de todo o mau que há na vida, a humanidade vai deixando para trás, pouco a pouco, seu pior

Mario Vargas Llosa, no El País

FERNANDO VICENTE

FERNANDO VICENTE

Li Guerra e Paz pela primeira vez há meio século, em um volume único da Pléiade, durante as minhas primeiras férias remuneradas pela Agência France Presse, em Perros-Guirec. Estava escrevendo naquele período o meu primeiro romance, e vivia obcecado com a ideia de que, diferentemente do que ocorre com outros gêneros literários, a quantidade, no romance, era um ingrediente essencial da qualidade; de que os grandes romances costumavam ser também romances grandes –longos— porque abrangiam tantos aspectos da realidade que davam a sensação de expressar a totalidade da experiência humana.

O romance de Tolstói parecia confirmar milimetricamente essa teoria. A partir de um começo frívolo e mundano naqueles salões elegantes de São Petersburgo e de Moscou, com aqueles nobres que falavam mais em francês do que em russo, a história ia descendo e se espraiando por toda a complexa sociedade russa, expondo-a com toda a sua ilimitada gama de classes e tipos sociais, dos príncipes e generais aos servos e camponeses, passando pelos comerciantes e as senhoritas em idade de casar, os libertinos e os maçons, os religiosos e os aproveitadores, os soldados, os artistas, os arrivistas, os místicos, até envolver o leitor na vertigem de ter sob os seus olhos uma história na qual atuavam todas as variações possíveis daquilo que é humano.

Em minha lembrança, o que mais se destacava nesse romance eram as batalhas, a odisseia extraordinária do velho general Kutúzov, que, de derrota em derrota, vai aos poucos desgastando as tropas napoleônicas invasoras até que, com a ajuda do inverno brutal, da neve e da fome, consegue acabar com elas. Na minha cabeça, firmava-se a falsa ideia de que, se fosse preciso resumir Guerra e Paz em uma só frase, daria para dizer que se tratava de um grande mural épico sobre como o povo russo rechaçou as empreitadas imperialistas de Napoleão Bonaparte, “o inimigo da humanidade”, e defendeu a sua soberania; ou seja: um grande romance nacionalista e militar, de exaltação à guerra, à tradição e às supostas virtudes castrenses do povo russo.

Constato agora, nesta segunda leitura, que eu estava enganado. Longe de apresentar a guerra como uma experiência virtuosa na qual se forjam o moral, a personalidade e a grandeza de um país, o romance a expõe com todo o seu horror, mostrando em cada batalha –especialmente na alucinante descrição da vitória de Napoleão em Austerlitz— a monstruosa carnificina que ela provoca, a penúria e as injustiças que atingem os homens comuns, que constituem a maioria de suas vítimas; assim como a estupidez macabra e criminosa daqueles que detonam essas tragédias falando em honra, em patriotismo, em valores cívicos e militares, palavras cujo vazio e cuja pequenez se mostram evidentes aos primeiros disparos dos canhões. O romance de Tolstói tem muito mais a ver com a paz do que com a guerra. O amor à história e à cultura russa que indiscutivelmente o impregna não exalta em nada o som e a fúria das matanças, mas sim aquela vida interior intensa, cheia de reflexão, de dúvidas, a busca da verdade e o esforço em fazer o bem aos outros, tudo isso encarnado no bondoso e pacífico Pierre Bezúkhov, o herói do romance.

Embora a tradução de Guerra e Paz para o espanhol que estou lendo não seja excelente, a genialidade de Tolstói se faz presente a cada passagem, em tudo o que ele relata, e mais no que oculta do que no que explicita. Seus silêncios são sempre eloquentes, comunicam algo, estimulam a curiosidade do leitor, que fica preso ao texto, ansioso para saber se o príncipe Andrei finalmente declarará o seu amor a Natasha, se o casamento combinado realmente acontecerá, ou se o excêntrico príncipe Nikolai Andreiévitch conseguirá impedi-lo. Não há quase nenhum episódio no romance que não deixe algo no ar, que não se interrompa deixando de revelar ao leitor algum elemento ou informação decisivos, de modo a fazer com que sua atenção não diminua, se mantenha sempre ávida e alerta. É realmente extraordinário como em um romance tão amplo, tão diversificado, com tantos personagens, a trama é sempre conduzida com tanta perfeição por um narrador onisciente que nunca perde o controle, que delimita com absoluta maestria o tempo dedicado a cada um, que vai avançando sem descuidar nem preterir de nenhum deles, dando a todos o tempo e o espaço apropriados para fazer com que tudo avance conforme avança a própria vida, por vezes muito vagarosamente, por vezes em saltos frenéticos, com suas doses diárias de alegrias, tragédias, sonhos, amores e fantasias. (mais…)

Leo Tolstoy, autor de Guerra e Paz, ganha Doodle no 186º aniversário

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Melissa Cruz, no TechTudo

Leo Tolstoy é o grande homenageado do Doodle do Google desta terça-feira (9), que celebra o que seria 186º aniversário de autor de Guerra e Paz e Anna Karenina, se estivesse vivo. O escritor russo recebeu o tributo na página inicial do buscador em todo o mundo, que traz nomes de suas obras mais famosas em uma sequência de quadros. Morto aos 82 anos, um dos grandes mestres da literatura russa do século XIX foi vítima de pneumonia.

Doodle do Google de Leo Tolstoy, autor Guerra e Paz (Foto: Reprodução/Google)

Doodle do Google de Leo Tolstoy, autor Guerra e Paz (Foto: Reprodução/Google)

“Espero que o Doodle inspire quem o vê a descobrir e revisitar Tolstoy: através da leitura e releitura de suas narrativas atemporais”, disse Roman Muradov, designer convidado para as ilustrações.

Doodle do Google de Leo Tolstoy em momento de criação no Photoshop antes de ir ao ar (Foto: Reprodução/Google)

Doodle do Google de Leo Tolstoy em momento de criação no Photoshop antes de ir ao ar (Foto: Reprodução/Google)

No site destinado aos Doodles do Google (google.com/doodles/leo-tolstoys), Muradov dá mais detalhes de como foi produzir o doodle.

Leia frases marcantes de Leon Tolstoi

“Não preciso dizer que fazer uma homenagem a Leo Tolstoy foi uma tarefa difícil”, disse ele, ao se referir ao projeto cujo objetivo era reunir as principais obras de maneira rápida e simples.
Também conhecido como Leon, Leão ou Liev Tolstoi, ganhou fama ao tornar-se um reconhecido pacifista. Seus livros contrastavam com igrejas e governos, e pregavam uma vida simples junto à natureza, sem privilégios e riquezas.

Doodle do Google de Leo Tolstoy, autor Guerra e Paz (Foto: Reprodução/Google)

Doodle do Google de Leo Tolstoy, autor Guerra e Paz (Foto: Reprodução/Google)

Não há grandeza quando não há simplicidade
Leo Tolstoy

Há várias frases marcantes atribuídas a Leo Tolstoy, boa parte delas são reflexões sobre a vida, a arte, o amor, a moral e inquietações comuns ao homem e que não se prendem ao seu tempo.

Uma delas sobre a própria literatura, diz “Eu escrevo livros, por isso sei todo o mal que eles fazem”, e é utilizada por muitos apreciadores de suas obras e apaixonados pela leitura em geral.

Doodle do Google de Leo Tolstoy, autor Guerra e Paz (Foto: Reprodução/Google)

Doodle do Google de Leo Tolstoy, autor Guerra e Paz (Foto: Reprodução/Google)

De boêmio à pacifista
Leo Tolstoy nasceu dia 9 de setembro de 1828 em Yasnaya Polyana, a propriedade da família na Rússia. Era filho de Nicolas Ilyitch, conde de Tolstoi e de Maria Nicolaevna, princesa de Volkonsky, que morreram precocemente, deixando seus cinco filhos órfãos.

Em 1851, o escritor se alistou no exército russo e teve uma fase boêmia em sua vida. Fase que, mais velho, ele repudiou.

Leo Tolstoy foi um dos grandes nomes da literatura mundial (Foto: Reprodução/Wikimedia)

Leo Tolstoy foi um dos grandes nomes da literatura mundial (Foto: Reprodução/Wikimedia)

No final da década de 1850, preocupado com precariedade da educação, o autor criou uma escola para filhos de camponeses. Ele escreveu grande parte dos materiais didáticos e coordenava a escola de forma diferente para a época, deixando os alunos livres, sem muitas regras e punições.

Em 1862, Leo Tolstoy se casou com Sophia Andreievna Bers, com quem tem 13 filhos. Porém seu casamento era um verdadeiro e constante conflito. Foi nessa época que o autor escreveu seus livros, “Guerra e Paz” (1865/1869) e “Anna Karenina” (1873).

Tolstoy buscava o sentido da vida. Após não tem encontrado respostas na filosofia, na teologia e na ciência, seguiu o exemplo dos camponeses e começou o que ele chamaria de sua “conversão”.

Leo Tolstoy morreu enquanto buscava uma vida mais simples, sem riqueza (Foto: Reprodução/Wikimedia)

Leo Tolstoy morreu enquanto buscava uma vida mais simples, sem riqueza (Foto: Reprodução/Wikimedia)

O autor seguia uma interpretação dos ensinamentos cristãos ao pé da letra, recusando-se a autoridade de qualquer governo organizado ou de qualquer Igreja. Criticava o direito à propriedade privada e os tribunais e pregou o pacifismo. Tais ideias influenciaram Gandhi, um grande admirador do escritor.

Leo Tolstoy morreu de pneumonia no dia 20 de novembro de 1910, na ferroviária de Astapovo, enquanto fugia de casa para levar uma vida feliz e sem riqueza.

Grandes obras
O primeiro livro de Leo Tolstoy foi “Guerra e Paz”, que levou sete anos para ser escrito e foi publicado entre 1865 e 1869. É uma das maiores histórias da literatura universal. A obra conta a história da Rússia na época de Napoleão Bonaparte e as guerras napoleônicas. Na história, o autor desenvolve uma teoria em que o livre arbítrio se perderia e as pessoas estariam presas ao determinismo histórico. Atualmente considerado romance, na época era chamado de ficção.

O primeiro romance de Tolstoy foi “Anna Karenina”, publicado em 1873. A obra narra a história de um caso extraconjugal da personagem principal, a aristocrata Anna Karenina. Durante o livro, o autor trata de diversos temas importantes para a vida camponesa da época, como formas de administrar suas propriedades ou como tratar os camponeses. Além disso, o livro também fala de religião e a conversão do ateísmo ao cristianismo. “Anna Karenina” já recebeu diversas adaptações para o cinema.

60% das pessoas mentem sobre ter lido certos livros, aponta estudo

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Publicado em O Globo

1Primeiro, os filmes. Agora, os livros também são alvo das tradicionais mentirinhas sociais. Uma pesquisa recente realizada com 2 mil participantes no Reino Unido sugere que a maior parte das pessoas – 60%, mais especificamente – mente sobre ter lido certos clássicos da literatura. A intenção, obviamente, é parecer mais inteligente.

Mais da metade dos entrevistados também confessou exibir em suas prateleiras livros que nunca leu. Um grupo de 3% de entrevistados disse ainda esconder capas de livros considerados “duvidosos” durante a leitura em público. Os títulos mais populares entre os “falsificadores de leitura” são aqueles adaptados para a TV e o cinema e utilizados nos currículos escolares.

Entre os livros mais citados – e menos lidos – estão “1984”, de George Orwell (citado por 26% dos entrevistados), “Guerra e paz”, de Leon Tolstói (19%), “Grandes esperanças”, de Charles Dickens (18%) e “O apanhador no campo de centeio”, de JD Salinger (15%). De acordo com a pesquisa, 3% já mentiram até sobre terem lido a Bíblia.

Outras táticas usadas pelos entrevistados para denotar inteligência incluem mudar a aparência, corrigir erros de gramática cometidos por terceiros, usar citações famosas em conversas e dizer ter um nível de fluência em idiomas estrangeiros maior que o verdadeiro.

E você? Já disse ter lido um livro que nunca leu? Responda nos comentários!

dica do Isaac Palma

Quem roubou nosso tempo de leitura?

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O tempo para leitura parece cada vez mais comprimido e isto não é uma perda apenas para a literatura.

Por Alan Bisset, no The Guardian
(Traduzido por Milton Ribeiro para o Sul21)

Cena de Inglourious Basterds, de Quentin Tarantino, 2009

Cena de Inglourious Basterds, de Quentin Tarantino, 2009

Um súbito interesse renovado por Tolstói, causado pelo filme sobre seus últimos dias, A Última Estação, fez-me lembrar que há um ano atrás eu tinha prometido a mim mesmo reler Guerra e Paz. Fazia algum tempo que eu não enfrentava um romance de grandes proporções ou, para ser mais exato, qualquer coisa publicada antes do século XX. A releitura de Guerra e Paz iria me tranquilizar: minha resistência física e disponibilidade estavam intactas. Fui até a estante e descobri a página em que deixei o marcador –  ele estava na página 55 e eu sequer podia utilizar a desculpa de ter crianças pequenas.

O fato em si não teria me assustado — afinal, é Guerra e Paz — se não fosse a existência de outros marcadores abandonados em outros livros. Eu não estava terminando nenhum deles? Como é que eu, que adorava ficção o suficiente para estudá-la, ensiná-la e escrever a respeito, me tornara tão distraído?

Cena de Persona, de Ingmar Bergman

Cena de Persona, de Ingmar Bergman, 1966

O mundo dos meus tempos de estudante era fundamentalmente diferente do atual. Foi apenas no final da minha graduação que um amigo me mostrou uma maravilha chamada internet (Ele: “Há sites sobre qualquer assunto, tudo pode ser encontrado!”. Eu: “O que é um site?”). Nos anos 90, havia somente quatro canais de televisão. Cada família tinha um telefone, cujo uso era consecutivo. Poucos tinham jogos eletrônicos. Então, era muito mais fácil retirar-se completamente do mundo para a grande arquitetura do romance. Agora, o leitor está sob o ataque de centenas de canais de televisão, cinema 3D, há um negócio de jogos de computador tão florescente que faz com que Hollywood os imite em seus filmes, há os iPhones, o Wifi, o YouTube, o Facebook, há notícias 24h, uma cultura tola da celebridade — verdadeiras ou falsas — , acesso instantâneo a toda e qualquer música já registrada, temos o esporte onipresente, há caixas de DVDs com tudo o que gostamos. Os momentos de lazer que já eram preciosos foram engolidos pela lista anterior e também e-mails, torpedos e Facebook. Quase todas as pessoas com quem eu falo dizem amar os livros, mas que simplesmente não encontram mais tempo para lê-los. Bem, eles CERTAMENTE têm tempo, só que não conseguem gastá-lo de forma diferente.

Isto tem consequências desastrosas para nossa inteligência coletiva. Estamos sitiados pela indústria de entretenimento, a qual nos estimula apenas em determinadas direções. A sedução é sonora, visual e tátil. A concentração na palavra impressa, na profundidade de um argumento ou de uma narrativa ficcional, exige  uma postura que os dependentes dos meios visuais não têm condições de atender. Seus cérebros não se fixam na leitura ou, se leem, fazem-no rapidamente para voltar logo ao plin-plin. Ora, isso é um roubo de um espaço de pensamento que deveria ser recuperado.

Alphaville, de Godard, 1965

Alphaville, de Godard, 1965

Obviamente, os meios de comunicação como a Internet nos oferecem enormes benefícios (você não estaria lendo isto de outra forma), mas nos empurram facilmente para coisas bem superficiais que roubam nosso tempo. Você viu Avatar? Você viu o que eles podem fazer agora? Podem me chamar de melodramático, mas estou começando a me sentir como protagonista de alguma distopia (ou antiutopia) do gênero de 1984 ou Fahrenheit 451, tendo meus pensamentos apagados e, pior, gostando disso.

A Cultura mudou rapidamente nesta década. A leitura está sob ameaça como nunca antes. “Escrever e ler é uma forma de liberdade pessoal”, disse Don DeLillo em uma carta a Jonathan Franzen, que o questionara muito tempo antes da chegada da Internet. “A literatura nos liberta dos pensamentos comuns, de possuir a mesma identidade das pessoas que vemos em torno de nós. Nós, escritores, fundamentalmente, não escrevemos para sermos heróis de alguma subcultura, mas principalmente para nos salvar, para sobrevivermos como indivíduos.” Exatamente a mesma afirmação, penso eu, descreve a condição dos leitores sérios.

Deem-me o meu Tolstói. Agora é guerra.

guerra e paz

Imagens retiradas — à exceção da última — do maravilhoso blog O Silêncio dos Livros

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