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Nobel Svetlana Alexievitch faz a mesa mais intensa da Flip

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Foto: Walter Craveiro / Divulgação / Divulgação

Foto: Walter Craveiro / Divulgação / Divulgação

 

Autora de “Vozes de Tchernóbil” falou sobre sua experiência ouvindo pessoas comuns para montar parte da história do século 20

Carlos André Moreira, no Zero Hora

Devido ao caráter vetusto do prêmio mais que centenário, não é sempre que se espera intensidade de um Prêmio Nobel de Literatura. Portanto, talvez tenha sido surpresa para alguns que a mesa mais intensa desta 14ª Festa Literária Internacional de Paraty tenha ocorrido na tarde deste sábado, pela voz da jornalista Svetlana Alexievitch – e que essa voz tenha sido calma e lúcida, instrumento que a autora de Vozes de Tchernóbil usa para se transformar, em suas próprias palavras, em um ouvido a serviço de seus personagens. Além de ter lotado o espaço da tenda dos autores, a Nobel também reuniu mais de 1,8 mil pessoas interessadas em ver sua palestra no telão que transmite as sessões para quem não comprou o ingresso.

Svetlana já teve dois livros lançados por aqui: sua obra mais conhecida no mundo (embora pouco conhecida em lugares como o Brasil antes do Nobel), Vozes de Tchernóbil, e A Guerra não tem rosto de mulher. Ambos, bem como os demais livros da autora ainda não publicados por aqui, são montados como uma coleção de depoimentos em primeira pessoa em que a autora limita a breves comentários sua participação, preferindo apresentar monólogos de gente comum que montam um panorama único da história russa por meio de seu testemunho. Respondendo a uma pergunta do mediador Paulo Roberto Pires, jornalista e editor da Serrote, ela datou na infância em uma aldeia na Bielorrússia, no imediato pós-Segunda Guerra.

— Fui criada numa aldeia em que quase não havia homens, e as mulheres eram maioria. Por meus pais serem professores, tínhamos livros em casa, mas eu preferia sair para a rua e ouvir as mulheres reunidas contando suas histórias. Achava que ouvi-las contar como haviam se despedido de seus maridos indo para a guerra me ensinaria muito mais do que os livros – contou.

Depois de haver se formado em jornalismo e exercido a profissão por 10 anos, Svetlana voltaria a esse fascínio pelas vozes comuns até como uma forma de escapar do que considerava um problema no ofício, a superficialidade e o hábito de se focar em banalidades. Começou então seu longo projeto no qual cada livro demora muito tempo.

— Para escrever O Declínio do Homem Soviético (seu quinto livro sobre a história da União Soviética, publicado em 2014 e ainda inédito no Brasil), levei 17 anos. Porque eu entrevisto muita gente e gravo tudo. Porque no papel você tem dificuldade de mostrar a personalidade daquela pessoa. E de um depoimento de cem páginas, posso usar quatro ou cinco, e assim vou montando esse panorama.

Para ganhar a confiança de tanta gente a ponto de elas abrirem suas histórias e experiências mais íntimas, Svetlana tem um método também responsável pela demora em concluir seus livros:

— Eu não faço entrevistas. Eu converso. Como estou conversando com você aqui agora – disse ela ao mediador. – Não me aproximo querendo tirar algo, mas como um ser humano se aproximando de outro. Conversamos sobre tudo. Se estou falando com uma mulher que lutou na Segunda Guerra, não vou perguntar só disso, a gente fala da blusa nova, de como vão os filhos.

Segundo ela, o exemplo de uma mulher não é gratuito. Para ela, as mulheres são sempre as fontes dos depoimentos mais ricos, principalmente em uma cultura tão impregnada de violência como a russa. Algo que talvez fique mais claro se, a exemplo de Svetlana, preservarmos um pouco sua palavra por mais do que uma citação de três linhas:

— Os homens falam de um modo diferente sobre a guerra. Os jornais falam de outro modo. As mulheres, se você conversar com elas, aos poucos elas contam coisas de sua vida que dão outra dimensão ao relato. Estava conversando com uma mulher que havia lutado na guerra e que era uma mulher muito bonita, e perguntei a ela se havia sido muito difícil passar por aqueles anos, naquela frente de combate. Ela me perguntou como eu sabia disso, e eu disse que outras pessoas já haviam dito algo parecido. Perguntei então se ela teve medo de morrer. Ela me disse que morrer teria sido ruim, mas não era o pior, o pior foi ter que passar quatro anos usando cuecas masculinas. Ela estava pronta para morrer, mas não queria morrer vestindo cuecas de homem. Uma coisa é a verdade da guerra, outra é a verdade do ser humano. Essa mesma mulher em um momento se virou para mim e me disse: ¿Você quer saber como eu casei com meu marido¿? Eles estavam combatendo em Berlim, já diante do Portão de Brandenburgo, e ela disse que, quando ele a pediu em casamento, ela quis matá-lo. ¿Como assim ele me pede casamento aqui, nunca tivemos tempo de ele me dar flores, ele me pede em casamento no meio deste sangue?¿. O marido dela tinha metade do rosto queimado, e, ao dizer isso, ela viu uma lágrima escorrendo pelo rosto queimado dele, e ali ela aceitou casar com ele. E de repente ela parou de falar e me disse: ¿Nunca contei isso para ninguém, por que contei isso para você? Acho que porque você tem olhos de uma pessoa boa¿. Você tem de ser um pouco ingênuo ao falar com as pessoas, porque todos vemos nossa vida e o que amamos com uma certa ingenuidade.

Depois, Paulo Roberto Pires levou a conversa para o tema do livro Vozes de Tchernóbil, uma coleção de depoimentos sobre as consequências do acidente nuclear de 1985. Segundo ela, a tragédia inaugurou uma nova era humana, a era das catástrofes, depois da qual nada mais foi o mesmo, um horror que, segundo ela, vai além do Holocausto e os gulags soviéticos.

— A pior guerra pela qual passamos foi a Segunda Guerra, e, mesmo no caso dela, muitos dos que voltaram, mesmo tendo passado pelo horror dos campos, sentiam uma necessidade de a vida continuar. Quando fui a Tchernóbil depois do acidente, um local abandonado pelas pessoas, eu cheguei à conclusão: ¿Nunca mais o ser humano vai voltar aqui¿. Os nucleotídeos radioativos vão continuar lá por séculos, ninguém mais vai viver lá. Foi uma tragédia também que violou a noção de amigo e inimigo. Não havia inimigos. Durante sete dias depois do acidente, as abelhas se esconderam. E os humanos continuaram andando por lá, ninguém sabia nada, não se sabia que uma usina como aquela, que muitos falavam que deveria ter sido construída na Praça do Kremlin, era tão perigosa. A humanidade não estava pronta para o que aconteceu.

Svetlana reforçou que Tchernóbil deveria ser um alerta que o ser humano não soube ainda compreender ou seguir. E que a humanidade deveria ter avançado mais em alternativas à energia atômica, mas nada foi feito.

— Quando o livro foi lançado no Japão há alguns anos, estive por lá e alguns leitores vieram conversar comigo em meu hotel, e muitos deles, mesmo cientistas, diziam que aquilo só poderia ter acontecido em Tchernóbil, porque os russos não sabiam fazer as coisas direito, mas aqui a gente calculou tudo. Aumentamos a cobertura do reator, estamos preparado para tudo. E eu cheguei a dizer que não havia como prever o resultado de terremotos ou tsunamis frequentes no Japão, e eles insistiram que estavam prontos, que haviam calculado. E, poucos anos depois, tivemos Fukushima.

Por mais de uma vez ao longo do encontro, Svetlana foi interrompida por aplausos. No fim da conversa, compartilhou uma melancólica conclusão sobre os rumos da política e da democracia na Rússia de hoje, país ao qual ela voltou em 2011 depois de mais de uma década vivendo em cidades diferentes da Europa, como Paris e Gotemburgo. Ela partiu por perseguições políticas e, ao retornar, concluiu que as coisas estavam ainda piores.

— Chegamos à conclusão de que nós, os democratas, fomos derrotados. Conversávamos sobre a democracia em nossas cozinhas, mas, quando a União Soviética caiu, a população queria roupas novas, geladeira nova… Os bandidos logo tomaram o poder, eles estavam prontos para isso, mas nós, não. Se o ser humano vive um certo tempo preso em um campo, você abre a porta e diz que ele está livre, mas ele não sabe ser livre.

As experiências embrutecedoras que testemunhou depois de tanto tempo escrevendo sobre guerra também a afetaram. Hoje, de acordo com ela, ela não conseguiria mais acompanhar ou testemunhar coisas como as que viu no passado.

— Não consigo mais nem ir aos lugares de crianças abandonadas. Não fui à Chechênia porque sabia que não conseguiria mais entrar em hospitais com homens desmembrados, coisa que eu fiz muito antes. Não consigo mais fazer isso. E tudo o que tinha para escrever sobre guerras, já escrevi nos meus livros.

Svetlana terminou recebendo uma longa saudação do público, que aplaudiu de pé durante um bom tempo a mesa mais intensa desta Flip.

Sonho das crianças refugiadas sírias é frequentar a escola

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Dos 600 mil refugiados em idade escolar, apenas um terço vai à escola.
Na Turquia, adolescentes acabam ocupando empregos precários.

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Publicado no G1

Mohamed tem oito anos e não deixa de sorrir, apesar de ter precisado fugir em 2013 com seus pais e seu irmão da cidade síria de Aleppo, arrasada pela guerra, para se refugiar em Istambul. Seu maior sonho é poder ir à escola.

Em apenas alguns meses, Mohamed aprendeu a falar turco jogando futebol ou brincando com seus amigos do bairro de Esenyurt.

“Vedat, Serkan, Sefa, Emre”, conta orgulhoso mostrando seus dedinhos. Mas como quase todas as crianças sírias da Turquia, Mohamed é principalmente um refugiado.

“Gosto da Turquia porque na Síria há guerra. Aqui me sinto seguro”, diz o menino. “A parte ruim é que não posso ir à escola. E gostaria muito de ir”, afirma.

Ao contrário de muitos refugiados sírios que decidiram se aventurar no mar para chegar à Grécia e dali partir a algum país da Europa ocidental, o pai de Mohamed preferiu ficar por enquanto na Turquia.

“Quando a guerra terminar voltaremos à Síria”, afirma Hussein, já que, segundo ele, “ir para a Europa é muito complicado”.

No entanto, não faltam incentivos para tentar a sorte mais a oeste. Oficialmente “convidados” da Turquia, os refugiados não têm nenhum status e o acesso ao trabalho é muito difícil, com a exceção de empregos ocasionais muito mal pagos.

Assim como outras crianças do bairro de Eseyurt, Halil não teve opção. Aos 15 anos começou a trabalhar em um ateliê de confecção de sapatos para alimentar sua família. Mas após dois meses, foi embora porque o chefe se negava a pagar a ele as 1.250 liras turcas (370 euros) de salário que devia.

O jovem conta, enquanto espera diante de um café a sopa e o pão que pediu, que não pôde denunciá-lo à polícia porque não tem visto de residência.

“Aqui é como em casa. É a guerra! Os turcos não nos querem aqui”, afirma outro refugiado.

Dos 2,2 milhões de sírios que entraram oficialmente na Turquia desde o início da guerra civil, em 2011, apenas 260.000 vivem em acampamentos. Todos os demais sobrevivem como podem, trabalhando ou mendigando.

Geração sacrificada
Na grande artéria comercial do centro de Istambul, a rua Istiklal, há muitas crianças pedindo dinheiro entre os turistas e as lojas de luxo.

É o caso de dois irmãos que percorrem as ruas vendendo pacotes de lenços de papel em troca de algumas moedas.

Mojtar, de oito anos, tem uma nota apertada em sua mão. “É mais seguro se ele guarda o dinheiro”, conta seu irmão Mohamed, de 18 anos, mostrando as cicatrizes das facadas desferidas em seu ombro em uma tentativa de roubo.

Durante a noite, o dinheiro recebido nas ruas completará as 600 liras turcas (175 euros) mensais que o pai ganha vendendo sucata. O suficiente para comer, mas não para construir uma nova vida nem para tirar da cabeça a ideia de avançar em direção à Europa.

“As famílias sírias buscam o mesmo que qualquer família do mundo. Querem viver seguras, ter um emprego com o qual cobrir as necessidades de seus filhos, levá-los à escola (…), dar a eles um futuro”, explica um representante do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), Philippe Duamelle.

Dos 600.000 refugiados sírios em idade escolar, apenas um terço vai à escola. Uma situação que muitos pais justificam devido ao preço das escolas e sobretudo à falta de visto de residência exigido para matricular os filhos.

Precisamente, a Unicef quer aproveitar a ajuda econômica aprovada pela UE aos países fronteiriços da Síria para construir escolas e facilitar o ensino dos refugiados sírios na Turquia.

Mohamed espera voltar logo à escola para se tornar alfaiate. “Alfaiate não”, diz o pai em tom de brincadeira. “Quero que você seja médico ou advogado”.

Para Philippe Duamelle, o futuro das crianças sírias refugiadas deve ser uma prioridade.

“Neste momento corremos o risco de sacrificar uma geração inteira de crianças sírias”, afirma.

“As consequências seriam desastrosas, não apenas para as crianças e seu futuro, mas também para a Síria, a região e provavelmente para além dela”, completa.

Após fugirem do Iraque aos EUA, amigas se encontram na mesma aula

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As refugiadas Muna e Azal, de 21 e 22 anos, foram parar na mesma escola.
Elas cresceram juntas no Iraque, mas as famílias fugiram após a guerra.

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Publicado no G1

Duas jovens iraquianas que eram vizinhas em Bagdá, mas precisaram fugir por causa da guerra, voltaram a se encontrar, por coincidência, no mesmo colégio em Michigan, nos Estados Unidos. Muna Ahmed, de 21 anos, e Azal Saleh, de 22, compartilham de vários episódios de reencontros rápidos e tristeza pela morte de parentes durante a guerra, mas agora também dividem uma carteira na última fileira na aula de inglês para estrangeiros da Academia Covenant House, colégio na cidade de Grand Rapids.

Em entrevista ao site Michigan Live, Muna, que já estudava no colégio, contou que ficou feliz quando foi informada de que outra garota iraquiana entraria para sua turma de inglês, já que poderia deixar de ser a única jovem vestindo jihab na escola americana. Mas a alegria aumentou quando ela descobriu que, por coincidência, sua nova colega era na verdade sua velha vizinha da época de infância.

“Começamos a chorar e nos abraçamos. Eu fiquei muito feliz e grata. Foi meio ‘uau’, um milagre”, disse ela ao jornal local.

A história das duas já tinha se cruzado uma vez desde que ambas as famílias fugiram do Iraque. Em 2010, as duas se reencontraram em Grand Rapids brevemente. Em 2012, porém, a família de Muna precisou retornar ao Iraque, depois que o irmão da mãe dela foi morto em um acidente provocado por um bombardeio.

Na época, as duas não tiveram a chance de se despedir uma da outra.

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Retorno aos EUA
Muna explicou ao jornal que a família passou por momentos muito difíceis com a notícia. “Tínhamos perdidos tantos membros da família. Isso foi muito difícil para todos nós. Minha mãe estava se sentindo tão para baixo que decidimos voltar [para o Iraque] para ficar com a família dela.”

Lá, porém, a garota não podia estudar, e por isso o pai optou pelo retorno aos Estados Unidos.

Azal, por sua vez, passou por problemas pessoais nesse período, em solo americano, e no início precisou ser convencida de que realmente conhecia Muna, porque não a reconheceu de imediato.

Reencontro
A professora da turma, Crystal Rios, explicou ao Michigan Live que esse reencontro aconteceu no meio da sala de aula, e chamou a atenção dos demais estudantes.

“De repente elas estavam falando a língua delas, se abraçando e chorando, e elas explicaram para nós que eram da mesma vila. Todo mundo estava com lágrimas nos olhos e arrepiado. Foi uma história muito tocante sobre como elas foram parar na mesma sala de aula, literalmente uma ao lado da outra.”

No Sudão do Sul, ex-crianças-soldado trocam armas por livros

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A ONU diz ter conseguido a desmobilização de pelo menos 3 mil soldados infantis envolvidos no conflito

A ONU diz ter conseguido a desmobilização de pelo menos 3 mil soldados infantis envolvidos no conflito

Ed Thomas, na BBC Brasil

As cerca de 300 crianças estão uniformizadas e carregam rifles enquanto escutam o discurso de seu comandante, em Pibor, no Sudão do Sul.

Há um certa agitação no ar, porque em breve as crianças passarão aos cuidados das Nações Unidas.

Após anos de participação como soldados em uma guerra civil, as crianças enfim poderão ir para casa.

“Não vejo minha mãe e minha família desde o verão passado”, explica Silva, um dos mais jovens soldados na cerimônia.

Ele tem apenas 11 anos. E assim como seus companheiros de armas, tem sua identidade preservada. Silva é um nome fictício.

“Vi muitas pessoas morrerem em minhas missões”, conta Silva.

“Eu tinha um fuzil AK-47. Era pesado. Estava lutando para proteger minha família e minha aldeia”.
Grito de batalha

Crianças de 11 anos estavam entre os milhares de soldados infantis recrutados pelos dois lados na guerra civil do Sudão do Sul

Crianças de 11 anos estavam entre os milhares de soldados infantis recrutados pelos dois lados na guerra civil do Sudão do Sul

A cerimônia é conduzida pelo general Khalid Butrus Bura, um dos comandantes de Silva na Tropa Cobra do Exército Democrático do Sudão do Sul.

Trata-se de uma poderosa milícia atuante na região de Pibor e que há mais de três anos vive em guerra com governo do Sudão do Sul – um dos muitos conflitos desde que o país foi criado, em 2011, após conquistar sua independência do Sudão.

Porém, a situação em Pibor se tranquilizou com a assinatura de um acordo de paz entre o governo e David Yau Yau, líder rebelde que pegou em armas contra as autoridades sob a alegação de estar defendendo os interesses da minoria étnica murle. A maioria da população sudanesa do sul, estimada entre 8 e 10 milhões de pessoas, é das etnias dinka, nuer, bari e azande.

Yau Yau é uma presença forte na região de Pibor e seu nome é gritado pelas crianças-soldado antes de sua transferência para um complexo especial da ONU no vilarejo de Gumuruk.

Depois de comandar crianças na frente de batalha o general Yau Yau agora promete que os ex-combatentes irão à escola

Depois de comandar crianças na frente de batalha o general Yau Yau agora promete que os ex-combatentes irão à escola

Silva agora pensa num futuro sem guerras.

“Quero estudar. Não quero mas lutar. Tinha medo”

Ao lado de Silva está Abraham, de 12 anos.

Ele é uma criança que carrega o ar de um veterano de guerra.

“Tinha medo de morrer e senti que precisava lutar”, diz Abraham.

As estimativas são de que a guerra civil no Sudão do Sul já tena matado mais de 50 mil pessoas

As estimativas são de que a guerra civil no Sudão do Sul já tena matado mais de 50 mil pessoas

“Duas irmãs foram mortas. Estive em missões e vi muitas pessoas morrendo também”.

O conflito em Pibor é paralelo à rebelião nacional que eclodiu no Sudão do Sul em 2013 e que já matou mais de 50 mil pessoas.

A ONU acredita que milhares de crianças têm sido forçadas a lutar em ambos os lados do conflito.
Esperança

A Unicef, agências das ONU para a criança e o adolescente diz que as crianças retiradas do conflito receberão (mais…)

Livro revela rebeldia caipira de Inezita Barroso e guerra ao “sertanojo”

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Cantora e compositora Inezita Barroso no escritório de sua casa, na década de 1970 Divulgação

Cantora e compositora Inezita Barroso no escritório de sua casa, na década de 1970 Divulgação

Tiago Dias, no UOL

Daqui a poucos meses, mais precisamente em março, a cantora Inezita Barroso completará 90 anos como uma das defensoras mais fervorosas da música caipira no Brasil. Em sua biografia recém-lançada, “Inezita Barroso – Rainha da Música Caipira”, escrita por depoimento ao jornalista Carlos Eduardo Oliveira, ela ainda mantém a voz discordante contra a modernidade no sertanejo e chama a safra atual de “sertanojo”.

“A verdade é que esse pseudosertanejo atual é música inventada pela indústria, sem raiz, paupérrima, sempre a mesma letra, sempre o mesmo ritmo! Um modismo”, desabafa no livro.

Sua posição não é uma novidade. Inezita foi uma rebelde desde pequena. No livro, ela conta como decidiu cantar após assistir ao show da Carmem Miranda, e da resistência que sofreu dos pais “caretas”. Moça da sociedade paulistana, ela sempre atraiu olhares pelo cabelo curto, o violão a tiracolo e a disposição em se enfiar nas rodas de viola dos trabalhadores rurais. “Ela sempre estava nas casinhas dos caboclos das fazendas das avôs. Ela acompanhava as rodas de improviso, e recolhia – como ela costuma dizer – músicas como ‘Moda de Pinga‘”, conta o jornalista.

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No “Viola Minha Viola”, que se tornou referência no gênero desde os anos 1980, quando estreou na TV Cultura, ela dissecou as lendas, o folclore e a poesia dos versos sertanejos, mas desabafa: às vezes conduziu o programa de maneira intransigente. “Ela passou por algumas fases do ‘Viola’ em que achavam que não era bom excluir [os novas duplas sertaneja]. Ela quebrou o pau, ameaçou desistir do programa”, conta Carlos Eduardo Oliveira.
Ela relata: “Durante uma época, produtores chegaram a insinuar que fulano e beltrano viriam porque a gravadora estaria patrocinando – esse era o argumento deles. Eu esbravejei”.

A rainha, no entanto, faz suas ressalvas. O cantor Daniel sempre tem espaço em seu programa. Chitãozinho e Xororó, por cantarem e tocaram como nos velhos tempos, também são cativos entre os convidados – desde que apareçam sem guitarra e teclado. “Nós já sabíamos disso quando fomos convidados” explicou Chitãozinho ao UOL. “Ela sempre foi muito dedicada ao gênero caipira, é uma defesa dessa raiz. Tem pessoas que acham que a modernização fere a origem”.

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Desde os anos 70 na estrada, Chitãozinho e Xororó não escondem que gostam das novidades, mas reverenciam Inezita, indiretamente, no programa que apresentam no SBT, “Festival Sertanejo”. “Temos um quadro com músicas de raiz e é um dos momentos de maior audiência. Isso prova que Inezita tem muita razão em falar sobre isso. Gosto do novo, mas temos que manter a raiz, é uma responsabilidade nossa”, explica Chitãozinho.
Daniel, que escreve a apresentação do livro, é apenas elogios à cantora. “Inezita para mim é uma referência e há muitos anos nos conhecemos quando eu e o João Paulo participamos do programa pela primeira vez. Ela tem sido a haste da nossa bandeira da música caipira sertaneja, seu papel na nossa história é fundamental.”

“Salva pelo Iê Iê Iê”
Inezita presenciou a efervescência cultural da São Paulo dos anos 40, inaugurou a tradição cinematográfica paulista dos estúdios da Vera Cruz, onde atuou em alguns filmes, foi a primeira cantora contratada da TV Record – antes de Elis Regina -, e viajou pelo interior do país com o primo e um amigo, a bordo do seu jipe, “recolhendo” temas folclóricos. Era independente e mais rebeldes que a turma da Jovem Guarda. No entanto, com a chegada de Roberto Carlos, Erasmo e Wanderléia na TV, foi deixada. Os shows minguaram, as apresentações na TV idem, os cachês desapareceram.

"Inezita Barroso - Rainha da Música Caipira" (Ed. Kelps, 212 págs., R$ 31,50)

“Inezita Barroso – Rainha da Música Caipira” (Ed. Kelps, 212 págs., R$ 31,50)

“As rádios e gravadoras só queriam sabem do pessoal do banquinho-e-violão ou daquela moçadinha cabeluda e suas guitarras estridentes”, ela conta. Acabou aproveitando a febre para ensinar violão para a garotada na época. Foi, como conta no livro, “salva pelo Iê Iê Iê”.
No quesito musical, ela responde na lata: “Mas que aquelas musiquinhas eram todas água-com-açúcar, ah, isso eram”. Roqueiro, Carlos Eduardo Oliveira disse que não teve problemas ao visitar Inezita em sua casa em São Paulo para entrevistá-la. “Mas ela não gosta mesmo de coisas eletrônicas, coisas que passam pelo plug”.

Ainda no ar, “Viola Minha Viola” se tornou um dos programas musicais mais tradicionais da TV. Inezita, no entanto, não participou das duas últimas gravações, nas últimas semanas, por estar em Campos de Jordão, na casa da filha, descansando. Não atendeu ninguém e sua equipe também negou o pedido de entrevista do UOL.

Quando estiver revigorada, voltará para gravar e marcar, finalmente, sua posse na Academia Paulista de Letras — título que recebeu no começo do mês. Ela quer estar bem e com energia para assumir a cadeira como folclorista.

Cantora Inezita Barroso Folhapress

Cantora Inezita Barroso Folhapress

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