Daigo Oliva, na Folha de S.Paulo

No livro que o fotógrafo Gustavo Lacerda lança no próximo dia 31, a pele, os cabelos e os cílios dos retratados são quase invisíveis.

No ensaio “Albinos”, selecionado pela Coleção Pirelli/Masp em 2010 e vencedor dos principais prêmios de fotografia do país, o cenário das imagens e as roupas, em tons claros e delicados, funcionam como transparências.

Durante cinco anos, o mineiro fotografou cerca de 50 adultos e crianças brasileiros com albinismo, distúrbio genético que causa falta de pigmentação na pele.

“Por causa da fotofobia e dos cuidados com a pele, os albinos tendem a se preservar e a se esconder”, diz Lacerda, 44. “Queria fotografar quem não é fotografado.”

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Os irmãos Marcus, Andreza e André em foto tirada por Gustavo Lacerda em 2011

Em diferentes regiões do Brasil, os personagens posaram com figurinos propostos pelo fotógrafo, que abandonou o viés documental do início do projeto.

Ao perceber como os albinos reagiam à preparação para os retratos, ele diz ter encontrado a tensão necessária para construir sua estética.

“Eles jamais tinham sido escolhidos para nada que não fosse serem zoados. De repente, alguém os seleciona para uma foto, em um estúdio, com roupas à disposição, com aquele ritual de se olhar no espelho antes”, conta.

Além da mise-en-scène, Lacerda também se preocupou com os flashes. Para evitar irritação, ele usou uma fonte de luz muito grande e recriou a luminosidade de um dia nublado.

“Percebi que quando o clima está assim, eles ficam incomodados no início, mas depois se acostumam. É menos irritante do que dia de sol.”

Um dos fotografados no ensaio, o professor de inglês e literatura Roberto Biscaro foi o primeiro contato de Lacerda com o mundo albino, para encontrar modelos. Autor do blog “Albino Incoerente”, Biscaro se tornou referência em notícias sobre o tema.

Para o paulistano Biscaro, 47, o mérito do trabalho do artista é “olhar o diferente como portador de beleza, sem estigmatizá-lo”. Ele acrescenta, brincando:”Ainda mais em um país tropical que preza tanto pelo bronzeado”.

Tanto ele quanto a economista carioca Ana Beatriz Vassimon, mãe das gêmeas Helena e Mariana, retratadas, percebem distância entre o ensaio de Lacerda e trabalhos que exploram a condição dos retratados como exotismo.

“Pessoas querem fotografar as meninas e colocar elementos coloridos nelas. O Gustavo é o contrário, não tem nada de espetacularização, é uma forma sensível e lírica”, defende a mãe das gêmeas.

O fotógrafo conta que, por medo da exposição, algumas pessoas se recusaram a participar, no início. Mas, depois que o ensaio se tornou mais conhecido, voltaram atrás. “Muitos vão achar um trabalho poético, outros vão achar que é uma forma de explorar os albinos. Ainda que tenha esse risco, eles estão sendo mostrados”, afirma.

Desde o nascimento das filhas, Vassimon escreve textos relatando sua experiência com a descoberta do albinismo. Um deles está reproduzido em formato de carta dentro do livro (leia ao lado).

O projeto gráfico do volume incluiu folhas de papel-manteiga entre as fotos para remeter à textura da pele e revelar e esconder as imagens.

O próprio Lacerda financiou grande parte da produção. Para reduzir os custos, pretende vender 50 livros-objeto com impressão especial, embalados em caixa e oferecidos a R$ 650 cada um.

“As pessoas perguntam qual será meu próximo trabalho como se fosse pecado continuar este projeto. Quero seguir fotografando alguns albinos, talvez não como faço hoje, mas acompanhando o crescimento de irmãos.”

TRECHO

“Quando peguei as meninas no colo, quentinhas, na sala de parto, vi os cílios claros e na hora pensei que não poderiam ser loiras a ponto de terem cílios quase brancos…

Saquei ali que eram albinas. Elas estavam berrando, eu chorando, derretida de emoção.

No quarto, elas demoraram a vir e eu fiquei muito preocupada… Só falavam sobre a falta de pigmento nos olhos e que deveríamos rastrear o passado e saber se nossas famílias tinham histórico de albinismo.

Eu só lembrava do Hermeto Pascoal, que adoro! Quando começaram a andar, eu sempre avisava quando elas se aproximavam de degraus, imaginando que elas não veriam o desnível do chão.

Realmente, elas não veem tão bem a mudança de nível no piso, mas aprenderam a arrastar sorrateiramente o pé e descobrir, antes mesmo de eu gritar: ‘Olha o degrau!’.

(…) A gente vê que a vida pode realmente surpreender.”

Carta escrita pela economista carioca Ana Beatriz Vassimon, mãe das gêmeas Helena e Mariana, e publicada no livro “Albinos”, de Gustavo Lacerda

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