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Confira a programação da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) 2018

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Totens com informações turísticas lançado na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), faz parte do projeto App Paraty: cultura e natureza – Paraty na palma da sua mão. (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Publicado no Portal R3

A Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) está em sua 16ª edição com uma performance celebrando o caráter transgressor da obra de Hilda Hilst, escritora homenageada deste ano. A abertura oficial aconteceu na quinta-feira (25), no Centro Histórico de Paraty (RJ).

Além do telão montado no Centro Histórico de Paraty, as mesas da festa neste ano serão transmitidas via internet. Os debates serão exibidos ao vivo pelo canal da Flip no YouTube, onde também é possível conferir na íntegra as mesas de edições passadas da festa.

A Flip deste ano manteve em sua programação a diversidade entre autores brancos e negros, e entre mulheres e homens. Como nas edições passadas, escritores estrangeiros de destaque também marcam presença, como o vencedor do prêmio Pulitzer Colson Whitehead e Liudmila Petruchévskaia, considerada uma das mestras do terror na literatura russa.

Confira a programação completa:
Quinta-feira (26/07)
10h
A jornalista Mariana Filgueiras media uma mesa que reúne a cineasta Gabriela Greeb e o sound designer Vasco Pimentel para apresentar fitas magnéticas da década de 1970 com divagações literárias e existenciais de Hilda Hilst.

12h
A poeta portuguesa Maria Teresa Horta participa por vídeo de um diálogo com as autoras brasileiras Júlia de Carvalho Hansen e Laura Erber, cujas obras trazem influências da lírica portuguesa e da autora homenageada.

15h30
A escritora e pesquisadora Lilia Schwarcz conversa com Christopher de Hamel, considerado o maior especialista em textos medievais do mundo.

17h30
O feminismo negro da literatura de Djamila Ribeiro encontra a obra de Selva Almada, escritora argentina que contou histórias reais de feminicídios no livro Garotas Mortas. Alice Sant’Anna media a mesa, que terá também uma apresentação da slammer pernambucana Bell Puã.

20h
Sergio Sant’Anna encerra o primeiro dia em um diálogo com um leitor seu que se tornou autor, Gustavo Pacheco. Na conversa, estão temas caros a Hilda Hilst, como o desejo, a solidão e a morte. O jornalista Guilherme Freitas media.

Sexta-feira (27/07)
10h
A doutora em literatura brasileira Rita Palmeira media um encontro em que o editor e artista visual Ricardo Domeneck e a pesquisadora Lígia Ferreira, especialista e divulgadora do poeta negro Luiz Gama, conversam sobre o silenciamento de autores, como a própria Hilda Hilst.

12h
A língua italiana é o mote para reunir duas diferentes vozes: o poeta suíço Fabio Purstela e a italiana Igiaba Scego, descendente de uma família somali e admiradora de Caetano Veloso. A escritora Noemi Jaffe será a mediadora.

15h30
Um dos grandes destaques da Flip deste ano, o franco-congolês Alain Mabanckou será “entrevistado” em uma mesa com dois mediadores, José Luiz Passos e Bruno Gomide. Questões raciais e a obra do autor, comparado a Samuel Beckett, estão na pauta.

17h30
Ricardo Domeneck volta ao palco principal com uma performance em homenagem a Hilda Hilst. Depois, os escritores Leila Slimani e André Aciman discutem a liberdade de abordar temas como o homoerotismo, a sexualidade feminina e a religião.

20h
Hilda Hilst retorna ao centro do debate com a escritora e pesquisadora Eliane Robert de Moraes e a atriz Iara Jamra, que interpretou a protagonista de o Caderno Rosa de Lori Lamby, um dos livros mais famosos da autora homenageada. Alice Sant’Anna media a mesa, que promete debater o lado místico e também a dimensão corpórea na obra de Hilda.

Sábado (28/07)
10h
Jocy de Oliveira e Vasco Pimentel voltam em uma discussão sobre a criação de universos sonoros e a música de vanguarda. A mesa sobre a escuta terá como mediadora a jornalista Paula Scarpin, que trabalha com podcasts.

12h
O biógrafo de Josef Stálin, Simon Sebag Montefiore, conta como trabalha para retratar a intimidade de figuras como ditador soviético, a família Romanov e a czarina Catarina, a Grande. Guilherme Freitas e Bruno Gomide participam da mesa como mediadores.

15h30
Autora de A Gorda, a portuguesa nascida em Moçambique Isabela Figueiredo encontra Juliano Garcia Pessanha, em uma mesa que tem o corpo no centro do debate e a pesquisadora Rita Palmeira como mediadora.

17h30
O poeta e artista visual do Maranhão Reuben da Rocha abre a 15ª mesa com uma performance sobre Hilda Hilst, para dar lugar ao encontro entre os autores Colson Whitehead e o brasileiro Geovani Martins, elogiado pela estreia com o livro O Sol na Cabeça.

20h
Autora de contos de terror em um universo fantástico e político, Liudmila Petruchévskaia chegou a ser censurada pela União Soviética e hoje é considerada um dos grandes nomes da literatura russa. Anabela Mota Ribeiro media a mesa com a escritora, de 80 anos.

Domingo (29/07)
10h
O folclore de Paraty, retratado por Thereza Maia, encontra a mitologia da morte no sertão da Bahia, narrada por Franklin Carvalho. A mesa é gratuita e tem Luciana Araujo Marques na mediação.

12h
A sessão de encerramento da Flip é mais uma homenagem a Hilda Hilst e a atriz Iara Jamra retorna para falar sobre encontros com a autora. Também participam o fotógrafo Eder Chiodetto e o cantor e compositor Zeca Baleiro, que têm trabalhos baseados na obra da autora paulista.

15h30
Autores convidados pela Flip de 2018 leem trechos de seus livros preferidos.

Flip 2018: data, programação, ingressos e tudo sobre o evento

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Fernanda Montenegro abre a programação da Flip 2018 com mesa acompanhada de Jocy de Oliveira. (foto: TV Globo/Reprodução)

Festa Literária Internacional de Paraty abre, no dia 16 de julho, a venda de ingressos para o evento que será realizado entre os dias 25 e 29

Publicado no UAI

A 16ª Festa Literária Internacional de Paraty abre, no dia 26, às 11 horas, a venda dos ingressos para o evento que será realizado de 25 a 29 de julho. As entradas custam R$ 55 e podem ser adquiridas no site da Tickets for Fun e nos pontos de venda indicados também no site da empresa.

Com curadoria, pelo segundo ano, da jornalista Josélia Aguiar, a Flip 2018 recebe 33 convidados brasileiros e estrangeiros – 17 mulheres e 16 homens. Entre os destaques estão o americano Colson Whitehead, vencedor do Prêmio Pulitzer de ficção com o romance The underground railroad – Os caminhos para a liberdade, lançado no Brasil em 2017, a francesa de origem marroquina Leïla Slimani, autora de Canção de ninar, e o franco-congolês Alain Mabanckou, que lançou aqui Memórias de um porco-espinho.

Entre os autores brasileiros convidados, destaque para Sérgio San’Anna, Djamila Ribeiro, Laura Erber e Juliano Garcia Pessanha. Fernanda Montenegro e de Jocy de Oliveira estarão juntas no palco, na abertura da festa.

Quarta, 25 de julho

20h – Mesa 1 – Sessão de abertura: Hilda, Fernanda e Jocy de Oliveira

Três artistas geniais da mesma geração celebram a arte mais transgressora: Hilda Hilst, homenageada da Flip 2018, Fernanda Montenegro, uma das maiores atrizes brasileiras, e Jocy de Oliveira, pioneira na música de vanguarda hoje dedicada à ópera multimídia.

Quinta, 26 de julho

10h – Mesa 2 – Performance sonora

Gabriela Greeb e Vasco Pimentel

A voz, a escuta e as divagações literárias e existenciais de Hilda Hilst registradas em fitas magnéticas na década de 1970 são apresentadas pela cineasta Gabriela Greeb e o sound designer português Vasco Pimentel.

12h – Mesa 3 – Barco com asas

Júlia de Carvalho Hansen, Laura Erber e Maria Teresa Horta (em vídeo)

Esse diálogo inusitado reúne, por vídeo, um grande nome da poesia de Portugal do último meio século e, em Paraty, duas poetas brasileiras influenciadas pela lírica portuguesa que têm pontos em comum com Hilda Hilst.

15h30 – Mesa 4 – Encontro com livros notáveis

Christopher de Hamel

A religião, a magia, a luxúria e a leitura na época medieval se apresentam nas páginas do Evangelho de Santo Agostinho, do Livro de Kells e de Carmina Burana, comentadas pelo maior especialista do mundo nesses manuscritos.

17h30 – Mesa 5 – Amada vida

Djamila Ribeiro e Selva Almada

Uma ficcionista argentina que escreveu sobre histórias reais de feminicídio e uma feminista negra à frente de uma coleção de livros conversam sobre como fazer da literatura um modo de resistir à violência.

Da perda

Performance de Bell Puã, slammer pernambucana, a partir de tema de Hilda Hilst.

20h – Mesa 6 – Animal agonizante

Sergio Sant’Anna e Gustavo Pacheco

Um grande mestre da literatura brasileira que abordou o desejo, a solidão e a morte relembra sua trajetória ao lado de um leitor seu e autor estreante elogiado pela crítica portuguesa com histórias de humanos e outros primatas.

Sexta, 27 de julho

10h – Mesa 7 – Poeta na torre de capim

Ligia Fonseca Ferreira e Ricardo Domeneck

A falta de leitores e o silêncio da crítica, como reclamava Hilda Hilst: para esse debate, encontram-se a grande especialista no poeta negro Luiz Gama e um poeta e editor atento a nomes ainda fora do cânone, como Hilda Machado, que morreu inédita em livro

12h – Mesa 8 – Minha casa

Fabio Pusterla e Igiaba Scego

Fazer literatura tendo uma língua comum – o italiano – e diferentes aportes, fronteiras e paisagens geográficas e literárias: nesse diálogo, reúnem-se o poeta de um país poliglota, que é tradutor do português, e uma romancista filha de imigrantes da Somália, que escreveu sobre Caetano Veloso.

15h30 – Mesa 9 – Memórias de porco-espinho

Alain Mabanckou

O absurdo e o riso, Beckett, culturas africanas, escrita criativa e crítica da razão negra: a trajetória e o pensamento de um poeta e romancista franco-congolês premiado se revelam nessa conversa com dois entrevistadores.

17h30 – Mesa 10 – Interdito

Do desejo | performance do escritor e artista visual paulista Ricardo Domeneck a partir de tema de Hilda Hilst.

André Aciman e Leila Slimani

O exercício da liberdade de escrever e a escolha de temas tabu ou proibidos – a exemplo do homoerotismo, da sexualidade feminina e da religião -são as questões tratadas nesse diálogo entre dois romancistas, um judeu americano de origem egípcia e uma francesa de origem marroquina.

20h | Mesa 11 | A santa e a serpente

Eliane Robert Moraes e Iara Jamra

A obra de Hilda Hilst em poesia e prosa é vista tanto em sua dimensão corpórea quanto mística por uma ensaísta que atua na fronteira entre a literatura e a filosofia, enquanto são feitas leituras por uma atriz que encarnou a sua personagem mais famosa – Lori Lamby.

Sábado, 28 de julho

10h – Mesa 12 – Som e fúria

Jocy de Oliveira e Vasco Pimentel

A escuta e a criação de universos sonoros: para esse diálogo, encontram-se uma das pioneiras da música de vanguarda no país, hoje dedicada à ópera multimídia, e um sound designer português – os dois conhecidos pelo rigor e pelo preciosismo.

12h – Mesa 13 – O poder na alcova

Simon Sebag Montefiore

Historiador britânico best-seller que publicou biografias de Stálin, dos Romanov e, agora, de Catarina, a Grande, conta, nessa conversa com dois entrevistadores, como faz para retratar figuras centrais da política em seus pormenores mais íntimos.

15h30 – Mesa 14 – Obscena, de tão lúcida

Isabela Figueiredo e Juliano Garcia Pessanha

Uma romancista portuguesa nascida em Moçambique que tratou de temas como o racismo e a gordofobia se encontra com um narrador de gênero híbrido e filosófico para discutir a escrita de si, os diários e as memórias, o corpo e o desnudamento.

17h30 – Mesa 15 – Atravessar o sol

Colson Whitehead e Geovani Martins

O americano vencedor do Pulitzer com um romance histórico sobre escravizados que construíram sua rota de fuga se encontra com um estreante que, da favela do Vidigal, inventa com liberdade seu jeito de narrar e usar as palavras.

Cantares do sem nome

Performance do poeta e artista visual maranhense Reuben da Rocha a partir de tema de Hilda Hilst.

20h – Mesa 16 – No pomar do incomum

Liudmila Petruchévskaia

Um dos grandes nomes da literatura russa moderna, comparada a Gogol e Poe por seus contos de horror e fantasia que não dispensam o teor político, relembra sua trajetória proibida por décadas no regime stalinista, hoje aclamada de Moscou a Nova Iorque.

Domingo, 29 de julho

10h – Mesa Zé Kleber – De malassombros

Franklin Carvalho e Thereza Maia

Um narrador do sertão baiano que abordou a mitologia da morte em seu premiado romance de estreia se encontra com uma folclorista que recolheu histórias orais de Paraty, em um diálogo sobre o território e seus encantados.

12h – Mesa 17 – Sessão de encerramento: O escritor e seus múltiplos

Eder Chiodetto, Iara Jamra e Zeca Baleiro

Uma atriz, um compositor e um fotógrafo que fizeram obras baseadas em Hilda Hilst relembram os encontros com a autora, o processo de criação e as marcas que a experiência deixou em suas trajetórias.

Com cartas inéditas, livro retrata relação entre Caio F. e Hilda Hilst

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Amizade turbulenta dos dois escritores é tema do livro ‘Numa hora assim escura’, de Paula Dip

Bolívar Torres, em O Globo

Caio F. em frente à Casa do Sol, residência de Hilda Hilst, onde ele passou diversas temporadas entre 1969 e 1971 - Autor desconhecido / Acervo pessoal Paula Dip

Caio F. em frente à Casa do Sol, residência de Hilda Hilst, onde ele passou diversas temporadas entre 1969 e 1971 – Autor desconhecido / Acervo pessoal Paula Dip

RIO — O ano é 1992. Depois de mais uma briga com Caio Fernando Abreu, Hilda Hilst juntou as cartas que havia recebido do amigo desde o final da década de 1960, decidida a destruí-las. Como para oficializar o rompimento, ignorou o valor histórico e afetivo da correspondência, e só não a queimou porque seu namorado na época, o jovem poeta Antônio Nahud Júnior, resolveu intervir.

“Quer para você? São suas. Leve-as daqui rápido antes que eu me arrependa”, disse a escritora. Nahud guardou as cartas e, em 2010, seis anos após a morte de Hilda e 14 após a de Caio, vendeu-as para a jornalista Paula Dip.

A autora, que em 2009 retratou a sua própria amizade e correspondência com o escritor gaúcho no livro “Para sempre teu, Caio F.” (Record), emocionou-se ao ler o material inédito. As missivas mais antigas mostravam um Caio diferente daquele que ela conhecera, já consagrado e com uma obra construída. O escritor que trocava suas primeiras cartas com Hilda era, ao contrário, um jovem saído da adolescência, inseguro sobre o seu futuro e sua arte. Além de uma fonte preciosa sobre sua formação, contudo, também havia ali a história de amizade de dois autores importantes da literatura brasileira, que Paula transformou no coração de seu recém-lançado “Numa hora assim escura — A paixão literária de Caio Fernando Abreu e Hilda Hilst” (José Olympio).

No livro, a jornalista contextualiza a relação tumultuada e apresenta, pela primeira vez, o conteúdo salvo por Nahud Júnior.

— Comprei as cartas de Nahud num impulso, e quando eu as li minha primeira ideia foi fazer um mestrado em cima delas — conta Paula, que conheceu Caio em 1981 e foi sua amiga até a morte dele, em 1996. — Mas depois percebi que, mais interessante do que levá-las para a academia era tomá-las como base de um novo livro sobre o Caio, em cima da relação com a Hilda.

A importância de Hilda na vida de Caio é notória. O escritor começou a se corresponder com a poeta aos 19 anos de idade, ainda em Porto Alegre. Entre 1969 e 1971, passou uma série de temporadas na Casa do Sol, chácara em Campinas (SP) para onde Hilda havia se mudado em busca de isolamento e inspiração. A residência era um oásis de liberdade em meio ao clima político da época. Os convidados de Hilda (incluindo jovens aprendizes como Caio) eram estimulados a trabalhar sua escrita, e falava-se de amor, de magia, de discos voadores e, claro, literatura.

Para um rapaz tímido, que não se encaixava nos círculos sociais tradicionais, o contato com a efervescência criativa — e permissiva — da Casa do Sol e com uma autora consagrada e tão certa de seus caminhos foi um turning point. Mas o que as cartas revelam de novo, segundo Paula, é uma influência mútua. De certa forma, Caio, que foi o primeiro dos muitos pupilos que a escritora “hospedaria” em seus quase 40 anos na chácara, também teria inspirado Hilda.

— Claro que houve uma influência forte da Hilda na forma de o Caio trabalhar. Mas acho que ele também foi um dos responsáveis por uma guinada na vida dela — opina Paula. — O encontro foi benéfico para os dois. No início dos anos 1970, Caio ainda estava circulando ali pela Casa do Sol, e a Hilda, depois de ser muito premiada com poesia, publica seu primeiro livro em prosa, “Fluxo-Floema”. Caio pode tê-la ajudado a se libertar da estrofe.

O autor de “Morangos Mofados” vê em Hilda uma referência de artista comprometida com sua arte. Ela havia abandonado uma vida no high society e namoros com estrelas de Hollywood, como Dean Martin, para se dedicar mais profundamente à escrita, que não via como entretenimento ou distração, mas como uma experiência visceral. Ela seguia toda uma ética da criação, que norteou a carreira de Caio. A sua aproximação de Hilda o fez se afastar espiritualmente de sua primeira musa, Clarice Lispector. Não por acaso ele faz, em uma carta de 1978, duras críticas a um livro póstumo da autora (leia trecho abaixo).

Para além da relação mestre-discípulo, porém, há uma ligação marcada pelo aprendizado conjunto. Como observa Paula, ambos tinham uma tendência natural para as “escuras regiões transcendentes da alma”, eram “almas gêmeas em relação aos mistérios insondáveis da existência”. Hilda cultivava a aura de “feiticeira que captava a essência das pessoas”. Já Caio vestiu sem medo a manta de xamã e se jogou nas experiências místicas da Casa do Sol, que envolviam alienígenas e forças misteriosas. Como não poderia deixar de ser, a correspondência é marcada por frases como “uma ótima revolução solar”, “tenho me voltado cada vez mais para o oculto”, “os céus andam cheios de discos voadores e os crepúsculos têm durado duas horas” ou “estou procurando a simplicidade e, ao mesmo tempo, o mito e a magia”.

Bilhere de Caio para Hilda, de 1975 - Divulgação / Acervo Pessoal Paula Dip

Bilhere de Caio para Hilda, de 1975 – Divulgação / Acervo Pessoal Paula Dip

Em sua busca espiritual e esotérica, Hilda inventava apelidos excêntricos para Deus — Cara Mínima, Sumidouro, Menino Precioso, Flamejante Sorvete de Cereja. Ambos também tinham uma maneira peculiar de descrever a literatura. Em uma entrevista que fez com Hilda em 1987 para a revista “Leia livros”, Caio pergunta: “E a sua literatura, é a escuridão ou o sorvete?”. Ela responde: “É o centro, a procura do centro”.

— Eles eram curiosos da morte, da alma, não escreviam livros de viagem ou de culinária, escreviam o “de dentro”, e faziam isso para sobreviver — afirma Paula. — Eles se encontram muito nisso, inclusive nesse misticismo. Me disseram que, numa noite na Casa do Sol, Caio encarnou o espírito de Frederico García Lorca e ele e Hilda fizeram uma performance. Os céticos achavam que eles eram loucos.

Para o crítico Ítalo Moriconi, que acaba de relançar em e-book “Cartas: Caio Fernando Abreu” (e-galáxia), organizado por ele em 2002, essa correspondência inédita amplia o conhecimento que se tinha da ligação entre Caio e Hilda.

— Acredito que a publicação em larga escala desse conjunto de cartas favorece a transição do olhar contemporâneo do cronista para o olhar mais construtivo do historiador — diz ele. — Favorece uma renovação do olhar crítico da literatura brasileira pós anos 1960 e pré gerações 2000 e 2010 do século corrente. As cartas do Caio para a Hilda certamente constituem um instigante “caso” de história da vida literária. O mais fascinante delas são as discussões e impressões sobre literatura. Mas a relação entre os dois tinha dimensões pessoais muito fortes. O pessoal e o formativo se confundem. Na verdade, o “romance de formação” de Caio teve muito a ver com essa segunda mãe musa transgressiva, permissiva e bela. Nas cartas, recuperamos um pouco da presença selvagem da literatura de Hilda no nosso cânone dos anos 70/80.

A correspondência incluída no livro vai até o ano de 1990, e cobre a evolução de uma amizade oscilante, temperada por brigas e reconciliações. Praticamente apenas Caio escreve para Hilda (há só um bilhete e uma carta da autora no livro), e muitas vezes se queixa do silêncio da interlocutora. Mas ele era um “epistolista”, lembra Paula, contando que enviava até cinco cartas por dia a pessoas diferentes, mesmo sabendo que poderia não receber resposta. Em tom confessional, as missivas eram repletas de amor à vida, mas também de lamentos em voz alta, nos quais ele chorava suas dificuldades emocionais, profissionais e financeiras.

Após a discussão que quase resultou na destruição das cartas, os dois retomaram a amizade e passaram a se falar quase todos os dias, por telefone, até os últimos dias de vida Caio, que morreu precocemente aos 45. Hilda, que garantia captar as vozes dos mortos via ondas de rádio, contou em uma entrevista que o amigo veio visitá-lo logo após sua passagem: “A gente tinha combinado isso. Ele estava com um cachecol vermelho. Era a nossa senha: o vermelho ia significar que estava tudo bem. Eu abracei Caio muito e disse: ‘Nossa, como você está bonito! Está jovem! Mas ninguém acredita.”

TRECHOS

Em carta a Caio em 23 de setembro de 1977, Hilda fala sobre a relação com os jornalistas e críticos:

“Penso que isso de escrever provoca sempre no outro um desejo de, vontade de parecença, de posse, e em vez de acarinharem a gente, dizerem isto, o que seria muito bom para a gente porque é sempre gostoso o carinho o desejo o gosto, pois bem, ficam dando chifradas e ironizando”

Em carta enviada a Hilda em 18 de dezembro de 1978, Caio critica obra de Clarice Lispector:

“No mais, tô lendo o livro póstumo de Clarice, ‘Pulsações’, e achando muito chato, repetitivo, aquela coisa de ‘Escrevo em estertor. Escrever me é. A luz se me entra. Cada palavra é o avesso de nenhuma’ – entende? Ai, meu saco. Acho que ela morreu na hora certa, porque tava repetindo demais a receita”.

Unesp lança e-book gratuito com análise da obra de Hilda Hilst

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Publicado na Tribuna do Norte

A editora Unesp (Universidade Estadual Paulista) está disponibilizando gratuitamente o e-book ‘Hilda Hilst e o seu pendulear’, onde a professora Nilze Maria de Azeredo Reguera  procura decifrar criticamente uma das obras mais densas e radicais da escritora paulista Hilda Hilst, os cinco textos em prosa reunidos no livro Fluxo-floema, publicado pela primeira vez em 1970.

A autora parte do princípio de que o livro delineia um movimento de oscilação da artista, que tanto colocaria em cena quanto a problematizaria a tradição modernista de que ela foi herdeira, por meio de um questionamento implacável das utopias e do lugar que supostamente caberia ao artista ocupar no final do século 20, em um contexto de opressão.

A leitura de cada um dos cinco textos de Fluxo-floema é feita a partir da observação atenta dos procedimentos técnicos empregados por Hilst, sobretudo o de alegorização, em uma abordagem que vai paulatinamente desmontando e reorganizando os textos, nos quais a linguagem é levada ao paroxismo da expressão inclusive a fim de celebrar ritualmente a multiplicidade espiritual e sensorial do ser humano.

A pesquisadora também procura situar os cinco textos dentro do conjunto da produção hilstiana, já que Fluxo-floema é um livro que dialogaria com várias outras obras da escritora. Dessa forma, Reguera obtém significados inusitados e atuais tanto do livro em questão quanto de outros trabalhos de Hilst.

Nilze Maria de Azeredo Reguera é doutora em Letras pela Unesp e pós-doutoranda pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, com especialização em Literatura.

Download gratuito
http://www.editora.unesp.br/

Em leilão, livros podem valer até R$ 150 mil

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Apesar dos valores altos, os leilões de livros raros são bastante disputados

Estante de biblioteca repleta de livros antigos: para um colecionador, as obras mais raras são verdadeiros objetos de desejo (©AFP / Christophe Simon)

Estante de biblioteca repleta de livros antigos: para um colecionador, as obras mais raras são verdadeiros objetos de desejo (©AFP / Christophe Simon)

Taísa Szabatura, na revista Exame

São Paulo – Senhores engravatados e jovens despojados ocupam as cadeiras da sala de reunião de um hotel de luxo na capital paulista. Eles estão prestes a participar de mais um leilão de livros raros e papéis antigos, evento que acontece pelo menos duas vezes por ano. Alguns se cumprimentam com um aceno tímido da cabeça.

A simpatia, porém, dura pouco, pois há muita coisa em jogo. A obra mais cara do catálogo é um livro de gravuras feito a mão, de Maurice Rugendas, que esteve no Brasil em 1822: lance inicial de R$ 150 mil.

O organizador do evento, Rogério Pires, dono da livraria Fólio, explica que existem diversos perfis de comprador. “Há o que busca primeiras edições, o obcecado por algum período histórico, o colecionador de autógrafos, o fã de livros de arte”, diz Pires.

Um dos livros mais disputados foi uma edição com dez serigrafias originais assinadas pela artista Renina Katz, com um poema de Hilda Hilst. O lance inicial era de R$ 6 mil e foi parar em R$ 10.500.

Para um colecionador, esses livros são verdadeiros objetos de desejo. Com tiragens pequenas e bom estado de conservação, são disputados pela exclusividade.

“O comprador leva para casa um objeto único e repleto de história”, diz Pires. O leiloeiro é provocador. “Ninguém vai pagar R$ 400 por esse exemplar com dedicatória do Carlos Drummond de Andrade. Vocês têm certeza?”, e então um dos compradores ergue a placa com o seu número, temendo perder uma grande oportunidade.

Ao todo são 20 participantes, mas nem todo mundo sai da sala com uma obra debaixo do braço. O comprador que mais gastou desembolsou R$ 25 mil em seis obras. Já o exemplar de R$ 150 mil teve uma proposta de R$ 132 mil, não aceita pelo vendedor. Quer dar um lance?

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