Canal Pavablog no Youtube

Posts tagged Hiperatividade

Pobre romance brasileiro

4

Por que os ficcionistas nacionais sofrem de falta de imaginação e autocomplacência

Luís Antônio Giron, na Época

Que grande romance brasileiro surgiu nos últimos 20 anos? Que autor nacional gera discussão ou mesmo revolta com suas histórias que quebram tabus? Há um escândalo nas rodas literárias capaz de indignar a nação? A resposta é um triplo não. A estagnação se apossou da vida literária do Brasil – para não mencionar a vida cultural como um todo. Nem as celebridades consagradas e muito menos as novas gerações conseguem lançar obras importantes. Vou tentar analisar as cinco razões de nossa absoluta esterilidade.

Em primeiro lugar, sofremos de superprodutividade e hiperatividade. Mas o volume de lançamentos não condiz com a qualidade dos textos. No Brasil, são lançados cerca de 2 mil títulos de ficção nacional por ano, entre romances, novelas e contos. Os blogs literários abundam, além de ficção via Twitter e Facebook. Mais de cem festivais de literatura inspirados na Festa Literária Internacional de Paraty acontecem pelo país inteiro. São eventos que movimentam e dão aos escritores emprego e uma razão de existir. Eles promovem o contato estreito entre autores, editores, jornalistas, agentes, blogueiros e microblogueiros. São festivais tão intensos que vivem de si próprios, dispensando até a figura do leitor. Os autores adoram se ler mutuamente – e distribuir elogios sob a condição de receberem igual honraria num futuro próximo. Também dão declarações para tudo que é veículo de comunicação, mesmo que não tenham nada a dizer de fato. Por seu turno, os críticos respondem em suas resenhas e tuites com uma comovente cumplicidade. E participam de júris que premiam os mesmos escritores.

Essa prática – eu diria círculo vicioso – dá origem à segunda causa da miséria intelectual que assola o país: a autocomplacência da classe autoral, se é que podemos dizer assim. Nunca houve tanta gente escrevendo tanto, nem tanta bobagem. Aqui se encaixa uma terceira razão: como todo mundo se cansou da velha geração de ficcionistas, que se repetia e chafurdava na própria mediocridade, a solução foi depositar as esperanças nas gerações mais frescas. O resultado é o atual culto à juventude dourada da literatura. Os jovens adquiriram o direito – que os moços do passado não tiveram – de escrever o que bem entendem, com todo o brilho da falta de experiência e de visão de mundo que lhe são característicos. A leviandade e a abordagem superficial são encaradas com bonomia pelos especialistas e agentes literários, que aprovam tudo o que é produzido pelos romancistas, desde que tenham menos de 30 anos.

Tudo isso seria perdoável caso os novos e velhos autores estivessem se ocupando de temas relevantes. A ausência de assunto é a quarta razão. Não vou citar nomes porque seria dar corda à polêmica. Tenho me debruçado com grande boa vontade sobre a ficção brasileira contemporânea. E, salvo exceções, o resultado é desapontador. O assunto predominante dos romancistas atuais é o próprio umbigo dos romancistas atuais. Os protagonistas desses romances e narrativas curtas não passam de extensões mais ou menos infiéis de seus autores, em geral indivíduos com problemas de criatividade ou, em casos mais graves, dor de corno. Eles criam tramas onfálicas e autoficcionais que giram em torno da própria barriga ou do próprio sexo. Não há ambição e nem mesmo o risco de errar.

Nenhum autor parece se importar com a investigação da alma humana e das sombras do inconsciente. Alguns são partidários da fantasia e da trama policial, embora eles não façam mais que uma frágil imitação do romance pop e dos quadrinhos. Pouquíssimos se preocupam em lidar com a agitada história do Brasil, mesmo a recente. Até porque todo mundo já se esqueceu de que um dia tivemos uma ditadura, fomos muito pobres e analfabetos. Eram tempos em que surgiam autores como Machado de Assis e João Guimarães Rosa – figuras hoje tão veneradas como pouco lidas, pelo menos por quem deveria lê-los. A falta de imaginação matou o espírito dos autores. Estão tão mortos que não se importam nem mesmo com os leitores.

Nem vou me deter no aspecto do estilo, pois este foi deixado de lado há muito tempo. Os jovens romancistas consideram o experimentalismo e o uso poético da narrativa uma atividade ultrapassada. Mesmo assim, fazem questão de imitar alguns modelos experimentais. Nove entre dez autores locais com menos de 30 anos querem virar a reencarnação de David Foster Wallace, o autor americano que, sintomaticamente, se enforcou em 2008 durante uma crise de criatividade, enquanto tentava escrever o romance The pale king. As versões tupiniquins de Foster Wallace não correm risco e não fazem o favor aos leitores de se suicidarem… Quem sabe assim adquirissem um status de mito post mortem.

Infelizmente, não há nem um único cadáver jovem para abrilhantar a literatura brasileira contemporânea. Os escritores estão todos vivos, saudáveis e desfrutando de viagens planetárias e projetos de renúncia fiscal. Eis aqui o quinto motivo de nosso por assim dizer excesso de modéstia literária: o poder do marketing. Hoje nenhum contador de histórias poderá triunfar sem se cercar de especialistas em promoção pessoal, institucional e comercial. Autores de ficção são produtos vendáveis: têm de reunir beleza, juventude e, de preferência, mas não obrigatoriamente, inteligência.

Deve existir alguma solução para aperfeiçoar a qualidade de nossos romancistas e contistas. Não consigo vislumbrar nada melhor do que aposentar prematuramente alguns deles – e sair em busca de talentos legítimos. Seria necessário uma limpeza na literatura nacional. Minha impressão é de que ela é bem pior que a do resto dos países ibero-americanos e perdeu um tempo tão precioso que não será capaz de se recuperar da inferioridade.

Guia ilustrado e bem-humorado da Bienal do Livro

0

Quer ir à Bienal do Livro do Rio? Então veja algumas dicas do Guia ilustrado e bem-humorado da Bienal

1

Publicado por UOL

Reprodução/Google

Reprodução/Google

CHEGANDO LÁ – Pra começar, a Bienal precisa decidir se é no Rio de Janeiro ou se é no Riocentro. O gigantesco centro de convenções famoso por causa da explosão daquele Puma é ótimo para abrigar o evento, mas há dúvidas se fica mesmo no Rio (veja o mapa). Oitenta e sete paus de táxi depois finalmente chegamos ao Riocentro, labiríntico como um romance pós-moderno. Quase quinhentos stands e 27 autores estrangeiros confirmados – embora essas confirmações careçam de confirmação, já que horas antes o guia com a programação da feira havia sido recolhido por conter muitos erros.

3“VOCÊ GOSTA DE POESIA?” – A Bienal costuma ser uma anti-Flip por seu aspecto abertamente comercial, o que espanta um pouco os tipos diletantes que acorrem a Paraty para posar de escritor. Mas logo no primeiro rolé pelo local surge um poeta desses que interrompem a nossa conversa em bares repetindo para os passantes a aterrorizante pergunta “você gosta de poesia?” – só que esse tinha um crachá que não consegui ler. Talvez fosse o único com permissão para portar material amador no evento.

4ALEGRIA DOS NERDS – Nos dias de semana a Bienal pertence às crianças, a maior parte delas de uniforme escolar. Muitas encaram a coisa toda como um desses passeios didáticos por museus ou bibliotecas, ou seja: as mais nerds até gostam. As outras aproveitam os corredores para praticar a hiperatividade. Na tentativa de conter os ânimos dos Damiens em potencial, muito cosplay de personagens infantis, incluindo uma Galinha Pintadinha do tamanho de um peru que só podia estar vestindo um anão ou uma criança.

5CULTURA RENASCENTISTA – Rafael, Michelangelo, Leonardo e Donatello

6NEYMARZETES – Alguns stands apelaram para outras regiões do cérebro além do lobo temporal esquerdo, responsável pela leitura. Uma editora trouxe duas meninas vestidas como jogadores de futebol (se eles ainda usassem aqueles shorts minúsculos dos anos oitenta) para promover seus livros sobre o tema. Alguns menos tímidos pediam para posar junto, mas as garotas perdiam em assédio dos fotógrafos para um display do Neymar em um stand próximo.

7SR. IMPORTANTE – Uma figura comum das Bienais é o Sr. Importante, com camisa social para dentro da calça e sua comitiva. Não raro você reencontra o Sr. Importante na forma de um cartaz gigantesco – é um autor famoso que você não conhece – ou inspecionando um stand com ar de reprovação condescendente, provavelmente um dono de editora ou publisher com muitos best sellers no currículo.

8MARKETING FANTÁSTICO – Falando em famosos-desconhecidos, esse é um fenômeno relativamente recente. Você ouve falar pela primeira vez de um desses novos autores de livros de fantasia para adolescentes (alguns de idade avançada) no mesmo momento em que descobre que o sujeito tem uma obra de fazer inveja à de Balzac (em extensão, bem entendido).

9VAMPIRO BRASILEIRO – A literatura fantástica é uma das grandes forças do mercado no momento e é responsável pelas maiores filas da Bienal. Além de movimentar as vendas, o gênero atrai ao ambiente alguns consumidores típicos, como góticos de todas as idades.

10TABLET É PARA OS FRACOS – Apesar da indústria afirmar que as vendas de tablets estão batendo as seis milhões de unidades ao ano, o livro de papel ainda mora no coração do leitor brasileiro. Talvez porque sem a capa seja mais difícil de praticar a ostentação intelectual.

11ATÉ QUANDO? – Enfim, o livro continua sendo o formato obsoleto e não muito ecológico mais popular do mundo.

Ilustrações: Arnaldo Branco

Go to Top