Canal Pavablog no Youtube

Posts tagged história de amor

‘Hosana na Sarjeta’ não é bem uma história de amor, mas uma odisseia mundana

0

Romance de Marcelo Mirisola sinaliza uma urgência pelo outro, a despeito do humor insano de algumas passagens

André de Leones, no Estadão

O romance Hosana na Sarjeta, de Marcelo Mirisola, não é bem uma história de amor, claro, mas uma odisseia mundana que, embora não tenha uma Ítaca à vista, traz de volta aquele inconfundível narrador-protagonista e, com ele, um par de “sereias”. Dada a intensidade com que ele se envolve com essas duas mulheres, e tendo em vista os desdobramentos disso, custa a crer que o amor não seja algo como uma experiência de quase morte. Não por acaso, depois de sobreviver a si mesmo outra vez, o narrador afirma: “A vida fisgada pela morte. Resumidamente, esse é o enredo das histórias de amor”.

Por outro lado, ou nem tanto, também estamos diante de um longo processo de aceitação da irredimível solidão, uma solidão “crua e óbvia”, do “nosso erro em estado de urgência”, que constitui esse personagem.

Ele conhece Paula na porta da boate Kilt (que não existe mais), no centro de São Paulo, e a confunde com uma prostituta. Ela desfaz o mal-entendido (para, irônica e inadvertidamente, reinstaurá-lo, já no terço final do romance) e, a despeito da breguice (leitora de esoterismos e bobagens variadas) e do “chapéu de poodle que ela aninhava em cima da carapinha oxigenada”, ele se apaixona por ela, alguém que “absorvia os despojos e as esperanças de quem as solicitava, engolia tudo”.

Mirisola está passando algumas semanas em Buenos Aires

Mirisola está passando algumas semanas em Buenos Aires

Ariela, por sua vez, era “o oposto vertiginoso de Paulinha”, um “compêndio de todos os meus pontos fracos”, uma “Lolita avançada tecnologicamente” que “carregava um potencial de destruição visível, mas sabia escamotear o mal atrás de uma cumplicidade que não oferecia perigo iminente”, mãe, casada com um “príncipe” de quem, eventualmente, apanhava e com quem morava, “de favor”, na casa da sogra, em Guarulhos.

Lançado entre uma e outra, mas jamais inteiramente com uma ou outra, Marcelo, o protagonista, enxergará a própria mentira na mentira alheia (e vice-versa, num espelhamento infinito), constituindo, no fim e a muito custo, uma verdade desoladora. Tal verdade não diz respeito propriamente à impossibilidade do amor (até porque “lá no fundo de sua escrotice, o animal agoniza, gosta e ama de verdade”), mas, antes, à aceitação daquela solidão em toda a sua crueza.

Hosana na Sarjeta coloca-se entre os melhores trabalhos de Mirisola (O Herói Devolvido, Bangalô) e sinaliza um interesse real ou, melhor dizendo, uma urgência pelo outro, sobretudo quando ele não está mais lá. Nesse sentido, a despeito do humor insano de algumas passagens, é também um romance desarvorador.

HOSANA NA SARJETA
Autor: Marcelo Mirisola
Editora: 34 (144 págs., R$ 32)

Tragédias pontuam história de amor dos pais de Adriana Falcão, agora narrada em livro

0

Homenageada da Fliporto deste ano, a roteirista e escritora resgata desde o primeiro encontro entre Caio e Maria Augusta, em 1947, até o enterro da mãe, no começo da década de 1990

Foto: Editora Intrínseca/divulgação

Foto: Editora Intrínseca/divulgação

Fellipe Torres, no Diário de Pernambuco

Foto: Editora Intrínseca/divulgação

Foto: Editora Intrínseca/divulgação

Ao caminhar na orla da praia de Boa Viagem, de tempos em tempos, a carioca Adriana Falcão, 54, sente-se mais perto dos pais, cujos restos mortais estão enterrados no Cemitério de Santo Amaro. Na memória, os anos vividos no Recife desde 1971, quando o patriarca da família veio instalar uma fábrica de papelão na cidade, até 1991, quando a mãe morreu depois de abusar de remédios, vodca e uísque. Treze anos antes, o pai havia se suicidado ao tomar 400 comprimidos para dormir, mesmo período em que a mulher ameaçava atear fogo no próprio corpo com um isqueiro e uma garrafa de álcool, que explodiu em sua mão. Era a culminância de uma vida atribulada. Ela, Maria Augusta, uma provável bipolar. Ele, Caio, depressivo.

Acompanhada de perto por tragédias, a história de amor entre os dois estaria esquecida se não fosse resgatada pela filha no livro Queria ver você feliz (Intrínseca, 160 páginas, R$ 29,90). Resgatar a vida em comum dos pais foi como uma terapia (“além da que já faço semanalmente e os antidepressivos que tomo”). Há cinco anos, a roteirista de A grande família acreditava levar uma vida perfeita junto ao marido, o cineasta João Falcão, e as filhas. Mas uma separação repentina gerou uma crise pessoal. “Era como se eu, aos 49 anos, visse acabar a vida que eu tinha e amava ter com essa família. Tive que me reinventar, repensar tudo”.

Foto: Editora Intrínseca/divulgação

Foto: Editora Intrínseca/divulgação

Parte dessa reinvenção terapêutica está em uma noite em claro, no Rio de Janeiro, acompanhada pelas duas irmãs e regada a “risadas, choros e Rivotril”. Juntas, elas abriram o baú onde ficam guardadas as correspondências dos pais, muitas delas reproduzidas no livro. Foi o ponto de partida para tornar pública a intimidade do casal. “Apesar de tanta tristeza, tanto conflito, eles foram tão fortes, tão lindos, tão difíceis… Claro, muita coisa ali é como um soco no estômago, mas é tão a realidade… Uma realidade que às vezes é cruel, mas às vezes é tão linda, engraçada, e cruel de novo”.

Para se distanciar e evitar sentimentalismos, Adriana deu voz ao amor e o colocou como narrador da história do casal. Um amor arrogante, ácido, irônico. Essa entidade é responsável por esmiuçar a combinação entre personalidade exuberante de Maria Augusta e a melancolia de Caio. A obra dá conta desde o primeiro encontro entre os dois, em 1947, até o enterro da mãe, no começo da década de 1990. Ao ler o livro em primeira mão, o genro Gregório Duvivier disse nunca ter entendido tão bem a mulher, Clarice Falcão. Juntos, eles gravaram e postaram vídeo no YouTube cantando Learnin’ the blues, música favorita de Caio e Maria Augusta. “A gente termina tendo orgulho dessa ancestralidade maluca, que suplanta todo o resto”.

ENTREVISTA >>> ADRIANA FALCÃO

Foto: Editora Intrínseca/divulgação

Foto: Editora Intrínseca/divulgação

Foto: Editora Intrínseca/divulgação

Foto: Editora Intrínseca/divulgação

Você escolheu o amor para ser narrador desse livro, que promete uma história bonita e oferece uma sequência de socos no estômago. O amor é mesmo tão cruel?
O narrador é um amor arrogante, não é? Acho que estou fazendo um desserviço à humanidade (risos). O mais incrível é que toda essa historia é verdadeira, com exceção de algumas coisas de quando eu não era nascida. São detalhes, como a data do noivado deles, que eu não sabia. Mas todas as cartas trocadas entre eles estavam dentro de um baú. A história de um tempo para cá todo mundo sabia, até porque a gente viveu isso tudo. Eu e minhas irmãs, que ainda moram no Recife.

Foi doloroso trazer à tona essa vida marcada por tragédias?
Obviamente foi muito duro. A gente sempre teve sensação de tanta gratidão por ter esses pais. Apesar de tanta tristeza, tanto conflito, eles foram tão fortes, tão lindos, tão difíceis também. A gente herdou da minha mãe o senso de humor. Lembro que no dia do velório dela, uma das minhas irmãs disse que Deus não iria aguentar minha mãe no céu e iria mandar ela de volta. E aí a outra respondeu que ela é que não iria aguentar viver lá no céu sem controlar a vida da gente e iria voltar. Mais tarde eu transformei isso em ficção, no livro A comédia dos anjos, em que uma mãe manipuladora morre e volta à vida.

Como foi a abertura desse baú e o contato com as cartas?
Quando mamãe morreu, fiquei muito mal. Fomos dividir as coisas, e eu não queria nada, estava muito agoniada. Quando achamos o baú, eu disse que queria, e tenho ele até hoje. Vez ou outra eu abria e mostrava a minha filha algumas coisas engraçadas (óbvio que não mostrei a carta de suicídio do meu pai). Mas sempre foi algo que me deu um pouco de medo. Há três anos, minhas irmãs estavam comigo aqui, no Rio de Janeiro. Com elas, me sentia mais segura. E aí passamos a noite em claro lendo, rindo, chorando, tomando Rivotril. Foi quando elas me disseram que eu precisava fazer um livro, pois tinha uma história muito rica.

Foto: Editora Intrínseca/divulgação

Foto: Editora Intrínseca/divulgação

Houve medo de se expor demais?
Passei por todas as crises. Pensei se não seria expor demais, se deveria ou não tornar essa história pública, até chegar à conclusão que, se eu e minhas irmãs, que somos herdeiras dessa história, concordávamos em dividir com os outros… Por que não? Também tinha a sensação de que meu pai e minha mãe opinariam a favor. Claro, muita coisa ali é como um soco no estômago, mas é tão a realidade… Uma realidade que às vezes é cruel, mas às vezes é tão linda, engraçada, e cruel de novo… mas é a realidade.
Teve um momento que fiquei na dúvida se incluía a carta de suicídio de meu pai, que é bem carinhosa, bem pratica, mas eu tinha um pouco de medo de expor isso. Mas conversei com minhas irmãs e elas me deram força. Por toda a minha vida cansei de dizer que meu pai se matou e ouvir alguém responder: “ah, coitado! Está queimando no inferno.” Essas coisas de quem não compreende o tamanho da dor de alguém que se mata. Nunca discuti, porque sou uma pessoa conciliadora, muito pacificadora, mas me incomodava muito quem não via o lado dele. Quando ele cometeu suicídio, tinha duas filhas grávidas, eu e minha irmã mais velha. Pra muita agente era uma coisa louca. Como um pai se mata e deixa a família assim? Mas só quem viveu a dor dele pode entender. Tenho certeza que pela posição política, social e emocional dos meus pais, eles gostariam que eu contasse essa história.

Como tocou a vida após a morte de sua mãe e deixar o Recife?
Depois de toda essa tragédia, logo depois vim morar no Rio de Janeiro com João e as meninas. Durante muito tempo escrevi A grande família, livros infantis, vivi uma fase muito bem, com a família feliz, com tudo indo bem no trabalho, tudo direitinho. Mas em 2009 a gente se separou. Eu não queria. Tinha uma paixão imensa, parecida com a que minha mãe tinha pelo meu pai. Foi difícil. Hoje em dia a gente é super amigo, e eu entendo perfeitamente o direito de escolha dele, aos 50 anos, de querer viver, experimentar outras coisas.
Absolutamente compreendi. Mas dentro de mim causou uma coisa muito forte, porque era como se eu, aos 49 anos, visse acabar a vida que eu tinha e amava ter com essa família. Foi uma crise pessoal. Me colocou em uma posição que tive que me reinventar, repensar tudo. E fui muito feliz em manter a união da família, nas conquistas profissionais. Fez parte desse esforço esse mergulho no meu passado, como uma espécie de terapia. Não basta a terapia que faço semanalmente e os antidepressivos que tomo. Tive que dar um mergulho lá dentro, reinventar Adriana.

As vidas da sua avó, de seu pai e de sua mãe foram marcadas por tragédias. Em algum momento houve receio de uma “herança maldita”?
Todas nós temos, eu, minhas irmãs, todos os nossos filhos adultos. Nós somos muito sensíveis, já tivemos crise de pânico, fizemos terapia, tanto nos três quanto nossas filhas. Mas com o tempo esse medo foi se transformando numa coisa maluca, em um orgulho de a gente ser assim. É engraçado… Quando o Gregório (Duvivier, marido de Clarice Falcão, filha de Adriana) leu, disse assim: “Meu Deus, entendi a Clarice como nunca”. (risos) Também teve o namorado da Isabel, o músico pernambucano Mateus Torreão, que falou algo sobre uma “ancestralidade maluca”. Achei bonitinho. A partir dessa ancestralidade maluca, a gente pega o que tem de melhor, o senso de humor, o talentos para as coisas. Herdamos muito da felicidade da minha mãe, que deveria ter sido escritora, para botar a agonia para fora de alguma maneira. Ela teve uma vida muito careta para a personalidade dela. Foi funcionária pública e se aposentou cedo para se mudar para o Recife. Viveu como dona de casa e não se aguentava desse jeito. Mas sinto que há uma herança bendita que engole a herança maldita. Minhas três filhas escrevem. A Clarice escreve, compõe, canta… É óbvio que todas as noites eu rezo pelo bem-estar emocional de todo mundo. Não é fácil. Às vezes uma das minhas meninas tem crise de pânico.

Foto: Editora Intrínseca/divulgação

Foto: Editora Intrínseca/divulgação

Como a família tem reagido ao livro?
Clarice e Gregório gravaram um vídeo cantando a música que meus pais gostavam. É como eu disse, a gente termina tendo orgulho dessa coisa… dessa ancestralidade maluca. Acho que isso suplanta o resto. Quando o livro foi lançado no Rio de Janeiro, estava lá a irmã do meu pai, com 83 anos, a família da minha mãe, todo mundo muito feliz de reencontrar com essas duas pessoas que eles amavam tanto. Com o livro, puderam entender melhor, ter acesso à vida deles. Hoje eu acordei com o telefonema de um primo meu, aos prantos. Ele era muito ligado à minha mãe. Ele disse: “o livro é lindo, estou aqui pensando nela”. É quanto eu me toco que realmente o livro tem esse lado punk.

E suas filhas?
Cada uma reage de um jeito. As meninas foram as primeiras a ler. Tatiana, a mais velha, disse: “Mãe, você conseguiu uma coisa inacreditável. Mas o final é assim mesmo? A gente vai ficar desacreditando de tudo mesmo?” Eu disse que não, que tudo tem suas dificuldades. Ela conviveu muito com a avó, então o que ela acha inacreditável é como a alma de mamãe ficou ali. Clarice tem uma relação mais próxima do humor. Fica lendo trechos das cartas de amor, em que minha mãe dizia: “Querido Caio, o ‘querido’ vou tirar porque na carta anterior você me tratou como quem vai me vender uma empresa ou um terreno em Jacarepaguá” (risos). Clarice fica morrendo de rir com essas passagens.
Já Isabel, que estuda letras, vai mais pela literatura. Comenta que foi um grande acerto tirar de mim a narrativa e colocar nesse amor que tem personalidade tão forte. Porque, caso contrário, poderia resvalar em um sentimentalismo no meu coração. Ao tentar colocar daquela forma, com um narrador tão ácido, tão crítico, coloco as coisas de uma maneira mais realista.

Go to Top