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O que um queniano que lutou para estudar aos 84 anos pode nos ensinar?

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O queniano Kimani Maruge nos ensina mais do que apenas que nunca é tarde demais para aprender – ensina também a história e as lutas de seu país

Bruno Pinho, no Papo de Homem

Kimani Maruge tinha 84 anos e pálpebras já cansadas quando colocou os pés em uma escola primária pela primeira vez, no verão do ano de 2004, decidido que aprenderia a ler.

Queniano, aproveitou uma medida de seu governo de tornar o ensino básico livre e gratuito para todos para se matricular em um escola de educação básica. Após inúmeras tentativas, lá estava ele estudando e dividindo a mesma sala com dois de seus 30 netos, sete décadas mais novos que ele.

Maruge se tornou detentor do recorde de pessoa mais velha a entrar em uma escola primária, segundo o Guinness.

Mas essa é apenas uma das muitas páginas peculiares de sua vida, transformada em filme em 2010, com o lançamento do longa inglês The First Grade (lançado em salas nacionais como Uma Lição de Vida e, recentemente, como O Aluno, no Netflix).

Olhar para a vida de Maruge não é só olhar para uma história de superação e busca pelo conhecimento, mas também para a rica narrativa de um país historicamente esquecido.

Olhar para Maruge é olhar também para o Quênia.
A revolta Mau Mau

Maruge participou ativamente de um dos momentos mais importantes e emblemáticos da recente história de seu país, a revolta Mau Mau, um levante que teve início no ano de 1952 contra a política colonialista do império britânico. Os quenianos lutavam, principalmente, por melhores condições, liberdade e mais terras – a plantação era uma das principais formas de sustento do país, e uma divisão extremamente desigual por parte do império dividia grande parte das terras na mão de poucos ingleses e deixava os nativos com pouquíssimos hectares.

Usando de qualquer meio para alcançar seus objetivos, incluindo aqui a violência, o movimento teve como resposta uma forte e truculenta repressão que durou até 1960, com o auxílio de tropas nativas e inúmeros casos de torturas e genocídios seletivos.

Britânicos subjulgando quenianos

Britânicos subjulgando quenianos

 

O levante terminou fracassado e sofrendo por causa da política britânica de dividir para dominar, estigmatizado e considerado terrorista pela própria sociedade. Os números divergem, mas todos eles apontam um fato em comum: a brutalidade e a dor que as milhares de mortes causaram à nação.

Hoje, os Mau Maus são vistos como símbolo de um movimento que lutava pela liberdade queniana, e conseguiram, em 2013, o pedido de desculpas do governo britânico pelas ações no período. Mas não foi essa visão que Maruge encontrou, e ele, que meio século antes lutara pela liberdade de seu país, agora enfrentava outra batalha, dessa vez mais pessoal: a luta pela liberdade de aprender.
O porta voz de uma educação para todos

Sofrendo críticas da comunidade e de todo o país, a decisão da escola de aceitar e acolher o pedido de Maruge não foi bem aceita.

E por mais que contraponha e antagonize com sua história de superação (e é um dos recursos mais fortemente abordados no roteiro do filme), a reação é, em partes, justificável: o Quênia é um dos países com mais crianças longe da escola no mundo.

O Quênia possuía, em 2010, aproximadamente 1 milhão de crianças sem estudar, fato que o coloca como o 9º país do mundo com mais crianças fora da escola. Muitas não conseguem por motivos financeiros, já que 47% da população vive ainda abaixo da linha da pobreza, fato que obriga muitas crianças a trabalharem para ajuda na renda da família. E mesmo que o ensino no país tenha melhorado, ainda tem muito a se desenvolver.

A decisão governamental de tornar o ensino básico livre e gratuito (posteriormente, o mesmo foi feito com o ensino secundário), foi em grande parte motivado pela pressão de movimentos e entidades sociais nas eleições de 2002 pela solução de tais questões. Mas atender pessoas idosas como Maruge certamente não estava no escopo da decisão.

Mas aceitar sua matrícula não foi colocar um velho senil em sala de aula, como muitos pensaram, e Maruge, aprendendo suas primeiras letras e números ao mesmo tempo que aprendia a segurar um lápis, já no primeiro ano era um dos cinco alunos com as melhores notas de sua sala.

A história de Maruge atraiu a curiosidade da imprensa internacional, e ele passou a carregar a bandeira do programa para todo o mundo, sem nunca relegar a tarefa ou interromper seus estudos. Ele acreditava que a educação era a solução para uma sociedade melhor, e não deixou nenhum obstáculo impedir sua busca.

O verdadeiro Kimani Marugi

O verdadeiro Kimani Marugi

 

Em 2005, foi convidado para discursar em Nova York, em um evento das Nações Unidas, e mais uma vez pregou a importância do ensino livre para todos, e que seu sonho seria não precisar ver ninguém mais ter que esperar como ele para receber educação.

Maruge morreu em 2009, por decorrência de um câncer. Só parou de estudar dois anos antes, quando se viu obrigado a se mudar para Nairob, capital do país, depois da forte violência que assolou o Quênia após as eleições, e com sua região sendo o epicentro de todo o conflito.

Assistir ao longa e conhecer a vida de Maruge não é apenas descobrir uma história motivacional e de que nunca é tarde demais para aprender, mas também é descobrir que o estudo é um dos caminhos para se alcançar a liberdade. Sua e de toda a sociedade.

 

Livro conta como Seu Jorge saiu da favela e se tornou homem de negócios

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Dono dos hits “Burguesinha” e “Amiga da Minha Mulher”, o fluminense se prepara para lançar o segundo volume de “Músicas para Churrasco”

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Publicado no Diário Catarinense

A história de Seu Jorge daria um filme. Por enquanto, rendeu o livro Seu Jorge – A Inteligência É Fundamental, com a trajetória do artista que saiu da Baixada Fluminense, chegou a morar na rua e hoje brilha na música e no cinema. Segundo o autor, o jornalista e produtor musical Leonardo Rivera, é mais um tributo do que uma biografia.

— A intenção era registrar, não polemizar — esclarece.

Nas 176 páginas da obra publicada pela MPM Editora não há lugar para conflitos ou divergências. A maioria dos acontecimentos aparece narrada pelo próprio Seu Jorge, em entrevistas extraídas principalmente do programa Roda Viva e das revistas Playboy e Bravo. Até por isso, por privilegiar a “versão oficial”, Rivera não precisou pedir autorização a ele para tocar o projeto adiante. Simplesmente o informou logo no início do trabalho, em 2008, durante um show no Circo Voador, no Rio de Janeiro.

A relação entre os dois remonta a 1997, quando o futuro biógrafo trabalhava no departamento artístico da gravadora PolyGram (atual Universal) e o biografado despontava à frente do Farofa Carioca. Rivera adorou a mistura de samba, funk, rap, reggae e pop do grupo e indicou sua contratação.

— Além do talento, eu via no olhar dele uma vontade de ir longe — lembra.

Apesar da badalação da mídia do Rio de Janeiro, o disco da banda, Moro no Brasil (1998) – de cuja faixa-título saiu o verso que batiza o livro –, não decolou. Mas a previsão de que Seu Jorge não pararia por ali o produtor acertou: o músico estrearia na carreira solo em 2001 com o álbum Samba Esporte Fino e, no ano seguinte, faria um sucesso tremendo encarnando Mané Galinha no filme Cidade de Deus.

Como o personagem que interpretou, também teve a casa invadida por bandidos e um irmão assassinado. Na época, ele era apenas Jorge Mário da Silva, tinha 20 anos e via no violão que estava começando a dedilhar uma maneira de deixar a favela Gogó da Ema, em Belford Roxo (RJ). Mané Galinha bandeou-se para o crime atrás de vingança. Seu Jorge, assim apelidado por Marcelo Yuka, então baterista d’O Rappa, mergulhou na arte para contrariar o destino.

Com o reconhecimento como ator, surgiram outros papéis aqui e em Hollywood. É de Los Angeles, para onde se mudou em 2013 com a mulher e duas filhas, que Seu Jorge analisa propostas para filmes, grava discos e cuida dos negócios.

— O que mais me surpreendeu na pesquisa para o livro foi o interesse dele pelo mercado financeiro — revela Rivera.

Em um dos depoimentos selecionados, Seu Jorge diz ser “viciado” nos programas Conta Corrente e Globo News Indicadores e que vê na economia um instrumento vital para decidir seus próximos passos. No momento, ele finaliza o segundo volume do disco Músicas para Churrasco, com lançamento previsto para este ano. E administra, com dois sócios, a cervejaria Karavelle e dois bares temáticos da marca em São Paulo.
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