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Biografia traz pistas sobre o enigma Belchior

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O cantor e compositor Belchior, nos anos 70 (Paulo Salomão/Dedoc)

O cantor e compositor Belchior, nos anos 70 (Paulo Salomão/Dedoc)

Livro conta a história do músico a partir de sua passagem por um seminário onde estudava para ser frade

Publicado na Veja

“Belchior nem existia. Morreu como? Como se pode saber que alguém que está desaparecido morreu?”. Esses foram os primeiros pensamentos de Jotabê Medeiros, biógrafo do cantor e compositor cearense Antônio Carlos Belchior, ao receber a notícia da sua morte, em 30 de abril deste ano. À época, o jornalista já havia terminado o livro sobre a vida do músico e se preparava para o xeque-mate: voar até o Rio Grande do Sul e seguir um endereço que conseguira para encontrar e ouvir seu personagem, até então com paradeiro desconhecido pelo público.

O tempo foi curto. Jotabê perdeu um dos irmãos e passou alguns dias recluso. Ao voltar à ativa, teve que mudar seu destino e desembarcar em Fortaleza. Engolir a expectativa de falar com o autor de Anunciação e enfrentar a dura atmosfera de mais um funeral. Belchior: Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 240 páginas, R$ 49,90), ganhou, por isso, um último capítulo: Inmemorial.

A obra traz para os fãs órfãos um resgate biográfico que não chega a explicar o motivo pelo qual Belchior deixou tudo para trás, mas pode dar pequenas pistas. O livro começa com os primeiros anos da sua formação intelectual, no Seminário de Guaramiranga. Belchior estudava para ser frade. “Ficou claro, para mim, que tudo que ele se tornou – um cara que sabia latim, italiano, filosofia, que lia muitos autores clássicos como Dante Alighieri – veio do seminário”, relata Jotabê.

Para o jornalista, Belchior parecia ter criado o próprio verbete da Wikipedia em uma entrevista para O Pasquim, em 1978. “A partir dali, ele passou a reproduzir histórias suas e os jornais, também”, conta Medeiros. A reconstituição dos passos e rupturas do músico cearense ao longo da carreira pinta um artista generoso, um compositor invariavelmente aplaudido e outras facetas menos conhecidas, como o gosto pela pintura e a vida amorosa “muito prolixa”, como define o biógrafo.

Para explicar o sumiço do cantor, que esvaneceu em 2007, existem várias especulações, mas nenhuma delas aparece no livro. Fato é que não há exatamente como saber por que Belchior deixou para trás a família com os filhos, os amigos e os fãs. Alguns apontam Edna Prometheu, sua última mulher, como o principal motivo do afastamento. Enquanto outros apostam que o cearense mostrou um descontentamento e uma sabedoria muito lúcida em suas obras, já deixando claro uma sensibilidade incomum que poderia impor a ele, como destino, o exílio.

Mesmo sem decifrar o mistério Belchior, o livro passa por toda a carreira do músico que chegou a dormir em uma construção por falta de dinheiro e a pedir um prato de comida para Elis Regina, que gravaria em seguida algumas de suas canções mais famosas, jogando luz sobre um dos grandes compositores da música brasileira. Além de contar alguns saborosos encontros na vida do cantor, como com seu ídolo, Bob Dylan, em 1990, e também com Zeca Baleiro, que aconteceu já longe dos holofotes, em março de 2014.

Um guia para A Torre Negra: O que é exatamente a maior obra de Stephen King?

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Em meio a tantos elementos da história de um dos principais nomes da literatura fantástica/terror da atualidade, que tal conhecer um pouco do básico para começar a se aventurar nesta obra?

Robinson Samulak Alves, no Cinema com Rapadura

Belos dias e longas noites, fiéis leitores rapadurianos. Eis que a épica saga de Roland rumo à Torre Negra enfim ganha uma versão oficial ao cinema. Porém, o que exatamente é essa tal de Torre Negra? E quem diabos é Roland? E por que é tão importante que ele chegue à Torre (porque uma viagem que leva sete livros e cerca de 4 mil páginas, só pode ser muito importante, certo?)?

Para começar, é importante ter em mente que a série “A Torre Negra” é a magnum opus de Stephen King. Não por se tratar de sua mais longa narrativa, mas por ser a trama que conduz (quase) todo o restante dos livros do autor. É como se os livros do King se passassem em alguns universos, sendo o Mundo Médio o local onde tudo se conecta. Mas então, o que seria o tal “Mundo Médio”?

Stephen King tem uma base literária formada pela influência de diversos escritores. Um dos autores que influencia muito sua narrativa é J.R.R. Tolkien e sua Terra Média. Dessa forma, o chamado Mundo Médio foi a forma que Stephen King pensou em deixar claro que estava tomando o conceito criado por Tolkien, sem necessariamente copiar. Porém seria muito reducionista afirmar que o cenário da obra é uma versão da Terra Média.

Há diversas influências, além de uma infinidade de criações próprias, que compõem o cenário principal. A mais relevante obra a ser citada é o poema “Childe Roland à Torre Negra Chegou” de Robert Browning. Mas esteticamente, talvez possamos imaginar que o Mundo Médio é o lugar onde a obra de Tolkien se encontra com a de Sérgio Leone. Talvez tenhamos assim um bom ponto de partida.
Os Livros

Desenvolvida ao longo de duas décadas, a história de como Roland chega à Torre Negra se inicia com uma simples frase:

“O Homem de Preto fugia pelo deserto, e o pistoleiro ia atrás”.

Dessa forma, acompanhamos ao longo do primeiro livro o início da construção do protagonista Roland, o último pistoleiro de Gilead (cidade onde ele nasceu).

Somos jogados em um universo que já existe, e como o próprio autor deixa claro, já seguiu adiante. Não trata-se da construção de uma mitologia. Nós apenas acompanhamos uma narrativa que acontece em um lugar já estabelecido. E dessa forma, Stephen King nos bombardeia com informações que em um primeiro momento parecem sem sentido. Algumas serão respondidas ainda no primeiro volume, e outras teremos que aguardar um pouco mais.

O que importa aqui é saber que há um pistoleiro e que ele precisa encontrar o tal Homem de Preto, um feiticeiro que assume diversos nomes (um deles sendo Walter).
Os personagens

Walter não é exatamente um vilão, apesar de haver muita vilania nele. O Homem de Preto esteve envolvido com Roland há tempo demais. Ao mesmo tempo que quase foi um carrasco, ele serve como uma ponte. É um personagem que retorna no futuro da saga (assim como irá retornar no passado). Se parece confuso, é porque Stephen King quer deixar bem marcado que neste universo já aconteceram muitas coisas.

Além do Homem de Preto (ou Walter), vale citar Jake, um garoto que é encontrado por Roland no meio do nada e que assume um papel extremamente importante ainda no primeiro livro. Além de impulsionar o protagonista da série, Jake ajuda na construção do personagem principal da obra. Um acontecimento em especial nos faz compreender Roland e sua obsessão pela Torre.

Jake também está ali para nos dar uma pista de algo muito importante. Em determinado momento, ele diz a seguinte frase:

“Vá então. Há outros mundos além deste”.

Mas sobre esses “outros mundos” nós conversamos daqui a pouco.

Jake também serve para introduzir um dos principais conceitos criados por Stephen King para esta obra: o ka-tet.

Ka significa algo próximo do destino de cada pessoa. Nessa mitologia, cada pessoa tem sua própria missão. A de Roland é chegar à Torre Negra. Ao mesmo tempo, outras pessoas têm cada uma seu próprio destino. Em alguns casos, os caminhos se cruzam e enquanto um grupo de pessoas está ligado pelo destino, elas formam um ka-tet. Esse grupo, por ter uma ligação tão forte, acaba conseguindo se conectar de alguma forma. A grosso modo, podemos comparar com o dom da iluminação, apresentado no livro “O Iluminado”.

A série também apresenta uma variedade enorme de criaturas e monstros. Cada um possui seu próprio propósito, muitas vezes não sendo nem bons ou maus. Esse conceito vai variar dependendo de quem interage com eles e como acontece esta interação. Dentre essas criaturas, podemos citar os Taheens. Também conhecidos como “O terceiro povo”, são criaturas meio humano, meio feras.
O lema dos pistoleiros

Existe um ritual pelo qual todo o pistoleiro deve passar durante o treinamento. Ao desafiar seu mestre e vencê-lo, o jovem está apto a ser considerado um pistoleiro no Mundo Médio. Roland compartilha seu passado aos poucos. E conforme ele revela mais informações, é possível perceber que aqueles dignos de viver como pistoleiros fazem parte de uma casta privilegiada e honrada.

Uma das lições que todo o pistoleiro aprende é como usar sua arma. E para isso ele recitam um lema:

“Eu não miro com a mão. Aquele que mira com a mão esqueceu o rosto do pai. Eu miro com o olho.

Eu não atiro com a mão. Aquele que atira com a mão esqueceu o rosto do pai. Eu atiro com a mente.

Eu não mato com a arma. Aquele que mata com a arma esqueceu o rosto do pai. Eu mato com o coração.”

Esse lema é uma forma de lembrar a cada pistoleiro a nunca errar um alvo. É o que os torna figuras lendárias e uma forma de esvaziar a mente e se concentrar no objetivo (ou no alvo).
Os Universos Paralelos de Stephen King

Já que citamos “O Iluminado”, é importante lembrar que não estamos falando apenas da maior obra de Stephen King, mas também daquela que conecta todas as outras. Mesmo não havendo uma relação direta com alguns dos romances ou contos, é possível estabelecer paralelos. Alguns são confirmados com informações apresentadas nos livros, outras fazem parte das “teorias dos fãs”, mas nem por isso são menos prováveis.

Durante a construção da saga, King aproveitou elementos de seus trabalhos já publicados até então para fazerem parte de um multiverso próprio. E por mais que pareça gratuito em alguns momentos, está tudo bem amarrado e justificado. É dessa forma, por exemplo, que podemos ver personagens de “A Hora do Vampiro” surgirem no quinto livro, “Lobos de Calla”, podendo ser vistos como vilões ou heróis, dependendo da obra.

A mesma dinâmica acontece em outros dois livros, que não citam a Torre Negra diretamente, mas aproveitam o multiverso por ela criado para se justificarem. “Desespero” e “Os Justiceiros” são chamados de livros irmãos. Ambos foram lançados no mesmo dia, e contam “a mesma história”, mas em universos diferentes e a partir de pontos de vistas diferentes.

Mas para tornar a relação mais interessante, em “Lobo de Calla”, há um momento em que Jake está em Nova York e vê um exemplar de um livro de autoria de Claudia Inez Bachman. Trata-se da esposa fictícia de Richard Bachman, pseudônimo de Stephen King que foi utilizado para assinar alguns de seus livros, entre eles, “Os Justiceiros”.

Vale ainda a citação de “Insônia”, que nos apresenta o terrível Rei Rubro, um dos principais vilões criados por Stephen King, e a maior ameaça na saga da Torre Negra. Ele pode assumir algumas formas, sendo uma aranha a principal (o que também aparece em outros livros).

Em “Os Olhos do Dragão” e “A Dança da Morte”, temos a presença de Randall Flagg. Este personagem já foi chamado em outros momentos de Walter, assim como o Homem de Preto. Ele também é um dos aliados mais importantes do Rei Rubro.

Mas e a tal da Torre Negra?

Há uma espécie de ambiguidade no que diz respeito ao final da grande saga de Stephen King. Diversos fóruns debatem o que exatamente é a Torre Negra, ou como ela afeta os diversos mundos existentes. Em partes essa discussão tem um motivo.

Talvez Stephen King sofra com o final de um livro. Longos projetos criam laços entre obra e autor, por isso é comum eles terem um significado especial. E como você encerra algo que fez parte da sua vida por mais de 20 anos?

Dessa forma, Stephen King oferece um “pré-final” de sua obra. Ele para em um ponto que deveria bastar para qualquer um que acompanhou a narrativa por tanto tempo e tantas páginas. Não apenas para deixar feliz seu leitor, pois nem tudo acaba bem. Mas por se sentir satisfeito.

Porém, o autor sabe que existem aqueles que não se contentam com o “como aconteceu” e precisam saber enfim “o que aconteceu”. A estes (e a todos os curiosos que não conseguem se controlar) o autor dedica as páginas finais, porém não antes de deixar um alerta.

Dessa forma, confira você as palavras do próprio Stephen King sobre o final de sua mais importante saga. O trecho a seguir é uma citação direta do que antecede o derradeiro final. Para evitar um prolongamento desnecessário e eventuais spoilers, alguns trechos foram omitidos, porém sem tirar o real significado do que o autor quis dizer. Para esclarecimento, trechos com (…) foram retirados por espaço e trechos com […] foram retirados por spoilers.

“Levei minha história do início ao fim e estou satisfeito. Foi (…) cheia de monstros e maravilhas e viagens de um lado para o outro. Posso parar agora, pousar a caneta e repousar minha mão cansada (…). Posso fechar os olhos para o Mundo Médio (…). Mas sei que alguns de vocês,(…), provavelmente não pensam exatamente assim. (…). São as pessoas cruéis que negam os Portos Nevoentos, onde os personagens cansados vão para descansar. Dizem que querem saber como tudo acaba. Dizem que querem acompanhar Roland até […].

Espero que a maioria de vocês saibam que não é bem assim. (…) . Espero que tenham vindo realmente ouvir a história, não apenas mastigar as páginas até o final. (…). Os finais, porém, não têm coração. Um final é uma porta fechada que nenhum homem […] consegue abrir. (…)

E assim, meu caro e Fiel Leitor, eu lhe digo o seguinte: você pode parar aqui. Pode deixar sua última memória ser […]. É um belo quadro, não é? Eu penso que sim. E também parece bastante perto do felizes para sempre. […]

Se você continuar, ficará certamente desapontado, talvez até de coração partido. Tenho uma chave guardada no meu cinto, mas tudo que ela abre é aquela porta final, […]. O que está por trás dela não vai melhorar a vida afetiva de ninguém (…). Não existe essa coisa de final feliz. (…)

Os finais não têm coração.

O final é só outro nome para o adeus.

(…)

Ainda queres?

Muito bem, então vem. Aí está [..].

Olhe-a, eu te peço.“

Esse é um resumo do que há de essencial no universo da Torre Negra. Muito disso pode ser citado ou ignorado no filme. Mas nos livros está tudo relacionado. É um universo que se prende a cada novo livro lido. E nos apresenta um pouco do que há por dentro da cabeça de um dos maiores nomes da literatura contemporânea. Cabe a você, fiel leitor, decidir se pretende parar por aqui, ou seguir em frente. Assim como na Torre Negra, a responsabilidade pelo que irá encontrar é completamente sua.

Arte por Mikołaj Birek

Arma, choque e socos: veja como a agressão na escola mudou a vida de professores

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Brasil está no topo do ranking da violência contra professores, segundo estudo de 2013 da OCDE. G1 ouviu a história de cinco professores sobre a vida depois do trauma.

Luiza Tenente e Vanessa Fajardo, no G1

Desistir ou insistir? O dilema sobre o que fazer com a carreira foi uma das consequências na vida de professores vítimas de violência no Brasil, país que aparece no topo do ranking global das agressões, segundo a OCDE. Antes da agressão contra Marcia Friggi, professora em Santa Catarina, o G1 já havia reportado dezenas de casos em anos recentes.

Muitas vezes, as vítimas, por medo, não denunciam o abuso que sofreram. Por isso, não há sequer estatísticas atuais sobre o tema.

Abaixo, cinco professores revisitam suas histórias e explicam qual caminho escolheram: desistir ou insistir.

Agressão com arma de choque

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CASO: Em maio do ano passado, o professor Anísio André Santos Júnior foi agredido com uma arma de choque por um estudante dentro de uma escola estadual na cidade de Esplanada, a cerca de 170 km de Salvador. Anísio machucou o nariz e sofreu várias escoriações após cair no chão, por causa da descarga elétrica que recebeu.

“A arma parecia uma lanterna pequena, ele usou no meu braço, eu não vi. Bati meu rosto, me machuquei. Fiquei 15 dias afastado. Dou aulas desde 2005, e, nesta escola, desde 2009. Continuo dando aula na mesma escola [Escola Estadual Celina Saraiva]. Na época, ela deu o apoio que eu precisava.

O aluno foi suspenso até a família se pronunciar, a família apareceu na escola. Ele retornou para a sala de aula, não foi justo eu passar por essa humilhação. Ele era menor, eu entrei com processo, mas parece que foi arquivado no Fórum de Esplanada. Ele era violento, já teve outro problemas. Tinha queixa de professores sobre comportamento dele. Ele voltou para a escola, mas não concluiu o ensino médio. Não sei o rumo que tomou.

“Não pensei em desistir porque escolhi ser professor. Não ia abrir mão do que acredito. Na época pensei em pedir transferência da escola, mas não era justo eu mudar a minha vida por conta de um adolescente que nunca entrou na aula para estudar.”

A violência na sala de aula está muito crescente. Muitos adolescentes estão ali só cumprindo tabela. Fora a agressão psicológica que vivemos constantemente. Sobre este caso da professora de Santa Catarina, e se fosse o contrário? Se a professora tivesse agredido o aluno, provavelmente estaria detida. Que Justiça é essa? Dois pesos e duas medidas?”

Chutes nas costas

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O CASO: Em uma escola estadual de Rio Preto (SP), em março de 2016, Aparecido estava preparando um seminário sobre violência em sala de aula, quando viu um aluno com o celular na mão. Pediu para o estudante guardar o aparelho e ele se recusou. Diante disso, o docente encaminhou o jovem para a direção. O aluno, no entanto, esperou o professor na porta da sala e quando ele saiu, deu chutes e socos nas costas.

“Depois de ser agredido sem motivo nenhum, eu me sinto refém dessa violência que acontece todos os dias. Ainda trabalho na mesma escola, é uma escola de periferia, a diretora faz das tripas coração para tudo correr bem, mas é difícil.

Na semana passada, um professor foi agredido verbalmente. Estou tomando remédio para me acalmar e controlar o emocional, mas nunca precisei de nada disso. Dar aulas está muito difícil. O ECA não protege os professores, estamos abandonados.

Na época, não tive nenhum apoio, precisei pagar um psiquiatra porque o convênio do Estado não cobria. Primeiro abalou meu emocional, depois foi o físico. Fiquei oito meses afastado. Tenho hematoma na perna esquerda. Uma das minhas vértebras foi comprimida pela violência do choque traumático.

Como eu tinha uma hérnia de disco, fisicamente nunca mais fui o mesmo. E na sala de aula nunca mais tive a mesma segurança. Continuo com medo. O menino passou 90 dias recolhido na Fundação Casa, agora está em liberdade, mas eu nunca mais o vi. ”

“Já pensei em desistir de dar aulas. Fica difícil trabalhar em um lugar onde você não tem paz. Eu não estou lá para isso, palavrão eu ouço todo dia.”

Soco de um aluno de 12 anos

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O CASO: Em Rondonópolis (MT), em maio de 2015, a professora Luciene Fátima Carloto, que atuava na coordenação pedagógica, levou um soco de um aluno de 12 anos dentro da instituição de ensino.

“(Após a agressão), tive dois meses de licença médica, sem vontade de voltar. No decorrer do tratamento fui percebendo que um aluno não poderia estragar minha carreira, que foi construída com dificuldades.

É horrível. Uma sensação de impotência. Parece que meu diploma foi rasgado e o mais difícil é saber que as agressões continuam por este país afora. Depois que eu falei publicamente do meu caso, parece que outras professoras resolveram falar também. Não falavam antes por vergonha ou por acreditarem que nada acontece??? As agressões são constantes, não digo apenas da física, mas principalmente da verbal.

“Quase que diariamente os professores são xingados pelos alunos, infelizmente ocorre uma distorção de educação e respeito. Os pais estão transferindo a educação familiar para a escola.”

Minha família deu apoio, sempre preocupada com meu estado emocional. Depois da licença médica, voltei e ao término do ano fui convidada pelos pares a candidatar à direção da escola, assim eu fiz e estou na direção desde 04/01/2016. Algumas pessoas falaram para eu aposentar, já que faltava pouco tempo, mas resolvi voltar e sempre fui tratada por todos com bastante cuidado.

Na escola, o caso foi tratado com muito cuidado e delicadeza, os pais ficaram emocionados com minha narrativa, pois expus em reunião geral antes de sair de licença. Eles precisavam ouvir de mim como tudo aconteceu, pois infelizmente alguns canais da imprensa acabam distorcendo algumas coisas. Nunca fui chamada para depoimento na delegacia. Apenas em uma ocasião no conselho tutelar, não fiquei bem, meu corpo tremia muito. Não sei por onde anda o menino. O final dessa história quem colocou um ponto final fui eu.”

Ameaçada por aluno armado

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O CASO: Em 2009, Rosemeyre de Oliveira foi ameaçada por um aluno armado em uma escola estadual de São Paulo (SP). Não conseguia mais voltar para a sala de aula, então procurou tratamento psiquiátrico e foi afastada. Depois de várias licenças médicas, desistiu de exercer a função de professora e pediu para ser readaptada. Desde então, trabalha na secretaria de um colégio estadual. Em dezembro, encerrará seu doutorado sobre professores readaptados.

“Em 2009, fui ameaçada por um aluno traficante, que estava armado dentro da escola. Depois disso, tentei várias vezes voltar para a sala de aula, mas não consegui. É progressivo. Eu ia trabalhar às 18h, mas chegava o meio-dia e eu já começava a ficar nervosa. Passei a nem atravessar a rua mais. Tive síndrome do pânico.

Até eu notar que precisava de ajuda, demorou um pouco. Fui à psiquiatra e ela me afastou. Na primeira consulta, eu só chorava, nem conseguia dizer que era professora. Foram licenças e afastamentos de 45 a 60 dias. Acabava a licença e eu não conseguia voltar. Até que decidi jogar a toalha e ser readaptada. Isso acontece com professores afastados, que voltam para ocupar uma nova atividade profissional, não mais em sala de aula. Eu, por exemplo, passei a trabalhar na secretaria de outra escola, cuidando dos prontuários dos alunos.

“A gente não é respeitado quando é readaptado. É assédio atrás de assédio. Vira só a “tia da secretaria”, nem os colegas me veem como professora. Todos acham que estou fazendo corpo mole, fingindo que não consigo dar aula.”

Nas redes sociais, vi que vários outros professores readaptados passavam por constrangimentos – então decidi estudar sobre isso. Entrei no doutorado na PUC-SP, em linguística aplicada, para investigar os sentidos e os significados do trabalho do readaptado. Defendo minha tese ainda nesse ano.

Casos como o meu vão continuar acontecendo, porque não existe punição para o aluno. Ele sabe que no máximo vai ser transferido para outra escola ou suspenso por alguns dias. Mas o professor não consegue mais voltar para uma sala de aula.”

Tiros na saída da escola

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O CASO: Em outubro de 2012, M.L. foi abordada por um ex-aluno e por outros dois adolescentes no estacionamento da escola municipal onde lecionava, em São Paulo. Os jovens anunciaram que roubariam o carro da professora. Um deles disse “hoje você vai morrer” e atirou duas vezes em direção à cabeça da docente, mas a arma falhou. Na terceira tentativa, M.L. foi atingida na coluna. Ela foi operada para retirar a bala e tem sequelas motoras, neurológicas e psiquiátricas.

“Entrei em depressão pós-traumática depois da cirurgia. Não sei o que teria sido de mim sem meu apoio familiar. Porque não tive nenhuma assistência do Estado. Foi humilhante. Fiz quatro perícias, tenho toda a documentação e o Estado continua dizendo que devo R$ 14.800,00 – eles não consideram minhas licenças médicas, então querem me penalizar como se eu tivesse faltado no trabalho. Estou processando a prefeitura, pelos danos morais e materiais para pagar meu tratamento, e o Estado, para conseguir minha aposentadoria.

Não consigo ir para lugar movimentado, passeata, show. Só saio durante o dia, em lugar protegido. O professor não tem estrutura para exercer sua profissão – não tem apoio psicológico ou emocional.

Soube que os meninos que me assaltaram foram para a Fundação Casa na época. Três meses depois, foram soltos. Acho que um deles chegou a ser preso quando completou 18 anos, mas não tenho certeza. Se eu os desculpo? Sim, desculpo. Mas o trauma que isso me causou, eles não têm noção.

Sinto que a dor poderia ter acabado na hora do tiro. Pensei em me matar várias vezes, sou uma suicida em potencial. ”

“As pessoas não imaginam o que acontece na escola pública. Apesar disso tudo, não me arrependo de ter investido na área de educação. Nasci para dar aula. É uma pena que isso não tenha sido valorizado.”

Livro de escritor Israelense é o mais vendido da semana no Brasil

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Foto: reprodução/internet

Foto: reprodução/internet

O historiador israelense Yuval Noah Harari é o autor do best-seller internacional Sapiens: Uma breve história da humanidade

Carol Santos, na Radio Jornal Pernambuco

Quem acompanha o programa Movimento sabe que agora nós temos duas doses literárias na semana. Todas as quintas, que não há transmissão esportiva, o jornalista Lívio Meireles traz os destaques do mundo literário e nas sexta você confere de perto os lançamentos em entrevistas com os escritores. E esta quinta-feira (17) o ponto forte dessa semana trazido por Lívio foi a presença do escritor israelense Yuval Noah Harari que conta com nada mais que dois livros na lista dos mais vendidos no país.

O grande destaque continua sendo o best-seller internacional Sapiens: Uma breve história da humanidade, que tem a primeira publicação datada em 2014. Claro que Lívio trouxe muito mais, só que você precisa clicar no player abaixo para ficar por dentro de tudo, é só por o fone no ouvido e aproveitar.
Sapiens: Uma Breve História da Humanidade

A obra retrata a ‘História da Humanidade desde a evolução arcaica da espécie humana na idade da pedra, até o século XXI’. O livro é dividido em 4 partes: A Revolução Cognitiva; A Revolução Agrícola; A Unificação da Humanidade e A Revolução Científica.

Livro de Bruno Borges entra para lista dos mais vendidos e volume 2 já tem data de lançamento

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Caio Fulgêncio, no G1

primeiro dos 14 livros do estudante de psicologia Bruno Borges, de 25 anos, desaparecido há quatro meses, entrou para a lista “não ficção” dos mais vendidos da semana, entre 24 e 30 do mês passado. O ranking é do site PublishNews, construído a partir da soma das vendas de todas as livrarias pesquisadas. A segunda obra do jovem já tem data para lançamento, disse a editora ao G1.

Livro de Bruno Borges ocupou 20ª posição do ranking (Foto: Divulgação/PublishNews)

Livro de Bruno Borges ocupou 20ª posição do ranking (Foto: Divulgação/PublishNews)

A primeira tiragem do “TAC – Teoria de Absorção de Conhecimentos” foi de 20 mil cópias. A coaching literária Renata Carvalho, de São Paulo, que trabalha na produção dos livros, acrescenta que mais 10 mil exemplares devem ser liberados para venda. A família lançou a obra no dia 20 de junho.

O segundo volume a ser lançado, na verdade, é o terceiro livro escrito por Bruno, explica Renata. A publicação segue uma ordem específica deixada pelo próprio estudante. O título da nova obra, conforme a coaching, é “Caminho para a Verdade Absoluta” e deve ser lançada em aproximadamente 60 dias.

A irmã de Bruno, Gabriela Borges, de 29 anos, diz que a família não imaginava que tantas cópias seriam vendidas. Ela revela que o irmão sempre falou do desejo de se tornar um escritor, mas os parentes não acreditavam muito. “Estamos bem surpresos com a repercussão. Aposto que Bruno não está, já que sempre acreditou nele mesmo”, diz.

Gabriela ressalta que a família não tem pistas sobre o paradeiro de Bruno e existem dias de sofrimento. Segundo ela, com a leitura dos escritos deixados no quarto, foi possível compreender melhor o período de isolamento, um dos assuntos abordados no TAC.

Livro "Teoria da Absorção do Conhecimento" entrou para lista dos mais vendidos (Foto: Reprodução )

Livro “Teoria da Absorção do Conhecimento” entrou para lista dos mais vendidos (Foto: Reprodução )

“É uma montanha-russa de emoções. Têm dias que estamos melhores, mais fortes, e outros não. Toda essa situação, os ataques que sofremos nesses quatro meses e ainda a saudade que sentimos acabam causando um grande estresse. Desejamos só que ele não demore mais, queremos ter uma notícia. Sentimos muita falta. Nossa casa não é completa sem um de nós”, fala.

Relembre a história

Antes de sair da casa onde mora em Rio Branco, Bruno Borges deixou 14 livros escritos à mão e criptografados, alguns copiados nas paredes, teto e no chão do quarto. Deixou ainda uma estátua do filósofo Giordano Bruno (1548-1600), por quem tem grande admiração, que custou R$ 10 mil.

Em maio deste ano, Marcelo Ferreira, de 22 anos, amigo do estudante, foi detido pela polícia pelo crime de falso testemunho. Na casa dele, a Polícia Civil encontrou dois contratos – um deles autenticado no dia do desaparecimento – que estabeleciam porcentagens de lucros com a venda dos livros. Ferreira teria ajudado Bruno no projeto.

Policiais também encontraram móveis do quarto do acreano na casa de outro amigo, Bruno Gaiote, que também teria participado na logística. Gaiote, que mora na Bahia, chegou a ser indiciado para depor na capital acreana, mas não compareceu, sendo indiciado indiretamente.

Em entrevista ao Bom Dia Amazônia exibida no dia 3 de julho, Ferreira contou que ajudou Bruno a montar o quarto e sabia do projeto, mas garantiu que não tinha conhecimento do desaparecimento, nem do local que ele pode estar vivendo.

Para a Polícia Civil, que investigou o caso, os contratos, e-mails e mensagens trocadas entre os amigos esclarecem a situação. O sumiço de Bruno foi parte de um plano para garantir a divulgação do trabalho deixado por ele, informou na época o delegado Alcino Souza Júnior.

“A gente encerra neste segundo momento, que é a comprovação de que não foi um homicídio, pelo menos não está comprovado. Também não foi um sequestro, mas que se trata sim de uma vontade própria, onde existe um plano para divulgação das obras”, destacou o delegado.

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