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Marcelo Mirisola: ‘A literatura brasileira virou um sofá da Hebe Camargo’

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Luciano Trigo, no Máquina de Escrevermirisola

Em “Hosana na sarjeta” (Editora 34, 144 pgs. R$32), o novo romance do sempre polêmico Marcelo Mirisola, um certo MM se divide entre duas mulheres numa São Paulo decadente: Paulinha Denise, uma “Capitu mareada, loira descolorida, com problemas de identidade”; e Ariela, “Lolita casada, verdadeira mentira ambulante”. Além das peripécias amorosas do narrador, a trama envolve o contrabando de um diamante, uma festa muito louca de réveillon no Rio de Janeiro e a maldição lançada por uma cigana: “Você nunca vai amar ninguém nessa vida”. Nesta entrevista, Mirisola fala sobre o seu processo criativo e ataca o clima de bajulação que, segundo afirma, domina o meio literário no Brasil hoje, contra o qual dispara: “Não sou da alcovitagem, do despacho, do puxa-saquismo.”

Algum tempo atrás ficou na moda falar em “autoficção”. Você se considera um precursor desse (sub)gênero? O que é autoficção para você? O que acha da teorização sobre a autoficção?
Marcelo Mirisola – Acredito em livros bons e livros ruins. A partir daí todos os gêneros têm potencial para ser “sub” ou “super”. Depende do uso que se faz. Mesma coisa que dizer que o romantismo é (sub)gênero porque Franklin Távora é uma lagartixa perto de Manuel Antonio de Almeida. Só de farra, quando começaram a teorizar sobre “autoficção”, me autoproclamei o Pedro Álvares Cabral desse treco aqui no Brasil. Pior que é verdade. Com relação às teorizações, a autoficção é apenas uma gota num oceano de picaretagens. Ontem mesmo recebi um livro aqui em casa cujo título é, pasme, “A estética funk carioca – Criação e conectividade em mister Catra”.  Aí eu lhe pergunto e lhe respondo: como é que pode? Pode porque você e eu pagamos impostos, e esse dinheiro é jogado no lixo das CNPq, CAPES, Faperj e similares, verba pros doutores(as) se masturbarem em teses esdrúxulas sobre Popozuda, “pegging” – sabe o que é isso? Tem tese na  PUC-RJ, dá uma googada – Mister Catra, autoficção etc etc etc.

Evidentemente todo leitor vai identificar o protagonista MM com Marcelo Mirisola. Ele é mesmo inteiramente você, sem tirar nem pôr?
Marcelo Mirisola – Claro que não. Claro que sim.

Fale sobre a composição das personagens femininas. A inspiração das personagens Paulinha Denise e Ariela também vem de mulheres e experiências reais?
Marcelo Mirisola – No caso de Paula Denise e Ariela sou obrigado a dizer que sim. Mas geralmente as mulheres dos meus livros, sobretudo nos contos, são todas Frankensteins. No caso de “Joana a Contragosto”, o arrivismo dela que eu transformei em literatura – que é uma forma mais elevada de arrivismo – foi tão real que a biscate em questão acabou casando com um editor famosinho, e virou “escritora de verdade” publicada pela Cosac. Em outras palavras: pus na roda. Aí você vê como é que as coisas se compõem, e como o sexo é um instrumento demoníaco de poder e transformação. Né?

Você considera que existe uma linha evolutiva em sua obra ou desde o começo já está tudo lá? Que diferenças enxerga entre “O azul do filho morto” e “Hosana na sarjeta”, por exemplo?
Marcelo Mirisola – Existe uma evolução construída. Por exemplo: “Bangalô”. Escrevi esse livro porque estava com o saco cheio de ser chamado de Bukowski brasileiro, apesar de ser um admirador da obra do cara. Depois disso, graças a Deus, perdi o controle: dei uma derrapada na tal da linha evolutiva, fui devorado pelo ego, pelo ódio, pela ambição. Me arrebentei todo. Retomei com muito sangue, suor e lágrimas, e agora cheguei muito melhor na sarjeta que acabou virando minha Hosana. Hermes Trimegisto na veia.

hosanaAlguém já disse que só o tempo vai mostrar que veio pra ficar. Você se preocupa com a posteridade? Considera que sua obra ficará? Que outros autores em atividade você acha que vão ficar, o que serão esquecidos?
Marcelo Mirisola – Eu gostaria de ser lembrado, e melhor remunerado, pela posteridade, aqui e agora. Quem fica? Quem vai ser esquecido? Tô nem aí.

Você já falou mal de muita gente e coleciona inimigos e desafetos. Como lida com isso?
Marcelo Mirisola – O que eu faço é gritar “pega ladrão”. Não é isso o que todo mundo faz quando é roubado? Acho normal. Não lembro de “falar mal de alguém” gratuitamente.

Que avaliação você faz do meio literário hoje? Você acha que a literatura brasileira está contaminada pelo marketing?
Marcelo Mirisola – A literatura brasileira virou um sofazão da Hebe Camargo, escrevi isso hoje no ‘feicibuque’. Tal de fofo pra cá, queridão pra lá, gracinha, talentosíssimo, lindo etc, etc. Um sofá fantasma porque nem a Hebe não existe mais.

Aliás, há pouco tempo você compartilhou no Facebook posts relativos a sua saúde. Esse problema fez você mudar a forma de se relacionar com o mundo e/ou com a literatura?
Marcelo Mirisola – Quase morri. E não mudei nada. Situação-limite é pros fracos.

A profissionalização do escritor está avançando? Você vive do que escreve? Quantos livros em média cada título seu vende?
Marcelo Mirisola – Vivo das crônicas que escrevo pro Yahoo, não dos livros que vendo. E também tenho um apartamento de um dormitório no Bixiga, que está alugado. Queria ganhar dinheiro na moleza como os fofos e fofas ganham, problema é que uso minha alma podre apenas pra fazer literatura, não sou da alcovitagem, do despacho, do puxa-saquismo.

 

‘Hosana na Sarjeta’ não é bem uma história de amor, mas uma odisseia mundana

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Romance de Marcelo Mirisola sinaliza uma urgência pelo outro, a despeito do humor insano de algumas passagens

André de Leones, no Estadão

O romance Hosana na Sarjeta, de Marcelo Mirisola, não é bem uma história de amor, claro, mas uma odisseia mundana que, embora não tenha uma Ítaca à vista, traz de volta aquele inconfundível narrador-protagonista e, com ele, um par de “sereias”. Dada a intensidade com que ele se envolve com essas duas mulheres, e tendo em vista os desdobramentos disso, custa a crer que o amor não seja algo como uma experiência de quase morte. Não por acaso, depois de sobreviver a si mesmo outra vez, o narrador afirma: “A vida fisgada pela morte. Resumidamente, esse é o enredo das histórias de amor”.

Por outro lado, ou nem tanto, também estamos diante de um longo processo de aceitação da irredimível solidão, uma solidão “crua e óbvia”, do “nosso erro em estado de urgência”, que constitui esse personagem.

Ele conhece Paula na porta da boate Kilt (que não existe mais), no centro de São Paulo, e a confunde com uma prostituta. Ela desfaz o mal-entendido (para, irônica e inadvertidamente, reinstaurá-lo, já no terço final do romance) e, a despeito da breguice (leitora de esoterismos e bobagens variadas) e do “chapéu de poodle que ela aninhava em cima da carapinha oxigenada”, ele se apaixona por ela, alguém que “absorvia os despojos e as esperanças de quem as solicitava, engolia tudo”.

Mirisola está passando algumas semanas em Buenos Aires

Mirisola está passando algumas semanas em Buenos Aires

Ariela, por sua vez, era “o oposto vertiginoso de Paulinha”, um “compêndio de todos os meus pontos fracos”, uma “Lolita avançada tecnologicamente” que “carregava um potencial de destruição visível, mas sabia escamotear o mal atrás de uma cumplicidade que não oferecia perigo iminente”, mãe, casada com um “príncipe” de quem, eventualmente, apanhava e com quem morava, “de favor”, na casa da sogra, em Guarulhos.

Lançado entre uma e outra, mas jamais inteiramente com uma ou outra, Marcelo, o protagonista, enxergará a própria mentira na mentira alheia (e vice-versa, num espelhamento infinito), constituindo, no fim e a muito custo, uma verdade desoladora. Tal verdade não diz respeito propriamente à impossibilidade do amor (até porque “lá no fundo de sua escrotice, o animal agoniza, gosta e ama de verdade”), mas, antes, à aceitação daquela solidão em toda a sua crueza.

Hosana na Sarjeta coloca-se entre os melhores trabalhos de Mirisola (O Herói Devolvido, Bangalô) e sinaliza um interesse real ou, melhor dizendo, uma urgência pelo outro, sobretudo quando ele não está mais lá. Nesse sentido, a despeito do humor insano de algumas passagens, é também um romance desarvorador.

HOSANA NA SARJETA
Autor: Marcelo Mirisola
Editora: 34 (144 págs., R$ 32)

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