Docente da Unicamp promove práticas para combater cinismo no curso.
Produção será publicada pela Associação Brasileira de Educação Médica.

dsc_0044

Publicado no G1

O arquétipo sisudo e frio tornou-se alvo do professor Marco Antonio de Carvalho Filho, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Enquanto mostra o sofrimento na obra de Cândido Portinari e ironiza contradições do protagonista da série de TV “House”, ele não teme tornar-se vidraça dos colegas de jaleco. Para incentivar futuros médicos a desenvolverem empatia, capacidade de se colocar no lugar de outra pessoa, o carioca decidiu aplicar uma série de práticas atreladas à arte e psicologia para que sentimentos nobres não sejam trocados por cinismo no curso. Um guia sobre o assunto deve ser publicado pela Revista Brasileira de Educação Médica (RBEM).

“Este envolvimento emocional me ajuda a tomar as melhores decisões com os pacientes. Muitos médicos criticam, mas, acho que se você tiver consciência dos sentimentos, eles podem ajudar durante a aplicação técnica”, defende o médico, de 40 anos, que atua no setor de terapia intensiva do Hospital de Clínicas. Ele conta que novas metodologias começaram a ser inseridas na Faculdade de Ciências Médicas há seis anos, para tentar aprimorar a comunicação dos estudantes na relação médico-paciente. “O formato clássico não estava sendo eficiente. Ao fim do curso, o aluno não tinha competências que a gente gostaria.”

041_tvh173ag

Cinismo e sucesso

Carvalho Filho pondera que o afastamento é um mecanismo de defesa adotado pelos futuros médicos em virtude do pouco desenvolvimento da bagagem social e afetiva, ainda que a vida estudantil tenha sido intensa do ponto de vista cognitivo. “Ele teve poucas chances de refletir sobre questões mais dramáticas da vida como perda, fracasso, solidão e desespero. Se você somar isso a um curso médio que hoje quase não tem filosofia, a experiência também não é muita rica”, afirma ao mencionar que as faculdades também não oferecem espaço adequado para o tema.

Em linguagem que o aproxima dos alunos, o professor esmiúça a memória para trazer à tona o dissabor emblemático no curso. Ele lembra que superou a primeira experiência de morte no segundo ano da graduação e, à época, não houve apoio. “Quando terminou o plantão, peguei um ônibus para casa, desci numa praça e comecei a chorar. Ninguém virou para mim e perguntou ‘O que você sentiu?’. Então há uma fantasia que, para conseguir lidar com isso, é preciso se afastar. Talvez o segredo seja aprender a sentir isso, é o que a gente mais defende”, detalha o especialista.

Dinâmica social
Segundo o médico, o comportamento também é influenciado pela dinâmica social em que o aluno vive, incluindo o uso de novas tecnologias no trabalho, e considera que há necessidade de reflexões sobre o sucesso profissional. “Você passa por uma quantidade de frustrações e desafios emocionais muito grandes […] A gente se aproximou da doença e se afastou do paciente”, resume antes de mostrar, durante apresentação ao G1, uma foto do contraditório personagem Gregory House com fita adesiva sobre a boca. “Ele é cínico, se permite ser mau, é cheio de problemas emocionais e não consegue ter uma relação afetiva. Ele passa as três primeiras partes do episódio errando, depois acerta. Por que ele atrai tanta gente?”.

Outro ponto mencionado por Carvalho Filho, ao ponderar sobre o comportamento da classe, é a falta de grandes debates sobre a cultura do imediatismo. “A gente passa pelas coisas e não reflete. É preciso coerência entre o que propomos e fazemos.”

dsc_0059

Música e pintura
O docente explica que diversas atividades culturais foram integradas ao curso de medicina. Entre os recursos de destaque estão as apresentações de pinturas aos alunos do segundo ano, incluindo obras como “El Coloso” (Goya), “Une Scène de Déluge” (Joseph-Desiré Court) e “Udslidt” (Hans Andersen Brendekilde) para identificação de sentimentos e emoções. Além disso, também são reproduzidas músicas como “Sinal Fechado” (Paulinho da Viola) e “Tocando em Frente” (Renato Teixeira) durante debates sobre como ajudar o paciente a manter felicidade ou voltar a senti-la, apesar do novo contexto.

“A experiência tem mostrado que não é o tempo absoluto que conta para ocorrer uma boa consulta, mas como você vive esse tempo”, ressaltou Carvalho Filho. No primeiro ano, para discutir a impotência e fantasias de poder que o médico possui diante da doença e morte, os estudantes entrevistam pacientes e realizam narrações reflexivas, disponíveis ao grupo.

Quase de verdade
Outra atividade incorporada ao curso de medicina foi o contato de estudantes do quarto e sexto ano com pacientes simulados por atores profissionais. A experiência embasou pesquisa acadêmica do médico Marcelo Schweller orientada por Carvalho Filho, e o impacto verificado nos participantes foi de aumento da empatia, segundo escala internacional.

“O aluno que está em formação leva com ele muito dos professores e médicos que ele acompanha. O problema é que estes profissionais já fizeram uma reflexão, sabem que o problema da sobrecarga está em parte no sistema, mas às vezes não explicam isso ao aluno. Não tem problema se emocionar com o paciente. Talvez daqui dez anos de carreira, o médico preferira se afastar, mas o problema é decidir isso antes de começar a trabalhar”, falou Schweller sobre a importância do modelo médico enquanto influência aos estudantes.

Um dos atores que integram o projeto, Adilson Ledubino, de 35 anos, disse que o trabalho inédito na carreira serviu para desmistificar preconceitos sobre os médicos e tornou-se um grande laboratório para as artes cênicas. O ponto de partida nas simulações, segundo ele, é o relato sobre o quadro clínico do “paciente”, além de informações sobre questões sociais e culturais para calibrar a atuação no placo.

“São compartilhadas experiências muito pessoais. Há um acordo de ambiente realmente seguro. Às vezes, um grupo inteiro chora junto, é muito impactante.”

Estudos
Além de Marco Antonio Carvalho Filho e Marcelo Schweller, também participaram do estudo “Metodologias Ativas para o Ensino de Empatia na Graduação em Medicina – Uma Experiência da Unicamp” os médicos Jamiro Wanderley, Márcia Strazzacappa, Flavio Cesar Sá e Eloisa Helena Rubello Celeri.

Já a pesquisa acadêmica orientada por Carvalho Filho e realizada por Schweller, publicada em 2014, pode ser consultada na revista Academic Medicine.