cigana

Rodolfo Lucena, em Folha de S.Paulo

Mãe de três filhos, Paula Soria é a primeira mulher cigana a concluir o doutorado na América Latina. Fugiu de seu grupo aos 15 anos, quando os pais queriam obrigá-la a se casar.

Sobreviveu com apoio externo e com as artes ciganas; assim que pode, retomou a educação formal. Sua tese sobre literatura e identidade romani foi aprovada no mês passado na Universidade de Brasília.

Fugi do meu grupo cigano quando eu tinha 15 anos, meus pais queriam me casar e eu não aceitava, queria continuar estudando. Ainda hoje as meninas se casam muito cedo, com 14, 16 anos. Não é uma coisa fácil. Depois que passa, é emocionante; na hora, não, é de desespero.

Naquela época, estávamos na Bolívia, trabalhávamos com ouro, então se ia muito a Potosí. Saí com a bagagem que tinha, algum ouro. Também sabia ler mãos, colocava cartas, era a minha ferramenta de sobreviver.

Quando a gente é romà –a denominação que os ativistas usam, a gente não usa o termo cigano– trabalha desde criança. Trabalhar é um negócio que está na sua vida. Fui palhacinha de circo quando pequena, vendia coisas na rua, a gente faz de tudo. Nossa formação é para saber se virar na vida, saber viver. Geralmente as pessoas fazem três, quatro coisas, cinco atividades.

O grupo sempre rejeitou a escrita, o letramento, a escolarização dos filhos. A opção por isso era para não se aculturar, para que o grupo sobrevivesse, apesar de todas as perseguições, tentativas de genocídio cultural e étnico.

Não se sente a escola como obrigatória. Algumas mães, alguns tios até tinham noção de que seria bom ter alguém que soubesse ler ou escrever no grupo. Mas não ficar estudando; aprender um pouquinho, o suficiente para assinar o nome, fazer uma conta, para tirar uma carteira de motorista no futuro, não sei, qualquer coisa.

Eu pude ir. Ao frequentar a escola, comecei a tomar gosto. Faltava muito às aulas, mudava muito de escola, porque o grupo tinha uma vida nômade. Por estar sempre viajando, nem sei bem onde nasci.

Quando criança, alguns velhos me diziam que havia sido em uma estrada na Argentina, outros diziam que essa estrada era na Bolívia, outros que havia sido em uma estrada no Brasil. O que importava é que tinha sido em uma estrada.

A grande maioria deles não tinha documentos –alguns ainda não têm. O que importava é que eram romà. Aos dez anos, estando no Brasil (de onde saí e para onde voltei diversas vezes) ganhei papeis brasileiros e comecei a estudar.

Deixaram que eu fosse à escola. Mas, na hora de casar, teria de deixar a escola. Então houve a ruptura. O grupo não vê com bons olhos a pessoa que se desenvolve individualmente.

Quando eu fugi, tive de aumentar minha idade. Eu tinha amizades fora do grupo, era querida por pessoas não romãs, elas me ajudaram. De lá passei pela Argentina, vim para cá… Viajar para mim é muito mais fácil; não se acomodar a uma situação não foge muito de nossa realidade.

Aqui no Brasil, casei com um não romà, uma pessoa que tinha esse espírito, não sendo Roma, de andar. Pude então adiantar os estudos. Com apoio de fora ficou muito mais fácil. Fiz jornalismo em Honduras, me formei em artes cênicas na Universidade de Brasília.

Hoje moro em Brasília. Tenho contatos com meu grupo –a maior parte está na Argentina, há uma parte na Espanha. Tenho três filhos, estão todos na universidade, e eu quero seguir a vida acadêmica.

Estudo a literatura cigana há mais de dez anos, desde antes do mestrado –fui a primeira mulher cigana com mestrado na América Latina, agora sou a primeira com doutorado. Que eu saiba, há aqui no Brasil um homem doutor, especialista em biologia, e duas mulheres na Espanha.

Há muitos escritores, mas estão dispersos. Não tem como pensar em literatura romaní sem pensar no mundo inteiro. Trabalhei com cinco nacionalidades: canadense, francesa, húngaro, argentino e alemão; não há nada no Brasil.

Os romà são uma nação transnacional; a representatividade é assim, em várias nacionalidades. A literatura romaní é um lugar de construção identitária. Não está atrelada ao ativismo, mas boa parte dos escritores assume uma postura ativista, trazem as vozes do povo.

Decidi ter o próprio grupo como tema. Foi muito sofrido. Ninguém faz essas rupturas sem sofrer demasiado, enfrentar a rejeição dos seus mais queridos.

Hoje mantenho contato, eles me dão algum apoio, conseguem compreender a importância do que eu faço hoje, mas isso não mudou a realidade. Eles continuam sem estudar, mas algumas crianças já estão indo para a escola. Isso já é uma vitória.

Termo “cigano”

A nova doutora em literatura Paula Soria diz que os ativistas evitam usar o termo “cigano”, que tem conotação negativa. Mas, como “romà”, a palavra politicamente correta para identificar o grupo, é pouco conhecida, optou por usar os dois na abertura de sua tese.

“‘Juncos ao Vento’: Literatura e Identidade Romani (Cigana)” é o título do trabalho que foi aprovado pela banca da Universidade de Brasília no mês passado. Ela explica que o termo romà foi estabelecido no Primeiro Congresso Romani Internacional, realizado em 1971 em Londres.

O congresso também definiu “a luta pelo reconhecimento de ser um povo diaspórico, possuidor de uma raiz comum indiana e de se constituir numa nação transnacional estabelecida no seio de outras nações, nas quais são minorias étnicas”.

Os termos usados pelos ativistas, explica Soria, são rom para cigano, romà para ciganos, romani para cigana (adjetivo) e romaní (com acento no i) para a língua, além de romí (para cigana, a mulher).

O vocábulo romà é proveniente da denominação de um dos grupos -os rom- e significa originalmente “homens” em romaní. Os romà hoje se dividem em rom, sinti e calés (ou calons no Brasil); há várias subdivisões.