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Retratos da nossa ignorância

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Volumes da Campanha de Doações de Livros para Casas de Leitura e Tubotecas de Curitiba. Cido Marques FCC

Volumes da Campanha de Doações de Livros para Casas de Leitura e Tubotecas de Curitiba. Cido Marques FCC

 

No Brasil, educação de qualidade nunca foi direito da população, sempre foi privilégio da elite mandatária

Luiz Ruffato, no El País

O Brasil conta com cerca de 50 milhões de analfabetos ou analfabetos funcionais. Isso significa que um em cada três brasileiros adultos não sabe ler ou, quando consegue, não é capaz de compreender o conteúdo de um texto simples. Mesmo entre aqueles considerados alfabetizados impera a ignorância. Pesquisa recente, intitulada Retratos da Leitura no Brasil, apontou que, na média, lemos 4,9 livros por ano (um número pequeno e ainda assim enganoso, já que, deste total, apenas 2,4 livros são terminados; o restante é lido apenas em parte). Além disso, apenas 7% da população lê jornais diariamente, já levando em consideração o acesso à informação digital.

A falta de tempo aparece como o principal argumento dos entrevistados para não ler (32%). No entanto, uma outra pesquisa, da NOP World Culture Score Index, mostra que os brasileiros dedicam cinco horas e 12 minutos semanais à leitura contra 18 horas e 15 minutos à televisão, 17 horas ao rádio e 10 horas e 30 minutos à internet (no caso, com navegação sem fins profissionais). Antes dos livros, os brasileiros preferem reunir-se com amigos ou família (45%), assistir vídeos ou filmes em casa (44%), usar WhatsApp (43%), escrever (40%) e usar Facebook, Twitter ou Instagram (35%).

Mas o mais estarrecedor é que, se a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil constata, de um lado, a falência completa do nosso sistema educacional, de outro revela o crescimento atordoante do fundamentalismo religioso. A maioria absoluta das justificativas dos entrevistados para não ler estão relacionadas à baixa escolaridade — não gosta (28%), não tem paciência (13%), tem dificuldade (9%) e não sabe ler (20%). Esse quadro desolador ainda é agravado ao acrescentarmos dados de leitura específicos dos professores. Quando indagados sobre o título do último livro lido, metade deles simplesmente respondeu “nenhum” e 22% citaram a Bíblia.

A Bíblia aparece muito à frente entre as preferências dos entrevistados, em todas as classes sociais, faixas etárias e de escolaridade. Na lista dos mais citados surgem alguns poucos escritores — geralmente leitura obrigatória na escola, como Machado de Assis e Graciliano Ramos —, e autores de autoajuda (como Augusto Cury) e de entretenimento (como Paulo Coelho e John Green), mas a supremacia absoluta é de nomes ligados à divulgação religiosa. Os mais lembrados são João Ferreira de Almeida (tradutor da Bíblia utilizada pelos evangélicos), Zíbia Gasparetto, Allan Kardec e Chico Xavier (espíritas), padres Marcelo Rossi e Fábio de Melo (católicos ligados à corrente carismática), Edir Macedo e sua filha Cristiane Cardoso (Igreja Universal) e Ellen G. White (Igreja Adventista).

Onde o Estado falha, viceja a ignorância. Nenhum de nossos governantes — chamem-se eles José Sarney, Fernando Henrique Cardoso ou Luiz Inácio Lula da Silva — empenhou-se, de verdade, na melhoria do nosso sistema educacional. No Brasil, educação de qualidade nunca foi direito da população, sempre foi privilégio da elite mandatária. O resultado é esse: cada vez mais exacerbamos nosso egoísmo (traduzido em nossa incapacidade de agirmos no interesse da comunidade), nossos preconceitos (visíveis no machismo, no racismo, na homofobia, na xenofobia), nossa intolerância (perceptível na violência urbana, na passionalidade com que defendemos opiniões).

Pouco a pouco, o Brasil vai se tornando território do pensamento radical. Não só pelo grau nunca antes alcançado de representatividade religiosa no Congresso e, mais particularmente, no Governo do presidente interino Michel Temer (sejam evangélicos, protestantes ou católicos), como também pelas posições assumidas por intelectuais e formadores de opinião, autodenominem-se eles de esquerda ou de direita, que vêm fomentando o ódio e o fanatismo. É preocupante quando descobrimos que 74% da população adulta não adquiriu livros nos últimos três meses e 30% nunca comprou um livro em toda a sua vida. E é assustador quando contatamos que, aqueles poucos que leem, colocam um livro como “A verdade sufocada”, do coronel torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, morto em 2015, entre os mais vendidos do país… Há algo muito estranho acontecendo por aqui…

Por que as pessoas escrevem tão mal?

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anciedadeSteven Pinker, no The Wall Street Journal [via Observatório da Imprensa]

Por que tanta gente escreve tão mal? Por que é tão difícil entender uma decisão de governo, ou um artigo acadêmico, ou as instruções para configurar uma rede sem fio em casa?

A explicação mais popular é que a prosa opaca é uma escolha deliberada. Burocratas insistem em fazer uso de jargões para cobrir sua anatomia. Escritores de tecnologia de visual hispter se vingam dos atletas que chutaram areia em seus rostos e das meninas que se recusaram a namorá-los. Pseudointelectuais cheios de biquinhos usam de um palavreado obscuro para esconder o fato de não terem nada a dizer, na esperança de enganar seu público com jargões pretensiosos.

Mas esta teoria enganosa torna muito fácil demonizar as pessoas, deixando-nos fora do gancho. Ao explicar qualquer falha humana, a primeira ferramenta a qual recorro é a Navalha de Hanlon: nunca atribua à malícia o que é adequadamente explicado pela estupidez. O tipo de estupidez que tenho em mente não tem nada a ver com a ignorância ou o baixo QI; na verdade, muitas vezes são os mais brilhantes e mais bem informados que mais sofrem disso.

Frustrações diárias

Certa vez fui a uma palestra sobre biologia dirigida ao grande público em uma conferência sobre tecnologia, entretenimento e design. A palestra também estava sendo filmada para transmissão pela internet a milhões de outros leigos. O orador era um biólogo ilustre que havia sido convidado para explicar seu recente avanço nos estudos da estrutura do DNA. Ele fez uma apresentação técnica repleta de jargões, adequada a seus colegas biólogos moleculares, e logo ficou evidente para todos na sala que ninguém entendia patavinas e ele estava perdendo o seu tempo. Evidente para todos, isto é, exceto para o biólogo. Quando o anfitrião interrompeu e pediu-lhe para explicar o trabalho de forma mais clara, ele pareceu genuinamente surpreso e nem um pouco irritado. É desse tipo de estupidez que estou falando.

É a chamada Maldição do Conhecimento: a dificuldade de imaginar como é para alguém não saber algo que você sabe. O termo foi cunhado por economistas para ajudar a explicar por que as pessoas não são tão astutas na negociação quanto poderiam ser, sendo que muitas vezes possuem informações que o seu adversário não tem. Os psicólogos às vezes chamam isso de cegueira mental. Em um experimento didático para comprová-la, uma criança vem ao laboratório, abre uma caixa de confeitos de chocolate M&Ms e fica surpresa ao encontrar lápis ali. Não só a criança pensa que outra criança que entrar no laboratório de alguma forma saberá que a caixa está cheia de lápis, como vai dizer que ela mesma sabia que havia lápis ali o tempo todo!

A Maldição do Conhecimento é a melhor explicação do porquê as pessoas boas escrevem numa prosa ruim. Simplesmente não ocorre a elas que seus leitores não sabem o que elas sabem – que não dominam o jargão de seu meio, que não conseguem adivinhar os passos perdidos que parecem demasiadamente óbvios para serem mencionados, que não têm como visualizar uma cena que para elas é tão clara como o dia. E assim, o escritor não se preocupa em explicar o jargão, ou em explicitar a lógica, ou em fornecer os detalhes necessários.

Qualquer um que deseje acabar com a Maldição do Conhecimento primeiro deve avaliar o quão diabólica é esta maldição. Tal como um bêbado que está ébrio demais para perceber que não tem condições de dirigir, nós não notamos a maldição porque ela mesma nos impede de perceber. Trinta estudantes me mandaram arquivos de seus trabalhos com o nome “trabalho.doc psicologia”. Se entro em um site de seguros de viagens, devo decidir se clico em GOES, Nexus, GlobalEntry, Sentri, Flux ou FAST, termos burocráticos que nada significam para mim. Meu apartamento está cheio de gadgets dos quais nunca consigo me lembrar como utilizar por causa de botões inescrutáveis que devem ser pressionados por um, dois ou quatro segundos, às vezes dois de cada vez, e que muitas vezes fazem coisas diferentes, dependendo de “modos” invisíveis acionados por outros botões. Tenho certeza de que tudo estava perfeitamente claro para os engenheiros que os projetaram.

Multiplique essas frustrações diárias por alguns bilhões de vezes, e você começará a ver que a maldição do conhecimento é uma chatice generalizada sobre os esforços da humanidade, a par com a corrupção, doenças e entropia. Quadros de profissionais caríssimos – advogados, contabilistas, gurus de computador, atendentes de suporte de empresas – drenam enormes quantias de dinheiro da economia para esclarecer textos mal redigidos.

Olhar para o outro

Há um velho ditado que diz: “Por falta de um prego a batalha foi perdida”, e o mesmo vale para a falta de um adjetivo: a Carga da Brigada Ligeira durante a Guerra da Crimeia é apenas o exemplo mais famoso de um desastre militar causado por ordens vagas. O acidente nuclear de Three Mile Island, em 1979, foi atribuído à má redação (operadores interpretaram erroneamente o selo de uma luz de alerta), assim como muitos acidentes aéreos fatais. O visual confuso da “cédula em borboleta” entregue aos eleitores de Palm Beach na eleição presidencial de 2000 levou muitos adeptos de Al Gore a votarem no candidato errado, o que pode ter favorecido George W. Bush, mudando o curso da história.

Mas como podemos acabar com a Maldição do Conhecimento? O tradicional conselho “sempre lembre-se do leitor sobre seu ombro” não é tão eficaz quanto se poderia pensar. Nenhum de nós tem o poder de enxergar todos os pensamentos alheios, de modo que se esforçar ao máximo para se colocar no lugar de outra pessoa não faz de você muito mais preciso para descobrir o que a pessoa sabe. Mas é um começo. Então é isso: “Ei, estou falando com você. Seus leitores sabem muito menos sobre o assunto do que você pensa, e a não ser que você rastreie o que você sabe e eles não, certamente irá confundi-los”.

A melhor maneira de exorcizar a Maldição do Conhecimento é fechando o ciclo, como os engenheiros dizem, e obter um retorno do universo dos leitores, isto é, mostrar um projeto para pessoas semelhantes ao seu público-alvo e descobrir se elas são capazes de acompanhá-lo. Os psicólogos sociais descobriram que somos confiantes demais, às vezes ao ponto da ilusão, a respeito de nossa capacidade de inferir o que as outras pessoas pensam, até mesmo as pessoas mais próximas de nós. Somente quando consultamos as pessoas é que descobrimos que o que é óbvio para nós não é óbvio para elas.

O outro jeito de escapar da Maldição do Conhecimento é mostrando o projeto para si, de preferência depois de ter se passado tempo suficiente para o texto deixar de ser familiar. Se você é como eu, vai se flagrar pensando: “O que eu quero dizer com isso?”, ou “Para onde isso vai?”, ou muitas vezes “Quem escreveu esta porcaria?”. A forma pela qual os pensamentos ocorrem a um escritor raramente é a mesma com que são absorvidos por um leitor. Conselhos sobre a escrita não são exatamente conselhos sobre como escrever, e sim como revisar.

Muitos dos conselhos aos escritores têm o tom de um conselho moral, de como ser um bom escritor vai fazer de você uma pessoa melhor. Infelizmente, para a justiça cósmica, muitos escritores talentosos são canalhas, e muitos ineptos são o sal da terra. Mas o imperativo de superar a Maldição do Conhecimento pode ser o pequeno conselho profissional que mais se aproxima do conselho moral: sempre tente sair de sua mentalidade provinciana e descubra como as outras pessoas pensam e sentem. Pode não fazer de você uma pessoa melhor em todas as esferas da vida, mas vai ser uma fonte de contínua bondade para com os seus leitores.

[Steven Pinker é Professor de Psicologia na Universidade de Harvard e presidente do Usage Panel of the American Heritage Dictionary. Este artigo foi adaptado de seu livro “The Sense of Style: The Thinking Person’s Guide to Writing in the 21st Century”.]

Tradução e edição: Fernanda Lizardo.

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