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A pista mais falsa de Agatha Christie

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INVENTIVA A escritora britânica Agatha Christie em 1949: ela se inspirou em romances de mistério de Charles Dickens para criar os detetives Hercule Poirot e Miss Marple (Crédito: Popperfoto/Getty Images)

Biografia da rainha do crime explica de onde uma dona de casa tirou a imaginação macabra para se tornar a escritora mais vendida da história — e decifra o enigma de sua desaparição

Luis Antonio Giron, na IstoÉ

É raro decifrar o segredo de um gênio. Para explicá-lo, especialistas revolvem as origens familiares e a formação do indivíduo especial. No caso da escritora inglesa Agatha Christie (1890-1976), nada parece indicar que se tornaria a senhora do romance de detetive e a maior vendedora de livros da história, ao lado do dramaturgo William Shakespeare. Agatha, como Shakespeare vendeu 2 bilhões de exemplares desde que publicou o primeiro romance policial, “O Misterioso Caso de Styles”, em 1920, protagonizado por seu herói mais célebre, o detetive Hercule Poirot, com sua cabeça de ovo, bigodes encerados e alta capacidade cognitiva. A criadora de mistérios saborosos não passava de uma dona de casa conservadora amante da vida serena, especialmente da jardinagem e da gastronomia. Descobrir de onde ela tirou a imaginação a um só tempo macabra, complexa e irônica, é a meta do livro “Agatha Christie – Uma Biografia”, de Janet Morgan, lançamento da editora BestSeller.

Charada

Trata-se de um título clássico, publicado em 1986 e só agora no Brasil. A escritora Janet Morgan trabalha em gestão de novas tecnologias na Escócia. Em meados dos anos 1980, foi convidada pelos herdeiros de Agatha para escrever uma “biografia autorizada”: teve acesso exclusivo aos documentos pessoais da escritora e de seu segundo marido, o arqueólogo Max Mallowan. Ao mesmo tempo, Morgan foi persuadida a abordar a biografada de forma gentil. Mas o fator politicamente correto não a impediu de avançar sobre um dos enigmas dentro do enigma que foi Agatha Christie: por que e como ela desapareceu entre 3 e 13 de dezembro de 1926, quando já era celebridade, causando um dos casos mais ruidosos cobertos pela imprensa da época. Agatha nunca se pronunciou sobre o assunto.

Parte da resolução da charada repousa em sua formação vitoriana. Agatha Miller nasceu em Torquay, Devon, em uma família abastada. O pai, Frederick, era um americano investidor da bolsa. A mãe, Clara, e sua irmã mais velha, Madge, escreviam e publicavam contos e poemas. Sem ter frequentado escolas, Agatha aprendeu a ler e escrever com elas. Trabalhou em hospitais como voluntária e em uma farmácia, onde aprendeu os segredos dos venenos que iria usar em suas narrativa. Em 1914, casou-se com o coronel da marinha Archie Christie. O casal viveu seis anos em aparente harmonia. Em 1919, Agatha deu à luz sua única filha, Rosalind. Começou a publicar romances policiais, e se tornou popular. Ele se empregou na City. Os dois se mudaram para Londres. Lá, Archie começou a ter um caso amoroso com uma amiga de Madge, Nancy Neele, que trabalhava como secretária na City. Quando Archie confessou o affair e pediu divórcio, Agatha entrou em pânico.

Na noite de 3 de dezembro de 1926, ela saiu de carro de sua casa, sem avisar a criadagem. Bateu o carro no meio do caminho e o abandonou. Isso aguçou as suspeitas da polícia e a sede de novidades da imprensa. Os jornais passaram a publicar manchetes e especulações. O escritor de mistério Edgar Wallace declarou que não acreditava que Agatha tivesse se suicidado. “Ela quer chamar atenção do marido”, arriscou. A polícia convocou batalhões de cidadãos para vasculhar a região onde ela sumiu. Enquanto isso, Agatha hospedou-se em um hotel balneário, sob pseudônimo, Teresa Neele, usando curiosamente o sobrenome da rival. Lá se manteve discreta, mas chegou a discutir o seu próprio desaparecimento com os hóspedes. Quando a política finalmente a descobriu, em 14 de dezembro, parecia não reconhecer o marido e a filha.

Estudiosos acham que o episódio ensina sobre o método de narração de Agatha, seu tesouro mais bem guardado. Ela teria usado seu conhecimento de manipular personagens e pistas falsas para testar um enredo na vida real – e obter publicidade. Morgan discorda: “Ela prezava a privacidade, jamais faria isso. Também não teria usado o recurso moderno de viver dentro da trama. Seu método de escritura era puramente intelectual.” A solução pode ser mais simples. “Ela parece ter sido vítima de uma espécie de amnésia”, diz Morgan. “Mas ainda hoje restam dúvidas.” Ela cometeu não um crime, mas um sumiço perfeito.

Chave da escrita

Após o episódio, Agatha recompôs a vida, casou-se com um arqueólogo, viajou ao oriente e a lugares exóticos e seguiu a escrever histórias até os últimos dias de vida. Em suas excursões, nunca deixou de levar um caderno de anotações, onde registrava personagens, histórias e situações impensáveis. Também usava ditafone. Em seguida, estruturava as histórias em cadernos maiores, a caneta ou a lápis. Depois, de forma perfeita, datilografava seus livros. “Nunca escreveu sobre o que não sabia”, diz Morgan. Ela atribuiu o sucesso e a permanência de sua obra à arte narrativa. “Os livros de Agatha duram porque são boas histórias, ainda que, algumas vezes, irremediavelmente improváveis. Uma vez fisgado, o leitor quer saber o que vai acontecer. Elas abordam mitos, fantasias e obsessões compartilhados por pessoas de todo tipo: jornadas, disputas, morte, sexo, dinheiro, assassinatos, conspirações, transformações, poder, o triunfo do simples sobre o complexo, a importância do mundano e também do cósmico.” Segundo a escritora P.D. James, ela alimentava uma obsessão pela pureza. “Os crimes de Agatha são desprovidos de sangue”, afirmou. “A resolução dos mistérios visava ao restabelecimento da ordem, que ela amava acima de tudo.” Foi essa fórmula simples que lhe deu a glória literária.

Professor desempregado leva literatura a crianças carentes de Aracaju

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A calçada da casa do professor é transformada em sala de aula (Foto: Mara Lúcia de Paula)

“O que eu faço é com amor e sou muito respeitado por elas, que serão os futuros homens e mulheres da nossa cidade”, diz Luiz Carlos Nascimento.

Anderson Barbosa, no G1

calçada de uma residência localizada em uma rua sem pavimentação, no Bairro 17 de Março em Aracaju, é o local escolhido por um professor desempregado para ensinar literatura às crianças de um dos bairros mais carente da capital de Sergipe, que neste sábado (17) comemora 163 anos de emancipação política.

A sala de aula improvisada funciona uma vez por semana. Na falta de cadeiras, as crianças acomodam-se no chão e vencem o que seria a primeira barreira para se aproximarem dos livros. Depois, desvendam o conteúdo literário trazidos em uma sacola pelo professor Luiz Carlos. Quando não está em uso, o material de apoio fica exposto em um varal à espera do próximo interessado.

A Literatura é a forma de despertar outros conhecimentos científicos, além de promover o prazer estético e dar asas a imaginação desses jovens leitores“, professor Luiz Carlos

O trabalho voluntário começou no mês de novembro de 2017, depois que Luiz Carlos participou de um workshop literário. Desde o início do projeto, 12 crianças participam das atividades e enquanto os pais estão trabalhando. “Educação é o meio de transformação sócio- cultural para a vida de cada uma dessas crianças levando respeito, dignidade, conhecimento e independência financeira”, diz com o sorriso no rosto.

A escritora e coordenadora do Projeto Lê Campo/SE, Jeane Caldas, conheceu o trabalho do professor, e se apaixonou pela causa. “Ele sempre fez este trabalho, mas agora as ações de leitura foram intensificadas, porque conseguimos que fizesse parte do projeto Rede Ler e Compartilhar e Eu Leio, que fazem parte do programa nacional de incentivo à leitura. O programa disponibiliza sacolas circulantes com 30 livros e oferece formação continuada para os professores e mediadores de leitura, mas não paga nada por esse trabalho. Entrei na parceria por meio da Secretaria de Estado de Educação”, conta.

Não é sempre, mas quando pode o professor retira dinheiro do próprio bolso e compra lanches para a criançada. Uma forma de incentivar a permanência dos alunos e atrair outros meninos e meninas.

Mesmo em um local improvisado, as crianças parecem encantadas com as histórias descobertas nos livros (Foto: Mara Lúcia de Paula)

Combate à deficiência na leitura

O trabalho do sergipano serve de combate à deficiência da leitura ainda no início da vida escolar, como aponta a Avaliação Nacional de Alfabetização, do Ministério da Educação e Cultura (MEC). O estudo revela que mais da metade dos alunos do terceito ano do ensino fundamental não consegue nota mínima em matérias básicas. No ano de 2014, a insuficiência em leitura era de 56,17% entre os alunos. Dois anos depois o número teve uma pequena queda, 54,73%.

“Quero ver a melhoria do bairro em que moro e dessas crianças, que muitas vezes vão à escola e não conseguem aprender o conteúdo. O que eu faço é com amor, com carinho e sou muito respeitado por elas, que serão os futuros homens e mulheres da nossa cidade. A maior recompensa é o prazer de contar histórias e contribuir no processo de alfabetização dessas crianças”, conta Luiz Carlos.

Brilho no olhar

Quando o professor inicia a história, os olhos da criançada parecem brilhar e ganham a companhia de sorrisos e gargalhadas. Nem mesmo o movimento das ruas tira a concentração dos pequenos leitores. Sinal de que estão envolvidos pelas histórias.

O que mais gosto é de ler e aprender com as histórias que ele nos conta. O professor é muito bom e trata a gente bem. Tio Luiz Carlos é muito legal comigo e com meus colegas do projeto”, afirma Jaycha Rively, de 9 anos.

A menina é filha da vendedora Mara Lúcia de Paula, que também se mostra feliz com o desprendimento do professor e vizinho de bairro. “O que ele faz é louvável e ajuda a construir o futuro dos nossos filhos, sem cobrar nada. É um grande exemplo pra nossa comunidade e para o Brasil”, diz agradecida.

A batalha do mestre

Luiz Carlos nasceu no município de Malhada dos Bois e foi criado em Cedro de São João, ambos na Região do Baixo São Francisco de Sergipe. Filho de pais separados, ele é o mais velho entre nove irmãos, o único com nível superior, conquistado no ano de 2012 após cursar Letras/Português em uma universidade particular na capital.

Concluí a graduação com muita dificuldade financeira, pois estava desempregado. Tive a ajuda de familiares e principalmente de uma ex-diretora da instituição, que me ajudou bastante nesta fase da minha vida”, relembra.

Luiz Carlos já trabalhou em escolas particulares, em programas do governo e atualmente sobrevive dando aulas de reforço em casa, além de fazer ‘bicos’ auxiliando outros professores em projetos educacionais. No mês passado, tudo isso rendeu a ele pouco mais de R$ 200. “É assim que consigo pagar as contas da casa, comprar roupas e alimentos. Deus é quem dá a força pra gente superar todas as dificuldades que a vida nos oferece”, afirma.

Sempre atento aos apelos da comunidade, ele tem como meta fazer um trabalho mais intenso com os jovens e adultos que passam o dia trabalhando e ainda não são alfabetizados.

A Educação Waldorf cresce no Brasil

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Brincando, as crianças aprendem sobre seu mundo

Brincando, as crianças aprendem sobre seu mundo

 

A filosofia Waldorf, baseada a Antroposofia, tem crescido no Brasil com o aparecimento de novas escolas que usam essa metodologia de ensino.

Publicado no Blasting News

A filosofia Waldorf de ensino, baseada nos conceitos da Antroposofia, tem crescido no Brasil, devido ao surgimento de novas escolas que utilizam dessa metodologia de ensino e educação.

Mas o que é a Educação Waldorf? É uma filosofia educacional baseada na Antroposofia, de Rudolf Steiner, que dá ênfase ao papel da imaginação no aprendizado, buscando integrar os desenvolvimentos intelectuais, práticos e artísticos das crianças de maneira holística.

Antroposofia é uma filosofia cientifica espiritualmente orientada que reflete as questões espirituais básicas da humanidade, nossas necessidades artísticas, a necessidade de relacionamento com o mundo fora de uma visão científica exclusiva e a necessidade de relacionamento com o mundo em completa liberdade baseada no julgamento e decisões individuais de cada pessoa. Primariamente definida por seus métodos de pesquisa e depois pelas possibilidades de conhecimento e experiências a que essas pesquisas individuais levam.

Para uma criança, ou bebê no caso de berçários, que parte para uma educação Waldorf, música, dança, theatro, escrita, literatura, lendas e mitos não são apenas assuntos para serem estudados com leituras, mas são experimentados no dia a dia da escola. O objetivo principal dessa metodologia é cultivar o amor pelo aprendizado tanto quanto as capacidades intelectuais, físicas, emocionais e espirituais pela vida afora, para que cresçam como indivíduos que saibam qual seus caminhos para que estejam a serviço de um mundo melhor.

Quando se conhece uma Escola Waldorf, algumas primeiras impressões são marcantes, talvez a mais importante seja o entusiasmo e comprometimento de seu corpo docente. Os professores estão interessados nos estudantes como indivíduos, não como números. “Como conseguiremos orientar cada criança em seu caminho único para atingir sua excelência em níveis acadêmicos?” “Como criarmos entusiasmo para o aprendizado e trabalho, um auto conhecimento saudável, cuidado e interesse por outros seres humanos e respeito pelo mundo em que vivem?” “Como ajudar aos alunos a descobrirem sentido e significado em suas vidas?” – essas são perguntas que professores Waldorf se fazem no dia a dia de seu trabalho.

A dedicação em gerar um entusiasmo interior pelo aprendizado nas crianças é alcançada de várias maneiras, temas são apresentados de uma forma pictórica e dinâmica, eliminando assim a necessidade de testes competitivos, colocações acadêmicas e recompensas para a aprendizagem comportamental.

O currículo Waldorf é amplo e compreensivo, pensado para trabalhar as três fases de desenvolvimento das crianças, chamadas de setenios. Do nascimento a aproximadamente 6 ou 7 anos, dos 7 aos 14 anos, e dos 14 em diante.

A compreensão e habilidade em prover às crianças um apoio significativo dentro de cada fase em que ela se encontra e de oferecer conteúdo apropriado a elas irá possibilitar um crescimento físico, mental e intelectual saudável das crianças.

Escolas Waldorf nunca se instalam em prédios de concreto, buscam uma relação com a natureza. Muitas vezes estão em áreas rurais, sítios ou pelo menos em imóveis que tenham áreas verdes para acesso das crianças. O convívio com a natureza é fundamental para o desenvolvimento do ser humano de acordo com a Antroposofia, e as escolas Waldorf sempre proporcionam isso a seus alunos.

O atlas particular de Borges

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Ana Paula Campos, no Roteiros Literários

Em tempos de selfie, a palavra oficial de 2013, viajar se tornou de forma mais enfática uma cultura de ver-e-registrar-para-ver-de-novo. Atlas (1984), livro em que Jorge Luis Borges e a sua companheira María Kodama narram experiências de viagem por meio de relatos e poemas (ele) e fotos (ela), ganha uma conotação diferente quando lembramos que a obra foi escrita por alguém que não enxergava.

Borges viajou ao lado de María a partir de 1975, ou seja, havia perdido a visão há décadas. Suas histórias se tornam um compilado de imaginação, lembranças, associações literárias e impressões captadas pelos outros sentidos.

Em certo ponto do livro, ele diz: “comprovo com uma espécie de melancolia agridoce que todas as coisas do mundo me conduzem a um encontro ou a um livro”. María admite que tal modus operandi lhe despertou, em alguns lugares que visitaram juntos, a sensação de que quem não via era ela.

A escolha dos destinos era aleatória: “antes de uma viagem, olhos fechados, unidas as mãos, abríamos ao acaso o atlas e deixávamos que as gemas de nosso dedos adivinhassem o impossível”, revela María. Dessas aventuras, o Roteiros destaca sete descritas em Atlas.

Descobrir o desconhecido não é uma especialidade de Simbad, de Érico o Vermelho ou de Copérnico. Não há um único homem que não seja um descobridor.

IRLANDA
“De todas elas [as circunstâncias] a mais vívida é a Torre Redonda, que não vi, mas que minhas mãos tatearam, onde monges que são nossos benfeitores salvaram para nós em duros tempos o grego e o latim, ou seja, a cultura. Para mim a Irlanda é um país de pessoas essencialmente boas, naturalmente cristãs, tomadas pela curiosa paixão de ser incessantemente irlandesas.
Andei pelas ruas que percorreram, e continuam percorrendo, todos os habitantes de Ulisses.”

VENEZA
“Uma vez escrevi num prólogo Veneza de cristal e de crepúsculo. Para mim, crepúsculo e Veneza são duas palavras quase sinônimas, mas nosso crepúsculo perdeu a luz e teme a noite e o de Veneza é um crepúsculo delicado e eterno, sem antes nem depois.”

PASSEIO DE BALÃO NA CALIFÓRNIA

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Borges e María Kodama viajaram de balão no vale de Napa, na Califórnia. Segundo María, a tradição diz que é preciso levar champanhe para dar aos donos da terra onde aterrissam.
“Na Califórnia, há cerca de trinta dias, María Kodama e eu fomos a um modesto escritório perdido no vale de Napa. Eram quatro ou cindo da manhã, sabíamos que os primeiros clarões da aurora estavam por ocorrer. (…) O espaço era aberto, o ocioso vento nos levava como se fosse um lento rio nos acariciava a testa, a nuca ou a face. Todos sentimos, acho, uma felicidade quase física. O passeio, que duraria uma hora e meia, era também uma viagem por aquele paraíso perdido que constitui o século XIX. Viajar no balão imaginado por Montgolfier também era voltar às páginas de Poe, de Júlio Verne e de Wells.”

GENEBRA
Embora tenha nascido em Buenos Aires, a vida de Borges se dividia entre a capital argentina e Genebra. “Sei que voltarei sempre a Genebra, quem sabe depois da morte do corpo”, afirma em Atlas. Em 14 de junho de 1986, o escritor morreu na cidade e foi enterrado no cemitério de Plainpalais.
“Diferentemente de outras cidades, Genebra não é enfática. Paris não ignora que é Paris, a decorosa Londres sabe que é Londres, Genebra quase não sabe que é Genebra. (…) um pouco à semelhança do Japão, renovou-se sem perder seus ontens.”

MEU ÚLTIMO TIGRE

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“Em minha vida sempre houve tigres”, conta Borges, no seu texto sobre o encontro tardio com um tigre real, em um zoológico de Luján, na Argentina, e a realização desse sonho de infância.
O contato compensou a visão. “Com evidente e aterrada felicidade me aproximei desse tigre, cuja língua lambeu meu rosto, cuja garra indiferente ou carinhosa se demorou em minha cabeça.”
María Kodama conta que, mais tarde, enriquecendo a experiência, Borges distinguiu algo à contraluz: “Não me diga que é o que eu estou pensando”, “Sim, são seis tigres de Bengala passeando em torno da mesa”, respondeu ela.

O DESERTO DO SAARA
“A uns trezentos ou quatrocentos metros da Pirâmide me inclinei, peguei um punhado de areia, deixei-o cair silenciosamente um pouco mais adiante e disse em voz baixa: Estou modificando o Saara.”

COLÔNIA DE SACRAMENTO

“Aqui sentimos de maneira inequívoca a presença do tempo, tão rara nestas latitudes. Nas muralhas e nas casas está o passado, sabor que se agradece na América. Não se exigem datas nem nomes próprios; basta o que sentimos de imediato, como se fosse uma música.”

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Por que ler um livro de 719 páginas?

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Zeca Camargo, no G1

1Vamos começar com um argumento bem básico: porque você talvez nunca tenha lido um livro de 719 páginas. O volume, para uma geração que se comunica em emojis (outro dia, lendo sobre a participação de Bibi Ferreira – 92 anos e inspirada! – no programa “Roda Viva”, fiquei imaginando como seria pedir para ela se expressar só com esses símbolos, mas sei que divago já no primeiro parágrafo, e isso depois de ficar quase duas semanas sem escrever nada aqui, o que é um evidente mau sinal…) – enfim, o ameaçador tijolo de 719 páginas é uma espécie de campanha do balde de gelo, sem a conscientização da doença que a provocou.

Seria mais tentador, para essa mesma geração, se eu dissesse que o conteúdo do livro equivale a algo como 14.740 tweets? Considerando que um usuário devoto da rede social lê, digamos, uns 300 tweets por dia (como não usuário do Twitter – também não tenho Facebook nem Instagram oficial, é bom lembrar – posso estar exagerando na estimativa), ele “mataria” o volume em uns 50 dias, menos de dois meses! E as recompensas seriam enormes, garanto!

Não falo, claro, da recompensa imediata – o duvidoso prazer de saber que alguém chamou outro alguém de vagabundo (estou, claro, amenizando a linguagem que geralmente é usada nessa rede social de mensagens de no máximo 140 toques), ou que a amiga da sua amiga faz o melhor cupcake do mundo. Mas tenho em mente o prazer de ver uma história se desenrolar na nossa imaginação, graças aos frutos inesgotáveis da criatividade humana.

Não estou falando que não existem perfis criativos no Twitter – alguns que chegam até mim, por exemplo, via insistentes campanhas de amigos ou apenas conhecidos em grupos de WhatsApp são até espirituosos (ainda que, em termos de espertas associações de ideias, as piadas que recebia na época da Copa – lembra da Copa? – eram bem mais engraçadas). Mas eu tenho que acreditar que nossa capacidade intelectual – e aqui não uso a expressão como algo que define um pensamento excludente e elitizado, mas simplesmente uma capacidade do nosso cérebro – chegou até aqui para que trocássemos, entre nós, narrativas ligeiramente mais consistentes do que meros tuítes.

As 719 páginas em questão compõem a edição brasileira de “O pintassilgo”, de Donna Tartt (lançado aqui no Brasil pela Companhia das Letras). Para quem tem no mínimo uma queda por livros, sua chegada às nossas prateleiras, há algumas semanas, é um acontecimento. Afinal, Tartt é a autora que, no início dos anos 90, no trouxe uma obra definidora daquela época – seu excelente romance de estreia, “A história secreta” (também lançado aqui pela Companhia das Letras). Os fãs – que sobreviveram a seu (às vezes deslumbrante, às vezes enfadonho) segundo trabalho “O amigo de infância” (Companhia também) – já estavam impacientes de esperar mais de duas décadas pelo retorno da escritora à boa forma. E quando, em abril deste ano, “O pintassilgo” (que saiu nos Estados Unidos no final do ano passado) ganhou o prêmio Pulitzer 2014 como melhor trabalho de literatura, a coroação estava completa.

Eu mesmo, em nome da transparência, devo me declarar um fã de seu trabalho. Ansioso que estava por sua chegada, fiquei tentando em ler este trabalho recente em inglês (“The goldfinch”), mas a exaustiva experiência de encarar seu trabalho anterior no original me afastou da ideia. Esperei pela tradução (assinada por Sara Grünhagen) e fico feliz em informar que, mesmo em português, a voz do protagonista adolescente (e depois jovem) Theo Decker não perde nada do seu frescor.

Em “O pintassilgo”, o leitor é levado tão prontamente pela história, que só centenas de páginas adiante é que percebe que parte dessa sedução deve-se à mundanidade poética da linguagem usada – como, por exemplo, a opção por usar sempre “pra” (e mesmo “pro”) no lugar de “para” (e “para o”) em todo o texto. Uma decisão no mínimo curiosa uma vez que, em inglês, não consigo imaginar como isso estaria sugerido, uma vez que as ocorrências da preposição no original (“to”, “for” etc.) já são coloquiais o bastante – mas eu divago novamente, e mal consegui avançar nas razões que queria expor aqui hoje para se ler um livro de 719 páginas…

Escrevi há pouco que o protagonista da história é Theo, mas eu talvez tenha cometido uma injustiça. Tartt, na sua engenhosa trama, talvez tenha usado o garoto apenas como desculpa alinhavar um arco maior em torno não de uma pessoa, mas de um quadro. É ele o “Pintassilgo”, uma pequena pintura feita pelo holandês Carel Fabritius (aluno de Rembrandt, e provável influência de Vermeer) em meados do século 17, que, na ficção, está “visitando” o Metropolitan Museum de Nova York (na verdade, a tela reside no museu Mauritshuis, em Haia, na Holanda). Theo e sua mãe, fugindo da chuva, a caminho de uma reunião no colégio, estão admirando a exposição que tem o quadro como destaque, quando um ataque terrorista destrói várias galerias e parte das obras nelas penduradas. E também mata a mãe de Theo – então, com 13 anos.

Tentando entender o que aconteceu, o menino vaga pelos escombros e conversa com um senhor prestes a morrer – que lhe dá um anel, o nome de uma loja para entregá-lo (“Toque a campainha verde”), e sugere que ele “salve” o “Pintassilgo”. Theo, atordoado, obedece a tudo – e vai para casa com a obra de arte, esperar sua mãe chegar depois de toda a confusão. Só que sua mãe não chega – e assim começa a aventura mais “dickensiana” que você já leu nos últimos tempos.

Custo a acreditar que levei tanto tempo para citar Dickens. Na maior parte das resenhas sobre “O pintassilgo”, isso acontece logo nas primeiras linhas – e com razão. O venerado autor vitoriano (“Oliver Twist”, “David Copperfield”, “A pequena Dorrit”, para citar apenas alguns de seus clássicos) é uma inspiração assumida de Tartt – e se a inteção era homenageá-lo, ou mesmo simplesmente provar que é possível escrever uma história “dickensiana” nos dias de hoje, eu diria que ela se superou nessa tarefa.

Entre outras façanhas – o Pulitzer, mais de um milhão e meio de cópias vendidas no merdado americano -, Tartt dividiu a crítica literária nos Estados Unidos. Em meio a rasgados elogios, uma turma liderada por ninguém menos que James Wood (da “The New Yorker”), por quem tenho infinita admiração, acusa a autora de exagerar nas coincidências para escrever um livro banal, que beira o pastiche (nas palavras de Wood, Tartt tem o talento de quem escreve para crianças). Mesmo reconhecendo alguns desses exageros (as dificuldades de comunicação entre os personagens, por exemplos, num mundo tão conectado como o nosso, são bastante improváveis), acho um problema menor diante do vulto do desafio que a própria Tartt se impôs. E no qual se saiu de maneira brilhante.

Percebo porém que estou falando generalidades. Os argumentos que expus até aqui, você pode encontrar melhor ou pior apresentados em qualquer texto sobre o livro. Mas o que eu queria mesmo é dar motivos “concretos” para você encarar “O pintassilgo”, tentar encantar você como Donna Tartt me encantou: com elementos de uma história muito, mas muito bem contada. Assim, recomeço com a mesma pergunta que fiz acima: por que ler um livro de 719 páginas? Abaixo, algumas respostas:

Porque antes mesmo da centésima página, depois de ser oficializado “órfão” (ninguém consegue encontrar seu pai), Theo se divide entre a saudade da mãe, a rica família (os Barbour) de seu melhor amigo (Andy) que o adotou, e as injustiças que sofre na escola – tudo muito “Dickens”, claro.

Porque quando seu pai finalmente aparece, com a hilária namorada Xandra, e leva Theo para morar com ele num desolado canto de Las Vegas – esqueça os cassinos feéricos, sua casa (o cenário mais forte que formei na minha mente ao longo do livro) é um fim de mundo à beira do deserto – é possível sentir ainda mais pena do pequeno órfão.

Porque é lá em Las Vegas mesmo que Theo fica amigo de Boris – o mais perdido e fascinante personagem da enorme galeria que Tartt apresenta em “Pintassilgo”, que vai apresentá-lo para o mundo do álcool e das drogas, transformar a sua vida, e ensinar ao “protagonista” que a única coisa que realmente importa na vida é a amizade.

Porque depois de escapar de Vegas – fugindo de mais algumas circunstâncias trágicas da sua biografia – Theo volta, depois de uma improvável e rocambolesca viagem de ônibus, para Nova York e se aboleta com o dono do estabelecimento (um antiquário) para onde o senhor que ele conheceu (e viu morrer) na explosão do museu o mandou ir, descobrindo assim não só uma profissão, mas um jeito nada lícito de enriquecer.

Porque é nessa casa que ele alimenta sua paixão por uma menina ruiva, Pippa, que ele viu junto com o senhor que morreu (era sua sobrinha) e, em encontros esporádicos, experimenta pequenas redenções de seu coração desorientado.

Porque não só Boris, que tinha ficado para trás em Las Vegas, volta a aparecer na sua vida, mas vários dos personagens reaparecem, depois da metade do livro – considerando que você conseguiu chegar à página 360 com o mesmo entusiasmo do início da leitura – e fazem com que Theo se lembre (e que nós também nos lembremos) de que nada nessa vida é sem consequência.

Porque o “Pintassilgo”, sempre que é lembrado, surge como um alerta de moral e de beleza, de lembrança e de salvação – até que, já nas últimas 200 páginas, ele vira “de fato” o pivô da história, transformando um livro num inesperado romance policial, transportando o leitor não só para boas cenas de ação, mas também para uma Amsterdã chuvosa e triste na véspera do Natal (a mesma cidade onde Theo escolhe para abrir sua história nas primeiras páginas, onde, relendo depois, é possível detectar várias pistas do que viria a seguir…).

Porque Dickens mesmo, sutilmente, só é mencionado na página 522 – e aparece com uma elegância que reforça a homenagem que a própria autora está fazendo a ele.

Porque a cada guinada que a história dá – e eu enumerei apenas algumas delas acima, para não cutucar de perto a “brigada do spoiler” – você se sente não desanimado de enfrentar mais uma dezena de páginas, mas estimulado por não acreditar que Tartt conseguiu (novamente) sequestrar sua atenção.

Porque, na página 706, Hobie (o restaurador sócio do antiquário) dá essa explicação:
“Se uma pintura realmente afeta e muda sua maneira de ver, de pensar, de sentir, você não pensa ‘Ah, eu amo essa pintura porque ela é universal. Eu amo essa pintura porque ela fala a toda humanidade.’ Não é por isso que alguém ama uma obra de arte. É um sussurro secreto vindo de um beco. Psst, você. Eu, garoto. Sim, você.”

Porque no discurso final, quando Theo nos explica a razão de ter resolvido escrever sua história, a autora ainda te consegue fazer chorar, e você fica ligeiramente indignado de perceber que se entregou de maneira tão fiel a sua narrativa, apenas para levar aquela punhalada de emoção nas duas últimas páginas, literalmente – mundo injusto…

Porque no último parágrafo (e isso não é um “spoiler”, juro), Tartt usa a voz de Theo para escrever:
“E, no meio do nosso morrer, enquanto saímos do orgânico e afundamos ignominiosamente de volta nele, é uma glória e um privilégio amar o que a Morte não toca”.

Diante disso, todas as 719 páginas não pesam no nosso ombro mais que um folhetim. Em compensação, as lembranças de tudo que você amou – e que a Morte nunca vai tocar -, os livros, as pinturas, os filmes, as músicas, os lugares, e até mesmo seus amores (os eternos), ganha um peso muito maior do que você jamais imaginou. E é isso que te move.

O refrão nosso de cada dia:Habits (stay high)”, Tove Lo – com 28 milhões de acessos (só no YouTube), estou ciente de que não estou aqui exatamente apresentando uma novidade. Mas a sueca Tove Lo, virtualmente desconhecida até estourar com esse sucesso, fez simplesmente a melhor música pop do ano – desbancando, em termos de originalidade (veja o clipe até o fim para reforçar este ponto) todo pelotão de vozes femininas que reinou nos últimos anos – de Kate Perry a Beyoncé – mas que tem apresentado, com todo o respeito, mais do mesmo. “Habits” é não só estupidamente original como irremediavelmente viciante.

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