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Racionais no vestibular: intelectuais dividem-se sobre a questão

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(foto: Klaus Mitteldorf/divulgação)

‘Oportunismo popularesco’, diz o poeta Augusto de Campos. ‘Gesto de reconhecimento’, afirma o filósofo Francisco Bosco

Cecilia Emiliana, no UAI

“Não sou artista. Artista faz arte, eu faço arma. Sou terrorista”, disparou Mano Brown em entrevista ao jornal O Dia, em 1998, referindo-se a Sobrevivendo no inferno, disco lançado no ano anterior, cujas faixas traziam contundentes denúncias ao racismo e à desigualdade social no Brasil. À margem das grandes gravadoras, o álbum do Racionais MCs – grupo de rap formado por Brown, Edi Rock, Ice Blue e KL Jay – vendeu 1,5 milhão de cópias e virou fenômeno da produção independente. Reverenciado por jovens da periferia e por playboys de classe média, o hit Diário de um detento se baseou nas anotações de Jocenir, sobrevivente do massacre de 111 presos na Casa de Detenção do Carandiru, ocorrido em 1992, em São Paulo.

Duas décadas depois, quem diria, a “rajada de rimas” dos manos da periferia paulistana “alvejou” a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Em maio, a instituição incluiu Sobrevivendo no inferno como leitura obrigatória para o vestibular em 2020. Pela primeira vez, um disco entrou na lista de textos recomendados aos vestibulandos. E o fez em grande estilo. Racionais está ao lado de Sonetos, de Luís de Camões, ícone da língua portuguesa, e de A teus pés, livro de poemas de Ana Cristina César. “É a periferia ocupando a academia!”, postou o grupo no Instagram. “É como se fosse um troféu depois de vencer várias lutas”, comentou Mano Brown. “Sobrevivendo no inferno é um ótimo livro de história”, afirmou KL Jay.

“Um disco de rap elencado junto a Camões é uma espécie de legitimação do saber fora dos padrões europeus, que são os acadêmicos. Esse padrão instituiu que o conhecimento de valor é o escrito e chancelado pela educação formal. A gente precisa entender que nas periferias brasileiras – e no Brasil, de certo modo, em que educação ainda é um privilégio –, quem cumpre o papel de espaço para a produção de conhecimento é a música”, afirma o cientista político Gabriel Gutierrez. Professor de produção cultural nas Faculdades Integradas Hélio Alonso, no Rio de Janeiro, ele pesquisa a obra do Racionais.

“Quem tem potência de pensamento, quem quer filosofar, mas não pode frequentar as escolas e universidades, faz música. O gesto da Unicamp soa como um reconhecimento dessa oralidade, dessa cultura de rua como espaço de elaboração do discurso”, defende Gutierrez. Há quem discorde radicalmente.

POPULARESCO “Pobre Camões!”, reagiu Augusto de Campos, de 87 anos, expoente da poesia concreta no Brasil, a respeito da lista divulgada pela Unicamp. “Chamo isso de oportunismo popularesco”, afirmou o respeitado escritor, ensaísta e tradutor.

Postado na internet em 2016, um encontro entre o rapper Renan Inquérito e Campos sugeria a simpatia do poeta pelo rap. Diante disso, a reportagem do EM entrou em contato com o intelectual para ouvi-lo a respeito da decisão da Unicamp. Campos não quis dar entrevista, mas enviou o seguinte comentário, por e-mail: “Tanto Ana Cristina como os Racionais não têm categoria para figurar ao lado de Camões numa prova vestibular. OK? Chamo isso de oportunismo popularesco”.

DIÁLOGO José Alves de Freitas Neto, coordenador da comissão organizadora do exame da Unicamp, explicou que as faixas de Sobrevivendo no inferno não só dialogam com o atual momento histórico brasileiro, como também com as mudanças promovidas nas universidades em prol da inclusão social. Em entrevista ao portal G1, Freitas Neto definiu o álbum como uma leitura do mundo pelos olhos de quem o vê sob uma perspectiva contra-hegemônica.

Na opinião do professor Gabriel Gutierrez, a obra do Racionais vai além disso. “Nessas letras não tem só um conjunto de denúncias. O grupo até viveu essa fase bem lá no início, quando lançou o primeiro trabalho, o disco Raio X do Brasil (1993). Já Sobrevivendo traz reflexões existenciais profundas, expressas em hits como Fórmula mágica da paz (‘Admirava os ladrão e os malandro mais velho/ Mas se liga, olhe ao seu redor e me diga:/ O que melhorou? Da função quem sobrou?’). Nesse canto, há o que talvez seja o maior dilema dos jovens brasileiros periféricos: o engajamento no crime versus a vida no subemprego. Estamos falando, portanto, de uma obra que, mais do que um retrato da realidade, faz uma cartografia do real, um mapeamento da subjetividade”, argumenta.

Para o pesquisador, pode-se comparar o registro humano encontrado no rap ao que se observa em clássicos escritos por William Shakespeare, Marcel Proust ou Sigmund Freud. “O complexo olhar de autores para sua realidade e seu tempo fez com que suas obras fossem parar no cerne da produção de muitos pensadores. Freud vai buscar a peça Édipo Rei, de Sófocles, para elucidar um de seus conceitos-chave, o complexo de Édipo. (O filósofo francês Gilles) Deleuze bebeu da fonte do (poeta francês) Antonin Artaud. Nas Américas, é a música que constrói esse inventário social. Por isso, faz muito sentido que tantas pesquisas acadêmicas se voltem ao Racionais na atualidade”, argumenta Gutierrez.

Entre ensaios acadêmicos ou textos publicados na imprensa, não são poucas as menções a Sobrevivendo no inferno como fenômeno da cultura contemporânea. Pesquisador do rap, Paulo Roberto Souza Dutra, professor da Stephen F. Austin State University, no Texas (EUA), aponta o impacto do disco do Racionais sobre a juventude negra como um dos motivos que explicam tal reverência.

POTÊNCIA Dutra argumenta que o rap do grupo paulistano dialoga com o mundo negro da diáspora provocada pela escravidão, mas não se limita apenas a um canto de lamento. Para ele, o Racionais reafirma a cultura africana, além de tirar o jovem negro da periferia de um lugar subalterno para transformá-lo numa espécie de potência política.

“Isso é muito forte e explícito em Sobrevivendo. Estamos diante de um álbum que, na primeira faixa, traz uma saudação a Ogum e a oração de São Jorge. A terceira (Capítulo 4, versículo 3) começa com estatísticas: ‘60% dos jovens de periferia sem antecedentes criminais já sofreram violência policial/ A cada quatro pessoas mortas pela polícia, três são negras/ Nas universidades brasileiras, apenas 2% dos alunos são negros”, lembra o pesquisador.

Paulo Dutra pondera que o reconhecimento do rap é positivo, mas avisa: “É preciso ter em mente que ele não é literatura”. De acordo com o professor, ainda não se conseguiu compreender muito bem essa música. “Daí as tantas associações do gênero não só com a literatura, como com as artes e a filosofia, entre outros campos do conhecimento. Diria que ele é um marco literário, causando impacto semelhante ao do cinema nas letras. A sétima arte teve grande influência sobre a literatura, tanto esteticamente, incorporando recursos da narrativa cinematográfica, quanto tematicamente. Fenômeno recente, o rap que vem fazendo algo parecido com as letras”, conclui.

FAIXA A FAIXA

SOBREVIVENDO NO INFERNO

» Jorge da Capadócia
» Genesis (intro)
» Capítulo 4, versículo 3
» Tô ouvindo alguém me chamar
» Rapaz comum
» Faixa instrumental
» Diário de um detento
» Periferia é periferia (em qualquer lugar)
» Qual mentira vou acreditar
» Mágico de Oz
» Fórmula mágica da paz
» Salve

(foto: Bruno Veiga/Divulgação)

ENTREVISTA – FRANCISCO BOSCO (filósofo, ensaísta e compositor)
Em 2014, em artigo publicado na Revista Cult, você afirma que o surgimento do Racionais “é possivelmente o último grande acontecimento da cultura brasileira”. Ainda hoje acredita nisso?
Sim, acredito, e hoje ainda mais. Desde 2015, o Brasil teve seus canais de transformação institucional bloqueados por um governo ilegítimo que tentou impor uma agenda conservadora a toque de caixa. As energias mudancistas da sociedade se concentraram em larga medida nos chamados movimentos identitários. Ora, os Racionais foram os pioneiros da perspectiva racialista, isto é, de explicitação dos conflitos raciais, no campo de alta ressonância que é o da canção popular. É claro que já havia antes deles uma história dessa perspectiva no Brasil, história que tem em Abdias do Nascimento e o Movimento Negro Unificado um capítulo importante. É preciso ainda registrar que essa perspectiva começou a ser institucionalizada, a se tornar política de governo e até de Estado, nos anos FHC. Mas nada disso é comparável em termos de alcance cultural com o que os Racionais fizeram a partir de Sobrevivendo no inferno. Houve ali um verdadeiro cataclisma na cultura popular brasileira. Foi a primeira vez que, de dentro da própria cultura, questionou-se radicalmente os alicerces dessa própria cultura, ou seja, a autoimagem cultural associada ao encontro, à mistura, à cordialidade, à festa.

O que faz de Sobrevivendo no inferno um álbum tão emblemático?
Tudo o que falei acima, e que só se tornou possível porque o álbum é formalmente extraordinário. Nunca houve na canção brasileira uma lírica como aquela dos Racionais. Basta pegar a história da chamada “canção de protesto” no país. Os sambas dos anos 1930 são muito ingênuos perto daquilo. As canções a la Vandré são ideológicas, cheias de “mensagens”, mas completamente distantes da concretude avassaladora das letras de Brown. Mesmo a grande tradição dos anos 60/70 – Chico Buarque, João Bosco/Aldir Blanc etc. – é bem diferente: complexa, sofisticada, esplêndida, mas inevitavelmente metafórica, afastada da experiência direta daquele porão da sociedade brasileira, secularmente recalcado, que retornava no real (como todo recalcado) de uma forma incontornável pela poética de Sobrevivendo no inferno.

O que a inclusão de Sobrevivendo no inferno na lista da Unicamp significa enquanto fenômeno social?
Significa, em primeiro lugar, um gesto de reconhecimento da grandeza dessa obra. Isso tem implicações no modo como se pensa o cânone, os problemas relativos ao valor estético. Basicamente, estabelece que a excelência e a originalidade formais não são prerrogativas das classes médias e altas. Mas significa também que alunos terão a oportunidade de conhecer uma realidade de classe diversa da deles (de boa parte deles), e conhecerão o modo como o Brasil responde a essa realidade. Tem muita análise fina da realidade nas letras dos Racionais: o problema do reconhecimento, a relação entre capitalismo e sistema prisional, a necessidade de criar estratégias de bonding para fortalecimento das pessoas negras, a relação entre cultura do espetáculo e manutenção das desigualdades, entre outras questões.

Livro de Carolina Maria de Jesus é resgatado em vestibulares da UFRGS e Unicamp 40 anos após morte de escritora

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Carolina Maria de Jesus à margem do Rio Tietê e, ao fundo, a Comunidade do Canindé (Foto: Audálio Dantas, 1960)

Carolina Maria de Jesus à margem do Rio Tietê e, ao fundo, a Comunidade do Canindé (Foto: Audálio Dantas, 1960)

 

‘Quarto de despejo – Diário de uma favelada’ está nas listas obrigatórias de exames das duas universidades. Professores de literatura valorizam inclusão e possibilidade de reflexões.

Publicado no G1

O livro “Quarto de Despejo – Diário de uma favelada”, de Carolina Maria de Jesus, está entre as novidades dos próximos vestibulares da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). No ano em que a morte da escritora completa 40 anos, a obra resgatada está indisponível em algumas livrarias, mas a editora responsável pela impressão garante reposição e, à espera de alta na demanda, considera hipótese de elevar tiragem.

O diário foi anunciado na semana passada como uma das três alterações na lista da Unicamp para o vestibular 2019. Os outros dois livros inseridos na lista obrigatória de leituras são a poesia “A teus pés”, de Ana Cristina Cesar; e o romance “História do Cerco de Lisboa”, de José Saramago.

Já a UFRGS confirmou , em março, a inclusão do livro na edição 2018 do processo seletivo. A universidade renova anualmente a relação de obras com a substituição de quatro títulos.

A capa do livro escrito por Carolina Maria de Jesus (Foto: Editora Ática)

A capa do livro escrito por Carolina Maria de Jesus (Foto: Editora Ática)

Inovações

Carolina nasceu em Sacramento (MG), em 1914, e foi morar na capital paulista em 1947, época em que surgiram as primeiras favelas na cidade. Uma das primeiras e mais importantes escritoras negras do Brasil, ela reúne em “Quarto de Despejo” relatos de parte das experiências que viveu e observou na comunidade do Canindé, com três filhos. O lançamento ocorreu na década de 1960.

Para o professor de literatura Laudemir Guedes Fragoso, a inclusão da história da catadora de papel e sucatas nos processos seletivos representa inovações em abordagens de conteúdo e forma.

“Ela foi uma voz dissonante do Brasil marginalizado, é interessante se fazer paralelo com momento atual do país”, frisou o docente ao mencionar que vê tendência na abordagem de temas sociais nas provas, incluindo literatura indígena. Ele também lembrou a relevância na tratativa de um diário.

“É um gênero antigo, do século XV, e chama atenção a busca por novas formas literárias dentro da prova”, falou o professor do Colégio Objetivo ao lembrar da inclusão de “Minha vida de menina” na edição 2018 da Fuvest. A instituição já definiu a lista para o vestibular 2019 da USP e da Santa Casa.

Conexões

O professor de literatura Octávio da Matta, do Anglo, manteve o tom e valorizou a flexibilização dos vestibulares, que passaram a incluir não somente obras clássicas, mas também livros que retratam a história recente do país e as questões que seguem em debate, incluindo “Quarto de despejo”.

“A Unicamp e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul estão convidando o estudante para uma reflexão. Carolina faz um relato autobiográfico, mas ainda hoje pode ser considerado atemporal por apresentar questionamentos sobre a violência, problema do alcoolismo e violência doméstica, a preocupação em conseguir sustentar os filhos e a revolta por não ter o que comer”, ressalta.

No caso da universidade em Campinas, em especial, o docente valorizou o fato da mesma lista de livros contemplar a obra da escritora mineira, e “O espelho”, de Machado de Assis. ”

Estoques

A assessoria de imprensa da Editora Ática informou, em nota, que recebeu uma nova reimpressão do livro na segunda quinzena de abril. O desabastecimento, segundo a empresa, ocorreu por causa do “espaço” entre esta etapa e a distribuição. “Em nosso e-commerce o livro já está disponível e ao longo das próximas semanas o livro voltará às livrarias. O livro está em sua décima edição”, diz nota.

Em relação à tiragem de “Quarto de despejo”, a editora mencionou que ela já foi elevada em 20%, em virtude da inclusão na lista da UFRGS. A expectativa é de que outra seja feita quando houver queda do estoque, por causa da colocação da obra entre os assuntos do vestibular da Unicamp.

“Esperamos que haja um aumento na procura pela obra, naturalmente, mas sabemos que obras de literatura não precisam ser necessariamente compradas novas, podem ser emprestadas de bibliotecas, de amigos ou adquiridas de segunda mão em sebos. Por isso, não temos previsão de nova tiragem enquanto tivermos estoque suficiente para atender as demandas”, informa texto.

Rede pública

Em 2013, o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) comprou e distribuiu, por meio do Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), 29 mil exemplares do livro para escolas públicas com alunos em anos finais do ensino fundamental. De acordo com o governo federal, não há reserva ou destaque de exemplares, nem previsão para novas aquisições do título.

“Por meio do PNBE, são beneficiadas todas as escolas públicas, sem necessidade de adesão. […] Os livros são encaminhados diretamente às escolas para a composição dos acervos das bibliotecas e disponibilização dos exemplares aos alunos, geralmente, por meio de empréstimos e consulta.”

Aos 13 anos, criador de impressora feita com Lego gerencia marca de 2,5 milhões de dólares

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Shubham Banerjee apresentou o aparelho de impressão em braile de baixo custo na Campus Party nesta quarta-feira

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Bianca Bibiano, na Veja

Dezenas de pessoas se reuniram na tarde desta quarta-feira na Campus Party para escutar a história do americano Shubham Banerjee, criador de uma inovadora impressora braile feita de peças de Lego. A impressora — que funciona perfeitamente, ainda que feita de um brinquedo — rendeu a Banerjee investimentos da fabricante de processadores Intel para que o projeto avançasse para além do protótipo.

A história é semelhante à de muitos jovens que anualmente se reúnem no Vale do Silício, na Califórnia, Estados Unidos, para levantar capital para seus projetos empreendedores. Não fosse por um detalhe: Banerjee tem apenas 13 anos de idade e é considerado a pessoa mais jovem a conseguir capital para sua startup.

O projeto que lhe rendeu destaque no universo dos empreendedores do Vale do Silício foi criado no início do ano passado para uma feira de ciências da escola. Usando um kit de robótica chamado Lego Mindstorms EV3, um microprocessador e um código de programação em Java, Banerjee conseguiu tirar das peças de Lego páginas impressas com micro furos, reproduzindo a escrita braile. O estudante conta que não fazia ideia de como os cegos faziam para ler. “Meu pai disse ‘procure no Google’ e, então, comecei a me interessar pelo tema”, contou em entrevista ao site de VEJA. “Eu montei e desmontei o modelo seis vezes até que ele realmente funcionasse. Nesse tempo, comecei a entender melhor a necessidade das pessoas cegas.”

Diante da genialidade do filho, Niloy Banerjee, indiano naturalizado americano, decidiu investir do próprio bolso a quantia de 35.000 dólares para criar a startup Braigo Labs.Tornou-se conselheiro da empresa de seu filho — com apenas 13 anos, Shubham não pode assinar documentos e negociar investimentos. A mãe, até então professora primária, assumiu o cargo de CEO. Menos de seis meses depois, a Braigo Labs é avaliada em cerca de 2,5 milhões de dólares.

Apesar de todo o trabalho e relacionamento com empresários, Banerjee tenta levar a rotina de um adolescente comum. “Eu vou para a escola todos os dias, faço a lição de casa e só então encontro meu pai para as reuniões com investidores”, disse.

Tímido como a maioria dos adolescentes nessa idade, Banerjee recebeu a reportagem na sede da Intel em São Paulo antes de sua palestra para a Campus Party. Acompanhado do pai, falou sobre seus hobbies — beisebol e videogame —, do fato de não ter amigos de sua idade interessados em projetos de tecnologia e do trabalho árduo para chegar ao modelo atual. “Trabalhei na impressora sentado na cozinha de casa, com a ajuda do meu pai. Às vezes, seguíamos até a madrugada trabalhando no protótipo”.

Mesmo com todo o capital que circula ao seu redor, o estudante afirma que não se importa com o dinheiro. “Meu objetivo é reduzir o custo das impressoras em braile, de aproximadamente 2.000 dólares, e torná-las acessíveis a quem realmente precisa”, explica. O custo estimado da impressora criada por ele é de 350 dólares. “Reduzi os valores em 82% e fico feliz em ver o retorno positivo das pessoas que estão usando a impressora”.

Com o investimento familiar e também da Intel, o sistema projetado por Banerjee ganhou vida em uma impressora ‘de verdade’, que já está sendo testada por entidades representativas de deficientes visuais. Ao todo, 25 instituições receberão a impressora este ano. No Brasil, a beneficiada será a Fundação Dorina Nowill para Cegos, que recebeu uma visita do jovem nesta manhã.

“As empresas não têm interesse em investir nesse mercado por pensarem que se trata de um público-alvo pequeno, mas o mundo tem mais de 280 milhões de deficientes visuais. A maioria vive em países em desenvolvimento e não tem condições de arcar com os custos das impressoras que existem no mercado”, afirma o pai do estudante. “Queremos que a impressora de Banerjee chegue a quem precisa, por isso o código de configuração também será aberto, permitindo adaptações para os mais variados idiomas”, orgulha-se o pai.

Como garantir que a escola seja de fato para todas as crianças

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Eduarda Mayrink, na Revista Escola

A inclusão tem ganhado importância nos últimos anos, mas ainda há um longo caminho a ser percorrido. A Constituição de 1988 determina o acesso ao Ensino Fundamental regular a todos, e deixa claro que as crianças com necessidades educacionais especiais (NEE) devem receber atendimento especializado complementar. Esse processo, no entanto, é uma tarefa difícil e que exige o empenho de todos os envolvidos.

Na escola que coordeno, o que mais me ajudou a lidar com as especificidades de aprendizagem dos alunos foi observar o contato entre eles e os docentes no cotidiano da sala de aula. Com isso, constatei que os professores não possuíam o preparo necessário para trabalhar com essas crianças. Eles faziam muitas perguntas: O que fazer? Quem deve fazer? Quem vai me ajudar? Eu vou ficar sozinho na sala? Assim, foi preciso elaborar um processo formativo para estudar e compreender as características dos estudantes com NEE.

Nosso caminho inicial foi planejar ações concretas para garantir a aprendizagem de todos, levando em conta as potencialidades de cada um. Foi essencial compreender a necessidade de cada aluno e identificar as medidas que poderíamos tomar não somente no aspecto pedagógico, mas também social e cultural, como a participação em apresentações, gincanas, teatros, oficinas e atividades recreativas. O ensino deve propiciar o desenvolvimento da criança em todos os aspectos, para que ela tenha condições de participar das atividades e se integrar na comunidade.

A cobrança dos pais também era algo que me preocupava muito. Como apresentar para eles o trabalho desenvolvido e promover um avanço nas aprendizagens dos estudantes? Constatei que a participação das famílias é essencial para que a inclusão seja efetiva e, por isso, elas devem ser incluídas em todo o processo. A gestão da escola precisa se comunicar com os pais e responsáveis para conhecer melhor a criança e descobrir as suas características pessoais. Isso garante que o ritmo e as singularidades de cada aluno sejam respeitados e valorizados.

Hoje, acredito que promover uma inclusão efetiva cabe na prática ao professor e à escola, por meio da observação e do planejamento das atividades e das aulas de forma eficaz. Além disso, também depende da participação ativa da família, que pode ajudar a instituição a lidar melhor com os pequenos.

Braille aumenta inclusão de cegos na sociedade

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Braille aumenta inclusão de cegos na sociedade

Sistema de leitura especial permite acesso a informação. Último censo aponta que Brasil tem 6,5 milhões de pessoas com deficiência visual

Publicado no Portal Brasil

 

Foi comemorado no último domingo (4) o Dia Mundial do Braile, sistema que permite que pessoas com cegueira total ou parcial possa ler por meio do tato.

A Fundação Dorina Nowill, localizada em São Paulo, é uma das entidades que difundem a leitura do braille no País.

Ela produz e distribui livros em braille e livros em áudio para bibliotecas e organizações do Brasil.

No Brasil, existem mais de 6,5 milhões de pessoas com deficiência visual, sendo 582 mil cegas e seis milhões com baixa visão, segundo dados da fundação com base no Censo 2010, feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Há 188 anos, o jovem francês Louis Braille, que perdeu sua visão aos três anos de idade, inventou um sistema de leitura especial e contribuiu para a formação e inclusão de milhões de pessoas pelo mundo.

Além disso, prepara deficientes visuais para serem independentes e terem condições de conquistar espaço no mercado de trabalho.

Na opinião de Regina Oliveira, coordenadora na fundação, o braile tem um papel muito importante na inclusão de cegos na sociedade.

De acordo com ela, as pessoas até o século 19 não tinham acesso à leitura e ficavam confinadas em sua própria casa ou internadas em asilos para pessoas com problemas mentais.

“Com o braile as pessoas cegas passaram a ter acesso ao conhecimento, à cultura, ao lazer, à informação e, a partir desse conhecimento, elas puderam desenvolver a própria consciência, a pensar por si mesmas”, completou ela.

A própria Regina é fruto do trabalho da fundação. Cega desde os sete anos de idade, foi lá que aprendeu a ler e escrever, o que permitiu que ela frequentasse uma escola convencional e aprendesse um ofício.

Como resultado, começou a trabalhar na fundação como telefonista e hoje é coordenadora de revisão dos livros em braile.

“Uma vez preparadas, as pessoas podem obter acesso a um número muito grande de profissões. Mas é necessário que, além do trabalho todo que a fundação faz, as escolas também estejam preparadas para receber essas pessoas para dar condições de aprendizagem como os outros alunos têm”, analisou Regina.

Outras estratégias

Com o passar do tempo, novas formas de acesso à informação são elaboradas para auxiliar pessoas cegas. Além do braile, existe o áudio livro e formatos digitais, que mostram as letras ampliadas (para quem tem visão subnormal) com auxílio de áudio.

Na opinião de Regina, o braile não perde importância com a criação de novos formatos. Para ela, todos os formatos que auxiliam pessoas cegas se complementam.

“O braile é imprescindível para alfabetização das crianças, para que elas tenham contato com a ortografia, tanto da língua portuguesa quanto de línguas estrangeiras. Para livros científicos, não existe um substituto pro braille ainda. Os formatos tanto digital quanto falado não se excluem, se complementam”.

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