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O que você precisa saber para assistir His Dark Materials

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Nova série da HBO é inspirada na franquia literária Fronteiras do Universo

Camila Sousa, no Omelete

Uma das grandes apostas da HBO para a nova temporada de séries é His Dark Materials, série inspirada na franquia de livros Fronteiras do Universo. Com a segunda temporada já garantida pelo canal, a atração tem no elenco nomes como Dafne Keen (Logan) no papel principal de Lyra Belacqua, Ruth Wilson (The Affair) como Marisa Coulter e James McAvoy (Fragmentado) como Lord Asriel.

Confira abaixo o que você precisa saber para assistir à série. O lançamento está marcado para 4 de novembro.

Quem é Lyra?

His Dark Materials/HBO/Divulgação

Vivida por Dafne Keen, Lyra Belacqua é a protagonista da história. Com 11 anos no começo da história, ela é uma órfã que foi criada na universidade de Oxford por professores e reitores do local. Seu único parente conhecido é o tio, Lord Asriel, que já foi interpretado nos cinemas por Daniel Craig e agora é vivido por James McAvoy na série da HBO.

Também conhecida nos livros como Lyra da Língua Mágica, a protagonista é descrita como curiosa e destemida. Por não ter um tutor muito próximo – seu tio a deixa na universidade para realizar grandes viagens – Lyra cresce com muita liberdade pelo campus e por isso aprende a escalar janelas e muros para saber tudo o que está acontecendo. A jovem também conhece todos os funcionários da universidade e se torna grande amiga de Roger, outra criança do local.

Daemons e a conexão com humanos

His Dark Materials/HBO/Divulgação

No universo de His Dark Materials, as almas dos seres humanos se manifestam em seres em forma de animais que existem fora de seus corpos, os daemons. Cada pessoa tem um daemon, que possui nome e conversa com o humano ao qual pertence. As pessoas enxergam os daemons umas das outras, mas não é permitido tocar o daemon do outro. Quando dois humanos se encontram e passam algum tempo juntos, é comum que seus daemons interajam entre si, algo permitido pelas regras.

Os daemons acompanham os humanos durante toda a vida e por isso se tornam grandes amigos. Durante a infância, eles não possuem uma forma física fixa, refletindo a personalidade ainda não formada da pessoa. No caso de Lyra, por exemplo, seu daemon Pantalaimon aparece como diversos animais durante a história. É no período da adolescência que o daemon assume uma forma física fixa para o resto da vida, refletindo a personalidade firmada pelo seu dono.

Além desse grande laço emocional entre daemons e humanos, há também uma ligação física. Com a exceção de feiticeiras e pajés, todos precisam ficar próximos fisicamente de seus daemons. Grandes distâncias causam dor e agonia nas duas partes. Daemons também sentem as dores físicas afligidas em seus donos e vice-versa.

O Magisterium

His Dark Materials/HBO/Divulgação

O universo de Lyra possui uma grande instituição religiosa, o Magisterium, que coordena a sociedade em questões sociais, religiosas e políticas. Na história, o Magisterium tem algumas características próximas da igreja católica, apesar de ser formado pela união de vários órgãos religiosos. Exatamente por isso existem várias disputas internas de poder, já que cada liderança tem interesses próprios.

O poder do Magistério no universo de His Dark Materials é enorme. Um dos maiores exemplos é o controle da instituição sobre a ciência, chamada até mesmo de “teologia experimental”. A organização permite que estudos científicos sejam feitos, desde que eles se enquadrem nas doutrinas e não tentem contradizer suas regras.

Pó, heresia e inocência

His Dark Materials/HBO/Divulgação

Um bom exemplo de como o Magisterium age é sobre o Pó, uma substância presente no universo de His Dark Materials, mas que não pode ser citada por regras da instituição. O Pó é constituído de minúsculas partículas douradas que se fixam em seres vivos, especialmente nos humanos durante a adolescência. Embora algumas criaturas possam enxergar o Pó a olho nu, os humanos só conseguem fazer isso com a ajuda de alguns instrumentos específicos.

Na história, é observado que as crianças não possuem o Pó, que é mais comum em adultos que já passaram pela juventude. O Pó começa a ficar presente no corpo das pessoas na mesma época da juventude em que os daemons fixam sua forma. O Magisterium considera que o Pó é a representação direta do pecado e por isso não é permitido falar ou pesquisar sobre a substância. Para a instituição, o Pó simboliza a perda da inocência das crianças e há quem acredite que deveria haver uma forma de impedir que isso aconteça com elas.

Com tantos paralelos sobre o posicionamento de algumas instituições religiosas, a obra de Philip Pullman foi duramente criticada por algumas organizações ao longo dos anos, incluindo o Vaticano e a Liga Católica dos EUA, que fez campanha contra a adaptação aos cinemas lançada em 2007.

A Bússola de Ouro

His Dark Materials/HBO/Divulgação

Este é o nome do primeiro livro da trilogia e também da adaptação aos cinemas e por isso um dos mais conhecidos pelo público. Dentro da história, a bússola é um aletiômetro, um artefato capaz de mostrar a verdade para quem aprender a usá-lo. A bússola é um dos vários objetos importantes do universo de His Dark Materials, ao lado da Faca Sutil e da Luneta mbar, que dão nome aos outros dois livros principais da franquia.

A protagonista Lyra recebe o aletiômetro do reitor da universidade Jordan logo no começo da história, pois ele acredita que ela será capaz de interpretar o que o objeto tem a dizer. A leitura acontece quando o usuário aponta três agulhas do objeto para diferentes símbolos, mentalizando o que deseja saber. Em seguida, uma quarta agulha aponta para a imagem que significa a resposta. Há vários símbolos dentro da bússola, como a Ampulheta, Caldeirão, Coruja, Espada, entre outros e interpretá-los é a chave para saber a verdade.

O aletiômetro é um objeto raro e extremamente poderoso. Apenas seis foram criados em toda a história e o Magisterium destruiu quatro, preocupado com sua capacidade de falar a verdade. Logo, quando Lyra o recebe, precisa escondê-lo, já que ela pode se tornar alvo da instituição se alguém souber que ela está com ele. Outra preocupação do Magisterium sobre a bússola é porque ela utiliza do Pó para saber e dizer a verdade ao usuário e, como descrito acima, utilizar a substância é considerada uma heresia.

Futuro

His Dark Materials/HBO/Divulgação

O universo de His Dark Materials é vasto e a HBO tem material para trabalhar em várias temporadas, se desejar. A linha do tempo principal é composta por três publicações: A Bússola de Ouro, A Faca Sutil e A Luneta Âmbar. Todos desenvolvem a história de Lyra e também apresentam outros nomes que se tornam importantes na trama.

Além deles, o autor Philip Pullman lançou dois livros derivados: A Oxford de Lyra, situado dois anos após o término da série principal, e Era Uma Vez no Norte, um prelúdio focado em Lee Scoresby (personagem de Lin-Manuel Miranda na HBO) e no urso Iorek Byrnison, um dos personagens mais icônicos da história.

A série literária mais recente do autor é O Livro das Sombras, uma trilogia que volta à história de Lyra, dessa vez mostrando acontecimentos do passado, presente e futuro da personagem. La Belle Sauvage abre a trilogia como um prelúdio, mostrando Lyra ainda bebê e sua chegada à Oxford. O segundo livro, The Secret Commonwealth, foi publicado em outubro deste ano e mostra a história de Lyra sete anos após os acontecimentos de A Luneta Âmbar. Ainda não há detalhes do que será mostrado no livro de encerramento da série, que não tem título definido.

Os livros infantis são realmente inocentes?

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Os livros infantis são realmente inocentes?

Quando eu era criança, muitos dos meus livros favoritos tinham como tema a comida. Um deles contava a história de um menino que ajudou a salvar uma pequena lanchonete ao se tornar um detetive gourmet que conseguiu recuperar um ingrediente secreto perdido.

, na BBC Brasil
Muito tempo depois de ter esquecido do livro e seu título, estive em Edimburgo para entrevistar Alexander McCall Smith. Ele já era o autor campeão de vendas por trás da série Agência No 1 de Mulheres Detetives, mas, anos antes, tinha escrito alguns livros infantis. E em uma prateleira de sua estante lá estava The Perfect Hamburger (O Hambúrguer Perfeito, em tradução livre).

Era o meu livro. Só que não exatamente. Sim, os hambúrgueres ainda eram descritos com detalhes de lamber os beiços, mas dessa vez ficou claro para mim que, na realidade, The Perfect Hamburger é um conto sobre a ganância corporativa e o destino de pequenas empresas obrigadas a competir com as grandes redes.

Reler livros infantis na idade adulta pode gerar todo o tipo de mensagens subentendidas, algumas mais evidentes do que outras. O clássico Como o Grinch Roubou o Natal, de Dr. Seuss, é uma parábola sobre o consumismo. E por que não parece óbvio que a série As Crônicas de Nárnia, de C.S. Lewis, é uma fantástica reinvenção da teologia cristã?

Da mesma maneira, uma leitura mais atenta transformou os livros do urso Paddington em fábulas sobre a imigração, e as histórias do elefante Babar em um endosso do colonialismo francês.

As aventuras de Alice no País das Maravilhas já foram interpretadas de várias formas – de uma ode à lógica matemática a uma sátira à Guerra das Duas Rosas, ou ainda a uma viagem psicodélica à base de drogas. Quanto a O Mágico de Oz: ora, evidentemente, trata-se de uma representação alegórica do debate em torno da política monetária americana no fim do século 19.

“Nunca é demais tentar buscar um significado mais profundo”, afirma Alison Waller, professora de Literatura Infantil da Universidade de Roehampton, na Grã-Bretanha.

Sua aula favorita é dedicada à análise psicológica do clássico infantil britânico The Tiger Who Came to Tea, sobre um tigre que aparece na casa de uma menina para jantar com ela e sua mãe.

Os alunos de Waller costumam enxergar algo edipiano na relação do felino com a família. “Só porque não captamos essas mensagens na infância não significa que não estejamos absorvendo-as”, alerta a professora.

É claro que, muitas vezes, os duplos sentidos parecem estar escondidos porque estamos muito ligados na trama ou porque somos jovens demais. Só depois de adulta, Waller entendeu o motivo pelo qual a mãe de Max o mandou para a cama sem jantar em Onde Vivem os Monstros, de Maurice Sendak.

Essas camadas de significados são fundamentais para a longevidade de histórias que se tornam clássicas. Os contos de fadas são o melhor exemplo disso.

O teórico da psicanálise austro-americano Bruno Bettelheim costumava dizer que João e Maria é muito mais do que o relato de pais que abandonam seus filhos e de uma bruxa malvada que quer matar os pequenos. Para ele, trata-se de um estudo da regressão infantil e da gula, assim como da ansiedade de separação e do medo da fome.

No livro A Psicanálise dos Contos de Fadas, de 1976, Bettelheim explica a importância terapêutica desse tipo de história na educação infantil. Aplicando análises neo-freudianas a histórias como Cinderela e Branca de Neve, ele mostra como essas narrativas falam ao subconsciente em uma linguagem semelhante à dos sonhos, ajudando as crianças a lidar com uma gama de medos e desejos não verbalizados, como a rivalidade com irmãos e a ambivalência que sentem em relação aos pais.

A chamada literatura infantil tem muito a oferecer aos adultos, segundo Sheldon Cashdan, professor de psicologia da Universidade de Massachusetts em Amherst, nos Estados Unidos. Em seu livro Os 7 Pecados Capitais nos Contos de Fadas, Cashdan explica que essas histórias ajudam as crianças a reconhecer a luta entre o bem e o mal – uma luta que elas vivenciam internamente –, com o bem vencendo o mal invariavelmente encontrando um final assustador.

Essas batalhas perduram por toda a vida. “Noções de ganância, de querer mais do que se precisa… Você pode ver isso nos bônus dos executivos do mercado financeiro e nas pessoas que têm casas com cinco banheiros. Ou ainda na maneira sutil com que as pessoas contam mentiras, omitem fatos ou cometem pequenas malandragens.

Só quando somos adultos cometemos o erro de pensar que os livros infantis, assim como os contos de fadas, são essencialmente escapistas. Ao nos depararmos com eles décadas mais tarde, ficamos surpresos ao perceber algo que pressentíamos quando crianças, mesmo que não tivéssemos vocabulário suficiente para verbalizar: que essas histórias abordam a força e a fragilidade humanas, falam de como existir no mundo.

A natureza oculta de suas mensagens são essenciais para sua magia. Como Bettelheim escreveu, explicar para uma criança o que torna uma história tão cativante significa estragá-la. Seu poder de encantar “depende consideravelmente do fato de a criança não saber muito bem por que a adora”.

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