faixa-paulo-freire

Publicado em Revista Escola

Nos protestos de 15 de março de 2015, o nome do patrono da Educação foi lembrado negativamente em uma faixa que repercutiu nas redes sociais. Confira a entrevista que NOVA ESCOLA fez com Moacir Gadotti, presidente do Instituto Paulo Freire, sobre o caso:

NOVA ESCOLA – O que Paulo Freire (1921-1997) comentaria sobre esse ataque?

Moacir Gadotti – Pelo tempo que convivi com ele, creio que não ficaria impaciente ou magoado. O que não significa que ele aceitava todas as críticas. Costumava reafirmar e explicitar melhor suas posições, sem entrar em polêmicas estéreis e destrutivas. Sobre a faixa, certamente não responderia, mas pensaria que, por trás dela, estaria escondida uma postura de classe. De quem, talvez, nunca tenha lido um livro dele.

NE – Por que a obra dele é alvo de críticas e preconceitos?

MG – Há muita crítica infundada, genérica. Por vezes, puramente ideológica e passional. A validade da teoria e da práxis de Paulo Freire está ligada a quatro intuições originais que é preciso compreender antes de criticar: a ênfase nas condições gnosiológicas da prática educativa; a defesa da Educação como ato dialógico e, ao mesmo tempo, rigoroso, imaginativo e afetivo; a noção de ciência aberta às necessidades populares; e o planejamento comunitário e participativo. Há quem discorde desse pensamento.

NE – Qual o legado de Paulo Freire para a Educação contemporânea?

MG – O pressuposto de que é possível, urgente e necessário mudar a ordem das coisas. Depois de Paulo Freire, não se pode mais afirmar que a Educação é neutra. Ele demonstrou a importância da Educação na formação do povo sujeito, do povo soberano. Ele não só convenceu tantas pessoas em tantas partes do mundo por conta de suas teorias e práticas, mas também porque despertava nelas a capacidade de sonhar com uma realidade mais humana, menos feia e mais justa. Como legado, nos deixou a utopia.

NE – As salas de aula brasileiras estão mais próximas da Educação libertadora ou da Educação sectária?

MG – A Educação brasileira não é homogênea, com concepções e práticas diversas. Está em crescimento uma visão mercantilista da Educação, não só nas escolas privadas, mas também na escola pública, transpondo para dentro da sala de aula a lógica do mercado de rentabilidade, lucro e competitividade. Nossa Educação precisa fundar-se em outros valores. Para Paulo Freire, a Educação libertadora é crítica, investiga os fundamentos, as raízes das coisas, e não fica na superficialidade – exatamente o contrário da Educação dogmática, sectária. A escola brasileira enfrenta hoje novos e grandes desafios para ser, realmente, uma escola desafiadora, ousada, corajosa, que forme para a cidadania e para a liberdade. Enfim, não ser uma escola burocrática, cumpridora de ordens, incapaz de compreender o mundo, cada vez mais complexo, onde o conhecimento tornou-se uma grande força produtiva.