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Posts tagged intelectuais

Racionais no vestibular: intelectuais dividem-se sobre a questão

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(foto: Klaus Mitteldorf/divulgação)

‘Oportunismo popularesco’, diz o poeta Augusto de Campos. ‘Gesto de reconhecimento’, afirma o filósofo Francisco Bosco

Cecilia Emiliana, no UAI

“Não sou artista. Artista faz arte, eu faço arma. Sou terrorista”, disparou Mano Brown em entrevista ao jornal O Dia, em 1998, referindo-se a Sobrevivendo no inferno, disco lançado no ano anterior, cujas faixas traziam contundentes denúncias ao racismo e à desigualdade social no Brasil. À margem das grandes gravadoras, o álbum do Racionais MCs – grupo de rap formado por Brown, Edi Rock, Ice Blue e KL Jay – vendeu 1,5 milhão de cópias e virou fenômeno da produção independente. Reverenciado por jovens da periferia e por playboys de classe média, o hit Diário de um detento se baseou nas anotações de Jocenir, sobrevivente do massacre de 111 presos na Casa de Detenção do Carandiru, ocorrido em 1992, em São Paulo.

Duas décadas depois, quem diria, a “rajada de rimas” dos manos da periferia paulistana “alvejou” a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Em maio, a instituição incluiu Sobrevivendo no inferno como leitura obrigatória para o vestibular em 2020. Pela primeira vez, um disco entrou na lista de textos recomendados aos vestibulandos. E o fez em grande estilo. Racionais está ao lado de Sonetos, de Luís de Camões, ícone da língua portuguesa, e de A teus pés, livro de poemas de Ana Cristina César. “É a periferia ocupando a academia!”, postou o grupo no Instagram. “É como se fosse um troféu depois de vencer várias lutas”, comentou Mano Brown. “Sobrevivendo no inferno é um ótimo livro de história”, afirmou KL Jay.

“Um disco de rap elencado junto a Camões é uma espécie de legitimação do saber fora dos padrões europeus, que são os acadêmicos. Esse padrão instituiu que o conhecimento de valor é o escrito e chancelado pela educação formal. A gente precisa entender que nas periferias brasileiras – e no Brasil, de certo modo, em que educação ainda é um privilégio –, quem cumpre o papel de espaço para a produção de conhecimento é a música”, afirma o cientista político Gabriel Gutierrez. Professor de produção cultural nas Faculdades Integradas Hélio Alonso, no Rio de Janeiro, ele pesquisa a obra do Racionais.

“Quem tem potência de pensamento, quem quer filosofar, mas não pode frequentar as escolas e universidades, faz música. O gesto da Unicamp soa como um reconhecimento dessa oralidade, dessa cultura de rua como espaço de elaboração do discurso”, defende Gutierrez. Há quem discorde radicalmente.

POPULARESCO “Pobre Camões!”, reagiu Augusto de Campos, de 87 anos, expoente da poesia concreta no Brasil, a respeito da lista divulgada pela Unicamp. “Chamo isso de oportunismo popularesco”, afirmou o respeitado escritor, ensaísta e tradutor.

Postado na internet em 2016, um encontro entre o rapper Renan Inquérito e Campos sugeria a simpatia do poeta pelo rap. Diante disso, a reportagem do EM entrou em contato com o intelectual para ouvi-lo a respeito da decisão da Unicamp. Campos não quis dar entrevista, mas enviou o seguinte comentário, por e-mail: “Tanto Ana Cristina como os Racionais não têm categoria para figurar ao lado de Camões numa prova vestibular. OK? Chamo isso de oportunismo popularesco”.

DIÁLOGO José Alves de Freitas Neto, coordenador da comissão organizadora do exame da Unicamp, explicou que as faixas de Sobrevivendo no inferno não só dialogam com o atual momento histórico brasileiro, como também com as mudanças promovidas nas universidades em prol da inclusão social. Em entrevista ao portal G1, Freitas Neto definiu o álbum como uma leitura do mundo pelos olhos de quem o vê sob uma perspectiva contra-hegemônica.

Na opinião do professor Gabriel Gutierrez, a obra do Racionais vai além disso. “Nessas letras não tem só um conjunto de denúncias. O grupo até viveu essa fase bem lá no início, quando lançou o primeiro trabalho, o disco Raio X do Brasil (1993). Já Sobrevivendo traz reflexões existenciais profundas, expressas em hits como Fórmula mágica da paz (‘Admirava os ladrão e os malandro mais velho/ Mas se liga, olhe ao seu redor e me diga:/ O que melhorou? Da função quem sobrou?’). Nesse canto, há o que talvez seja o maior dilema dos jovens brasileiros periféricos: o engajamento no crime versus a vida no subemprego. Estamos falando, portanto, de uma obra que, mais do que um retrato da realidade, faz uma cartografia do real, um mapeamento da subjetividade”, argumenta.

Para o pesquisador, pode-se comparar o registro humano encontrado no rap ao que se observa em clássicos escritos por William Shakespeare, Marcel Proust ou Sigmund Freud. “O complexo olhar de autores para sua realidade e seu tempo fez com que suas obras fossem parar no cerne da produção de muitos pensadores. Freud vai buscar a peça Édipo Rei, de Sófocles, para elucidar um de seus conceitos-chave, o complexo de Édipo. (O filósofo francês Gilles) Deleuze bebeu da fonte do (poeta francês) Antonin Artaud. Nas Américas, é a música que constrói esse inventário social. Por isso, faz muito sentido que tantas pesquisas acadêmicas se voltem ao Racionais na atualidade”, argumenta Gutierrez.

Entre ensaios acadêmicos ou textos publicados na imprensa, não são poucas as menções a Sobrevivendo no inferno como fenômeno da cultura contemporânea. Pesquisador do rap, Paulo Roberto Souza Dutra, professor da Stephen F. Austin State University, no Texas (EUA), aponta o impacto do disco do Racionais sobre a juventude negra como um dos motivos que explicam tal reverência.

POTÊNCIA Dutra argumenta que o rap do grupo paulistano dialoga com o mundo negro da diáspora provocada pela escravidão, mas não se limita apenas a um canto de lamento. Para ele, o Racionais reafirma a cultura africana, além de tirar o jovem negro da periferia de um lugar subalterno para transformá-lo numa espécie de potência política.

“Isso é muito forte e explícito em Sobrevivendo. Estamos diante de um álbum que, na primeira faixa, traz uma saudação a Ogum e a oração de São Jorge. A terceira (Capítulo 4, versículo 3) começa com estatísticas: ‘60% dos jovens de periferia sem antecedentes criminais já sofreram violência policial/ A cada quatro pessoas mortas pela polícia, três são negras/ Nas universidades brasileiras, apenas 2% dos alunos são negros”, lembra o pesquisador.

Paulo Dutra pondera que o reconhecimento do rap é positivo, mas avisa: “É preciso ter em mente que ele não é literatura”. De acordo com o professor, ainda não se conseguiu compreender muito bem essa música. “Daí as tantas associações do gênero não só com a literatura, como com as artes e a filosofia, entre outros campos do conhecimento. Diria que ele é um marco literário, causando impacto semelhante ao do cinema nas letras. A sétima arte teve grande influência sobre a literatura, tanto esteticamente, incorporando recursos da narrativa cinematográfica, quanto tematicamente. Fenômeno recente, o rap que vem fazendo algo parecido com as letras”, conclui.

FAIXA A FAIXA

SOBREVIVENDO NO INFERNO

» Jorge da Capadócia
» Genesis (intro)
» Capítulo 4, versículo 3
» Tô ouvindo alguém me chamar
» Rapaz comum
» Faixa instrumental
» Diário de um detento
» Periferia é periferia (em qualquer lugar)
» Qual mentira vou acreditar
» Mágico de Oz
» Fórmula mágica da paz
» Salve

(foto: Bruno Veiga/Divulgação)

ENTREVISTA – FRANCISCO BOSCO (filósofo, ensaísta e compositor)
Em 2014, em artigo publicado na Revista Cult, você afirma que o surgimento do Racionais “é possivelmente o último grande acontecimento da cultura brasileira”. Ainda hoje acredita nisso?
Sim, acredito, e hoje ainda mais. Desde 2015, o Brasil teve seus canais de transformação institucional bloqueados por um governo ilegítimo que tentou impor uma agenda conservadora a toque de caixa. As energias mudancistas da sociedade se concentraram em larga medida nos chamados movimentos identitários. Ora, os Racionais foram os pioneiros da perspectiva racialista, isto é, de explicitação dos conflitos raciais, no campo de alta ressonância que é o da canção popular. É claro que já havia antes deles uma história dessa perspectiva no Brasil, história que tem em Abdias do Nascimento e o Movimento Negro Unificado um capítulo importante. É preciso ainda registrar que essa perspectiva começou a ser institucionalizada, a se tornar política de governo e até de Estado, nos anos FHC. Mas nada disso é comparável em termos de alcance cultural com o que os Racionais fizeram a partir de Sobrevivendo no inferno. Houve ali um verdadeiro cataclisma na cultura popular brasileira. Foi a primeira vez que, de dentro da própria cultura, questionou-se radicalmente os alicerces dessa própria cultura, ou seja, a autoimagem cultural associada ao encontro, à mistura, à cordialidade, à festa.

O que faz de Sobrevivendo no inferno um álbum tão emblemático?
Tudo o que falei acima, e que só se tornou possível porque o álbum é formalmente extraordinário. Nunca houve na canção brasileira uma lírica como aquela dos Racionais. Basta pegar a história da chamada “canção de protesto” no país. Os sambas dos anos 1930 são muito ingênuos perto daquilo. As canções a la Vandré são ideológicas, cheias de “mensagens”, mas completamente distantes da concretude avassaladora das letras de Brown. Mesmo a grande tradição dos anos 60/70 – Chico Buarque, João Bosco/Aldir Blanc etc. – é bem diferente: complexa, sofisticada, esplêndida, mas inevitavelmente metafórica, afastada da experiência direta daquele porão da sociedade brasileira, secularmente recalcado, que retornava no real (como todo recalcado) de uma forma incontornável pela poética de Sobrevivendo no inferno.

O que a inclusão de Sobrevivendo no inferno na lista da Unicamp significa enquanto fenômeno social?
Significa, em primeiro lugar, um gesto de reconhecimento da grandeza dessa obra. Isso tem implicações no modo como se pensa o cânone, os problemas relativos ao valor estético. Basicamente, estabelece que a excelência e a originalidade formais não são prerrogativas das classes médias e altas. Mas significa também que alunos terão a oportunidade de conhecer uma realidade de classe diversa da deles (de boa parte deles), e conhecerão o modo como o Brasil responde a essa realidade. Tem muita análise fina da realidade nas letras dos Racionais: o problema do reconhecimento, a relação entre capitalismo e sistema prisional, a necessidade de criar estratégias de bonding para fortalecimento das pessoas negras, a relação entre cultura do espetáculo e manutenção das desigualdades, entre outras questões.

Mariza e Adrilles calaram a boca de quem manda fã de “BBB” ler um livro

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Durante festa Luau do "BBB15", Mariza e Adrilles conversam enquanto amanda curte a pista (Foto: Paulo Belote/Divulgação/TV Globo)

Durante festa Luau do “BBB15”, Mariza e Adrilles conversam enquanto amanda curte a pista (Foto: Paulo Belote/Divulgação/TV Globo)

Mauricio Stycer, no UOL

A promessa de um “BBB” com “gente comum” ficou longe de se realizar plenamente, mas é preciso reconhecer que Mariza e Adrilles representaram uma novidade nesta edição.

Não enxergo os dois como tipos “comuns”. Ao contrário. Mariza e Adrilles chamaram a atenção justamente por serem figuras incomuns – não apenas em relação ao padrão normalmente presente no “BBB”, como também fora dele.

Inteligentes, observadores, engraçados, inconvenientes, chatos, Mariza e Adrilles foram crescendo ao longo do jogo e, contra todos os prognósticos, chegam nesta reta final com boas chances.

A edição deste domingo deixou isso bem claro. Cézar mal apareceu no programa. Fernando e Amanda ganharam imagens por causa do castigo que o produtor cultural recebeu. Já Mariza e Adrilles, como em outras edições, ocuparam boa parte da noite com conversas engraçadas e observações curiosas.

A professora de artes tem, ainda, uma característica que chama muito a atenção – suas expressões e caretas. Mariza fala com os olhos.

Já ouvi a dupla de “intelectuais” do “BBB” citando o pai da psicanálise, Sigmund Freud, o artista gráfico M.C. Escher, o poeta Fernando Pessoa, entre outros. Contra quem manda fã do reality show “ler um livro”, Adrilles e Mariza têm conversas inteligentes e provocadoras.

O paredão desta terça-feira vai opor a professora de artes contra Cézar. Se o critério para votar é o que fizeram nestes mais de dois meses, não teria dúvida em dizer quem merece continuar no “BBB”.

Carta inédita de Camus para Sartre é encontrada na França

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Publicado por Folha de S.Paulo

Uma carta inédita do escritor Albert Camus ao filósofo Jean-Paul Sartre foi encontrada recentemente e confirma a relação amistosa entre os dois intelectuais poucos meses antes da ruptura em 1952.

A briga aconteceu depois da publicação do ensaio “O Homem Revoltado” de Camus, obra que Sartre rejeitou de maneira taxativa.

A carta, que teve a autenticidade comprovada por um especialista, começa com a saudação “meu querido Sartre” e termina com “eu aperto sua mão”.

O escritor argelino Albert Camus em foto de Henri Cartier-Bresson / Henri Cartier-Bresson

O escritor argelino Albert Camus em foto de Henri Cartier-Bresson / Henri Cartier-Bresson

No texto, Camus recomenda a Sartre a atriz “Aminda Valls, amiga de María (Casares, famosa atriz, que foi amante de Camus) e minha, republicana espanhola, que é uma maravilha de humanidade”.

No início de 1951, Sartre preparava o lançamento da peça “O Diabo e o Bom Deus”.

Na montagem, María Casares teve o papel de Hilda, mas Aminda Valls não fez parte do elenco.

“A carta havia sido comprada por um colecionador de autógrafos nos anos 70”, disse Nicolas Lieng, especialista em literatura do século XIX e XX, intermediário na venda do documento a um dos colecionadores privados mais importantes de artigos de Camus.

A carta não tem data, mas, levando em consideração alguns eventos mencionados, especula-se que tenha sido escrita em março ou abril de 1951.

Seis meses depois do envio da carta, Camus publicou “O Homem Revoltado” e, pouco depois, Sartre rompeu a amizade entre os dois, queimando quase toda a correspondência trocada.

Nova ferramenta muda conceitos para alfabetização de deficientes intelectuais

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Software é sucesso nas escolas do DF e deve ser distribuído pelo governo para mais de 90 mil escolas

Priscilla Borges, no Último Segundo

Alan Sampaio / iG Brasília O professor Wilson Veneziano e o estudante/ator Antônio da Silva Filho

Alan Sampaio / iG Brasília
O professor Wilson Veneziano e o estudante/ator Antônio da Silva Filho

A Universidade de Brasília (UnB) criou – e distribui gratuitamente – uma ferramenta inovadora para alfabetizar jovens e adultos com deficiência intelectual. Fugindo de métodos tradicionais e da infantilização, comuns nos materiais convencionais usados nesse processo, o software educacional auxilia os professores a ensinar palavras, expressões e até códigos matemáticos a esses estudantes. Sucesso nas escolas de Brasília, o programa deve ser distribuído no País.

O Ministério da Educação pretende entregar a ferramenta a mais de 90 mil escolas públicas. Por enquanto, está analisando como distribuir o software. Para os criadores do material, esse trabalho será simples. O programa foi elaborado para rodar em qualquer computador (sem a necessidade de muita memória ou tecnologia muito avançada) e as explicações sobre os exercícios são fáceis.

“Nosso desafio era produzir uma ferramenta que não fosse pesada e pudesse ser usada em computadores mais simples. Nosso objetivo sempre foi distribuir o software gratuitamente às famílias, organizações não-governamentais e escolas”, conta Wilson Henrique Veneziano, professor do Departamento de Ciência da Computação da UnB e coordenador do projeto. Até aqui, ele e a idealizadora pedagógica da ferramenta, Maraísa Helena Pereira, pagaram tudo do próprio bolso.

Maraísa trabalha há 23 anos com alfabetização de adolescentes e jovens com deficiência intelectual. Sentia, no trabalho diário, a falta de materiais mais específicos e menos infantis. “Havia uma lacuna para esse público. Esses estudantes adoram tecnologia, mas não sabem o significado das letras do teclado, por exemplo. Eles querem se comunicar. Comecei a desenhar as primeiras com base na minha experiência prática mesmo”, conta.

Para tirar as ideias do papel, a professora de ensino especial da Secretaria de Educação do Distrito Federal procurou o Departamento de Ciência da Computação da UnB. Veneziano e alguns estudantes do curso de licenciatura em Computação encararam o desafio. “Dois alunos ficaram encantados com a possibilidade de fazer algo diferente para a conclusão do curso. Não é uma monografia que fica na prateleira e não tem valor social prático”, ressalta Maraísa.

Alfabetização social

Apelidado de Participar, o primeiro software construído por eles ficou pronto em 2011. Aos poucos, Maraísa começou a utilizar a ferramenta com seus alunos e apresentar a outros colegas. Logo, várias escolas públicas da capital estavam utilizando o material como apoio às aulas (hoje, são 750). As Associações de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de todo o país distribuíram aos colégios especializados vinculados a elas.

A nova versão do programa, lançada neste início de ano, oferece mais lições e exercícios, que ensinam os estudantes a compreender as letras do teclado, formar palavras e os estimulam a bater papo com outros jovens, participar de redes sociais. Todas as atividades são sugeridas em mais de 600 vídeos gravados por estudantes com Síndrome de Down. “Eles se enxergam como pares e se sentem capazes também, já que quem está passando a lição é outro colega”, comenta Maraísa.

A proposta dos criadores do programa é contribuir, sobretudo, para a inserção social desses jovens. A pedagoga faz questão de ressaltar que a ferramenta não é para “letramento” dos alunos, mas para inserir o estudante em uma vida social e no mundo da tecnologia. “É uma comunicação alternativa. Queríamos que eles participassem do mundo”, diz. Nas escolas do DF, as tarefas são feitas no contraturno das aulas regulares. Todas as atividades têm orientações para os professores.

A nova versão do Participar possui lições de acentuação e pontuação. Um novo software, o Somar, também será lançado em breve para ajuda-los a aprender matemática. De novo, a proposta é colocá-los em condição de participar da vida prática. “É uma ferramenta construída com, por e para os alunos. Mas não tinha noção que pudesse ter tamanha repercussão. Além das três mil Apaes que já usam o material, o MEC agora quer distribuir para mais escolas. Nosso objetivo era atingir quem precisa”, afirma a pedagoga.

Na opinião de Maria Margarida Romeiro Araújo, mãe de um dos atores que gravaram os vídeos, o material precisa se espalhar. Ela e o filho, Antonio Araujo da Silva Filho, 34 anos, visitam escolas e divulgam a ferramenta. “A coisa mais importante na vida de uma pessoa é a alfabetização. O Tonico tem qualidade de vida, uma vida social, por causa disso. Procuro colaborar ao máximo, porque o método é excelente e nem todas as crianças tiveram a oportunidade do Tonico para aprender”, diz.

Ao contrário do que se fazia à época do nascimento de Antonio, o Tonico, Margarida nunca escondeu o filho do mundo. Procurou todas as atividades – terapia, equoterapia, fonoaudiologia, psicomotricidade, fisioterapia – possíveis para ajudá-lo a se desenvolver. “Eu fiz o contrário. Contava pra todo mundo, para descobrir as melhores atividades. O Tonico estudou até a 8ª série. Hoje, ele pinta, vende os próprios quadros, tem conta no banco, usa o próprio cartão”, fala.

Futuro

Qualquer interessado pode fazer o download do programa no site http://www.projetoparticipar.unb.br/. Em breve, o Somar também estará disponível. Alguns países africanos de língua portuguesa solicitaram a utilização do material e, em audiência com o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, ele sugeriu que a ferramenta fosse traduzida para o espanhol e partilhada com outros países da América Latina.

Veneziano garante que a metodologia tem potencial para ser expandida em mais versões que permitam uma alfabetização completa desses jovens. A limitação agora é financeira. Os dois professores já chegaram ao limite do que poderiam gastar do próprio bolso com o projeto. “A gente precisa que o governo assuma isso para dar continuidade. O mais caro foi feito”, pondera Maraísa.

Cartas entre Freud e sua filha tem primeira publicação

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Foto do psicanalista Sigmund Freud: nas cartas, Freud manifestava “uma humanidade profunda e palpável”


Publicado originalmente na Exame.com

A correspondência inédita que Sigmund Freud manteve com sua filha Anna veio à tona pela primeira vez com a publicação, na França, de cerca de 300 cartas enviadas entre 1904 e 1938, nas quais se evidencia que, além do laço familiar, havia um objetivo terapêutico.

A estreita relação que o austríaco mantinha com a menor de seus filhos reflete também que a psicanálise marcou o vínculo entre pai e filha, de quem Freud se tornou analista em duas ocasiões entre 1918 e 1924.

As cartas, que a editora Fayard classifica como “documento histórico precioso”, resultam igualmente uma crônica da vida dessa família de Viena durante as primeiras décadas do século XX.

E com elas se comprova como a psicanálise marcou a menor, que ingressou na Associação Psicanalítica Internacional, e se envolveu com alguns alunos de seu pai e acabou se dedicando ao tratamento de menores, chegando a ser nesse campo a principal representante da escola vienense.

“Olhando você me dou conta do velho que sou, porque tens exatamente a mesma idade que a psicanálise. As duas me deram preocupações, mas no fundo espero de tua parte mais alegrias que dela”, disse Freud a Anna no final de 1920.

O livro “Sigmund Freud, Anna Freud. Correspondance 1904-1938” começa a ser vendido amanhã, e permite segundo seu editorial descobrir detalhes do doutor em medicina e pesquisador, considerado o pai da psicanálise, tanto em sua vida cotidiana quanto em sua faceta profissional.

As cartas são iniciadas com um “Minha querida Anna” ou “Querido papai”, e deixam vislumbrar como no início da psicanálise essa prática era testada nos círculos dos iniciados e em família.

Embora Anna tenha sido a única analisada por seu pai, a referência moral que exercia sobre o resto de seus descendentes teve eco em outro livro que chega amanhã à França, “Lettres à ses enfants: Freud, Sigmund”, com uma compilação das cartas enviadas a Mathilde, Martin, Olivier, Ernst e Sophie entre 1907 e 1939.

Nelas, Freud manifestava “uma humanidade profunda e palpável”, nas quais, segundo se adianta, parece evitar atitudes moralizantes e dá prioridade à compreensão e à escuta.

“Foi para mim uma experiência preciosa aprender quanto pode receber um de seus próprios filhos”, disse o “pai da psicanálise” a Ernst, em novembro de 1928, o que para a editora Aubier apenas engrandece sua figura.

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